Empatia
2 Segundo Capítulo.
Passei o almoço e metade da tarde sozinha em casa, sem fazer nada. Meu irmão chegou as três em ponto.
– Jaas...
– Não diga nada!
Não me olhou, subiu as escadas e foi direto para seu quarto.
Eu o segui parando em frente à porta fechada do seu quarto.
– Jaas, eu preciso te perguntar...
– Não te interessa onde eu estava – berrou ele.
– Não me importa onde você estava, abra, preciso falar com você.
Eu o ouvi pular da cama e em seguida a porta se destravar. Entrei no quarto olhando a bagunça de sempre. Ele estava com uma aparência horrível, havia se drogado, eu tinha certeza.
– Fala logo.
– Já pensou em algum lugar para passarmos as...
– Qualquer lugar bem longe de você.
Ele me empurrou para fora do quarto e bateu a porta quando eu já estava do lado de fora.
– Jason, seu idiota, é só uma pergunta, responda descentemente – disse gritando.
Esperei a resposta descente. Ao invés dela, uma musica pesada e muito alta. Dei meia volta, não iria mais incomodar, estava cansada de o querer entender.
Passei as próximas três horas em meu quarto. A matéria que estudamos na aula as vezes passava por minha mente, mas procurava pensar em algo mais importante, nunca gostei dessas coisas de demônios mesmo sabendo que era só uma lenda.
Seis e meia da tarde, ouvi a porta da sala batendo e desci para ver quem era. Minha mãe trazia nos braços algumas sacolas de compras com legumes, frutas e outros alimentos que segundo ela era saudável.
– Tudo bem por aqui amor? – disse Giulia colocando as compras numa mesa na sala.
Lembrei da cena com Jason há três horas atrás, mas resolvi não dizer nada, isso o complicaria e deixaria minha mãe preocupada e a ultima coisa que eu queria era isso.
– Tudo sim mãe, – disse sorrindo. – meu pai...
– Sim, chegou um paciente de urgência, eu queria o ajudar, mas ele insistiu que eu viesse para casa. Vicent anda muito preocupado com seu irmão. – ela me encarava.
Meu pai quase sempre tinha trabalho, e minha mãe o ajudava nas cirurgias ou outras urgências e ligavam pra casa para nos avisar.
– Não sei por que insistem em me esconder a verdade sobre o que está acontecendo com o Jaas – disse achando essa uma oportunidade perfeita para saber o problema dele.
– Nós já te dissemos querida – tinha um tom de nervosismo em sua voz – são os problemas com as drogas, bebidas... Enfim, já pensou em algum lugar pra você e seu irmão irem nas férias? – perguntou querendo fugir do assunto.
Eu a encarei indignada.
– Vai ficar perguntando isso até quando?
– Até vocês se decidirem.
Giulia começou a subir as escadas, mas parou no meio delas e se virou para mim.
– Então? Já pensou?
– Eu quero que ele pense comigo, quero decidir com ele, mas ele nunca quer me ouvir, sempre estúpido, me dando patadas...
– Vou conversar com ele.
Ela sorriu e voltou a subir as escadas.
Após ela, fui para o banho, depois desci para fazer companhia a ela enquanto preparava o jantar. Enquanto estávamos na cozinha, eu sentei a mesa, aproveitei para pesquisar na internet alguns lugares bons para passar as férias – clubes, acampamentos, praias – e discutindo com minha mãe.
Mesmo procurando, não conseguimos achar um lugar realmente legal para as férias. Resolvemos decidir por mim, Jason decididamente não ligava para onde fossemos, só teria que ter álcool e garotas. Mas eu não conseguia pensar em nada, talvez fosse melhor irmos todos para casa da minha avó.
Depois do jantar subi para o meu quarto. Uma hora depois ouvi a voz do meu pai e minha mãe lá em baixo na cozinha. Resolvi esperá-lo tomar banho, jantar e quando estava na sala, sozinho vendo TV, desci para falar com ele.
– Pai? – eu disse enquanto parava no primeiro degrau da escada – Posso falar com você?
Ele parecia bem sonolento, trabalhou horas a mais e precisava descansar; e eu fazer uma pergunta a ele.
– Oi querida, senta aqui – disse ele dando espaço no sofá para mim.
Caminhei até ele, e me sentei ao seu lado.
