Emo-ções - Por Todos Os Motivos Errados
29 Capítulo 29: Em meu tempo de morrer.
Notas iniciais
Lentamente fechou a porta atrás de si, cuidadoso, produzindo o mínimo de ruído possível. Trancou-a com um giro da chave, em seguida pendurando-a no porta-chaves adjacente.
Um odor desagradável viajou pelo ar, chegando ao seu nariz, acarretando em uma careta. Era algo com álcool e comida que, infelizmente, já conhecia. Vasculhou a sala escura, com a luz do sol presa do lado de fora pelas pesadas cortinas black-out. Pelo chão encontrou roupas, garrafas, latas, copos, plástico de sabe-se-lá onde, sujeira... Muita sujeira. No sofá encontrou um bolor que reconheceu rapidamente, enxergando mechas coloridas perdidas em um mar revolto de preto azulado. Caminhou ao seu encontro, agachando-se ao lado do sofá.
– Mãe... – chamou em um tom baixo, quase receoso. – Mãe... Cheguei...
Levou uma de suas mãos aos fios emaranhados e sujos, começando um carinho suave que foi prontamente rejeitado pelo corpo no sofá que remexeu-se, afastando sua mão.
– O que você quer, Luke? – Sentiu-se mal com o tom ríspido na qual fora tratado, todavia isto somente colaborou para suavizar ainda mais seu tom de voz.
– Carla ligou ontem, mãe, ela perguntou como você estava e disse que não tem aparecido no salão. Você tem que ir trabalhar, mãe.
– O salão é meu e eu faço o que eu quiser, Luke, não me enche a paciência.
O mais novo prendeu a respiração, sentindo seu coração apertar. Era como se estivesse pisando em ovos. Queria que tudo estivesse bem e feliz, contudo nada naquela casa passava um clima positivo, era mais como se estivesse trancada no tempo, repleta de energias negativas.
Nos últimos dias havia sido sempre da mesma forma: a bagunça e o descaso de sua mãe. Por meses tudo tinha se resolvido, sua mãe Andreia superara o problema com álcool, tudo tinha estado tão bem... Não entendia e não queria aceitar a recaída. Era culpa sua, afinal...? Possivelmente, apenas não... Queria pensar nisto.
– Mãe, você tem que levantar. Já é meio-dia. Mãe, você prometeu que ia pintar a parte de baixo do meu cabelo de vermelho hoje...
– Não tenho tempo pra isso – resmungou atropelando as palavras, evidenciando seu estado de embriaguez.
Queria chorar e gritar. Queria sair pela casa destruindo todas as poucas coisas que não estavam fora do lugar. Sua mãe era a única pessoa em sua vida que realmente importava; seu tudo. Contava seus segredos, suas paixões, brincadeiras, compartilhavam gostos... Claro, tinha amigos, dentro do possível, entretanto ela era sua mãe!
– Mãe... – tentou uma ultima vez, com a voz pouco oscilante. Já tinha chego do colégio sentindo-se quebrado, vendo sua mãe... – Mãe, eu fiz alguma coisa...?
– Você nasceu.
Poderia ser uma resposta boba para alguns, mas não, aquela não era, principalmente dita de tal forma, insensível, quase rancorosa... Seu coração partiu novamente. Esticou-se um pouco na intenção de alcançar sua bochecha e dar-lhe um beijo, todavia esta recuou, ainda virada de costas para si, com o cabelo no rosto.
– Desculpe... – murmurou baixinho e levantou-se, afastando-se antes que “começasse com o drama”, como ela mesma retratava seu choro.
Caminhou até seu quarto lentamente. Queria chorar, gritar, destruir... Qual era o seu problema, afinal? Era sua culpa, sempre e sempre... Era sua culpa que sua mãe estivesse naquele estado e era sua culpa o cara que amava estar tão irritado e chateado todos os dias... E todo este peso em suas costas ia o puxando para baixo, cada vez mais... Corroendo por dentro...
Bem, como você pode se sentir algo mais que um lixo quando tudo o que faz é apenas merda?
Entrou em seu quarto e fechou a porta com força, escorando-se na mesma. Todo aquele peso e culpa... Porque era um esquisito irritante. Por que não podia mudar...? Ou melhor, por que não conseguia ser uma pessoa menos irritante? Sabia que incomodava e entendia o porquê de tantas pessoas não o suportarem... Mas apenas não conseguia...
