Emo-ções - Por Todos Os Motivos Errados
27 Capítulo 27: Um salvador feito para você/Part II
Notas iniciais
As melhores coisas da vida
Vêm com um preço
A estrela queima tão brilhante
Desaparecendo mais rápido
– Juro que agora as coisas vão melhorar... – foi a última coisa que disse durante longos minutos, cansado de palavras, talvez tanto quanto o loirinho.
Abraçava-o protetoramente, fazendo um cafuné carinhoso em seus cabelos. As lágrimas tornaram-se silenciosas, molhando seu ombro. O fim estava escrito e agora era hora do recomeço tão merecido. Desejava que todas as mágoas e tristezas fossem postas para fora, assim nada de ruim seria guardado dentro de si.
– Vão. Eu sei que vão. Sua família é maravilhosa e você é o melhor namorado do mundo.
Sorriu e depositou um selinho em seus lábios, já sentindo falta dos beijos e carícias que compartilhavam.
– Não vou colocar pressão, principalmente num momento desses, mas terão que me explicar esse negócio de “namorado” – comunicou o motorista, espiando pelo retrovisor.
O casal se entreolhou e ambos riram, aliviando um pouco o clima.
– Estamos namorando! – exclamou o loirinho.
– Mas nada oficialmente – acrescentou Matheus, recebendo um olhar magoado e um grande bico.
– Não? Como não? Você não é meu namorado, Matt?
– Ainda não houve um pedido oficial...
O menor escondeu um sorriso e deitou em seu ombro, manhoso.
– Você quem tem que fazer.
– Está bem.
– “Está bem”? – ressaltou-se Lucas, levantando a cabeça e encarando-o. – Não vai pedir?
– Não agora.
Matheus evitou abrir um sorriso com a expressão do pequeno, extremamente fofa. Percebeu pelo retrovisor do carro que seu pai também sorria, achando graça da conversa deles.
– Não sei se posso aprovar isso. Incesto é ilegal.
– “Incesto”? – repetiu o loiro, surpreso. – Como assim?
– Bom, você é meu filho agora, então se ficar com Matt será incesto.
A expressão de Lucas foi a mais fofa de todas, mas também, para Matheus todas as expressões de Lucas eram as mais fofas do mundo. O carro estacionou na garagem do condomínio e o pequeno foi o primeiro a pular para fora, assustando os outros dois. Assim que o mais velho dentre os três deixou o carro foi pego por um abraço sufocante do menor. Matheus sorriu ao presenciar tal cena.
– Obrigado por me acolher. Prometo que vou ser muito comportado e vou ajudar o máximo possível.
– Você merece.
Desvencilharam-se e o menor correu, segurando sua mão. Seu pai foi até o porta-malas e abriu, pegando as coisas e deixando uma mochila para si. Jogou no ombro e seguiu de mãos dadas com o pequeno até o elevador, subindo. Desceram no andar e foram até a porta do apartamento. Antes mesmo de chegarem até ela esta fora aberta por sua mãe, provavelmente ouvinte do barulho.
– Meus meninos! Bem-vindos de volta!
Novamente Lucas desvencilhara-se de si para correr até um familiar, desta vez sua mãe. Outro abraço, tão carinhoso quanto os outros. Entrou junto de seu pai que fechara a porta, avisando que deixaria as coisas do loirinho no quarto.
– Demoraram, sabiam? Eu estava quase subindo pelas paredes de preocupação! E se algo tivesse acontecido com o Luquinhas antes mesmo que eu pudesse abraça-lo? Vocês são tão irresponsáveis, deixando uma mulher esperando!
– Mãe, por favor, vai sufocá-lo... – resmungou o moreno vendo que sua mãe não largaria o mais novo tão cedo.
– Mamá, quieto! Agora Luquinhas é meu filho e eu o aperto o quanto quiser!
– Filho? – repetiu o loiro, surpreso, deixando a mulher sem graça. Matheus suspirou.
– Bem, se você quiser, é claro, mas eu já o considero como um filho.
Um grande sorriso alastrou-se pelo rosto do menor, sincero. A tristeza já parecia serpentear para longe, devagar.
