Empty Souls

3 Transformações


Willian acorda no meio da madrugada sentindo dores agoniantes, ele se levanta de sua cama e caminha com dificuldade até o banheiro que fica do outro lado da ala médica. O hospital está agitado, que é corriqueiro. Willian entra no banheiro e fica se encarando no espelho durante alguns segundos, observa sua vestimenta hospitalar, a qual acha horrível, seu rosto pálido como um cadáver, sua boca acinzentada e seu olho fundo.

— Eu tô morrendo. – fala consigo mesmo à medida que limpa o fluido preto que escorre em sua boca. Willian pega uma seringa no gabinete do banheiro e tira um frasco de haldol que roubou da sala de medicamentos do bolso de sua calça azulada e larga, extrai uma pequena dose do frasco utilizando a seringa, injetando-a em si mesmo com a mão trêmula. Willian deixa o frasco e a seringa escorregar de suas mãos, sai do banheiro arrastando-se pelas paredes até seu quarto. Ao entrar nele só tem tempo de fechar a porta, cai sobre o chão, desacordado.

Ultimamente ele tem dormido quase a todo o momento, prefere estar sempre dormindo ao ter que sentir a dor insuportável que sente estando acordado, o medicamento é um meio de adormecê-lo quase que instantaneamente.

— Willian. – faz uma pausa – Willian acorda! – Willian ouve o eco de uma voz audivelmente distante chamando seu nome enquanto acorda. Abre os olhos meio atordoado e com a visão embaçada.

— Doutora. – cumprimentou-a balançando a cabeça e ela arqueou uma das sobrancelhas.

— Levanta daí rapaz. – disse a doutora Lorie estendendo uma de suas mãos para ajudar Willian a se levantar.

Willian pega na mão de Lorie e se levanta cuidadoso.

— Obrigado. – suspirou aflito, passando a língua sobre seus lábios secos.

— Tem alguém que quer te ver. – sai do quarto e chama o rapaz para entrar.

— Obrigado mãe. – pode-se ouvir a voz de Harriott do lado de fora do quarto – E ai cara. – disse entrando no quarto e fechando a porta.

— E ai rapaz. – cumprimentou-o com um abraço amigável.

— Você tá fazendo muita falta, não sabe como. – disse sentando-se na poltrona ao lado da porta.

— Imagino. Vocês pelo menos têm uns aos outros, eu tenho a mim e a droga do haldol. – riu à pulso, sentando-se na ponta da cama e ficando de frente para Harriott.

— Que merda em. Você precisa voltar cara, espero que fique bem logo.

— Não sei... Eu tô cada dia pior, cada dia que passa eu me pareço mais com um cadáver. – tossiu – Não sei o que foi aquela coisa que fez isso em mim, mas sei que o que fez está me matando. – continuou.

Willian levanta sua blusa hospitalar larga e branca e mostra o ferimento em seu abdômen para Harriott. A ferida está com uma aparência horrível e preta. Incomumente a circulação do sangue somente naquela parte está de alguma forma correndo em sua pele, como se fossem pequenas veias escurecidas saltadas e em constante movimento.

— Mas que droga é essa? – perguntou incerto do que está vendo – Eu nunca vi nada assim antes.

— É, nem eu. – lança olhares aleatórios pelo quarto – Ultimamente eu ando vendo coisas que me faz duvidar se tudo é o que de fato existe ou se é apenas o que enxergamos.

— Faz sentido... – arqueou a sobrancelha – O que você tem visto Wil? – perguntou, encafifado.

— Se eu falar você vai achar que eu tô ficando maluco. – disse cerrando os lábios e coçando a nuca.

— Se você já não é maluco, eu me recuso a conhecer alguém que seja. – fala sarcasticamente – Fala logo mano.

— Na noite em que eu fui mordido... – começou – Eu, eu pude ver mais ou menos a coisa que me atacou.

— E por que não contou pra ninguém o que te atacou? Poderia ter evitado que ficasse assim cara... – jogou o queixo em direção ao abdômen do melhor amigo.