Oh, sim, e então, por não conseguir mudar tinha conseguido a proeza de arrastar para baixo as duas pessoas que mais amava.
Apertou os olhos e emaranhou os dedos no cabelo. A palavra “culpado” repetindo-se de novo e de novo em sua mente, levando-o aos limites. Seu sangue começou a ferver e seu peito apertar cada vez mais, até que não era mais suficiente trancar tudo em sua garganta.
Não aguentou mais e explodiu, saindo pelo quarto e derrubando tudo numa tentativa desesperada de se livrar de toda aquela raiva, angústia... De toda aquela energia. Tinha raiva de tudo, do mundo por ser tão certinho, de Deus por tê-lo feito daquela forma, de todas as pessoas por serem tão frágeis... E de si mesmo, por ser quem era. A culpa era corrosiva e destrutiva, então por que não podia simplesmente destruí-lo por completo...?
Derrubou o abajur e a cadeira. Espalhou tudo que tinha encima da cômoda. Puxou gavetas e esparramou roupas. Bagunçou as cobertas e travesseiros, espalhando pelo chão. Ouviu o barulho de um por um, ora mais altos, ora mais agudos, e bateu com força na cômoda ao lado da porta, escorregando no chão. Apoiou as costas na porta de madeira e encolheu-se, com os joelhos próximos do corpo e as mãos na frente dos olhos, ouvindo seu próprio choro engasgado.
No chão eu me deito
Imóvel em dor
Eu posso ver minha vida passando diante dos meus olhos
Morto eu adormeço
Isso é tudo um sonho
Me acorde, eu estou vivendo um pesadelo
Diversas vezes repetira para si mesmo que não era assim, sua vida era boa, como aprendera na psicóloga, mas iludir-se parecia que apenas piorava, pois um dia cairia por terra. Gostaria não de morrer, mas apagar sua existência. Estragara a vida de sua própria mãe, a pessoa mais importante em tinha e era apenas um estorvo para o professor. Amava-o de verdade, estava apaixonado, fizera tudo que estava ao seu alcance, mas parecia que nunca era o suficiente... Apenas porque não era bom o suficiente... Quem o amaria? Quem o suportaria? Quem sentiria algo além de desejo sexual por si...? Não era nada além de ossos e carne...
E mesmo que fizesse todo o possível para ser feliz era como se não fosse para ser feliz. Tudo o que queria eram coisas bobas, seus sonhos eram pequenos, apenas aquela bobagem que todos têm e não dão bola: como amor. Queria amar e ser amado, mais que tudo, agarrava-se a esta ideia com unhas e dentes e ia atrás do que queria, contudo parecia que apenas não era para ser... Não consigo, não na sua vida. Era um estorvo, então por que existia...? Não queria morrer, não queria fazer as pessoas ao seu redor sofrerem, desejava nunca ter existido, que sua mãe tivesse feito como queria e o abortado, jogado fora.
Eu não morrerei (eu não morrerei)
Eu sobreviverei
Levantou-se a passos cambaleantes e rumou até o criado-mudo ao lado da cama. Estava ali, dentro da gaveta, enrolada em um pedaço de papel. Não estava escondida nem nada do tipo, apenas sendo cuidada... Pegou o embrulhinho com cuidado, abrindo-o com dedos trêmulos enquanto se ajeitava no meio da cama, com as costas escoradas na cabeceira. O conteúdo de dentro tinha certo brilho e era prateado, com promessas infinitas de bem estar e uma vida melhor...
Promessas sussurradas ao vento...
Eu não morrerei, eu esperarei aqui por você
Eu me sinto vivo, quando você está ao meu lado
Eu não morrerei, eu esperarei aqui por você
Em meu tempo de morrer
Não era meio óbvio? Morrer não era a saída. Não depois de todo o trabalho que dera e as pessoas que magoaria. Ou deveria, realmente, morrer. Quem se importava? O problema era que Luke se importava. Importava-se consigo mesmo e todas as promessas que havia feito para si... Gostava de toda a alegria e carinho que sabia que poderia receber. Tinha esperanças e todos os planos que havia feito para o futuro... Entretanto ter esperanças de conseguir ser feliz e gostar de si mesmo eram coisas tão divergentes que sentia jamais conseguir conciliar os dois. Como poderia gostar de si mesmo...?