– Sim, eu quero. Muito obrigado por me acolher, prometo que vou fazer meu melhor para que não se arrependa. Juro que não vão se sentir como minha antiga família.
A mulher assustou-se e fitou o loiro, passando para seus olhos verdes, retribuiu o olhar, quieto, deixando para que sua mãe decidisse o que fazer.
– Eu não vou me arrepender, querido. Nunca. Você não tem culpa de ter nascido no lugar errado, cercado pelas pessoas erradas. Não deixe eles te enganarem dizendo que são o que você merece, pois não são. Você vale muito mais.
– Obrigado... Você faz com que eu realmente acredite...
– E assim tem que ser – disse confiante, afastando-se para apertar a bochecha do menor. – Você sempre terá o melhor aqui... Ah não ser que me preocupem assim novamente, então teremos uma longa conversa. Eu estava tão preocupada que algo pudesse ter acontecido! Agora precisamos fazer uma reunião com toda a família e apresentar o novo membro, só esperar até o Mathias chegar do trabalho.
Mathias, seu irmão mais velho morava no apartamento ao lado com a esposa, mas não deixava de fazer parte da família. Seria divertido ver a reação de todos, pois não poderia ser um membro melhor. Todos amavam Lucas... E por um lado isso provocava-lhe um pouco de ciúmes. Ignorou. No momento só queria ver o pequeno sorrindo, feliz.
Você sempre sente os seus direitos
Mesmo quando acabam as lutas
Bem vinda ao lar
Ao lar hoje á noite
Comeram o lanche que a mãe de Matheus preparou. Delicioso, como Lucas sempre atestou. Mariana e Nathalia, as irmãs mais novas de Matheus não saíam da volta nem por um segundo. Queriam brincar e ter a tão cobiçada atenção do loirinho. O clima na casa era de paz e harmonia, sem brigas, tensões, preocupações... Porque ali dentro tudo estava bem e os problemas de Lucas, ser homossexual e ser emo pareciam pequenos e insignificantes para o mundo. Eles simplesmente não existiam, pois não eram problemas...
Horas depois de brincar estavam sentados no sofá. Nathalia, a mais nova, dormia, com uma mamadeira em mãos. Mariana estava quase lá, sendo levada pelo sono. Matheus aproveitou para aconchegar as irmãs no sofá e puxou o loiro falso para fora deste, guiando-o até seu quarto, onde, a partir de então, dividiria com seu quase namorado...
– Tudo bem, Matt?
Sorriu-lhe tranquilizante, acabando com suas preocupações. Parou no meio do quarto e abraçou-o protetoramente, depositando um curto beijo em seus lábios.
– Está. Eu só queria te ter um pouco pra mim.
– Está com ciúmes por eu estar tirando sua família?
– Estou com ciúmes por minha família estar te tirando de mim.
O pequeno sorriu fracamente, recostando a cabeça em seu peito. Abraçou-o e balançou, como se cuidasse de uma criança. Mesmo após tantas turbulências era seu sonho ali, em seus braços, sentindo seu coração bater acelerado.
– Saiba que eles estão errados. Você merece uma vida melhor.
Sentiu-se ser empurrado e permitiu, andando de costas até sentar-se em sua própria cama. Aos seus pés quase tropeçou na mala com as coisas de Lucas. Após o menor subiu em seu colo, com uma perna de cada lado da sua cintura.
– Eu sei, agora, que não mereço o que meu pai me fez, eu só não tenho certeza se mereço tanto quanto uma família como a sua – pronunciara-se o pequeno, fitando-o nos olhos. Abriu a boca para responder, todavia fora interrompido por um sopro que escapou por entre os dentes pequenos do loiro, produzindo um chiado que indicava para manter o silêncio. – Eu também acho que não mereço você, não sou uma pessoa incrível ou tão adorável quanto gostaria, mas eu te amo e sou seu, então espero ser o suficiente.
As mãos menores de dedos machucados foram parar na sua nuca, entrelaçando-se com os fios escuros dali. Recebera um selinho nos lábios e sorriu antes que Lucas se aconchegasse em seu peito.
Cantando ooh oooh
Bem-vindo ao lar esta noite
Ooooh Ooooh esta noite
– Você vai dormir comigo essa noite, certo?
