Notas iniciais
Hope you guys like it ^-^

Oi, me chamo Nichole, tenho quinze anos. Mas bem, isso não importa, pelo menos não muito. Desde o primário, sofria discriminação na escola ou em qualquer outro lugar que fosse, seja com meus pais ou sozinha. Sofria discriminação por estar acima do peso, por me vestir com roupas largas o que julgavam roupas de menino ou por simplesmente ter o cabelo curto.

Quando estava com meus dez pra onze anos, entrei na quinta série e em uma nova escola. Continuava acima do peso, continuava com minhas roupas – ou uniforme de escola – largas e agora usava boné todos os dias a única diferença, era que agora, meu cabelo já era comprido, um pouco abaixo dos ombros. Apesar disso tudo, nessa escola não sofria discriminação. Encontrei verdadeiras amigas, que gostavam de mim pelo que era como pessoa, não ligavam para meu peso ou forma como me vestia, elas se importavam comigo acima de tudo, pareciam minha família.

Assim como qualquer criança quase adolescente, tive minhas brigas na escola e meus namoradinhos secretos. Passei para a sexta série, não havia mudado muita coisa a não ser detalhes do tipo, emagreci, fiquei mais alta, deixei de usar bonés e me envolvi numa pequena briga na escola. Tão pequena que nem a diretoria precisou intervir.

A única coisa que aconteceu foi, na época eu era muito fã de uma atriz e cantora que o nome não vem ao caso, e um dia no intervalo da escola, acabei achando uma garota muito parecida com ela e acabei brincando com uma amiga minha dizendo que a tal garota era com clone da tal famosa.

O que não esperava, era que minha “amiga” fosse falar com a tal garota no dia seguinte. Minha amiga me mostrou para a tal garota e digamos que eu fugi dela por alguns dias ou meses, dentro da escola. Tinha medo da garota não ter gostado do que falei ou brinquei que seja, e ter ficado muito brava.

Passaram-se dois ou três meses e eu percebi que nada aconteceria então, parei de fugir. E quando isso aconteceu aquela “amiga”, veio-me falar que havia ficado amiga da garota e que seu nome era Marie. Perguntei para minha amiga se Marie, havia ficado muito brava com o que eu havia dito, ela disse que não, porém, Marie agora me achava estranha.

Não devo mentir, mesmo depois de saber que Marie não estava brava, eu ainda sentia medo de chegar perto dela. Minha amiga chegava perto de mim com ela, eu logo saia de perto.

Fiquei nessa por um ano, até que arrumasse coragem e fosse falar com ela em uma rede social. Pedi desculpas, disse que tudo não passava de uma brincadeira, que eu era meio louquinha daquele jeito mesmo e etc. Ela me respondeu dizendo que eu não precisava me desculpar e que ela havia levado na brincadeira, apenas não gostou que eu ficasse fugindo dela o tempo todo na escola e pediu que eu para-se.

Era engraçado, pois, quando estava na escola, mesmo não falando diariamente com Marie, eu sabia que tinha uma amiga pra quando precisasse. De certa forma ela sempre esteve por perto, e eu apreciava muito isso, mesmo não sendo minha melhor amiga, sua companhia era ótima, sentia que eu podia ser a verdadeira Nichole que ela não ligaria.

Passou-se um tempo, as aulas acabaram e entraram as tão esperadas férias de final de ano. Nesse tempo, já que sabia que não iria encontrar a garota na escola, aproveitei para começar a ficar amiga dela ao menos nas férias, sucesso. Ficamos amigas e agora já nos falávamos quase todos os dias, me divertia muito com ela.

Toda aquela loucura de final de ano passou, as aulas voltaram e eu fiquei sabendo que Marie havia reprovado a oitava série. Agora, frequentávamos a mesma escola e mesma série, apenas salas diferentes. “Oba, mais um ano para me aproximar dela.” Pensei comigo. Cada vez mais nossa amizade se fortalecia, e eu adorava isso.

