Emo-ções - Por Todos Os Motivos Errados

10 Capítulo 10: Talvez eles te deixem em paz, mas não


Notas iniciais
Capítulo 10: Talvez eles te deixem em paz, mas não a mim.
O Nyah! Fanfiction tá de sacanagem comigo e não deixa capítulos com títulos grandes! Pois eu já vi livros com o nome do capítulo gigaaante, ok Nyah?
O pedacinho de música que aparece ali embaixo como fala do Bryan e do Luke é: Teenagers - My Chemical Romance.

Hoje finalmente é segunda-feira, depois de um fim de semana conturbado e problemático que ficou para trás. Superei, ou não. Apenas consigo esconder e guardar dentro de mim.

Aliás, minha mãe me tirou meus remédios. Escondeu. Grande merda, ela mesma me fode dando os remédios errados para que eu tome.

Estou quase chegando ao colégio com meu coração aos pulos e meu estômago revirando. Não é medo, é receio. Mas eu juro que hoje não vou levar desaforo para casa.

Respirei fundo e adentrei pelos portões do colégio. Fingi não perceber nada a minha volta e fixei meu olhar à frente, mas haviam vários olhares voltados para mim acompanhados de sussurros e fofocas.

Segui por dentro do colégio até minha sala de aula. Esta se encontrava vazia, para minha sorte. Sentei-me em meu habitual lugar e suspirei. Logo, um sorriso oculto apareceu em minha face. Espero que dê tudo certo.

Passaram-se alguns minutos. Uma garota entrou, largou sua mochila e saiu. Fiquei a fitar o quadro branco esperando que o sinal soasse ou que Erick chegasse.

Ouvi barulho na porta e, automaticamente direcionei meu olhar para ela, sem realmente me interessar por quem fosse entrar. Era somente um garoto desconhecido, mas ele me olhou fixamente e veio até mim.

-Bryan, ‘né? – o garoto perguntou daquele jeito de quando você sabe o nome da pessoa, mas não quer mostrá-la que você sabe sem nunca terem se falado.

-Eu – respondi sério ao seu chamado, sem me intimidar por seu – belo – porte físico.

-Bryan, quer ficar comigo?

Ergui uma sobrancelha com tamanha a cara de pau do garoto. Não achei que um dia eu passaria por tal situação. Sei que corei, mas fingi que não. Que colégio esquisito! Nem ao menos em meu outro colégio, o qual era bem maior que este, havia tamanho número de homossexuais.

-Não – respondi, cortando-o. Minha língua já estava bem suja de ter beijado Alex, Mi comi, Pedro e Matheus em mais ou menos um mês de aula.

-Vamos, não se faça de difícil. Você é um garoto, mas tem uma ‘bundinha e tanto, ‘ein? Eu só quero ver como é ficar com um garoto.

Esse é o filho da puta que me deu um tapa descaradamente!

Sem responder levantei-me, agarrei minha mochila e fiz menção de me afastar, porém ele me agarrou pelo braço.

-Me solte! – ordenei irritado, puxando meu pulso com força.

-Você não vai sair assim.

-Supere. Você levou um fora de um garoto! Não se preocupe, não vou contar sobre o seu “interesse em novas aventuras”. Agora me solta ou vou espalhar para todo o colégio!

-Ninguém acreditaria mesmo.

Virei-me de volta para ele, aproximando-me de si e encarando-o desafiadoramente. Hoje não sairei por baixo.

-Queres apostar? Arrisque e descobrirá se irão acreditar.

Ele deu um passo à frente e me roubou um selinho. Forcei meus lábios, recusando-me veementemente a ceder. Quando ele desistiu e se afastou me encarou.

-Idiota. Achas mesmo que irei ficar com um ‘heterozinho de merda? Eu não. Tenho minha reputação para manter.

Sem deixá-lo responder me soltei e andei rápido até a porta. Apressei-me e dobrei um corredor com somente algumas garotas de minha aula conversando. Escorreguei na parede e escondi meu rosto nos joelhos.