– Sim, mas só dormir – resmungou Lucas, remexendo-se. – Sexo dói quando se está machucado.
– Desculpe.
– Não foi você quem me bateu, não tem que se desculpar.
– Eu podia ter feito muito melhor e mais especial...
– Matheus, para!
Calou-se, recebendo um olhar brincalhão do menor. Aproveitou para tocar em seu rosto, cabelo, pescoço, ombros, costas...
– Foi perfeito para mim, não estrague se arrependendo – riu em um tom normal, nada forçado ou manhoso, apenas alegre. – Então pra ser justo da próxima vez eu deixo que você planeje e arrume tudo direitinho como quiser, certo?
Não aguentou e beijou-lhe com cuidado, depositando as mãos em sua cintura com o esmero de não machuca-lo mais do que já estava. Encantava o jeito infantil e manhoso de Lucas, contudo era tão fofo quanto ele falando em seu tom normal. Ele era perfeito, mesmo que talvez, com a experiência, estivesse um pouquinho mais maduro.
O beijo terminou e o loiro retornou a descansar a cabeleira descolorida em seu peito, fechando os olhos. Seguiram-se minutos de silêncio.
– Você acha que um dia vão me perdoar?
– Se alguém tem que perdoar é você á eles. Seu pai é louco e sua mãe... Bem, ela parece triste, então quando a poeira baixar você pode ligar para ela, minha mãe vai ajudar. Um dia eles vão cair em si e perceber o filho maravilhoso que perderam, eu só não sei lhe dizer quanto tempo vai demorar...
Palavras que eles não sabem como fazer as pazes
E tudo que eles fazem é empurrá-lo para a borda
Mas não é desperdiçado
– Posso esperar enquanto você estiver comigo.
– Eu sempre vou estar... Sempre e sempre vou cuidar de você, Lu...
Apertou-lhe em seus braços e beijou seus fios descoloridos. Não diria, mas mentalmente admitia que da forma mais egoísta possível aquele estava sendo o melhor dia da sua vida.
É tudo feito para você
Ohh
.
– Então... Quando tempo vai levar até você dar-se por vencido?
– Uma década.
– Tudo bem, eu sou paciente.
– Percebe-se.
–... E vou continuar insistindo, talvez assim o tempo vá diminuindo.
– Eu não contaria com isso.
O professor terminou de juntar seu material da sala de aula onde estava, sozinho, exceto pelo moreno de franja azul sentado à classe mais próxima da sua. Não tinha tempo – muito menos paciência – para lidar com aquele aluno em específico. Pegou sua bolsa e rumou até a porta, percebendo que o emo fora mais rápido e bloqueara a passagem.
– Quer me dar licença, por favor?
– Não – debochou o adolescente, sorrindo travesso com as mãos atrás das costas, pressionadas contra a porta.
– Essa é a sua ideia de sedução? Perseguir-me e insistir em algo que você sabe ser um erro?
– Não é um erro! – exaltou-se o moreno, fechando a expressão. A franja caiu-lhe nos olhos, obrigando-lhe a empurrar com os dedos. A atenção do mais velho fora capturada por sua mão, com a manga do moletom azul claro cobrindo-lhe metade desta. – Por que não pode apenas... Tentar?
– Porque eu não quero – disse simplesmente, erguendo uma sobrancelha. Algo estava estranho e diferente no adolescente, só não sabia dizer o que era. Talvez a roupa clara, ressaltando seu tom de pele pálido...
– Você gostou de ter sexo comigo, mas nem se importa em me conhecer. Por quê? Medo de se apaixonar?
Respirou fundo tentando se acalmar... Inutilmente. Aquele estudante em específico tirava-lhe do sério. Às vezes parecia que teria de aguentá-lo pelo resto da vida, pois quando menos esperava ele surgia ao final da aula, não importando o ano ou turma e já não suportava mais a perseguição...
Então naquele momento acabaria com aquilo.
Avançou a distância que os separava e apoiou uma mão na porta, aproximando seu rosto do adolescente mais baixo.