— É porque ninguém acreditaria em mim se eu dissesse que aquilo era duas vezes maior que eu, peluda e com olhos vermelhos. – aponta para os olhos com os dedos à medida que fala.

— Peluda? – coçou o queixo – Minha mãe disse que acharam pelo de lobo no seu moletom.

— Pelo de lobo? Não tem lobos aqui na Califórnia... — um arrepio correu por sua espinha.

— A mais ou menos sessenta anos – completou, estremecendo-se.

— Mas o que é que isso quer dizer? – franziu a boca – Acharam pelo de lobo na minha roupa, mas o que eu vi era grande e tinha os olhos coloridos. – os seus olhos estreitaram-se.

— Cara, você já ouviu falar da besta de Gévaudan? – proferiu olhando para Willian com um semblante de questionamento.

— Não. – respondeu.

— A besta foi uma espécie de lobo que atacou Gévaudan, na França, por volta do século dezoito, lá em mil setecentos e alguma coisa. – começou – A principio as pessoas começaram a achar que era um tipo de hiena, ou até um lobo comum... – para de falar bruscamente, é interrompido.

— Mas o que isso tem haver comigo? – pergunta impacientemente.

— Calma. Só ouve tá? – continuou a contar com os braços cruzados e com sua perna direita sobre a outra, olhando diretamente para Willian. – Só que tudo começou a mudar quando as pessoas viram que aquilo não se tratava de um lobo qualquer, não parecia normal um animal comum matar tantas pessoas seguindo uma espécie de padrão e sempre escapando de todas as armadilhas. E o mais estranho era que o lobo era intrigantemente enorme, tipo... Com aproximadamente um metro e oitenta e três de comprimento.

— Tá. Entendi tudo. – serrou os dentes – Mas eu ainda quero saber o que isso tem haver comigo? – disse com a voz fragilizada por conta das dores, ele está notavelmente sendo torturado por elas – É uma história comum, quase todo lugar tem uma... Já ouviu falar de Vlad Tepes? Cavaleiro sem cabeça? Bruxa de Salem? – citou histórias de outros lugares.

— E sobre licantropia, já ouviu falar? – disse em um tom macabro na pura intenção de apavorar Willian – Um lobisomem te atacou cara.

— Ai! Já é tarde e é melhor você ir embora falô? – disse levantando-se da cama e empurrando Harriott da poltrona, irritado – Vamo, vamo, quero dormir. – apressou-o – Até outra hora, Harry. – concluiu guiando o amigo da porta pra fora e em seguida fechando-a.

— Ai. – pode-se ouvir a voz abafada de Harriott transpassando a porta – Só cuidado pra não se transformar e sai por ai cometendo homicídios. – provocou e Willian o ignorou.

Willian se põe sentado em sua cama, pensativo. Pega no sono alguns minutos depois.

Silent Shadows

Willian sonha repetidas vezes durante a noite com o dia em que foi mordido, a cada sonho a imagem da coisa que o atacou vai ficando cada vez mais nítida em sua cabeça.

Ele acorda completamente alucinado e apavorado durante a madrugada, falta ar em seus pulmões, um possível ataque de pânico. Willian se levanta da cama completamente atordoado, sua visão está ofuscada e ele não consegue sequer ficar parado sem cambalear para os lados. Willian coloca ambas as mãos em sua cabeça sofrendo com aquela sensação horrível de morte, ele luta contra as lágrimas à medida que sente seus olhos queimar e contrai a mandíbula. O rapaz sai de seu quarto em direção ao banheiro cambaleando e com a mão pressionando sua ferida, passa por diversas pessoas, desde médicos até pacientes, mas ainda assim ninguém nota sua presença, como se ele não estivesse ali.

Ele pensa que talvez todos achem que ele não tem mais chances, ou até mesmo que já está morto, e que talvez não estejam errados.
Willian entra no banheiro empurrando a porta com violência, sente sua alma se desprendendo de seu corpo ao mesmo tempo em que as lágrimas correm pelo seu rosto. Ele se apoia no mármore do banheiro e fica de frente para o espelho se observando chorar.