Sorri. Um daqueles sorrisos que chega de mansinho e enche seu peito de alegria. Daqueles que você tenta puxar o canto dos lábios para baixo, mas é em vão.

Na verdade, eu gostaria de ter dito aquilo a Pedro. Ele merecia ouvir isso. Ele mesmo declarara ter vergonha de assumir namoro comigo, então agora seria minha vez.

-Tudo bem Bryan? – perguntara uma voz feminina. Ergui o rosto ainda sorrindo, estranhando que uma garota estivesse falando comigo.

-Tudo – respondi a loira de pé a dois metros de mim junto a duas outras meninas.

-Os garotos estão implicando com você? — Qual é a dessa curiosidade repentina por mim?

-Sim e não. Está tudo bem – respondi tentando ser educado. Levantei-me e fugi dali tão rápido quando fui parar lá.

Garotas são fofoqueiras. Estipulo que deve ser este o motivo da curiosidade de outrora.

Afastei-me sem saber para onde ir. Vaguei pelo corredor até perceber que estava próximo a sala da outra turma do primeiro ano. Sem perceber passei na frente da porta e foi aí que me fudi.

-Bryan?

Olhei para dentro da sala rapidamente, na intenção de me mandar. Porém, ao perceber que aquela voz conhecida pronunciara meu nome de forma tão calma não pude me conter. Mi comi é escandaloso e grita, mas desta vez não.

Fitei-o. Lucas estava do outro lado da sala, encarando-me seriamente. Ele se levantou e caminhou na minha direção, ainda calado. Chegou bem próximo. Vestia uma camisa xadrez preto e branco de manga curta e botões. Seus olhos estavam contornados de preto embaixo e roxo encima, na pálpebra. Não sei se é impressão minha, mas ele parece mais alto.

-Você está lindo – ele comentou abrindo um enorme sorriso falso, como todas suas atitudes. Abraçou minha cintura, apertando. Realmente ele está mais alto.

-Bryan, você assina meu caderno? – ele perguntou sem descolar de mim. Tentei empurrá-lo pelos ombros, mas ele somente grudava mais.

Felizmente o sinal auto e irritante tocou, ele nunca me parecera tão agradável.

-Eu tenho coisas mais importantes para fazer. Agora me solta Lucas, tenho que ir para a aula. – É estranho chamá-lo de Lucas e não Mi comi.

-Tá! Mas depois passe aqui! Vamos ficar o intervalo juntos! – ele disse e eu admito que pensei merda nessa frase.

-Claro, claro – menti, desgrudando-o de mim. Ele me fitou uma última vez com olhos de cachorrinho sem dono e um sorriso enorme, mostrando todos seus dentes parelhos.

-Tá bom, vou esperar!

Afastei-me e entrei em minha sala de aula cheia. Estranhei a ausência do professor. Os olhares focaram-se fixamente em mim, com vários comentários impregnando o lugar. Sentei-me normalmente, percebendo que, a minha frente, no antigo lugar de Pedro encontrava-se Erick.

-Oi – cumprimentei sorrindo.

-Oi – ele respondeu, analisando-me dos pés a cabeça. –Está legal – concluiu com um sorriso, alegrando-me.

-Obrigado – respondi.

-O ‘viado já está se afeminando mais ainda! Até que demorou!

-Está mais nojento ainda!

Escolheram um péssimo dia para implicar comigo. Virei meu rosto para trás, constatando o que já supusera; eram os garotos do grupo de Pedro. O que me surpreendeu foi o fato de que o garoto que pedira para ficar comigo estava ali no meio.

-Que tanto olha? Tá excitadinho?

-Que nojo!

Ri ironicamente, girando meu corpo e jogando as pernas para o corredor, ficando de lado para os meninos e de lado para Erick. Cruzei as pernas e apoiei o cotovelo na classe ao meu lado direito, anteriormente atrás de mim.

-Pelo contrário, só de olhar para vocês broxo. Nem um é ‘pegável.

Preciso dizer que todos soltaram alguma interjeição? Ouvi Erick rir baixinho, satisfeito com minha atitude.

-Até parece! Está sempre de olho aqui!

-Pois é, ficava se molhando todo para o Pedro!