– Escute bem, pois eu não vou repetir mais: aquela noite foi um erro. Você esperava o quê? Que depois de sexo eu me apaixonaria? Tal linha de raciocínio é tão fantasiosa! Tens que amadurecer muito ainda para encarar essa vida. Não são assim que as coisas funcionam.
– Só que eu me apaixonei! – rebateu o emo em alto e bom som, com os olhos claros enchendo-se d’água.
Rafael riu.
– Ah é? Pelo meu rosto ou pelo meu pau? Ou quem sabe pelo status de estar saindo com um cara mais velho que ainda por cima é seu professor?
Luke desviou o olhar para o chão, mas o professor não deixou assim. Segurou em seu queixo, apertando suas bochechas e obrigando-o a fita-lo, com lágrimas ameaçando cair.
– Estaria feliz se eu te comesse aqui, sussurrando ao pé do seu ouvido o quanto te acho um adolescente estúpido e superficial? Aonde queres chegar com isso, Luke? Já não basta de perseguição? Eu estou farto de você!
Afastou-se, pondo-se ereto no lugar, aguardando pela reação do mais novo. Extrapolara, estressando-se ao máximo, mas ele nunca aprendia! Não havia tal possibilidade e já estava cansado de ser perseguido para todos os lados, ameaçando perder seu emprego. E se Luke quisesse acabar com sua vida de vez então que o denunciasse, para então ser demitido e tirar aquele peso das costas.
Aguardou até que o moreno reagisse, erguendo para si um olhar cheio de mágoa e lágrimas rolando pelas bochechas.
– E quando algo der errado? Vais esperar eu morrer para se arrepender, quando for tarde demais? Vais descobrir que pode gostar de mim quando nada mais puder ser feito? Você ganhou, eu não vou mais correr atrás!
Surpresa não era uma palavra boa o suficiente para descrevê-lo naquele momento. Luke abriu a porta e saiu correndo, deixando seu caminho livre, todavia sua vontade de sair dissipara-se, concentrado demais naquilo que lhe fora dito. Estava petrificado no lugar, fraco.
Seria verdade ou somente um blefe? Se Luke o conhecesse um mínimo saberia o efeito de tais palavras, entretanto seria mesmo o adolescente um grande filho da puta ou apenas como ele...? Estava mesmo passando por aquilo...? Não, era irreal demais para ser verdade...
Oh, droga, não conhecia nem um pedaço da mente daquele adolescente!
.
Onde estava permaneci, sentado, esperando. Fui um dos primeiros a terminar a prova de literatura e entregar, sendo assim me desloquei para o pátio. As provas estão sendo fáceis, talvez porque pela primeira vez eu tivesse a matéria – graças ao Pedro e suas amigas – e realmente estudei.
Minha atenção foi capturada pela loira que me encarava... Eu sei quem é, a garota que o Erick era apaixonado e finalmente conseguiu um encontro. Aline? Alice? Ah, Alice. Sou péssimo com nomes. Pensei estar enganado, mas ela realmente veio ao meu encontro, ficando de pé ao meu lado, encostada no muro baixo em que estou sentado.
– Oi Bryan. Sabe onde está o Erick?
– No banheiro – respondi, apoiando o cotovelo na coxa e o queixo na mão. Fitei-a, dos cabelos exageradamente compridos com luzes, os olhos bem maquiados, lábios brilhosos e roupas pequenas demais para seu tamanho. Senti, também, o cheiro enjoativo de seu perfume.
– Tudo bem. Ele deve vir te encontrar depois, né? Vou esperar aqui então. Você foi bem na prova?
– Sim.
– Ah, eu fui péssima! E aquela questão cinco sobre “Nox”? Eu não faço a mínima ideia do que é isso! E dep-
– Número de oxidação – interrompi-a, impaciente. Já entendi que ela fala demais e não preciso disso no momento, obrigado.
– Oi? – Ela pareceu confusa. Reprimi a mim mesmo para não deixar a impaciência me subir a cabeça.
– Nox é o número de oxidação.
