Emo-ções - Por Todos Os Motivos Errados
3 Capítulo 3: Erros, mágoas e perdões.
Como eu já esperava, Pedro afastou-se de mim. Nos dias que decorreram após aquela chocante revelação – para ele, claro – aquilo que eu considerava o início de uma amizade desapareceu. Tudo graças à mi comi.
–Bryan, Bryan! – a voz de mi comi me chamou, gritando para todo o colégio meu nome, de novo e de novo.
Quando vi aquele ser loiro que vestia um short xadrez duas vezes seu tamanho e um all star de cano longo que quase lhe passava o joelho se aproximando eu fingi não ver. Virei-me de costas para ele pronto para sair dali o mais rápido possível, porém mi comi foi mais rápido e puxou meu braço com força, quase o deslocando.
–BRYAAAAAAAANN. Se você tentar fugir de mim de novo eu te mato.
Felizmente não vi o rosto dele para saber se estava com uma cara demoníaca ou não.
–Seu amiguinho estava te procurando.
Puxei meu braço de volta com força. Posicionei a mão no ombro do braço machucado e o movi para ter certeza de que estava tudo ok.
–Que amigo?
Mi comi começou a saltitar com as mãos para trás. Eu o segui.
–Aquele que você me xingou por ter contado a ele que você é homo. Ele chegou todo sem jeito para mim e perguntou onde você estava.
Mi comi riu, divertindo-se.
–Mentira. Se ele quisesse falar comigo me procuraria na aula. Estudamos na mesma turma.
–Não estou mentindo!
Mi comi virou o rosto para trás e fez bico, estreitou os olhos e fitou-me como se aquilo que eu houvera dito fosse um horror. Mesmo assim ele não me convenceu.
–Estou sendo um bom amigo e te avisando. Da próxima vez o mando falar contigo porque não sou garoto de recados!
–Garanto que se ele tiver mesmo vindo falar contigo você não perdeu tempo e se agarrou nele, não é mi comi? – debochei, fingindo acreditar para que ele não se fizesse de ofendido.
–Bryaaaaaaan, como você é chato com esse apelido!
–Que apelido?
A risada veio de forma surpresa, sendo assim, mesmo eu tentando impedi-la acabei soltando alguns sons, como se estivesse aranhando a garganta. Coloquei uma mão na frente da boca e tentei esconder minhas bochechas que por suas posições denunciavam meu riso. Por quê? Porque quem perguntara sobre o apelido fora exatamente Alex.
–Não é nada... Nada de mais. Foi só uma brincadeirinha.
Olhar a cara atônita de mi comi, ação esta que somente me fez ter mais vontade de rir. Alex ergueu uma sobrancelha.
–Que apelido Lucas?
Não consegui mais evitar e comecei a rir alto. A cena era hilária e era somente eu olhar pelo canto do olho para a expressão incrédula do mi comi para eu rir mais. Mi comi...
–Você quer saber qual é o apelido?
Antes que eu pudesse raciocinar sobre o que estava acontecendo vi o céu se mexer, em seguida minhas costas e minha cabeça bateram com força em algo. No chão.
–Não fala!
Senti um grande peso sobre todo meu corpo, prensando-me contra o chão. Senti uma terrível dor do tronco para cima.
–Me solta! – gritei furioso, tentando retirar aquele garoto estúpido de cima de mim, sem sucesso.
–Não fala – ele sussurrou entre dentes, perto demais de meu rosto. Mi comi estava com raiva e eu estava com raiva. Nossos olhos se cruzavam quase que com faíscas. Um queria matar o outro.
–Sai de cima de mim – lhe disse pausando entre as palavras, tentando controlar minha raiva. Porém, o mesmo não moveu um músculo sequer, continuava mantendo todo seu peso sobre mim. Ele só me deixaria quanto eu declarasse não contar. Eu só me decidiria quanto ele saísse de mim.
O passar do tempo me irritou. Para a infelicidade de mi comi, eu tinha o poder.
Empurrei-o com muita força, jogando ele sentado no chão a meus pés. Sentei-me e deixei a raiva me dominar.
–Eu mandei você sair de cima de mim mi comi! Mi comi de merda! Agora conta para eles que você quer tanto que lhe comam!
Antes de ver qualquer reação, me levantei, estapeei minha roupa rapidamente e lhes dei as costas. Afastei-me deles, crente de que mi comi me xingaria de tudo que era possível, mas somente o que ouvi fora risadas e perguntas sobre quem ele queria que lhe comesse e coisas do gênero. Sem muitas alternativas, fui para minha sala de aula. Entrei nela balbuciando baixinho algumas ofensas a mi comi. Por que ele tem que ser tão escandaloso? E por que ele teve de pular encima de mim e me jogar no chão? Que garoto problemático!
–Bryan.
Olhei para trás, de onde vinha a voz que me chamava e encontrei Pedro. Encabulado, ele me estendeu meu caderno com a capa do Simple Plan.
–Está aqui a matéria de matemática.
