Emotion
1 Único.
Mantiveram o silêncio, o segredo.
Ainda de costas, ela nem sequer imaginou que a mão dele repousava sobre seu ombro, e que ele tinha na face um semblante triste e sombrio, mas completamente apaixonado e romântico.
Ele apertou o ombro, na esperança de transmitir um calor insalubre, afável e vigoroso. Sua mão dura e gélida era o contraposto das doces e delicadas mãos dela. Mãos tão sublimes que daria sua existência para tocá-las.
Ela teve de segurar a vontade imensa de esbofetá-lo. Injúria maior era ele ao menos aproximar-se dela, por que ódio e desprezo se mesclavam num sentimento tão obscuro que, uma vez materializado, escandalizaria o mundo com sua existência malévola.
Um sentimento ocultado, entretanto, era a mágoa que faiscara dentro de si mesma, e gerara imensas confusões. Uma mágoa advinda de um passado remoto, onde o vislumbrar dele significava o admirar dum monte dos Elísios.
E a complexa conversa silenciosa seguiu-se, de ambas as partes, em que dois seres de tamanho descomunal com orgulhos não menores que suas tristes e plácidas figuras humanas mantinham-se num diálogo amistoso, mas ao mesmo tempo, repleto de dor e sinceridade.
O quanto terrível era o prazer naquele momento! Queriam, os dois, manter-se afastados, mas juntos, carne contra carne, alma contra alma, consumarem aquilo que os céticos chamam de amor e os sábios de desejo.
E finalmente, os olhos cintilantes dela encontraram os olhos foscos dele. Um momento de misericórdia para ambas as partes, que ansiavam por aquilo. Adeus aos reveses e aos incidentes. Chicotearam-se de beijos e afagos, carícias tão obsoletas e violentas capazes de atear fogo à chuva. O cheiro cambaleante de duas metades quebradas juntas em um exótico destino.
Não mais o beijo, veio a lamúria e a morte.
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