Passou um ou dois meses do inicio das aulas e minhas outras amigas “armaram” pra eu ficar com um garoto, que eu nem conhecia. Aceitei. Afinal, o que seria apenas um beijo não é mesmo? Errado. Eu acabei me apaixonando por ele, sabendo que ele era o maior galinha possível daquela escola. Fiquei com ele umas duas semanas até que, para minha surpresa, Marie chegasse em um intervalo qualquer e pedisse para falar comigo no banheiro da escola, “Tudo bem, ela só quer conversar.” Pensei e fui ao banheiro – imundo – conversar com a garota.

- Nic, você sabe o que está fazendo? – Perguntou a garota intrigada.

- Depende a que você se refere?

- Sobre o Willyan. Você sabe que ele não é boa coisa, você merece algo melhor. Aliás, algo muito melhor. – Assustei-me com o que Marie acabará de dizer. – Qual é, você já se olhou no espelho?

- Sim, me olho todas as manhãs e assusto cada vez mais. – Fiz piada e a garota sorriu sem humor.

- Não, é sério. Olhe-se no espelho.

Fiquei estática em meu lugar, Marie aproximou-se de mim e com as mãos em meus braços e a cabeça em meu ombro esquerdo, virou-me para o espelho e ficou atrás de mim.

- Olhe só, como você é bonita. – Fiz uma cara confusa, eu não era bonita. – Não faça essa cara, você é bonita sim. O Willyan pode ser bonitinho e tudo, mas, não merece alguém como você. Você tem valores muito mais altos do que ele, você não deve ficar com ele apenas por achar que é “falta de opção”. – Fez aspas no ar.

- E como você sabe disso tudo? – Franzi as sobrancelhas.

- Eu, infelizmente já cometi esse erro também. Por favor, Nic, acredite em mim e termine isso antes que você se machuque. Sei que não sou sua melhor amiga, mas, eu gosto de você e quero seu bem. – Abraçou-me.

O sinal bateu e fomos para nossas respectivas salas, mas não antes de Marie sussurrar um “Pense bem.” Para mim. Abraçamos-nos e voltamos as salas.

O que a garota havia dito ficou martelando em minha mente, será que deveria escuta-la ou apenas ignorar?

Minha resposta veio dois dias mais tarde, Willyan havia me traído em um passeio da escola, fiquei extremamente chateada e pensei “Agora é hora de mudar!” e foi o que fiz, me valorizava mais, me concentrei em meus estudos e me tornei – não muito – vaidosa.

Um ano se passou, agora eu estava no primeiro ano do colegial. E para minha surpresa, quando fui ver a listagem de minha sala, lá estava “Marie Gomez”. Ela estaria em minha sala. Empolguei-me um pouco, devo admitir.

Além de Marie, não conhecia muitas pessoas de minha sala. Pra minha felicidade, no meu primeiro dia de aula, nenhumas de minhas outras amigas foram a escola. E lá estava eu, em uma sala nova, com muitas pessoas desconhecidas. Realmente estava me sentindo “um pintinho fora do ninho”. Para meu breve alívio, simpatizei com uma garota e para minha maior sorte, nossas duas primeiras aulas eram de Educação Física, pensei comigo “Vamos fazer uma nova amizade.”

Aproximei-me da garota.

- Oi, qual seu nome?

- Oi, me chamo Sophie e você?

- Me chamo Nichole. – Sorri amigavelmente – Este é seu primeiro ano aqui?

- Não, na verdade. Estudo aqui desde a quinta série. E você, Nichole?

- Ah, eu também.

Fiquei ali conversando com Sophie por duas horas, logo essas duas horas se tornaram todas as aulas mais o nosso intervalo. Ela era bem bacana. Voltei para casa, e curti meu final de semana.

Meu alarme tocou aos sons de “Never Gonna Be Alone – Nickelback” às seis e dez da manhã anunciando que a segunda-feira havia chego. O desliguei e fiz minha rotina, escovar os dentes, colocar o uniforme, ficar atrasada e por fim sair correndo atrás da perua.

Cheguei à escola, todas as minhas amigas estavam lá no pátio, correram para conversarmos dizendo que estavam com saudade e perguntando como minhas férias tinham sido. Contei que – literalmente – vivi um amor de verão, mas que não deu certo.

O que mais me surpreendeu naquele dia foi que quando adentrei minha “nova” sala, Marie saiu correndo de seu lugar e abraçou-me forte. Sussurrando em meu ouvido “Graças a Deus você está aqui.” Fiquei sem entender muito bem o que tinha acontecido, mas, apenas retribui o abraço.