–Obrigado.
Virei-me de costas para ele e rumei para meu lugar, sentando-me.
–E... Bryan?
–Oi?
–Você não quer as outras matérias?
Pisquei algumas vezes, tentando clarear meus pensamentos. Antes que eu pudesse falar algo ele continuou.
–Eu prometi a você que lhe conseguiria a matéria, não foi? Promessa é dívida.
Não entendo o porquê dele ter dito isso, sendo que não me recordo dele prometer, somente de dizer que me conseguiria a matéria. De qualquer forma, sorri.
–Obrigado.
Pedro olhou para os lados, acho que para garantir que não havia ninguém por perto para nos ver conversando. Quando viu que estávamos sozinhos sentou-se na classe a minha frente, de lado, como da primeira vez em que nos vimos.
–Bryan, é verdade que você é viado?
Se ele houvesse usado outra palavra ao invés de “viado” eu teria mais vontade de responder. Como você assume a sua homossexualidade para um garoto heterossexual o qual você tem interesse? Eu gosto de Pedro e quero ser seu amigo. Normalmente as pessoas não gostam de mim e eu não gosto de pessoas em geral, mas gosto de Pedro e ele gosta de mim como amigo. Amigo hetero, claro.
–Sou gay sim.
A careta de Pedro fez meu coração se contrair.
–Ah cara, que nojo! Gostar de ficar com outros garotos... Isso é muito nojento! Por que você não gosta de ‘minas? São tão gostosas!
–Quer mesmo saber?
Ele parou e pensou. Mais uma vez olhou para os lados, com medo de que alguém nos visse sozinhos conversando e interpretasse mal. Pedro se levantou, foi até a porta e fechou-a. Retornou para a cadeira na frente de minha classe e sentou-se.
–Bryan, não me entenda errado. Não tenho interesse nenhum, absolutamente nenhum interesse em garotos. Se eu ouvir boatos sobre eu ser viado, quebro sua cara. Mas... Por que você gosta de garotos? Garotas é que são excitantes!
Arrumei minha franja com a mão, recostei-me na cadeira e descansei minhas mãos em meu colo.
–Não posso te dar um motivo satisfatório, mas... Em um relacionamento normal, é o garoto que cuida da garota e eu gosto que cuidem de mim – falei devagar, analisando todas as suas reações – as quais não eram positivas -, sem nem ao menos saber ao certo o que dizer. –Eu prefiro que se importem comigo ao invés de ter de me importar com uma garota. E eu acho meninas muito chatas! São falsas, falam mal daquelas que consideram suas melhores amigas. Acham-se melhores que os garotos, se preocupam tanto com coisas bana-
–Você se sente excitado com outros garotos?
Senti meu rosto esquentar. Conversar com outros garotos que também se sentem assim era uma coisa, conversar com um garoto hetero o qual tenho interesse é outra completamente diferente. Ninguém nunca se importou em saber meus motivos para ser gay, eu mesmo nunca parei para pensar bem neles. Sendo assim, considerei em limitar-me a apenas responder com poucas palavras.
–Sim.
Pedro simulou vômito.
–Então você é o passivo?
–Sim.
–E gosta de dar?
–Uma garota pode gostar, então por que eu não posso?
–Por que você tem um pau!
Mais uma vez aquela vergonha me subiu a face, deixando meu rosto mais quente ainda. Pedro percebeu.
–Você deveria conversar com um ativo, seria melhor. Eles são mais normais porque, garotos normalmente gostam de comer garotas e ativos gostam de comer garotos – eu disse tentando me desvencilhar daquele assunto, pois já estava querendo procurar um buraco para enfiar meu rosto.
–Estou tentando entender você, não um ativo. Achei que você seria um excelente amigo, mas é gay!
–E por que sou gay muda quem sou?
Finalmente Pedro sorriu, deixando-me confuso.
–Vocês gays sempre dizem isso?
–Não sei, por quê?
–Porque aquele garoto loiro me disse a mesma coisa.
Garoto loiro... Mi comi! Quero dizer, Lucas! Eu não achei que Pedro tivesse mesmo falado com Lucas.
–Por que vocês conversaram?
–Eu queria te devolver seu caderno. Quando Camila me entregou ele eu te procurei direto, daí como você tem andado com aqueles garotos perguntei para o loiro que te arrastou aquele dia.
Realmente, estou chocado. Não levei a sério quando Lucas dissera que conversara com Pedro, eu poderia jurar que era mentira. Pensei que era somente um deboche da parte dele.
–E o que ele te falou?
–Ele me disse algumas coisas. Pediu para que eu conversasse com você e não tirasse minhas conclusões a partir de outros. Que você é legal, se eu deixasse de falar contigo seria um idiota preconceituoso, isso seria bullying e blá, blá, blá. Na verdade, não escutei o resto porque fiquei impressionado com a aparência e a voz daquele garoto.
Eu ri.
–A voz dele é realmente irritante e aguda.