-Ai, que nojo Pedro! Como conseguiu aturar um garoto desses? Você só pode ser gay!

-Imagina que nojo andar com um gay?

Pedro estava prestes a responder quando o interrompi, batendo com força minha mão de unhas bem pintadas na classe.

-Nojo de andar com um gay? Não me façam rir! Há mais de um garoto aí no grupinho de vocês que já pediu para ficar comigo! Acham que estão seguros e que homossexualismo é algo repugnante? Então olhem para os lados e vejam seus amiguinhos que estão no armário!

O silêncio predominou. Minha frase se espalhara pela sala inteira, pois fizeram silêncio para escutar.

Como uma bomba que estoura, todos os garotos soltaram interjeições e questionamentos simultaneamente. A sala se tornou uma zoeira, mas felizmente – ou infelizmente – a professora chegou, calando a todos.

O tempo foi passando. Todos me olhavam a todo instante, inclusive Pedro. O terceiro período era de história.

É tão estranho não ter a visão do olho esquerdo. Quero dizer, ter eu tenho, porém é completamente escura. Eu não consigo ver a parede ao meu lado! Sério! Algumas pessoas podem achar um desperdício de visão uma franja tapando um olho, mas eu não me importo de fazer este sacrifício, pois, assim me vejo mais bonito.

Outra coisa: meus piercings. Parece que meu lábio inferior está mais pesado! É automático puxar o piercing com os dentes e, mesmo que doa um pouquinho é legal a sensação. Juro que não sou masoquista.

Em um determinado momento da aula o professor começou a falar da Grécia e vi ali uma chance de mudar o rumo daquela aula.

Com o coração pulando e as mãos trêmulas chamei pela professora. Tive de chamá-la três vezes até uma garota interrompê-la bruscamente e exigir que ela desse atenção ao aluno que a chamava.

-Pois não Bryan?

Fez-se silêncio. Tudo bem que nunca falo nada em aula, nem ao menos dúvidas da matéria, mas era mesmo necessário que todos os curiosos parassem suas conversas para me ouvir? Engoli, trêmulo e reuni o máximo de coragem.

-Em meu antigo colégio minha professora disse que os gregos eram em maioria gay, pois dava mais prestígio andar com um homem do que com uma mulher. Mulheres que andavam com homens eram consideradas de má reputação – para não dizer outra coisa.

Percebi todos os olhares atentos na professora. Alguns garotos – obviamente os homofóbicos que andam com Pedro – resmungaram algo sobre ser impossível.

-É verdade – ela respondeu depois de um período silencioso. Todos começaram a falar ao mesmo tempo. –Hey! Silêncio! Vocês estão em aula. Eu estou passando matéria!

Sorri diabolicamente satisfeito

-Veja como as coisas são professora. Os gregos, o exemplo de toda a sociedade eram gays. Não foram eles quem fizeram o modelo perfeito do corpo humano? Todas aquelas beldades...

-Isso é nojento! Não quero saber mais nada sobre a Grécia!

-Só pode ser mentira! Bryan que é nojento e fica inventado essas coisas!

E mais uma vez as frases mais homofóbicas que se destacavam eram aquelas que vinham do grupo de garotos atrás de mim.

-É verdade! – exclamei indignado, voltando-me para trás. –Dava mais prestígio andar homem com homem e manter relações entre eles. São estes os exemplos de vocês quando fazem exercícios para terem músculos!

-Você tem que estragar tudo só porque é repugnante! Maldita hora que você veio para nosso colégio!

-Oh, coitadinho, se sente ameaçado!

-Meninos, chega! Parem de chamar o Bryan de gay só porque ele tem um estilo diferente.

-Não professora, eles estão certos – respondi, encarando seriamente a professora alta de cabelos loiros curtos. –Eu sou gay mesmo – contei-a, sem intenção de esconder. Afinal, eu beijara Matheus na frente da turma.

-Viu só que nojo ‘sora? Ele beija garotos na nossa frente! O Maurício está até traumatizado!

-Verdade ‘sora! Não consigo mais dormir a noite, tenho pesadelos!