Tal linha de raciocínio apenas aumentava seu desejo consumidor de se livrar de tudo aquilo. Queria se livrar da dor e da culpa. Toda aquela energia destrutiva também era um motivador. Suas veias queimavam, pedindo para serem libertadas...
Deveria morrer, mas não o faria. Era medroso e covarde, acima disto também era irritantemente esperançoso. Porque todo o amor que tinha poderia ser um nada para o mundo, mas fazia-o tão bem... Tão bem quanto os cortes que ajudavam...
Deitou-se na cama e encarou a lâmina. Deveria? Sim, deveria morrer. Deveria se mutilar? Tal pensamento provocou-lhe uma careta em meio às lágrimas. Mutilação era uma palavra forte demais, ainda que merecesse. Merecia ser machucado, merecia mais ainda por ser um idiota esperançoso. Amava muito, mais que tudo, ao extremo, todavia seu amor não tinha valor...
Por que insistia...?
Nesta cama eu me deito
Perdendo tudo
Eu posso ver minha vida passando por mim
Era tudo muito
Ou apenas não o bastante
Me acorde, eu estou vivendo um pesadelo
Escorou as costas na madeira e puxou sua manga até a altura do cotovelo, expondo a pele clara repleta de cicatrizes, velhas e recentes. Segurou a lâmina firme entre seus dedos e arrastou pela pele, sentindo a ardência masoquistamente gostosa e libertadora... Era justo, afinal. Todas suas frustrações e aquela energia ruim sendo descontado em si mesmo, era um castigo e uma liberdade. Tinha a dor física que, afinal, não era pouca. Ardia ao ponto de soltar silvos baixinhos, todavia a dor física não era absolutamente nada se comparada à dor emocional. À medida que os cortes iam sendo abertos todas aquelas coisas, irritação, culpa, dor, desesperança... Tudo ia embora, como se fosse um remédio... Não, não ia embora pelas feridas abertas, iam embora pela mão que machucava, descontando em si mesmo. Livrava-se de tudo aquilo que tanto o incomodava...
Mais um corte, dois, três, quatro...
... Cinco, seis...
... Sete...
Estava nas nuvens, mais calmo e sereno. Ouvia a si mesmo fungando, mas o choro perdia a intensidade, eram soluços fracos, quase sumindo, não mais desesperados. O ódio de si mesmo ia indo embora, junto da raiva, agonia... Permitia-se até mesmo um pouco de esperança. Todos deveriam ter a chance de serem felizes na vida, certo?
Eu não morrerei (eu não morrerei)
Eu sobreviverei
Deitou-se novamente, erguendo os braços que pingavam sangue e encarando. Algumas pessoas faziam um grande escândalo, mas tratava-se apenas de alguns machucados. Todos se machucam, todos sangram... Eram apenas machucados e se aqueles pequenos machucados faziam-no se sentir melhor consigo mesmo, então por que era um tabu tão grande...? Aos seus olhos assemelhava-se mais a um tratamento, porque lhe fazia bem...
Eu não morrerei, eu esperarei aqui por você
Eu me sinto vivo, quando você está ao meu lado
Eu não morrerei, eu esperarei aqui por você
Em meu tempo de morrer
Pensava em sua mãe e no quanto a fazia mal. Era um péssimo filho, mas daria sua vida por ela. Amava-a com todo seu coração, principalmente por ela ter permitido que ele fosse como fosse, se apenas pudesse mudar quem era... Se pudesse ser um filho melhor, aquele quem ela merecia, e então voltaria a estar tudo bem em casa, mas não o fazia, então era completamente justo e compreensível que ela desmoronasse.
Sua mente vagou, fugindo de casa. A outra pessoa que mais amava era... Era Rafael, bem ou mal era ele, mesmo que este não aceitasse. Em verdade não merecia o amor dele, ele era uma pessoa tão melhor que si... Contudo mesmo que ele pensasse que se tratasse somente de sexo não era sim. Oh, claro, uma parte tratava-se sim, mas com ele sentia-se tão bem... Como se fosse amado, o que era claramente uma ilusão de seu cérebro. Mesmo que ele nem ao menos lembrasse seu nome direito pensava nele o tempo todo, em todos seus ideais... Porque ele era tão incrível e inteligente – além de lindo, claro. Amava-o por completo, da personalidade aos erros, da beleza ao sexo. Infelizmente ele nem ao menos se lembrava da noite que passaram, ou apenas não gostara...