– Sabe que deveria estar dormindo não é? – disse ele me observando sacudir os ombros – Tudo bem, pode falar.
Eu me acomodei mais ao seu lado olhando para o seu rosto que se esforçava para manter os olhos branco-azulados abertos.
– Eu tenho uma pergunta. – disse, ele assentiu – O que... O que está acontecendo com o Jaas? – eu o encarei como quem parecia arrependida pela pergunta, mas não estava.
Ele pareceu perder totalmente o sono, piscou varias vezes e desviou o olhar, pigarreou baixo e me olhou meio assustado.
– Eu... Nós, já te dissemos o que acontece meu anjo. Por que insiste? – ele disse baixo com um sorriso sem graça.
Ele pareceu confuso. Não esperava pela pergunta á aquela hora, mas insisti.
– Sabe Vicent Barlow, estou cansada de ser a ultima a saber, ou nem saber. – disse lentamente destacando as palavras.
– Porque estava falando assim comigo? Eu ainda sou seu pai e a voz superior nesta casa, Alana Barlow. – agora sim ele estava confuso, e também nervoso – São problemas com drogas, bebidas... E te peço mais uma vez, pára de fazer perguntas que você já sabe as respostas...
– Você sabe que não sei a resposta. – o interropi – Essa não é a resposta certa, pare de fingir que ainda sou uma criança. Eu não sei o que acontece, mas vícios não é a resposta.
– Você ainda está falando com seu pai Alana, com seu pai. – seus lindos olhos se semi-serravam para mim e ele agora não falava mais baixo.
Comecei a falar no mesmo tom alto que ele.
– Acho que tenho um irmão e tenho o direito de saber o que está acontecendo!
– Você acaba de perder todos os seus direitos. Já para o seu quarto e pode esquecer viajem a qualquer lugar que planejou, espero que esteja com saudade de sua avó, é para o Tennessee que vocês vão comigo e sua mãe.
Levantei do sofá, e o encarei.
– Ótimo! – disse em alto tom e me virei subindo as escadas.
– Ótimo! – ele gritou ás minhas costas.
Bati a porta do meu quarto e deitei na cama. Ouvi a porta do quarto ao fim do corredor se abrir, os pés da minha mãe soaram até a ponta das escadas.
– O que esta acontecendo aqui? – a voz dela não parecia destinada á alguém, então a ouvi descer as escadas de madeira.
– Sua filha segue com a mesma pergunta de sempre...
Eu não ouvi bem o que minha mãe falou, mas pareceu algo com “fale baixo”. Depois disso não ouvi mais nada.
Me sentei na cama abraçando o travesseiro. Olhei em volta, o quarto estava iluminado totalmente pela luz fraca da lua que entrava pelos vidros da janela.
Eu não costumava brigar com meus pais, mas a maioria das vezes era por minha grosseria. Bom, é o que minha família costumava dizer...
Me preparei para o próximo dia de aula e me deitei.
No dia seguinte enquanto me levantava, me surpreendi com Jason invadindo meu quarto. Eu ainda estava com meu traje de dormir – camisetão e calçinha short – Eu o encarei assustada.
– Precisa conhecer melhor minha amiga porta e seu companheiro “posso entrar?” – disse o encarando – Ao contrário de mim que já sou intima da sua de tanto a bater em minha cara. – sorri falsamente.
Ele também sorriu, estava com o rosto inchado de quem dormiu tarde e acordou cedo.
– Vim te dizer parabéns.
– Meu aniversario já passou há muito tempo, obrigada – abri o guarda-roupa para pegar meus trajes de banho.
Ele riu levemente.
– Parabéns por nos levar direto para a casa da sua avó. – ele disse agora ficando sério.
– Minha avó Jason? – eu sorri me virando para ele – Ah, claro, minha avó.
– Porque fez isso hein? Porque foi fazer a pergunta óbvia? – ele parecia agora estar com raiva e se aproximava de mim.
– Fiz isso por você! Eu me preocupo quando estão todos em função de te ajudar e somente eu não sei como fazer...
– Vai ajudar fazendo o que eles dizem – ele não estava bravo, estava com um ar bondoso e parecia estar suplicando para eu entender.
– Porque Jaas? Porque vocês escondem de mim o que esta acontecendo com você?
– Eu queria te contar Alana. Mas eles não deixam, e acho que isso iria te assustar – ele segurou minha mão.
