Emotionless

1 Capítulo único.


Notas iniciais
Essa fic foi inspirada na música ‘Emotionless’, do Good Charlotte.
O personagem Remo não me pertence e a fic não tem fins lucrativos. .__.'

Não sei o que está me impulsionando à escrever isto para você. Depois de tantos anos, acho que meu ódio por você se esvaiu, junto com todos os sentimentos — bons ou ruins — que eu tinha por qualquer pessoa. Tudo que sou hoje aprendi com você, não diretamente com você, seria melhor se eu dissesse que aprendi com sua ausência.

Se eu sou um maldito de um insensível, é sua culpa.

Se eu tenho todas essas coisas tatuadas pelo meu corpo, é sua culpa.

Enfim, tudo que tenho ou sou hoje, é sua culpa.

Depois de tantos anos, nem sei se você está bem, se está vivo, morto, se tem filhos, esposa, se é um morador de rua ou alguém extremamente rico. Não sei nada do que você é agora. Às vezes, me vem à cabeça sua imagem dizendo-me 'Hey garotão, eu vou voltar em alguns dias! Se cuida e cuida da sua mãe, ela vai precisar de você e não esquece que eu te amo pra sempre.'... a última vez que eu te vi. Será que amava mesmo? Será que você pensa se ainda estamos vivos e se estamos bem?

Pois bem, nós sobrevivemos. Eu e mamãe passamos por momentos difíceis, sustentados apenas pela ilusão de que você voltaria e diria que tudo ia ficar bem. Nunca aconteceu, você nunca voltou.

Remo Munkeboe. Você ainda se lembra desse nome, paizinho? Ainda lembra das tardes que brincávamos juntos e você me abraçava, dizendo que me amava mais que tudo no mundo? Ainda lembra das noites que passou no meu quarto por causa do meu medo do 'monstro do armário'? Você era meu herói, o melhor pai do mundo, você era aquele que parecia ser imortal. Doze anos sem ver seu sorriso e você acredita que ele ainda está na minha mente? Engraçado, não? Pois é.

'Você pode ser tantas pessoas se quiser, garotão, basta você encontrar sua liberdade' [n/a: se alguém aqui assistiu queer as folk, deve saber de onde eu tirei essa frase. Se não, é da música ‘Proud’, do Heather Small, que tocou no primeiro e no último capítulo da série. ;___;] . Eu nunca quis ser ninguém além de mim, até esse momento. Vai ver eu finalmente encontrei minha liberdade, han?E tudo que eu quero, é ser você, apenas para entender o que se passa pela sua cabeça.

Um herói quebrado e um sonho perdido. Você não se envergonha, meu grande herói? Não se importa pelas lágrimas que eu derramei e pelos anos felizes que eu perdi porque você não estava aqui ao meu lado? Agora eu já superei, ou pelo menos tento acreditar que superei.

Tantos ‘dias dos pais’ passei vendo meus amigos com seus respectivos pais, dizendo que os amavam, enquanto eu te odiava mentalmente e queria que aquele dia explodisse. Imagina se isso acontecesse, seria tudo por sua causa. Ainda lembro de uma peça que fiz para esse dia, eu tinha onze anos, logo no ano seguinte que você partiu. Meu papel na peça era a esperança. Coincidência, né? Durante toda a apresentação, eu mantive meus olhos fixos na porta, esperando que a qualquer momento você entrasse por ela e desse aquele sorriso que eu tanto amava.

Depois, eu me encolhi em um canto escuro e me pus a chorar enquanto meus amigos recebiam abraços e beijos de seus pais.

Porque você fez isso, pai? Não havia necessidade de destruir meus sonhos e levar junto com eles, meus sorrisos.

Hoje eu sou alguém na vida, tenho um bom emprego, uma família, uma filhinha. Será que você iria ficar orgulhoso de ver o que eu sou hoje? Sabe, tudo que fiz na minha vida foi pensando em você, pensando se aquilo te agradava. Muitas vezes, eu fiz coisas apenas porque sabia que aquilo te chateava, como se isso fosse extinguir minha dor. Apenas uma forma de vingança.

Foi difícil, mas eu ainda estou vivo, pai. Eu sobrevivi!

Seu eterno garotão,

Remo.

O homem de cabelos escassos releu o papel pela milésima vez, antes de levantar-se do banco que estivera durante toda a tarde, o sol já se escondia entre as montanhas.

Bateu na porta de madeira, respirando fundo e repassando as palavras que diria quando alguém a abrisse. Não adiantou. Ao ver o homem de cabelos pretos e caídos sobre o rosto que abrira a porta, as palavras escaparam, as pernas bambearam. Lágrimas começaram a cair pelo seu rosto desgastado pelo tempo e ele amassou o papel em sua mão.

Seu filho, seu garotão. Nunca imaginava que o veria de novo. Nunca imaginava que o veria tão grande e bonito.

Um sorriso se abriu na face do homem mais velho.

- Não pode ser, não pode! — Remo se pôs a chorar ao ver seu pai que tanto sentira falta.

- Me desculpe, garotão. Me desculpe. Mas eu nunca quebrei minha promessa, eu sempre te amei. — Envolveu-o em seus braços, o mais novo continuava estático.

- Porque você fez isso, por quê? Você não tinha o direito de estragar minha vida e fazer dos meus sonhos, pesadelos! — O mais novo soltou-se do abraço e olhou nos olhos do que deveria ser seu pai, mas não sabia se poderia chamá-lo assim depois de tudo que fizera.

- Eu fui um covarde, não tive coragem de assumir que te amava. Eu não suportei tamanha responsabilidade e só depois que te deixei, percebi o quão burro eu fui. Não podia te procurar, eu continuava sendo um covarde. Só quero que saiba que me orgulho de você e vai ser sempre assim.

- Não é fácil pra mim te ver depois de tudo.

- E você acha que é para mim? Só estou pedindo perdão, mas não espero que me perdoe.

- Eu perdoô, perdoô! Mas prometa que nunca mais irá me abandonar. — Remo falava com a voz embargada.

- Eu prometo, garotão.

- Senti tanto sua falta, pai — Finalmente conseguira dizer aquela palavra novamente, e o sonho do mais velho de escutá-la, foi realizado.

E alguns meses depois, ele partiu novamente, dessa vez, para sempre. Partiu feliz, pois tinha conseguido o perdão do filho que tanto amava. Mas agora, ele não quebraria a promessa de não abandonar Remo.

Durante dias, o mais novo sofreu com a morte do pai, mas um anjo o levantou e fez com que ele superasse tudo aquilo novamente. Apenas um anjo. Seu eterno herói.

FIM.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!