Era assim. Homens sempre queriam apenas seu corpo. Será que o desejariam no momento, com tantas cicatrizes expostas...? Provavelmente não. Muito menos Rafael. Havia aquela linha, porque ou era um puto que gostava de sexo ou um santinho virgem. Mais uma das razões na qual era o esquisito irritante. Gostava de sexo, era pecado, afinal? Mas no fim não passava disto. Porque ninguém iria amá-lo, não quem ele era, era apenas um corpo para se passar uma noite. E jamais passaria disto para o cara que tanto amava...
As lágrimas voltaram.
Eu não morrerei, eu esperarei aqui por você
Eu me sinto vivo, quando você está ao meu lado
Eu não morrerei, eu esperarei aqui por você
Em meu tempo de morrer
Doeu novamente. Sua terapia não durava mais tanto quanto antes. A dor física ia embora e os problemas retornavam. Seu sangue voltava a ser bombardeado mais rapidamente e a ferver. Seus dedos formigavam em ânsia. Seu peito se contraía em todas as simples palavras que ecoava em sua mente e as frases eram boladas, feitas para que sofresse:
Você jamais será amado. Ninguém te quer. Você é um objeto sexual. Quem mandou ir atrás de sexo? Isto é pecado. Ninguém quer um ser sujo assim. Você é irritante. Sua personalidade é um lixo. Deveria se matar. Covarde.
Empurrou a cabeça para trás, de frente para a cabeceira e bateu seu braço ali, com força e mais de uma vez. Doía pouco, nem percebia as feridas aumentando e o sangue escorrendo. Tinha que se livrar daquelas coisas ruins corroendo seu interior. Bateu de novo e de novo. Era dolorosamente agradável. Bateu de novo... E de novo. O choro tornara-se compulsivo e a lâmina jazia perdida, jogada no chão. Tinha tanta raiva de si mesmo...
Por quê...?Por quê...?Por quê...?
Eu não morrerei, eu esperarei aqui por você
Eu me sinto vivo, quando você está ao meu lado
Eu não morrerei, eu esperarei aqui por você
Em meu tempo de morrer
Ocasionalmente trocara o braço até que os dois mutilados estivessem igualmente espancados. Novamente o choro fora embora vagamente, deixando uma paz tranquila e instável. Fechou os olhos e encolheu todo seu corpo, abraçando a si mesmo até que o cansaço venceu e o sono levou-lhe embora.
Estava tão cansado de viver e agarrar-se a esperanças infantis quando não deveria...
.
Seu celular apitou pela quarta vez desde que chegara ao local. Pegou-o e leu a nova mensagem, decidindo por ignorá-la. Guardou o aparelho de volta no bolso, sentindo uma pontada de culpa. Não deveria ser grosseiro e recusar-se a responder, não a alguém que era tão gentil e ajudava-o tanto...
“De: Blue Bird
29 de agosto, às 15h24min
Onde vc está? Seja gentil e me diga pq já saí de casa :-)”
“Para: Blue Bird
29 de agosto, às 15h26min
Eu disse para não vir, por favor...”
“De: Blue Bird
29 de agosto, às 15h27min
Depois de tudo o qe me contou?? É claro qe eu n vou te deixar sozinho! Vc msm disse qe n queria ficar sozinho u.u”
“Para: Blue Bird
29 de agosto, às 15h29min
Isto não é um encontro e eu não disse que levaria alguém...”
“De: Blue Bird
29 de agosto, às 15h30min
Vc acha qe ele vai se importar? Não seja bobo, vc vai ficar sofrendo a tarde toda á toa? Eu aposto qe ele vai se sentir mais confortável em vc levar algém... Ou mais incomodado e vc adoraria :-3”
“Para: Blue Bird
29 de agosto, às 15h34min
Hahaha você é má, eu não gostaria! Eu quero que ele seja feliz...”
“De: Blue Bird
29 de agosto, às 15h34min
Ele tbm deveria qerer qe vc fosse feliz. Agr é sério, me diga onde vc está gato, os caras estão me olhando estranho...”
“Para: Blue Bird
29 de agosto, às 15h36min
No chafariz. Quer que eu vá ajudar?”
“De: Blue Bird
29 de agosto, às 15h37min
N precisa, já estou indo :*”
– Oi Thiago.