– Então você confirma que o que me dizem sobre drogas e bebidas não é a verdade? – eu sabia, estava próximo da resposta.
Ele me encarava e tremia sem dizer uma única palavra, ele queria contar, mas estava com medo e confuso.
– Não quer se atrasar nos últimos dias de aula não é? – disse por fim, dando um sorrisinho sem graça pelo canto da boca.
Jason soltou minha mão e saiu do quarto fechando a porta. Eu não conseguia me mover, nem parar de olhar boquiaberta para a porta fechada. Eu me sentia como se tivessem me deixado em um labirinto com minha família, eles sabiam a saída e eu não, só tentava acompanhá-los, e sabia que a qualquer momento poderia se perder deles e ficar sozinha.
Ele tinha razão, iria me atrasar para aula então peguei meus trajes no guarda-roupa e segui para o banheiro.
Ao acabar meu banho de gato, desci para a cozinha onde Vicent me esperava com um folheto em mãos. Giulia – como sempre – arrumava a mesa.
– Bom, dia – eu disse tentando liberar a tensão da noite passada. Mas meu pai parecia não querer o mesmo.
Ele não respondeu – nem Giulia –, mas me entregou o folheto que segurava nas mãos.
Eu observei bem o folheto, e li em voz alta “Acampamento Clapeyron”. Abri o folheto, havia imagens bonitas de alojamentos, piscinas, lanchonetes, muitas árvores, animais e um grande rio de água limpa.
– Muito legal, espero que aproveitem as férias – entreguei o papel de volta a ele, sorri e me sentei à mesa.
– Não seja ridícula, vocês vão para este acampamento. – ele estava me olhando firme, e continuou a falar claramente – Eu e sua mãe conversamos e achamos melhor mandarmos vocês a este lugar. Continua sendo no Tennessee,é você continua de castigo. Ligamos ontem a noite mesmo para sua avó e ela encaminhou esse panfleto para nós.
– Não acredito que ligou para ela só pra dizer que e fiz a mesma pergunta de sempre e surtei com a resposta. – eu o encarei com desapontamento no olhar – Tudo bem, ela com certeza deve ter me apoiado.
– É, ela te apoiou, e achou rígido de mais vocês passarem as férias entre trinta e dois gatos, por isso mandou esse folheto de acampamento. – disse minha mãe que ainda colocava coisas na mesa.
– Giulia... – Vicent olhou minha mãe com um ar confuso e voltou seu olhar para mim, agora seus olhos estavam calmos. – Filha, há garotas como você...
– Há garotos como o Jaas? – eu me inclinei para frente para sussurrar a pergunta olhando em seus olhos.
– Não, mas...
– Está vendo? Tem algo de errado com meu irmão. – disse me encostando na cadeira com o sorriso de quem descobriu algo novo – Segundo vocês ele é um garoto normal, e nesses lugares só tem garotos normais, e se não há garotos como ele lá, então não há garotos normais, e como não há garotos normais em um lugar normal? Não quero ir para este lugar de meninos esquisitos.
– Alana, não estou perguntando se quer ir ou não a esse acampamento, você vai a esse acampamento! – ele sorriu como se fosse um adolescente.
– Tudo bem, melhor em Tennessee sem você, do que no Tennessee com você. – me levantei da mesa, peguei minhas coisas e saí de casa rumo à escola.
Todo esse negócio de acampamento me soava ridículo, mas estava certo, seria melhor eu ficar um pouco longe dos meus pais nas férias para poupar brigas. Será que era tão difícil entender que eu só queria ajudar meu irmão com o seu problema? Porque não me dizer?
As horas pareciam não passar enquanto professores e mais professores falavam sobre matérias que veríamos o próximo ano. E eu não ligava, só conseguia pensar nas férias no acampamento, é claro que iria fazer amizades. Acampamentos não seriam lugares para manter pessoas próximas e sim para diverti-las, e poderia encontrar as amizades em próximos verões, em próximos acampamentos...
Sim, eu pensava como uma garota de nove anos, estava muito ansiosa e isso não me incomodava – claro, eu não disse isso a meu irmão, ele riria muito.