-Há, há! E eu tenho pesadelos com o rosto de vocês! Quando acordo cogito a possibilidade de pular pela janela para acabar com meu sofrimento, pois meus pesadelos se tornam reais cada vez que tenho que vir para o colégio!

-Hey! Atenção aqui, ainda estamos em aula. Deu de briga!

-‘Viadinho mentiroso! Você só quer saber de agarrar tudo que é garoto que vê pela frente!

-Mentira! – assustei-me em perceber que Erick se metera na conversa. –Em nenhum momento Bryan deu encima de mim. Até porque, sou hetero.

-Garanto que você e o Bryan fizeram um troca-troca, nerd ridículo!

-Agora só porque me dou bem com um homossexual tenho que ser gay? Vocês são tão idiotas!

-Eu disse chega! Voltem à ordem! – a professora comandou, batendo palmas fortemente. Todos a ignoraram.

-Grande merda! Quando Pedro andava com Bryan ele só queria saber de dar o cú para o Pedro!

-Deu de palavras de baixo escalão e ofensas, estamos em aula! Prestem atenção aqui!

Levantei-me bruscamente, deixando a cadeira estourar no chão em um baque alto. O sangue ferveu em minhas veias, obrigando-me a fechar as mãos em forma de punhos.

-Mentiroso de merda! Eu nunca dei encima de você, Pedro! – gritei, metendo-o na discussão. Um amigo dele se levantou, seguido do próprio Pedro. –Então é isso que você conta? Que sou um putinho de merda que deu encima de você? Em nenhum momento eu fiz isso!

Fuzilei-o com os olhos, querendo partir para cima ali mesmo. Ele se encontrava sério e calmo, como se procurasse uma resposta.

-Você teve interesse em mim sim!

Furioso, passei a mão sobre minha classe, peguei tudo que encontrei e joguei na sua direção. Um lápis, uma caneta e um corretor líquido. Pedro protegeu o rosto com os braços.

-BRYAN! – a professora gritou, mas eu ignorei.

-Diga que sou um gay de merda! – desafiei-o. Se ele disser uma única palavra... –Vamos Pedro, me chame de ‘viadinho que só quer dar! Xingue-me! – Juro que conto sobre o beijo!

-Bryan, chega! Saia da sala agora! – a professora gritou novamente, como se eu fosse lhe dar ouvidos.

-Abra sua merda de boca e diga algo!

Seu silêncio me enfureceu mais ainda. Dei dois passos em sua direção, enfurecido. Alguém me segurou por trás, provavelmente Erick.

-Vamos ver se você não apanha para um viado! Veremos quem pode mais!

-BRYAN, VOU TE ARRASTAR PARA A DIRETORIA! – minha professora se descontrolou, berrando para o colégio todo ouvir.

-Professora, com todo respeito, mas a senhora não tem o direito de tirar o Bryan! – disse uma garota no meio da sala, chamando minha atenção.

-É verdade – completou outra menina, uma morena de cabelo curto e cachos – Desde que ele chegou tem ficado quieto num canto, sem machucar nem ofender ninguém. Quando debochavam dele Bryan somente ignorava. Um dia todo mundo estoura!

-Professora, quando os meninos xingaram Bryan de tudo que era possível, debocharam, ofenderam e praticaram bullyng a senhora não fez nada, agora não pode culpá-lo – intrometeu-se Erick, surpreendendo-me. Virei o rosto e o vi vermelho como um pimentão, mas encarando a professora decididamente.

-O que está acontecendo aqui?! – perguntou uma professora da turma ao lado, adentrando a sala. Seguindo ela encontrava-se uma multidão de alunos curiosos, prestes a invadir a sala.

Quer saber o que aconteceu? Fomos parar na diretoria. Eu, Pedro e mais seu grupo de amigos. Eu já sabia que isto iria acontecer. Pelo menos não vim sozinho.

Estamos dentro da secretaria, esperando a professora explicar o ocorrido para o diretor. Por azar – ou sorte – a minha o diretor está no colégio hoje. Acho estranho o fato de a diretoria ser dentro da secretaria, pois em meu outro colégio não era assim, mas claro que meu outro colégio era maior. Bem maior.