Ergueu o olhar do aparelho que mantinha em mãos e o fitou. Seu coração pulou acelerado, traindo todo seu corpo. Repuxou os lábios em um sorriso sincero que durou poucos segundos, sendo logo substituído por um forçado. Ao lado de Erick estava sua “namorada”, a jovem dos longos cabelos louros falsos, agarrada ao braço do moreno de forma desnecessária.
– Oi Erick, oi Alice...
– Desculpe o atraso, a Alice... – murmurou Erick, sendo cortado pela voz estridente e agitada da namorada.
– Ah, sim, desculpe o atraso, mas você sabe como é, tem que escolher a roupa direitinho, se maquiar... Não é fácil ficar linda. Mas o meu amor é tão querido que nem reclamou de ficar esperando – completou a garota, repuxando os lábios pintados em um grande sorriso, sendo desmanchado somente para que esta pudesse bicar a bochecha do namorado.
Sentiu ânsia de vômito e não era exagero. Seu estômago revirara perante tal cena e palavras. Desejava realmente que Erick fosse feliz, amava-o assim, todavia sentia-se traído pelo próprio corpo ao incomodar-se tanto com a presença da namorada deste...
– Tudo bem, foram só... – pausou e olhou no celular, observando que não havia nova mensagem. – Uma hora e trinta e nove minutos de atraso...
– Acontece – respondeu a loira, dando de ombros. – Aonde vamos? Passear? Tomar um chocolate quente? Ir a algum lugar em específico? Eu não gosto de jogos, gosto de coisas mais românticas... – a loira interrompeu sua própria linha de raciocínio, virando-se na direção de Thiago. – Seria legal se você conseguisse alguém, assim poderíamos ir ao cinema.
Abriu a boca, porém nem tivera tempo de pronunciar o pequeno “na verdade...” tão clichê e avistara longos cabelos azuis claros numa menina extremamente pálida com um vestido de veludo vermelho vivo, uma meia-calça preta e botas de cano-longo. Seus lábios separaram-se e o moreno ficou literalmente de boca aberta quando a garota virou-se e sorriu, vindo à sua direção. Esperava uma menina que chamasse a atenção sim, talvez com o cabelo desbotado, fotos com um tanto de edições... Mas não, ela era exatamente como vira e não era atoa que chamava atenção...
– Thiago...? – ouviu a voz de Erick vagamente lhe chamar, sendo abafada por uma mais alta, feminina, exaltada e feliz.
Levantou-se do banco onde estava sentado um tanto sem graça quando viu que a garota já o alcançava em um abraço surpresa, empurrando-lhe um passo para trás. Retribuiu ainda mais envergonhado e tímido.
– Hey Blue Bird...
– Thi! Eu não acredito! Você é tãaaaaaoo mais lindo ao vivo! E esse cabelo! Estou tão feliz em te ver!
Recebera um segundo abraço, mais animado e apertado que o primeiro. Retribuira mais envergonhado ainda. Ela era pequena, magra e baixinha, com a altura camuflada pelas botas de salto que a deixavam mais alta que Alice. Era muito bonita e extremamente fofa...
... Porém não era Erick...
– Ah então, desculpem, essa é a Anitta, nos conhecemos na internet. Anitta, esse é o Erick e a sua... Namorada, Alice.
Torceu mentalmente para que Anitta não fosse inocente e desse com a língua nos dentes o que, de fato, ela não fez. Sorriu para o casal e cumprimentou-os, após voltando-se para si com um enorme sorriso, expondo seus dentes brancos que seriam capazes de chamarem a atenção... Se toda sua aparência já não fizessem isto por ela.
– Estou tão feliz em te ver! Você é tão lindo... Ele não é lindo? – perguntou olhando para trás, especificamente para Erick. As bochechas do garoto na hora ganharam um tom avermelhado. O sorriso dela aumentou antes que virasse de volta para frente. – E o seu cabelo é tão perfeito... Parece tanto com o do meu Bill amor! Eu amo o vocalista do Tokio Hotel, aquele maldito que cortou o cabelo. Vocês gostam de Tokio Hotel?
Novamente a menina dos cabelos azuis virou-se para trás, com uma mão casualmente repousada no rosto pálido de Thiago.
– Eu já ouvi por causa do Thiago... É bom... – respondera Erick, parecendo um pouco... Fechado, mais que o normal. Já sua namorada fez uma careta.