Ele parecia mais animado com a idéia do acampamento, preferia ficar em meio a bandos de adolescentes do que em meio gatos que soltava pêlos por onde passavam, e minha avó iria nos levar para lugares estranhos em que nós desconheceríamos até então,
A semana se arrastou até sexta-feira. – nesse dia Jason chegou em casa fedendo a ovo, farinha, terra e urina de cachorro, era o ultimo dia de aula, ultimo dia no colegial e ele e seus amigos não perderam tempo a fazer uma chuva de coisas nojentas nos outros alunos e neles mesmos – Eu ainda tentava perguntar a meu irmão porque ele tinha ataques de nervosismos de repente, mas ele obviamente não me respondia e decidi parar com as perguntas, elas começaram a me encher também.
Eu não estava mais ansiosa, tampouco queria ficar nem mais um dia abitolada naquela casa. Mas teria que agüentar mais uma noite, no sábado de manhã viajaríamos rumo ao Tennessee para casa da minha avó, passaríamos o fim-de-semana lá e na segunda bem cedo, Jason e eu seguiríamos para o Acampamento Clapeyron. Não estava preocupada com o que eu iria passar nesse acampamento, somente queria descanso de lousas, livros, cadernos, professores e qualquer outra coisa que me lembrasse escola.
No sábado acordei com disposição. Fui quase saltando para o banho, e pulei uns três degraus de uma vez descendo para o café. Meu pai havia perdido o ar de homem temível para homem meloso, não parava de me abraçar e dizer o quanto estava feliz de estarmos tão próximos quanto ele imaginava para essas férias, e vinha com um papo de nos visitar no Clapeyron, mas logo o fiz enxergar o quanto ridículo seria.
– Calma, calma. Aí, não, não – Vicent e Jason estavam se matando para deslocar uma grande mala da minha mãe da sala para o carro na garagem.
Passei pela sala observando o grande esforço para passarem pela porta, – não parecia pesado para eles, somente estavam tentando, aparentemente há muito tempo, passar a grande mala de madeira fina pelo batente da porta. – pensei no esforço que eles teriam para passar a minha – talvez pela janela...
– Bom dia docinho – disse Giulia sorrindo e andando de lá para cá enquanto eu entrava na cozinha.
– Mãe, esses apelidinhos...
– Desculpa anjinho – ela embrulhava alguma coisa e colocava dentro de uma grande bolsa térmica.
– Mãe... – eu disse me aproximando para encará-la.
– Desculpe, é... Desculpe.
– O que está embrulhando e guardando? – tentei pegar um embrulho da bolsa térmica para analisar.
– Queijo para sua avó – ela tomou o embrulho da minha mão antes que eu pudesse abri-lo e cheirá-lo, típico – ela adora os queijos daqui.
– Hum... Está bem – disse saindo da cozinha.
Fui até a sala para ver se haviam conseguido passar o malão pela porta, e sim, conseguiram, e agora tentavam passar a minha grande mala.
– Está levando o guarda-roupa inteiro? – Jason tinha um tom ansioso na voz.
– Não, metade dele – eu sorri, mas nenhum deles viu.
Enfim, também conseguiram passar minha mala. Eu estava encostada em uma mesa na sala observando.
– OK Jason, agora vá pegar a sua mala – Vicent aparentemente queria se livrar logo das malas, montar no carro e ir para o aeroportoo mais rápido possível.
As coisas de Jason estavam no pé da escada. Fiquei abismada quando vi uma pequena mala, uma bola de futebol e um saco cheio de aparelhos eletrônicos. Como ele sobreviveria com aquela malinha de roupas? E para quê bola se ele levava quase todos seus eletrônicos? Vicent pareceu aliviado pelo tanto de coisas de Jason, ele não perderia tempo tentando passar mais malas pela porta.
– Giulia meu amor, vamos querida, sua mãe está ligando tanto que daqui a pouco ela vem nos buscar pessoalmente. – a voz de Vicent estava cansada, mas ele não parecia nem um pouco,
– Já estou indo Vicent, vão entrando no carro, já estou indo – respondeu ela da cozinha, pelo eco da voz, continuava andando de lá para cá.
Dei uma ultima olhada na casa, quem sabe essa seria a ultima vez que eu a viria. – pensamentos positivos geralmente não me convenciam – Passei pela porta ao mesmo tempo em que Vicent, que passava para pegar as ultimas coisas e puxar minha mãe para fora da casa.
Com muita dificuldade conseguimos partir rumo ao Tennessee.
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