– Finalmente! — Erik gritou da porta de seu pequeno apartamento, assim que avistou Andrew subindo as escadas do prédio.

Andrew e Erik eram amigos de infância. Se conheciam desde que pararam de usar fraldas e aprenderam tudo juntos. Quando completou 16 anos, Erik conseguiu uma bolsa de estudos em Drifton Hill High School, e teve que deixar Indianápolis, sua família e seu amigo. Mas agora, Andrew havia se mudado para Hover Creek e tudo voltaria ao normal, ou pelo menos eles achavam.

– Seu doido, como você tá conseguindo viver nessa lata de sardinha ? — eles trocaram um abraço e Andrew entrou no apertado apartamento de dois cômodos, que para piorar tudo, não era muito organizado. Um típico apartamento de homem.

– Não critique o meu lar. Como foi a viagem ? — Erik perguntou com seu bom humor costumeiro de todos os dias.

– Foi tudo bem, só tivemos alguns problemas com a Myrtle. Ela não queria entrar no carro de jeito nenhum, mas uma hora eu e a Annie conseguimos convencê-la. — Andrew diz com um sorriso meio triste. Sua irmã mais nova Myrtle, sofre com alguns problemas psicológicos desde a morte de sua mãe.

Quando Erik morava em Indianápolis, ele tentava ajudar como podia, apesar de ser péssimo com crianças e principalmente com Myrtle.

– Mas pelos menos deu tudo certo, mas me conta, ta animado com a escola nova ?

– Um pouco, talvez, não parei muito pra pensar nisso. — retruca Andrew, dando atenção ao violão de Erik que à pouco estava jogado no chão, mas agora estava no colo do dono, que tocava algumas notas sem prestar muita atenção na conversa. A música era agradável, e fazia Andrew ficar deprimido, o que não era bom.

– Aposto que você vai gostar. Eu também não tava muito animado no começo, mas agora tenho até amigos. — Erik soltou o violão e sorriu brevemente.

– Tomara mesmo.

Aquele, definitivamente não seria um dia bom. Algo no jeito que o vento batia em suas cortinas, ou até mesmo as suas próprias memórias de um ano atrás diziam isso. Summer levantou aos poucos, olhando para as cortinas. Um raio solar passava por uma brecha e batia no seu rosto. Prestes a sair da cama, ela lembrou que Abby estava deitada no colchão inflável que as duas encheram na noite passada. Tomando agora, os devidos cuidados para não pisar na amiga que dormia tranquilamente, ela se dirigiu ao banheiro. Grandes círculos arroxeados, mais conhecidos como olheiras, cobriam seus olhos. Após um longo e demorado banho, Summer foi — tentar — acordar a amiga, que ainda dormia pesadamente, no colchão estirado no chão. Depois de muito sacrifício, Abby levantou vagarosamente e se trancou no banheiro.

– Vou te esperar lá embaixo! — gritou Summer, saindo do quarto em seguida.

Esse era um daqueles típicos dias que Summer queria ficar na cama o dia inteiro, principalmente pelo fato de que hoje fazia exatamente um ano que ela não via seu namorado. Ela se sentia mal com tudo o que havia acontecido, mas ela também sabia que nada daquilo era culpa dele. Era apenas um tempo.

Ao descer das escadas, se deparou com sua mãe, com os cabelos ainda um pouco desgrenhados, fazendo o café da manhã. Janine tinha pedido o dia de folga no jornal que trabalhava. Sua justificativa era que "Preciso apoiar minha filha nesse dia". Summer ainda não tinha entendido o porque de todos quererem ajuda-lá a suportar esse dia. Ela estava ótima, nunca esteve melhor. Mas apesar de dizer isso para Abby e sua mãe, as duas ainda continuavam a fingir que não escultavam.

– O cheiro está ótimo. — diz ela se sentando na cadeira mais próxima.

– O gosto deve estar melhor ainda. — a mãe brinca, levando uma bandeja com o café da manhã até a mesa.

– Onde está o Rupert que ainda não deu o ar da sua graça ?

– Aconteceu um imprevisto no trabalho e teve que ir ás pressas até lá. — Rupert era o padrasto de Summer, que a criou desde que ela tinha 2 anos. Ele dirige uma firma e de vez em quando tem que sair bem cedo de casa, apesar de que, assim como Summer, ele acha que acordar cedo é uma da piores coisas que pode acontecer na vida.

Algum tempo depois, Abby desceu as escadas ainda um pouco sonolenta.

– Bom dia, tia Janine. — disse ela, dando um beijo rápido no topo da cabeça de Janine e sentando na cadeira ao lado de Summer.

– Bom dia Abby. — Janine era amiga da mãe de Abby, e por isso ela e sua filha eram amigas desde que nasceram. — Dormiu bem ?

– Melhor impossível. Sun, o Erik ainda vai vir aqui hoje ? — Abby perguntou, num tom de voz mais baixo para que apenas Summer escultasse. Mas Janine tinha uma ótima audição, e acabou dando um sorriso cúmplice para Summer, que retribuiu com um olhar bem significativo.

– Acho que sim. Ele me disse que ia se encontrar com um amigo e logo depois ia vir aqui.

– Amigo ? — retrucou Abby, com um tom de dúvida.

– É. Lembra que ele disse que um antigo amigo dele ia se mudar para a cidade ? Pois é. Parece que ele chegou ontem.

– Hum. — Abby murmurou.