– Eu não gosto de bandas inglesas, prefiro entender o que a música diz – respondera a loira de forma confiante, empinando o nariz minimamente em um gesto automático e sorrindo.
– Oh, então você não gosta de pensar... Porque se é pela língua é só pesquisar, mas eu percebo que você apenas não entende o que dizem mesmo, o significado, porque não quer pensar. Aliás, Tokio Hotel é uma banda alemã, não inglesa e a maioria das bandas que você já ouviu falar e que cantam inglês são norte-americanas, novamente, não inglesas. – Anitta disse assim, tão simplesmente e com um sorriso tão fofo que nem se acreditava naquelas palavras ofensivas. Eram como se fossem... Doces e explicativas. Thiago ergueu o olhar da loira assustada e irritada para Erick, que o encarava igualmente surpreso.
– Como eu diss-
– E o Thiago parece tanto com o Bill amor da minha vida! – pela primeira vez alguém conseguira interromper Alice, para surpresa geral, e esta era Anitta. – E ele é tão amor... Queria levar para minha casa – dissera de forma doce, empoleirando-se para beijar sua bochecha.
O moreno sorriu sem graça, vendo que a garota não mentira em nenhum momento quanto a sua personalidade.
– Vocês são namorados? – questionara a loira, curta, rápida e ríspida, incomodada por ter sido interrompida anteriormente.
– Não. Mas porque o Thi não quer, por mim seríamos.
– Porque ele é homossexual – intrometera-se Erick, recebendo um olhar surpreso de Thiago. Anitta apenas sorriu mais ainda e retribuiu seu olhar com um de desdém.
– Bissexual. Isto significa que ele fica com meninos e meninas porque ele gosta da pessoa por ser quem ela é, independente do sexo, como eu. Esperava que você soubesse isto, já que é o melhor amigo dele...
O queixo de Thiago caiu em derradeira surpresa. Realmente Anitta fora sincera e dera sua palavra, não enfrentava nenhum dos dois, todavia suas palavras eram afiadas e calculadas, não condizentes com seu tom meigo e alegre, como se tudo não passasse de uma brincadeira...
– Você fica com meninas? – Alice perguntou torcendo o nariz. Era característico seu falar demais e interromper as pessoas, contudo Thiago percebera que mesmo não sendo interrompido Erick não responderia por falta de palavras.
– Sim, quando elas são legais, bonitas e inteligentes.
– Quer dizer que ficaria comigo? – torceu o nariz novamente, agarrando-se mais ao braço do namorado. Recebera uma risada em resposta.
– Não! Claro que não! Já expliquei meu tipo e você está muito longe dele, nem se preocupe.
Sim, era uma ofensa. Erick percebera de imediato, Thiago entendera e Alice notara, mesmo assim nenhum tinha coragem de expressar em palavras a indireta da jovem de cabelos azuis. Nenhum deles manipulava as palavras da mesma forma que ela...
– Então... Aonde vamos? – indagou a moça de cabelos azuis, pondo-se ao lado de Thiago.
– Alice queria ir ao cinema... – comunicou Thiago. – Agora podemos ir, se você ainda quiser...
– Sim, eu ainda quero ir. Tem um romance passando no cinem-
– Urgh, romance – resmungou Anitta, conseguindo a proeza de interromper Alice pela segunda vez em menos de meia hora. – Eu prefiro terror e eu acho que os meninos também, Thiago me disse que ele e Erick gostam muito deste gênero. Democracia: três ganham de um. Vamos ver terror!
Anitta ergueu ambos os braços em uma pequena comemoração enquanto todos começavam a caminhar, em direção ao cinema.
– Mas... – Alice começou, não encontrando as palavras necessárias.
De surpresa uma música começou a tocar, o refrão de Monsoon, da banda alemã Tokio Hotel, vindo do bolso de Thiago. Anitta exclamou algo em comemoração pela escolha musical enquanto o moreno pegava o celular do bolso e lia no visor o nome de Bryan. Atendeu.
– Oi Bryan, tudo bem?
– Sim. Oi Thiago, quer vir jogar videogame? Pedro, Matheus e Mi C- Lucas estão aqui.
Percebera que recebia olhares atentos dos três que não conversavam entre si, acompanhando sua conversa no telefone.
– Ah, eu adoraria, mas no momento estou indo ao cinema...