E em um piscar de olhos, já estávamos em Junho, prestes a entrar de férias e eu já conhecia metade da sala. Marie e eu havíamos ficado muito próximas, eu realmente a amava, porém, de um jeito diferente. Eu não amava nenhuma outra amiga daquele jeito, o que era estranho. Não sabia o que estava acontecendo.

Bom, dia cinco de Junho, tínhamos uma festa para ir. Um festa debutante, eu e Marie havíamos sido convidadas, assim como outras várias amigas minhas porém com uma diferença, Marie havia sido convidada para ser uma das quinze damas e eu e minhas outras amigas éramos apenas convidadas.

A festa já estava quase no fim, ela havia sido muito boa. Muito mesmo. E então, Marie, apareceu correndo em meio aos convidados em minha direção, pegou minha mão e me puxou para longe da mesa e de minhas outras amigas.

- Nic, preciso lhe contar uma coisa. – Disparou como uma metralhadora, aflita.

- Claro, conte. Estou aqui para o que precisar.

- Eu beijei uma pessoa...

- Ah...

- Só que, foi uma menina.

- O QUE? Como assim?

- Ela é lésbica e se veste como homem então, não percebi. Só percebi depois que perguntei seu nome.

- E você se arrepende?

- Não.

Fiquei chocada, não era sempre que minha melhor amiga me contava que havia beijado uma garota e havia gostado.

Bom, a festa passou, entramos de férias na semana seguinte e eu fiquei sem ver Marie ou qualquer outra amiga por quinze dias, o que foi uma completa tortura.

Quando voltei a escola, foi uma sensação maravilhosa. Ao entrar no corredor de minha sala, Marie, veio correndo em minha direção e me deu um abraço tão forte, me senti tão segura e um sentimento apareceu em meu peito, de um jeito que eu não sabia explicar e nem sabia o que era.

Quando voltei para casa, comecei a pensar no que tinha sentido quando Marie me abraçou às seis e quarenta da manhã daquele mesmo dia, comecei a comparar com outros sentimentos que já havia sentido, e cheguei em uma única conclusão, amor. Era isso o que eu sentia por Marie, amor.

Soube disso, assim que comparei esse sentimento que eu sentia por ela, com o sentimento que senti pelo meu primeiro amor – que foi um completo fracasso – eu a amava, só não sabia como isso tinha acontecido.

Não, na verdade, sabia. Ela me tratava com carinho, como ninguém nunca havia me tratado antes, ela sempre estava do meu lado quando eu precisava de alguém pra desabafar ou apenas precisava de um abraço. Nunca pensei que isso pudesse acontecer, mas aconteceu. E eu gosto da ideia de ser apaixonada pela minha melhor amiga.

Os meses se passaram, e então me veio a pior noticia que eu já poderia ter recebido. Marie, iria embora para outra cidade no último dia de aula.

E então esse dia chegou, dia vinte e nove de Novembro do ano de dois mil e doze. Passei o dia inteiro extremamente mal, pensando como seria ruim sem Marie ou qualquer outra amiga minha. Como tudo seria diferente.

Faltando exatos quinze minutos para acabar a sexta – e última – aula, sentei-me de lado na cadeira, observando minha sala. Provavelmente a última visão que teria de todos juntos, cada um seguiria um caminho, iríamos pra outras escolas e podíamos nunca mais nos ver. E minha situação só piorou ainda mais quando olhei para Marie.

Ela estava afastada de mim, com outras amigas. Sorria com alguma bobagem que uma amiga podia ter lhe dito e eu me lembro de ter pensado “Esse é o sorriso mais belo que já vi, nunca vou esquecê-lo.” E então Marie virou o rosto, cruzando seu olhar com o meu. Sua feição logo mudou de felicidade, para angústia, saudade. Ela percebeu que aquela provavelmente seria a última vez que nos veríamos. Pediu licença para as amigas, levantou-se e veio em minha direção.

- Está chegando a hora, não está Nic?

- Sim, está. – Respondi com a voz já embargada pelo choro que se prendia em minha garganta como um nó.

A garota sentou-se do meu lado e encostou sua cabeça em meu ombro.