–É. Eu achei mais... Afeminada mesmo. Bom, mas ele também me disse que não se deixa de ser um ser humano só porque tem interesse em pessoas do mesmo sexo.
Tive de deixar o silêncio predominar porque simplesmente não soube o que dizer. Lucas houvera me ajudado e eu fiz algo horrível com ele. Praticamente contei para Alex que ele queria ser comido só porque ele ficou nervoso e tentou me calar.
–Bryan, tudo bem? Você parece que vai chorar.
–Estou bem sim. Só... Estava pensand-
Um barulho na porta chamou a atenção de ambos nos dois. Meu coração deu um pulo, pois se fosse um de nossos colegas e um boato se espalhasse Pedro nunca mais se aproximaria de mim.
Mas, para nosso alívio era somente um emo. Ele possuía o cabelo bem preto e os olhos verdes vivos e claros, de chamar a atenção de longe. Um piercing na sobrancelha e outro no nariz. Era lindo. Como todos os garotos deste colégio conseguem ser tão bonitos?
Tentei lembrar seu nome, mas não consegui. Sabia que ele fazia parte do grupo de emos o qual tenho andado ultimamente, pois aqueles olhos contrastando com o cabelo chamavam muito a atenção.
–Desculpe interrompê-los. Bryan, você viu o Lu?
–Não o vejo dês daquela hora em que saí de perto.
Ouvi barulho na cadeira de Pedro e mudei meu foco para frente.
–Eu já estou de saída mesmo, só queria entregar seu caderno Bryan. Como você sabe, vou cumprir a promessa e vou lhe conseguir toda a matéria. Até mais – ele fez questão de explicar bem alto para que não houvesse mal entendido com o garoto emo. Ou seja, não quer ser chamado de gay.
Quando Pedro passou ao lado do garoto de olhos verdes o mesmo sorriu, porém Pedro virou as costas e praticamente correu para fora da sala, com... medo? Será que ele tinha medo que o emo o agarrasse?
–Hetero?
–Isso mesmo.
–Desculpe interrompê-los.
–Que nada. Devo até te agradecer, a conversa aqui estava se tornando um tanto estranha.
Ele sorriu. Com um sorriso lindo como todos os garotos daqui... Nossa, minha mãe sabe escolher muito bem colégios!
–Lembra-se de meu nome?
–Não. Desculpe – fui obrigado a ser sincero, pois caso a próxima pergunta fosse “então qual é?” eu não saberia responder.
–Tudo bem.
Ele se aproximou e sentou-se na classe ao lado da minha, literalmente na classe, não na cadeira.
–Meu nome é Matheus. Lu nos apresentou. Você é Bryan, certo?
–Sim. Me desculpe, é que são tantos nomes novos.
–Entendo. E Lu está com um complexo de amigo que não sai do seu pé e não lhe deixa conversar com os outros. Perdoe-o, ele só é um tanto sozinho.
–Ele ficou muito mal depois que eu saí? – perguntei temeroso, sem saber se queria mesmo ouvir a resposta. Na hora eu estava com raiva, mas ele não merecia o que eu fiz. Em nenhum momento ele me tratou mal ou me fez algo de ruim. Bem, só quando nos conhecemos que ele contou a Pedro que eu era homo, mas não fora de propósito.
–Bastante. Você mandou muito mal.
Senti-me péssimo. Eu conheci a Lucas há tão pouco tempo, mas aquela agitação dele e jeito de criança realmente são marcantes. Não o queria triste nem mal. Eu nunca fui muito sociável e as pessoas nunca quiseram se aproximar de mim, mas com Lucas foi diferente.
As pessoas deste colégio são diferentes com relação a mim.
–O que houve?
–Ele tentou se explicar, mas não deu. Alex brigou com ele e chamou-o de muitas coisas, dentre elas de puto e falso. Lu saiu de perto de nós chorando. Eu tentei alcançá-lo, mas parece que ele conseguiu se esconder no colégio.
–Então acho que vou matar os próximos períodos e procurá-lo.
Matheus desceu da mesa e colocou as mãos nos bolsos da calça, despreocupadamente.
–Eu terei de ir para a aula. Rodei feio no primeiro trimestre em Física. Quando encontrá-lo, diga a ele que explique-se para mim, pois tentarei falar com Alex.
Ele se virou para a porta e seguiu na direção da mesma. Parou no caminho e virou o rosto de lindos olhos verde claros para mim.
–E diga-o que ele é fofo. Ele gosta de ouvir isso.
Matheus saiu da sala e só então percebi que meu coração estava aos pulos. Tentei acalmar minha respiração e, quando ouvi o sinal bater peguei minha mochila saí rapidamente da sala de aula, pois tinha de procurar por Lucas.
Notas finais
Bem, então, para recompensá-los vou postar outro capítulo no meio desta semana. Lá por quarta ou quinta deem uma passadinha aqui que provavelmente haverá um capítulo novo.
Obrigada pelos reviews. Continuem fazendo este ótimo trabalho com eles e me incentivando, sim?
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