– Com o Erick? – ouviu a voz de Bryan exaltar-se do outro lado da linha. Sorriu minimamente.
– Com o Erick, Alice e mais uma menina.
– Seria um encontro duplo...?
– Bem... Parece, mas não é. Você sabe o porquê...
– Ah, sim... O próximo número que eu ia ligar era o do Erick, mas se vocês estão indo ao cinema... Apenas passe o recado, certo? Caso queiram vir depois da sessão...
– Sim, mas... Você não tinha um jantar hoje à noite, Bryan? Com seus pais e Pedro?
– Tinha... Mas então briguei com meu pai e cancelei.
– Está tudo bem?
– Está. Ele só anda pegando muito no meu pé e brigamos. Longa história... Eu conto segunda, se quiser saber.
– Ok, vou passar o recado para Erick. Tchau Bryan, bom jogo.
– Obrigado e bom filme. Até.
O telefone emudeceu, então desligou-o, guardando em seu bolso. Ergueu o olhar e percebeu que todos estavam o encarando em expectativa, esperando para saber sobre a conversa. Sorriu simpático.
– Era o Bryan nos convidando para jogar videogame, Erick.
Erick fez uma expressão simples. No momento não parecia se importar com coisas como um convite, estava mais interessado na moça dos cabelos azuis e esta prontamente percebeu, sorrindo para o nerd que desviou o olhar.
– E eu não? – indagou Alice.
– Não... Acho que Bryan queria apenas meninos – defendeu-se Thiago, compartilhando com Erick o raciocínio de que nem em mil anos Bryan convidaria a loira para sua casa.
– Esse Bryan que vocês falam... É emo?
– Sim...
A garota do vestido vermelho e madeixas azuis fez uma careta.
– Bryan Lestreep?
– Eu não tenho certeza do sobrenome dele, não estudamos na mesma sala... Erick? – puxou Thiago, recebendo um olhar desconfiado do amigo.
– Sim, é este o sobrenome dele. Então o conhece...
– É, estudamos juntos... Ele nunca gostou muito de mim, Bryan não é uma pessoa fácil, principalmente se você for uma menina. Ele prefere ficar mais no seu canto...
Os meninos se entreolharam, mudos. Não poderiam discutir aquele assunto na frente dela, mas com certeza outro dia, provavelmente no colégio... Talvez na presença do moreno... Tinha algo ali...
– Por que seu cabelo é azul? – interrompeu Alice, fazendo a pergunta mais estúpida que os três ali presentes já ouviram.
– Por que um smarfie vomitou no meu cabelo – sorriu Anitta, tão simplesmente quanto podia.
A loira fechou a cara, contrariada e incomodada com a presença da adolescente de cabelo azul. Ela podia ser uma garota, mas não continham nada em comum. Agarrou-se mais ao braço do namorado, desviando o assunto para ele e ignorando os outros dois “estorvos”.
Seria um longo filme...
.
Durante todo o filme fora assim. Thiago sentara entre Erick e Anitta e fazia o que sabia fazer de melhor: distorcer as falas do filme legendado. Ora para a jovem de cabelo azul, ora inclinando-se na direção do nerd, sussurrando palavras bobas que faziam o mais novo rir e inconscientemente se arrepiar com o bafo quente ao pé de seu ouvido. Alice não gostava de ser excluída e no meio de uma frase de Thiago puxou o braço de Erick com força.
– O que ele está dizendo? – perguntou um tom mais alto, sendo repreendida pelo casal à frente.
– Ele está mexendo nas falas do filme para aquilo que os personagens realmente querem dizer.
– E como ele sabe o que eles realmente querem dizer?
Erick deu de ombros. Este era o lado ruim de começar a sair com Alice, ela simplesmente perdera o encanto. Gostava dela, mas não como antes, não tão perdidamente apaixonado. Ela era linda sim, todavia carecia de muita atenção e estar sempre por dentro do assunto; sempre estar certa. Era um pouco irritante.
– É apenas uma brincadeira – sussurrou baixo, percebendo que a namorada preferia comer pipoca a assistir o filme. Ela era linda sim, quando sorria, quando se empoleirava para lhe encostar os lábios... Meiga e doce quando queria...
Ela não fazia seu coração acelerar ou seu corpo corresponder de forma positiva...
– Hey, eu preciso ir ao banheiro, mas não quero ir sozinha, tenho medo. Você vem comigo? – pediu Anitta, espalhando todo seu corpo no colo de Thiago, com os cotovelos nas pernas de Erick.