-Ainda não acredito nisso! Já implicamos com todos os excluídos, já até batemos em alguns! Mas agora só porque o gayzinho se ofendeu tivemos de vir para a diretoria! – comentou de novo um garoto estressado que não sabe se calar.

-Quer reclamar do que Paulo? Discutimos na frente da ‘sora, óbvio que daria merda!

-É tudo culpa desse ‘viadinho de merda!

Voltei-me para eles, erguendo o queixo e fitando-os de cima superiormente, implicando propositalmente.

-Culpem a si mesmos por serem tão homofóbicos. Só porque não tenho interesse em nenhum de vocês se sentiram intimidados e tiveram de tentar me colocar para baixo para se sentirem melhor e “remendarem” a ferida em suas masculinidades.

Obviamente eles tiveram de discutir, sentindo-se ofendidos. Virei o olhar de volta e comecei a morder meus piercings, sugando meu lábio inferior para dentro da boca.

-‘Lincença, saiam da frente!

Olhei para a porta e vi Luke com a franja azul empurrando alguns dos alunos na porta. Ele veio até mim sorrindo com os lábios fechados, retirando resmungos irritados dos garotos presentes.

-Conseguiste!

-Sim – respondi sorrindo, deixando que ele sentasse ao meu lado. Descansei a cabeça em seu colo enquanto os homofóbicos reclamavam cada vez mais.

-Os alunos estão todos curiosos querendo saber o que se passou.

Sorri, apreciando o belo rosto de Luke. A pele branquinha, os olhos azuis agora melhores e os lábios clarinhos de batom, semelhantes aos de Pedro – retirando o batom.

-E o que você está fazendo aqui?

-Quando os gritos começaram a se espalhar pelo colégio nossa ‘sora foi ver o que estava acontecendo e a maioria dos alunos foi atrás. Daí nós combinamos de ninguém voltar para a aula. Aliás, Lu está te procurando.

-Pode ir se retirando daqui, ‘viadinho do cabelo colorido! Já temos que aturar esse lixo aí que é nosso colega, pior ainda mais um!

Luke sorriu para mim e estendeu a mão na direção dos meninos, gesticulando aquele sinal com o dedo do meio tão conhecido. Eu ri, sendo acompanhado por ele. Mais uma vez eles começaram a discutir.

-“Eles vão arrancar sua cabeça, fazer em pedaços as suas aspirações” – ele me disse àquela frase que eu já conhecia. No dia em que Luke me ajudou a mudar ficamos a ouvir musica e esta foi aquela que mais ouvimos.

-“They said all teenagers scare the living shit out of me,\\They could care less as long as someone'll bleed.\\So darken your clothes,\\Or strike a violent pose,\\Maybe they'll leave you alone, but not me.” – cantarolei em ingles vendo que ele entendia e os garotos ali presentes calavam a boca para me escutar. Como se algum deles entendesse ingles. Eu sim, já fiz curso.

O que eu falei, basicamente foi: Eles dizem 'todos os adolescentes tem muito medo de mim',\\Poderiam se importar menos, contanto que alguém sangrasse.\\Então escureça as suas roupas\\ou faça uma pose violenta,\\Talvez eles te deixem em paz, mas não a mim.

-Garotos, podem entrar – anunciou nossa professora, pouco interessada na presença de Luke.

-Depois me conte t-u-d-o – disse Luke, dando leves tapinhas em meu ombro para que eu me levantasse. Ergui a cabeça e ele saiu de lá perante o olhar atento dos alunos curiosos na porta.

Os garotos se levantaram, mas eu fiquei um pouco mais de tempo sentado. Comecei a pensar em meu sábado, do momento em que falei com meu pai no telefone, quando comecei a pensar sobre a falsidade de Matheus e descaso de Pedro para com meus sentimentos... Não demorou muito para meu peito gelar e meus olhos se encherem d’água. Como se eu não fosse me fazer de gay coitadinho e vitima de bullyng.