Sua aparência está abatida e acinzentada, a cor fugiu-lhe do rosto, seus olhos são fundos e sem vida, suas roupas hospitalares estão sujas e manchadas com o resíduo preto que escorre de sua boca e nariz.

Willian sente que está perdendo a consciência. Começa a chorar desesperadamente em frente ao espelho e a gritar com tudo que tem dentro de si, já não se importando mais com a dor, ignorando-a. À medida que ele grita a cor da sua pele vai deixando de ser pálida inumanamente, aos poucos ela vai ganhando contraste assim como sua dor também começa a diminuir gradativamente. Por impulso, Willian desfere um soco extraordinariamente forte no mármore em que está apoiado, tão forte que acaba quebrando-o, o que é anormal tendo que não é tão fácil quebrar uma pedra de mármore. Willian fica ofegante, observa as próprias mãos trêmulas por um instante, renitente. Já não sofre mais com a falta de ar em seus pulmões. Fecha os olhos e os mantém fechados, de cabeça baixa, acalmando-se. O garoto abre os olhos muito lentamente e volta a se olhar no espelho por mais uma vez e então surpreendentemente vê seus olhos brilharem em um tom radiante e amarelado. Willian chacoalha a cabeça, completamente incrédulo e confuso. Receoso, torna seu olhar semicerrado ao espelho, abrindo-os aos poucos, e nota que seus olhos já não estão mais daquela cor. Ele não acredita que aquilo de fato aconteceu. O rapaz se agacha na ponta dos pés e apoia o corpo sobre as pernas, pega um pedaço do mármore que quebrou e observa cheio de duvida em sua cabeça, como pode sua dor ter passado assim, repentinamente? E sua pele ganhar cor de repente? Ele se levanta cabreiro e começa a subir sua blusa lentamente a fim de visualizar seu ferimento. Willian olha para seu abdômen e vê sua pele lisa e sem nenhum arranhão sequer, ele encara aquilo estupefato, com sua expressão fechado, cheio de questionamentos.

— Eu não posso deixar que me vejam assim. – fala desesperado com as mãos sobre a cabeça.

Willian ao mesmo tempo em que está bem por estar bem, é atormentado pelas dúvidas e isso o apavora. Não acha que é bom deixar que as pessoas o vejam daquela forma, ileso, indene. Pensa que se o verem daquela maneira acharão que ele é um tipo aberração ou alguma coisa bizarra a qual ninguém quer ficar perto, tendo que sua situação não era das melhores já que estava morrendo.

Willian sai do banheiro escondendo o rosto e vai para o seu quarto acelerando o passo, entrando e barrando a porta com uma cadeira para que não entre ninguém, tendo que não há chaves para trancá-la comumente.

— Isso não pode ser real. – pensou alto e isso ecoou em sua cabeça – Não pode ser. — olha para sua própria mão desesperado, sentindo-se incompleto por não ter a mínima ideia do que aconteceu.

Rapidamente Willian pega o moletom de cima da cômoda em frente à cama e o veste colocando o capuz sobre a cabeça. Abre a janela do quarto e salta para fora encarando a queda de aproximadamente três metros. Cai sobre o chão rolando para amenizar o impacto. O rapaz caminha até a casa de seu melhor amigo, Harriott, com as mãos dentro do bolso do moletom e de cabeça abaixada, ainda com as roupas do hospital.

Silent Shadows

Harriott ouve a campainha tocar. Corre para abrir a porta com roupas de dormir.

— Quê? – fala espontaneamente, fica confuso ao ver Willian tarde da noite, nota a sua aparência e fica mais confuso ainda. Puxa o amigo para dentro da casa rapidamente – Se você fugiu, vai ficar feliz em saber que minha mãe poderia ter te visto, olha ela chegando bem ali.

— aponta para o carro de Lorie dobrando a esquina – Ela saiu do plantão mais cedo hoje.
— Eu preciso te contar uma coisa. – Willian disse ignorando completamente tudo que Harriott disse.

— Então sobe rápido, antes que ela ou meu pai te vejam.
Os dois sobem para o quarto e Harriott tranca a porta para que ninguém entre de surpresa e veja Willian.