– Eu acho que podemos pular essa parte do filme sim – acelerou a loira, referindo a cena de perseguição, já se levantando e saindo pelo lado direito. Anitta a seguiu, depositando um beijinho na bochecha de Thiago e um “comporte-se” sussurrado antes de pedir licença para os meninos e sair.
O silêncio reinou por alguns momentos, apenas com o áudio do filme americano e as pipocas sendo mastigadas. Surgiu uma cena onde a mulher elogiava a camisa do homem e Thiago não perdeu a chance, inclinando-se e sussurrando uma segunda versão da fala. Erick riu.
– Isso não te lembra algo...?
Entendera a que Thiago se referia e engoliu em seco com a memória. Sentira a mão deste vir se juntar a sua tão tranquilamente, como se fosse normal... Seu rosto parecia irritantemente mais próximo e sua respiração já pesava. Por quê...?
– Thiago... — murmurou sério em tom de aviso, querendo afastá-lo antes que aquilo se tornasse mais estranho.
O moreno sorriu e inclinou-se, depositando um beijo em sua bochecha quente.
– Vamos continuar sendo amigos, certo?
– Isto que você está fazendo não é ser amigo.
Erick puxou sua mão, sentindo que esta já começava a suar. No segundo seguinte arrependeu-se vendo os olhos de cachorrinho sem dono de Thiago. Ele parecia realmente magoado.
– Eu só... Achei que continuando sendo meu amigo não teria nojo de mim.
– Eu não tenho. Nunca tive. Você sabe disso.
– Agora que tem namorada você não gosta nem que eu te toque. Se eu fosse heterossexual, então você deixaria?
Os sussurros não poderiam soar mais interessantes do que estavam sendo. Parou e fitou a Thiago, de verdade, e ele estava tão próximo... Parecia que o escuro apenas o deixava mais atraente, com a luz da tela iluminando-o... Seus olhos brilhantes e sinceros, seus lábios avermelhados...
Não, não queria beijá-lo.
Ou pelo menos era o que dizia para si mesmo.
– Alice interpretaria errado – murmurou, sentindo seu peito acelerar como não deveria. – E Anitta também.
Novamente sentiu a mão cálida do moreno juntar-se a sua e desta vez não recuou, permitindo o contato. Thiago repuxou os lábios e expôs todos aqueles malditos dentes brancos em um sorriso perfeito.
– Anitta não se importaria, ela é-
– Alice sim e ela é minha namorada – interrompeu-o, despejando quaisquer palavras. Porque não gostava de Anitta de toda e qualquer forma. Não gostava dela, de seu comportamento, de como ela sempre insistia no quanto Thiago era lindo e uma boa pessoa... E mais ainda, não aguentava a forma como Thiago a defendia, como se ela fosse uma boa pessoa.
Então caiu por terra e percebeu a grosseria que dissera quanto o sorriso que tanto admirava foi-se embora. Era característico seu ser um tanto estúpido e nunca se importara, de verdade. Thiago também não...
Então por que sentia que algo estava tão terrivelmente errado...?
– Você está certo...
Sentiu a mão que não estava junto da sua fora parar em seu queixo, erguendo seu rosto. Percebeu, também, quando Thiago inclinou-se, alcançando seus lábios em um selinho suave. Ele não pediu passagem com a língua; Erick também não o fez. Somente sentir novamente os lábios de Thiago no seu... Depois de tanto tempo e depois de tantos outros de Alice...
– Não vou mais tocá-lo e incomodar seu relacionamento.
Limitou-se a fita-lo enquanto Thiago se afastava, perdendo completamente o contato. O emo voltara a fitar a tela, como se nada tivesse acontecido. Sentia seus lábios e sua mão formigarem, sem falar no sangue em seu rosto e seu estômago revirando. Sentia que deveria fazer algo, mas a verdade era que não, não deveria, porque era assim como tinha que ser. Alice era a sua tão querida namorada...
Ou assim deveria ser...
E as meninas estavam de volta, parecendo um pouco mais amigas, conversando um pouco. Deveria ser um bom sinal, todavia não conseguia sentir-se bem com a situação, não sentindo que seria obrigado a sair novamente com Thiago e sua “quase-namorada”...
Não sentindo que as coisas estavam tão fora do lugar...
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