- Vou sentir falta desse zoológico. Especialmente de você Nic.

Uma lágrima involuntária rolou por minha face, que limpei rapidamente para que Marie não percebesse. Zoey, uma garota fofa, meiga e loira, muito minha amiga, observou a cena e aproximou-se de nós, perguntando o que havia acontecido, explicamos e ela logo começou a chorar, o que fez com que eu chorasse de verdade e com que Marie chorasse conosco. E então, o sinal bateu. O dia acabou, a despedida chegou e eu já me afogava em lágrimas que insistiam em cair, mesmo contra meu consentimento.

Eu, Marie e Zoey, saímos da escola de mãos dadas e olhos e narizes vermelhos do choro. Abracei Zoey, que chorou em meu ombro por um tempo, até outras amigas delas se aproximarem e ela me soltar para abraça-las. Encostei-me no muro da escola, desabando, soluçando de tanto chorar com a cabeça baixa. Ao levantar meu olhar, dei de cara com Marie, parada em minha frente com um saco de presente na mão e o rosto completamente molhado pelas lágrimas que teimavam em cair.

- Isso é pra você, pra nunca se esquecer de mim. – Entregou-me o saco e esperou que eu o abrisse.

E foi o que fiz, abri cuidadosamente o saco amarrando a fitinha de Nossa Senhora do Bom Fim no pulso logo em seguida. Peguei o que havia dentro do saco, um coração com braços escrito “Eu te amo” chorei mais ainda, e puxei Marie para um longo abraço. Devo ter ficado uns bons dez minutos abraçada com ela, até que chorando, ela sussurrou em meu ouvido “Eu tenho que ir.” Me deu um beijo na bochecha e foi embora.

Fiquei parada no lugar, apenas desejando que aquilo fosse mentira, que eu ainda estivesse no começo do ano e fosse apenas um pesadelo. Desejando que aquela não fosse a última vez que eu a veria. Mas, não. Era tudo verdade, eu estava no final do ano e talvez aquela fosse mesmo à última vez que eu teria visto Marie. O que me cortou o coração e me fez chorar cada vez mais.

Fui para casa, me joguei na cama e chorei a tarde inteira, até finalmente adormecer. Acordei no meio da noite com meu gato lambendo meus pés e querendo brincar. Pensei “Agora que acordei, não vou conseguir dormir tão cedo.” Então, apanhei um caderno qualquer e comecei a escrever frases que vinham a minha mente, naquele silêncio de noite.

Passadas três ou quatro semanas de férias, Marie me mandou uma mensagem, dizendo que estava com saudades e que não era a mesma coisa sem mim a seu lado todos os dias. E foi nesse momento, que eu decidi dizer toda a verdade, que eu estava apaixonada por ela e que queria ficar com ela, não para sempre mas, até quando durasse. Pois eu a amava.

Contei, contei tudo o que sentia e desde quando eu sentia e tudo que recebi de volta foi um “Eu também te amo.” E foi quando tomei uma decisão e a pedi em namoro, que para minha surpresa, ela aceitou.

Minhas férias se passaram, eu entrei em uma escola onde não conhecia ninguém e tive que recomeçar tudo do zero. Meu problema não foi com a escola, mas sim com os alunos. Que espalhavam boatos sobre mim e me discriminavam por ser bissexual. O que me incomodava, não era o fato de falarem de mim pelas costas, mas sim, de como falavam. Falavam de mim como se eu fosse um monstro, como se não fosse normal gostar de homens e de mulheres, falavam com tom de reprovação e desgosto, realmente falavam como se eu fosse um monstro. Procurei ajuda em casa, e meus pais me disseram uma coisa importante: “Só se importe com a opinião de quem te ama, pois o resto bem, o resto é resto.”

E foi o que fiz, deixei de me importar com a opinião de quem não merecia, mas mesmo assim ainda me incomodava como falavam de mim e quando percebi que isso não iria parar, pedi para meus pais pra me levarem em uma psicóloga, pra não ser mais uma daquelas jovens que se mutilam ou se suicidam por besteiras.

Mas a pergunta principal é: “Se Deus apenas quer que sejamos felizes, independente da forma, quem o ser humano acha que é para julgar a felicidade dos outros?”

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!