— Cara, o que é que cê tomou? – questionou-o pasmo, observando a aparência e fisionomia intocada de Willian.

— Haldol, pode crer, tomei muito haldol... – fala em um tom não habitual de sarcasmo enquanto senta na ponta da cama – E tomei altas doses de susto. Acha que também não me perguntei a mesma coisa? – continua falando, entona uma mistura de duvida, medo e ironia em suas palavras.

— Como é que isso é possível cara? – espreme os olhos balançando a cabeça de um lado para o outro e volta a olhar para Willian, surpreendido.

— Eu tava com muito medo, medo e raiva. Eu-... Eu chorava e então eu dei um soco muito forte no mármore do banheiro e, e a pedra qu-... Quebrou. – gagueja muito enquanto fala – E então a minha pele começou a ganhar tonalidade e minha dor passou tudo muito... Mágico, saca? Na verdade eu nem sei se agora eu tô sonhando ou se isso é mesmo realidade. – olha aleatoriamente com um semblante de duvida.

— E aquele treco enorme, gigante e bem feio no seu abdômen? – enfatizou quando disse enorme, gigante e feio, satirizando.

Willian sobe seu moletom juntamente com a blusa hospitalar e mostra a região do abdômen intacta a Harriott.
Harriott encara a lateral do lombar de Willian abismado, completamente desacreditado e tem um flashback de algo que disse ao amigo algumas horas atrás.

[FLASHBACK]

— Já ouviu falar de Vlad Tepes? Cavaleiro sem cabeça? Bruxa de Salem? – citou lendas de outros lugares.

— E sobre licantropia, já ouviu falar? Um lobisomem te atacou cara. – disse em um tom macabro na pura intenção de apavorar Willian.

— Ai, já é tarde e é melhor você ir embora falô? Vamo, vamo, quero dormir. Até outra hora mano. – apressou-o, empurrando Harriott da poltrona e guiando-o até a porta,

— Ai. Só cuidado pra não se transformar e sai por ai cometendo homicídios. – pode-se ouvir a voz abafada de Harriott transpassando a porta, provocando o amigo.

[FLASHBACK OFF]


Willian se assusta com sons distantes que parecem estar muito próximos. Pode ouvir Lorie conversar com James, seu marido e pai de Harriott. Sua audição está aguçada ao ponto de ouvir a doutora colocando a bolsa sobre a mesa.

— O que tem de errado com você cara? – Harriott questionou Willian com um semblante confuso ao notar suas ações.

— Nada. – um arrepio correu por sua espinha.

— Nada? – indagou.

— Eu estou ouvindo a sua mãe falar com seu pai. – fala com dificuldade e coloca as mãos no ouvido, é incomodado pelo barulho eminente de tudo que emite sons ao seu redor, ouve inclusive o batimento cardíaco de Harriott.

Willian começa a respirar fundo e a controlar o surto.

— Eu vou pra casa. – disse Willian levantando-se da cama e entreabrindo a porta, atordoado.

— Vai sair por ai mesmo? – questionou, tendo que seus pais estavam no andar de baixo – Você vai se complicar fazendo isso cara. – segura no braço de Willian tentando impedi-lo.

— Me solta! – diz em um tom relativamente alto e empurrando a mão de Harriott do seu punho – A batida do seu coração tá me incomodando. – fecha a porta com agressividade e anda em direção à janela, levantando o vitro e saindo por lá mesmo.

Harriott sente-se confuso e incompleto, sente que está deixando alguma coisa passar batido. O rapaz leva sua mão até a maçaneta para fechar a porta e inevitavelmente vê marcas de profundos arranhões na porta, justo onde Willian havia fechado em um momento de raiva. Ele encara a porta, pensativo. Corre até seu notebook, sentando-se e rapidamente abrindo-o. Pesquisa sobre licantropia, sintomas e as alterações causadas por ela. Harriott encontra semelhança nas informações que lê com as atitudes que pôde notar em Willian. Pega seu celular do bolso desesperadamente, quase o deixando escapar das mãos. Tenta ligar para o amigo diversas vezes, porém não obtém nenhum sinal sequer.

