Empty Hands - Monselotte
1 Empty Hands - Capítulo Único
Notas iniciais
Enjoy!
O fogo crepita na lareira enquanto permaneço imerso observando a lenha lentamente se converter em cinzas.
Deve ser madrugada, mas meu corpo apesar de cansado, não pode dormir simplesmente porque sempre quando fecho os olhos, fantasmas da guerra me tomam por completo.
Os sons dos tiros de mosquete e das balas de canhão são nítidos em minha mente. Pensei que essas alucinações sumiriam depois de sair de Versailles, mas eu ainda as escuto no silêncio assombroso do quarto.
Acho que nunca me recuperarei. Associada a ansiedade que eu sinto pelo meu retorno ao palácio de meu irmão depois de tê-lo rechaçado, me deixa ainda mais tenso. Devo aceitar que essa noite será de vigília.
Felizmente, há alguém ao meu lado na cama. Liselotte decidiu passar a noite comigo em Saint Cloud. Voltaremos à Versailles pela manhã para que eu tente libertá-lo.
Silenciosamente me levanto e me sento na beirada da cama e observo Liselotte. Ela dorme com a expressão serena de uma criança e sua pele continua corada mesmo sob a penumbra.
A cama não é tão grande, mesmo assim, há uma boa distância entre nós.
Há um acordo de cavaleiro entre nós que ela não deve me tocar sob os lenções, por isso, se limita a não ultrapassar a linha imaginária que divide o leito. Ela prefere que seja assim e, honestamente, compreendo os motivos dela.
“Eu me apaixonei por você, Phillippe. Contra todas as possibilidades, eu sinto que o amo, seu cheiro desperta em mim meus desejos mais insanos e posso não conseguir refrear tocá-lo se não houver nada que me impeça. Não quero ser a pessoa que vai constrangê-lo e violá-lo impondo-lhe a minha vontade.” Suas palavras reverberam em minha mente.
— Algum problema? – a voz dela de repente emerge da escuridão de repente.
— Insônia. – respondo.
— E ansiedade também, eu suponho.
— Você aprendeu a me ler, não é mesmo? – dou-lhe um sorriso melancólico.
— Só porque eu me importo com você.
Os olhos dela estão brilhantes como os de um felino, mas nunca ameaçadores. No começo eu evitava de olhá-los porque tinha medo do que eles pediriam a mim, mas de repente, eu entendi que eles não pedem nada, apenas oferecem sossego para minha mente agitada.
Ela se levanta e se senta sobre o colchão, depois, estende a mão para mim.
― Você sabe que pode me contar o que está acontecendo, não sabe? – ela diz. – Esposas não servem apenas para...aquilo. – ela toca meu rosto fazendo-me olhar para ela.
Minha primeira reação é de me afastar, mas Liselotte persiste. Então, depois de um longo silêncio, eu desabafo:
― Eu me sinto perdido. – a voz sai baixa quase como um sibilo. – Depois de tantas batalhas internas e externas, eu me tornei um oceano vazio, cheio de peças quebradas após uma queda. Estou cansado, e sinto que não é certo ir até você de mãos vazias. Eu não tenho nada a oferecer.
A voz de Liselotte tem mesmo na mais baixa frequência uma intensidade e determinação que a faz sempre muito certa do que diz. Sempre com muita veracidade.
― Eu não me importo com trocas. – ela olha para mim. – Se você está perdido, se se tornou um oceano vazio, então eu atravessarei esse oceano para trazê-lo de volta para casa. E se você vier a mim incompleto e de coração vazio, eu irei juntar peça por peça para fazê-lo completo novamente. – ela faz uma pausa e eu sinto meu coração doer e não noto quando começo a chorar olhando para baixo. Ela, porém, levanta meu rosto novamente. – Mas, eu não posso fazer isso se você me afastar a todo momento, se me encarar apenas como a esposa arranjada com quem você tem um dever sexual. Eu te amo, Philippe. Me deixa cuidar de você.
Dessa vez eu desabo num choro preso em mim a muito tempo. Tudo o que tem acontecido: a guerra, as desavenças recorrentes com meu irmão, a morte de meu pai, o afastamento de Chevalier, tudo desagua em lágrimas espessas que em poucos minutos molham a roupa de Liselotte enquanto eu a abraço o mais forte que posso.
― Ninguém é tão forte quanto parece ser. – ela diz acariciando meus cabelos. – Mas, você não está sozinho. Eu estou aqui e sempre estarei.
Naquela noite, eu choro boa parte daquilo que me sufocava há meses. E faço isso nos braços de uma mulher que me ama, que não me julga e que me acolhe como um sopro de ar fresco no deserto.
Em algum momento ela se recosta sobre a cabeceira da cama e eu me deito sobre seu peito, sentindo as batidas de seu coração, e segurando firmemente suas mãos, lentamente me sinto sonolento, mas ainda não durmo de imediato.
Passamos boa parte da madrugada assim, abraçados e em silêncio, apenas o fogo queimando na lareira, o suave toque reconfortante dela em meus cabelos e sua respiração ritmada.
― Obrigado. – eu sussurro por fim.
Liselotte não responde, apenas me abraça mais forte e então eu adormeço finalmente.
Notas finais
Obrigada por ler.
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