Um dos garotos olhou para trás, em minha direção e arregalou os olhos. Sorri diabolicamente para ele, assistindo enquanto ele dava tapinhas nas costas do outro garoto para chamar sua atenção.

Levantei-me da cadeira e, de queixo erguido fui até a sala do diretor, adentrando com uma expressão triste. Acham que não irei contar sobre ter de ir à psicóloga por causa de garotos como eles? Acham que não vou dizer que um deles já me agarrou e outro eu fiquei, para depois me xingar? Acham que não irei dizer que isso é bullyng e que não vou mais aguentar calado? Que sofro de depressão e que já tentei me matar? Estão enganados garotos, vou fuder com a vida de vocês assim como fodem com a minha. Depois, fora dos olhares do diretor e dos professores eu rio e lhes digo que era tudo mentira, somente para que não debochem mais.

.

-Sério, eles foram expulsos por três dias! E depois de amanhã haverá um jogo de futebol entre os colégios da cidade e aqueles do grupo que fazem parte do time não poderão jogar.

Erick arregalou os olhos claros por detrás dos óculos de aro fino, sorrindo abobadamente.

-Sério? – ele perguntou, incrédulo. –Até o Pedro? Ele deve estar indignado!

Abaixei o olhar, mordendo o piercing direito. Erick percebeu minha atitude.

-Bryan, o Pedro também foi expulso e não poderá jogar?

Continuei fitando o chão de azulejos brancos antiderrapantes e fiquei a pensar se contaria ou não. Obviamente tenho que contar, a questão é: como?

-Bryan?

-Tá, tá! O Pedro não. Eu não consegui!

Fitei Erick. Ele revirou os olhos e jogou a cabeça para trás, indignado.

-Bryaan! Ele não é o seu maior problema?

-Sim! Mas Erick, quando o diretor disse que eles não poderiam jogar Pedro me pediu mil desculpas e disse que ele foi o único que fez não me xingou na discussão, só disse que tive interesse nele. Que me protegia quando os garotos me xingavam e que quis ser meu amigo quando cheguei no colégio, mesmo quando eu admiti ser gay. – fiz uma pausa e olhei para Erick. Ele ainda parecia insatisfeito. –Tudo bem que ele também disse coisas ruins para mim, mas eu nunca ouvi ele me xingar na frente dos outros. Eu acho que é mentira, mas fiquei com pena, sabe...

-Ai Bryan, você foi tão idiota! – ele deu um tapa na própria testa, suspirando pesarosamente. –Você gosta dele, não é?

-Claro que não! – respondi imediatamente, olhando para os lados. Estávamos em um corredor quase deserto, então ninguém ouviu.

-Eu te contei que gosto da Alice, mesmo ela estando sempre pendurada no Pedro. Pode me dizer se gosta dele.

-Eu não gosto. Só... Ele realmente me tratou bem. Quando descobriu que eu era gay veio falar comigo e tentar me entender. Foi isso que eu pensei quando ele me pediu para poder jogar.

Tentei ser sincero. Mesmo com aquelas coisas cruéis que ele me disse depois que nos beijamos eu não consegui fazer o mesmo e ser carrasco. Pedro realmente fora compreensivo, pelo menos um pouco. O problema foi ele querer experimentar como era beijar um garoto.

-E Alice? Como ela é? Desculpe, mas ainda não decorei o nome de todos.

-Ela é linda! – ele exclamou exaltado, com um olhar perdido em um ponto na nossa frente. Suas bochechas ganharam uma coloração avermelhada, deixando-o uma gracinha. –Morena com o cabelo liso, comprido e de luzes. Gosta de usar vestidos e saias com estampas floridas e coloridas. É bem alegre e tem um sorriso lindo...

Olhei para o chão. Nunca irei entender! Meninas... Enquanto Erick continuava falando encantado olhei para frente e vi Alex passando de um corredor para o outro.

-Erick, você espera aqui? – perguntei tomando a dianteira e pousando minhas mãos em seu peito, parando-o.

-Sim, claro – ele respondeu sem entender.

-Vou ali falar com Alex, um dos garotos que eu vi discutindo aquele dia. Já volto!