Silent Shadows

Willian está completamente sem controle, como se sua humanidade estivesse escondida e aprisionada dentro de um espirito animal. Ele corre pela floresta como um predador que corre com as quatro patas em uma velocidade inacreditavelmente rápida. O garoto para algumas vezes e apoia-se nas árvores visualizando todas as direções, rosnando como um lobo.

A região de sua mandíbula está coberta por um pelo pontudo, assim como seu cabelo se estende até a metade do nariz, que por sinal está enrugado e mais largo, como o de um predador. Seus olhos estão amarelados, muito mais nítidos do que a outra vez no banheiro do hospital, que pode ser visto mesmo estando no escuro. Willian não enxerga com sua visão comum enquanto seus olhos brilham, mas com uma visão avermelhada, que quando sem controle pode facilmente marcar qualquer coisa viva e que se move como uma ameaça, levando-o a dilacera-la com as enormes presas irregulares no lugar dos seus dentes e ameaçadoras garras no lugar das unhas.

O jovem lobo volta a correr como um animal. Babuja muito enquanto se move por quatro patas á medida que solta rosnados amedrontadores. Ao passo que corre, quando menos espera, algo pontudo penetra a fundo o seu braço esquerdo fazendo-o cair e raspar as costas nos galhos do chão repleto de folhas das árvores. Assustado e com dores, pressiona a região em que o projetil está cravado. É uma flecha. Contudo a ponta da flecha não parece ser de qualquer material a ponto de causar tanta dor. Willian começa a voltar ao seu estado humano aos poucos, seu nariz desruga e torna para o seu devido tamanho, os pelos faciais começam a sumir do seu rosto á proporção que suas presas e garras também voltam ao seu padrão num passo sobrenatural. O rapaz tenta remover a flecha do braço esboçando expressões agoniantes, gritando de dor. Dois homens brancos, aparentemente mais velhos e um rapaz negro andam em sua direção, um carrega uma besta tática, o moço mais um tomahawk e o da frente, aparentemente o líder deles, tem em suas mãos o que parece ser uma Desert Eagle .50. Willian consegue ver o rosto apenas do homem da frente enquanto cobre o seu com os braços, ainda com a flecha penetrada em sua carne. Ele se levanta com rapidez e se esconde atrás de uma árvore, aguardando pelo pior. Repentinamente, quando os homens já estavam bem próximos, um lobo, um animal de fato e com os olhos vermelhos, chama a atenção de Willian e ele começa a segui-lo. Willian é norteado pelo lobo durante um longo tempo dentro da floresta. Não suporta mais a dor. É como se um veneno poderoso estivesse o corroendo por dentro, quase não aguenta mais correr. O lobo misterioso que resgatou Willian indica uma árvore para que ele se escore do lado de fora de um enorme galpão vazio com a estrutura feita de alumínio. O rapaz está quase apagando por conta da dor agoniante que faz seu corpo queimar. O que quer que tenha o atingido estava tendo uma reação estranha e rápida. O predador desconhecido rodeia o galpão, possivelmente averiguando a área. Começa a se apropinquar de Willian minuciosamente. À medida que se aproxima vai deixando de ser um lobo e começa a tomar uma forma humana. Willian observa o lobo se transformando em um corpo feminino completamente nu, mas não chega a ver o rosto, acaba desmaiando.

Silent Shadows

Willian acorda se afogando em uma piscina de uma casa qualquer em plena manhã. O garoto vai para a superfície da água fria. Todo o líquido que engoliu enquanto esteve submerso jorra de sua boca. Recupera o fôlego. Ele se apoia na borda da piscina, impulsiona-se para cima e sai. Envolve seu braço em seu próprio corpo tentando se aquecer. Fumaça sai de sua boca por conta da friagem. Willian tira seus sapatos molhados e caminha descalço até sua casa, refletindo durante o caminho se era a coisa certa a se fazer ao mesmo tempo em que pensa na imagem daquela mulher que o resgatou em forma de lobo horas atrás.