As três ficaram falando sobre coisas aleatórias, e após algum tempo as duas garotas subiram até o quarto de Summer apenas para conversarem coisas mais pessoais. Elas falaram sobre o fim das férias, o último ano do ensino médio, sobre Erik, e sem elas perceberem, já estavam falando do assunto proibido.

– Uma vez, Dimitri me contou que seus pais queriam que ele fosse estudar no exterior. Mas ele fez de tudo para não ir, porque ele teria que me deixar. — Summer disse, lembrando do momento em que ele havia lhe contado isso. — Acho que ele não imaginava que um ano depois, o que ele mais temia acontecesse tão de repente.

– Summer, não... — Abby se aproximou da amiga, que estava sentada sentada na cama. — Nós, não precisamos falar sobre isso.

– Sim, nós precisamos Abigail. — aquilo era um mal sinal. Quando Summer chamava Abby de Abigail, ou era porque estava estressada com ela, ou era porque estava tensa. Abby não sabia qual era o caso no momento. — Eu preciso falar sobre isso, não posso guardar tudo para mim só porque faz um ano. É idiotice. — Abby não sabia o que dizer, então falou a primeira coisa que veio a sua mente.

– Você sente muita falta dele né ? — milésimos de segundo depois, ela se arrependeu de ter feito essa pergunta idiota. É claro que ela sentia

– Muita. — sussurrou, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. — Mas tudo isso é passageiro e logo tudo vai se acertar. Eu só preciso dar um tempo a ele. — Summer, agora sorria e olhava para um ponto qualquer a sua frente.

– Sun... — Abby não sabia o que dizer. Ela tocou no ombro da amiga. Aquilo era errado, ela sabia, mas também não sabia como dizer a verdade para a amiga. Seria muito doloroso, principalmente depois dos primeiros meses. Então ela resolveu deixar para lá.

– Ta tudo bem Abby. Não precisa se preocupar, porque como eu disse, tudo vai se acertar, você vai ver. — ela exibia agora um olhar sonhador. — Vamos esperar o Erik lá embaixo. — Summer puxou a amiga e as duas desceram as escadas em silêncio.

Erik tocou a campainha da casa, e segundos depois Abby abriu a porta, dando espaço para ele entrar. Summer estava sentada no sofá, prestando atenção em um filme qualquer na televisão. Tinha uma aparência abatida, com enormes olheiras rodeando seus olhos, mas continuava tão bonita quanto o normal. Abby sentou-se um pouco afastada de Summer, deixando o espaço ao seu lado reservado para Erik.

– Ai está você! — exclamou Erik, sentando no sofá. — Como está ?

– Eu tô ótima. — ela sorri em sua direção. — Por quê a pergunta ?

– O que foi ? Um amigo não pode mais perguntar para outro como ele está se sentindo ? — Erik retruca, olhando para a TV.

– Quando você pergunta, na maioria das vezes é porque ta tramando alguma coisa. — responde Abby.

– Ok, você me pegou.

– Eu sempre sei. — ela murmura mas Erik não da atenção.

– Eu contei a vocês sobre o meu amigo de Indianápolis que se mudou ontem né?

– Contou. — As duas garotas respondem em uníssono.

– Pois é. Ele não conhece nada nem ninguém em Hover Creek além de mim. Então, eu pensei em nós quatro irmos no Noxus Staff hoje, o que acham ? — Erik pergunta, fazendo sua típica cara de "cachorrinho que quer alguma coisa"

De início, Summer não gostou nem um pouco da ideia, mas Abby insistiu em dizer que seria ótimo para o humor dela ir ao Noxus Staff, um pub antigo da cidade que os três iam sempre.

– Tudo bem, eu vou. — Summer bradou emburrada, após algum tempo de discussão. Abby e Erik sorriam cúmplices. — Mas eu quero voltar cedo para casa.

– Beleza, então às 8:30 a gente se encontra lá. — Erik diz enquanto se levanta e vai até a porta. Antes de sair ele diz: — Não se atrasem.

– É óbvio que nós vamos nos atrasar. — Abby cochicha para Summer assim que o garoto fecha a porta.

Estava tudo uma bagunça. Annie tentava ajudar seu pai, que estava tão cansado quanto ela. Eles carregavam as pesadas caixas com os pertences da família para o andar de cima. A garota queria pedir ajuda a sua irmã, Myrtle, que estava "explorando" o pequeno jardim da nova casa, enquanto eles carregavam toda aquela bagagem. Mas ela sabia que aquele estava longe de ser um dos melhores dias da irmã. Tudo seria mais fácil se Andrew estivesse lá para ajuda-los. Afinal onde foi mesmo que ele se meteu? Já era fim de tarde quando seu irmão abriu a porta de casa, enquanto ela e seu pai descansavam um pouco ao pé da escada.

– Boa tarde, família! — ele exclamou em voz alta, fechando a porta atrás de si.

– Boa tarde uma ova! Onde você tava ?

– Annmarie! — diz Miles, lançando um olhar de reprovação para a filha

– Fui visitar o Erik, por que? — pergunta Andrew.

– Eu e o papai tivemos que carregar aquele monte de caixas lá pra cima, enquanto você tava na casa do seu amiguinho? — ela bradava, mesmo o irmão não dando muita atenção para todo o seu discurso

– Acontece que o papai disse que eu podia ir ver o meu "amiguinho" — disse em tom de deboche — e que ele segurava as pontas por aqui. Então não enche.

Após um pequena discussão, que teve a intervenção do pai, Andrew e Annie receberam as tarefas de arrumarem seus quartos novos. Andrew teve que correr com a arrumação, pois naquele mesmo dia, ele conheceria as tão famosas amigas de Erik.