Corri para longe dele, seguindo pelo corredor onde vi Alex dobrar. O vi e chamei por seu nome. Ele se virou para mim e esperou que eu chegasse perto. Fui para seu lado e segui andando devagar, sendo acompanhado.

-Oi Alex.

-Oi Bryan. Soube que você se meteu em problemas e foi para a diretoria.

Nossa! As fofocas são rápidas nesse colégio. Não, espere, Luke.

-Sim, mas está tudo bem comigo. Eu queria falar com você sobre aquele dia...

Mordi meu piercing, esperando por sua reação. Alex riu e olhou para frente, sem se abalar.

-O que tem aquele dia? Quer saber o que há entre mim e Matheus?

Ele olhou para mim e eu abaixei o olhar, concordando com a cabeça. Senti-me nervoso, ainda em dúvida se eu deveria me meter ou não. Quero pelo menos entender qual a relação entre Matheus, Alex e Mi comi. Algum casal tem de haver!

-Somos amigos. Matheus não me deixa ficar com Lucas, mas não há nada entre nós. Mas Lucas é diferente dos outros garotos. Seria interessante tentar algo com ele.

Fitei-o. Alex é realmente lindo! Alto, com um sorriso de tirar suspiros tanto de meninas quanto de meninos. Porém, tirando a aparência ele não possui nenhum atrativo. O que será que Mi comi e Matheus veem nele? Pior Lucas, que é apaixonadíssimo.

-Você gosta mais do Lucas ou do Matheus?

Ele me olhou sorrindo e mexendo seu piercing.

-Matheus é um grande amigo, mas Lucas é mais interessante. Seus beijos são melhores e ele é fofo. Eu gostaria de tentar algo, mas Matheus fica furioso. Ele faz de tudo para que eu não tenha um relacionamento com Lucas, acho que são ciúmes.

Tentei raciocinar, mas estava difícil. Alex é o vilão, não é? E Matheus é o doce, enquanto Mi comi ocupa o lugar de falso. Mas, descobri que Matheus não é doce. Mi comi continua sendo falso e Alex não parece esconder algo. Quem está certo? O que devo fazer? Deus, eu gostaria de não ter escutado aquela conversa. Não, ainda bem que escutei, pois assim sei que Matheus não é bonzinho e doce como aparenta ser.

-Mas se... Se você gosta do Lucas deveria tentar algo com ele.

-Eu sei, Lucas é apaixonado por mim já faz meses. Mas Matheus também tem uma queda por mim e, enquanto eu fingir não saber nada sobre os sentimentos de Lucas nenhum dos dois se magoa.

Deus... Onde é que estou me metendo? Alex não é mau? Matheus é o vilão? Isso é sério? Como pude me enganar tão feio?

-Eu acho que... Acho que você também deve levar em consideração o que quer. Se quer ficar com Matheus, fiquei com ele. Se... Se gosta de Lucas, dê uma chance. Um sairá magoado, mas namoros são a dois.

Estou certo? Estou errado? Eu não entendo. Não quero fazer merda. Mas se Alex tem interesse em Mi comi, o loiro oxigenado merece uma chance. Já chorou pelo garoto. Matheus é um falso que mentiu esse tempo todo. Se ele tinha interesse em Alex deveria ter dito e não mentido a Mi comi esse tempo todo. Lucas entenderia.

-Achas que devo dar uma chance a Lucas? Tenho pensado nisso ha algum tempo. Mas daí Matheus ficará brabo comigo.

-Eu... – hesitei, sem ter certeza se opinava ou não. –Acho que... – na verdade, não sei o que acho. Tenho medo de estragar a vida dos outros. Mas Alex parece estar sendo sincero...


Notas finais
Eu... Ia colocar notas finais aqui, mas esqueci .-.
Então, falemos do básico. Estão fazendo um excelente trabalho com os reviews! Estou muito feliz e grata!
E o próximo capítulo... Chama-se "Eu quero viver a vida de uma nova perspectiva." Dá para perceber o que há de especial no próximo capítulo? Uma dica, houve uma votação...