Willian toca a campainha de sua casa e espera que alguém abra. Christopher abre a porta com um semblante preocupado e cansado, mas quando vê o rosto de seu filho e o percebe são e salvo aquela expressão ligeiramente muda para um semblante aliviado.

— Meu filho! – diz com um tom afetuoso e aliviado abraçando-o, logo começa a chorar de alegria.

Willian a principio se sente desconfortável pelo fato de não receber um abraço de seu pai desde a morte de sua mãe. Mas logo compreende que já é difícil para um filho perder a mãe, mentaliza o quão deve ser difícil para um pai pensar que perdeu o filho. Retribui o abraço sibilando.

— Oi pai. – encosta a cabeça em seu peito, tendo que ele também é um homem alto e ainda maior.

— Pai, quem é? – uma voz vinda de cima chega aos ouvidos de Christopher e Willian.

Um rapaz bonito, forte e galante vem descendo as escadas.

— Wil? – Andrew vê Willian com aquelas roupas de hospital, encharcado e sujo. Corre para abraça-lo – O que deu em você, cara?

— Andy. – Willian abraça Andrew com um sorriso no rosto – Senti a sua falta.

— Eu que o diga. Você não sabe o susto que passou em nós. – fala enquanto abraça Willian tentando imaginar o motivo pelo qual o irmão ficou tanto tempo hospitalizado, assim como disse Christopher – Você não era pra estar acabado, machucado, não sei...? Digo, não que isso seja bom, mas fiquei sabendo que era assim que você estava...

— É, eu entendi o que você quis dizer. – pensa em algo convincente para dizer poucos segundos antes de responder – Eu me recuperei muito bem de uns dias pra cá.

— E já que estava bom, por qual motivo sumiu assim? – Andrew questiona.

— É interrogatório cara? – bravejou – Eu tive uns surtos de pânico e acabei fazendo coisas inconscientemente, tá? Aqueles surtos que eu tive quando a mãe morreu. – continuou, tentando estabilizar seus batimentos cardíacos, logo se acalmando – E você, por que não veio nos visitar na primeira semana? – referiu-se ao irmão ter ido servir ao exército e só estar os visitando após quase um mês.

— Eles só liberam depois de três semanas, por isso eu não vim. – disse

— Mas agora estou aqui. – sorri e abraça o irmão outra vez. – É bom te ver.

— É bom ver vocês também. – Willian sorri e chama seu pai para um abraço coletivo.

Christopher se reúne com os filhos, aliviado.

Alguns minutos depois, a rua da casa de Willian estava lotada de ambulâncias e viaturas da policia. As luzes das sirenes e as estroboscópicas iluminavam o lugar em larga escala.

Willian se põe sentado na traseira de uma das ambulâncias e começa a responder as diversas perguntas das autoridades. Inventa coisas convincentes para livrar a sua própria pele. Eles facilmente caem nas mentiras do rapaz.
Lorie se aproxima dirigindo seu Nissan Altima vermelho vinho com Harriott no banco do passageiro. A doutora estaciona e desliga o automóvel, removendo a chave da ignição. Ela sai do veículo e anda em direção a Willian.

— Você está bem querido? – perguntou a médica gentilmente.

— Eu estou bem, doutora Lorie, obrigado pela preocupação. – respondeu esboçando um leve sorriso.

Lorie sorri e vai em direção a Christopher que está conversando com um policial. Harriott rapidamente se aproxima de Willian.

— Cara, eu preciso muito conversar com você. – disse Harriott aparentando estar preocupado, esperando por intervenção do amigo.

— Eu também preciso falar com você. – anunciou após ficar poucos segundos pensando, observando as estrelas no céu.

— A gente se vê na escola segunda?

— Acho que sim. Talvez. – respondeu disperso.

— Descansa tá? – finaliza estendendo a mão para se despedir do amigo.

— Pode deixar Harry. – retribui o aperto de mão amigável.

Dentro de pouco tempo a rua volta ao seu silêncio padrão. Willian resolve se dar folga o restante do fim de semana para matar a saudade do irmão e descansar para retornar à rotina, determinado a descobrir quem o transformou.