– Ah... De qualquer forma estava muito difícil. Aquela professora é uma mal-comida! Sério, fez uma prova difícil daquelas só para rodar todos. Sabe que uma vez eu... – Alice continuou falando e eu ignorei-a prontamente, voltando-me para a porta que dava acesso para o pátio. Além de não calar a boca ela só fala besteira. A professora é boa e explica bem. A matéria é difícil? É, então que estude.
Suspirei aliviado quando Erick entrou no meu campo de visão. Além de não parar de falar ela não se importa que eu esteja absurdamente ignorando-a. Quando Erick aproximou-se fitou-nos confuso e Alice ressaltou-se, falando mais alto, mais rápido e avançando dois passos, rodeando Erick com seus braços alegrement-
Não, espere um minuto, o quê?! Só pode ser brincadeira! Eles estão se abraçando! E depois de um encontro! Estarão namorando...? Erick me contaria se estivessem... Eu acho...
– Estava te esperando! Eu e o Bryan conversávamos sobre o quanto temos certeza que você tirou nota máxima nessa prova porque você sempre é o melhor da turma, se não do colégio! – Ah, conversávamos? Porque tenho quase certeza que ela falava com o muro, sozinha.
– Bem, se não foi isso quase.
Novamente Alice quase pulou encima de Erick, apertando-o em seus braços com força. Erick ficou sem graça e abraçou-a de volta, como se fossem um casal. Não me senti bem com aquilo. Sempre soube que Erick é heterossexual, entretanto eu o via com Thiago como se fossem realmente um casal...
Oh, bem, falando em Thiago é exatamente quem eu encontro quando ergo meu olhar, distante cerca de quatro metros. Parecia que não me via, distraído, observando o casal com um olhar escuro e a expressão séria. Não parecia brabo ou algo do tipo, apenas... Sério, sem qualquer indício de sorriso.
Ele aproximou-se.
– Oi Erick – Thiago disse com um mínimo sorriso, apenas para soar simpático. Alice lançou-o um olhar de desdém, sem disfarçar, dos pés a cabeça. Senti-me enojado.
–... Oi... Thiag-
– Oi pra você também, Thiago – cortou Alice, sorrindo tão falsamente que soava assustador. Ela queria demonstrar-se presente, ali, agarrada em Erick. Ela queria machucar Thiago.
– Olá – o moreno respondeu, esboçando uma expressão suave. – Desculpe não tê-la cumprimentado, mas não sei nem ao menos o seu nome.
– Alice Souza, mas você não precisa saber meu nome para cumprimentar a namorada do amigo, né?
Se eu não tive reação, Thiago muito menos. Até Erick parecia surpreso, com as bochechas pegando fogo. Um silêncio estranho apoderou-se de todos, criando um clima tenso e desagradável. Antes de dizer qualquer coisa eu aguardei, na expectativa para ver se Erick pronunciava-se. Ele não o fez e Thiago fitou-me com um olhar de desespero, implorando por ajuda. Desci do muro, parando próximo de Alice.
– E somos adivinha agora, Alice? Em nenhum momento você foi apresentada como tal, nem para mim nem para Thiago – fui curto e grosso, incomodado com o olhar arrogante dela. Alice voltou-se para Erick.
– Não vai dizer nada?
Erick fitou-nos, como se estivesse em pânico, mas não, e a sua voz soou tão sincera e firme quanto lhe era costumeiro.
– Essa é a minha namorada, Alice.
No segundo seguinte a garota com as luzes no cabelo avançou e deu um selinho em Erick, sorrindo. Prendi a respiração inconscientemente, fitando ambos, sem coragem de olhar para Thiago um segundo sequer. Após Alice começou a falar exageradamente e rápido demais, como costumeiro, e saiu puxando Erick pelo braço para longe, saindo de nosso campo de visão.
Tomei fôlego e voltei-me para Thiago, nervoso. Ele tinha o olhar perdido por onde eles saíram, as pupilas dilatadas e respiração entrecortada. Senti em meu próprio coração uma pontada por ele e apenas pude imaginar o quão arrasado Thiago estava...
– Você está bem? – indaguei, incerto e receoso. Seus olhos bem maquiados voltaram-se para mim, magoados e paralisados, sem reação. Senti o pânico alastrar-se em mim.
Céus, Matheus, onde você está?!
– Eu não... Sei... – sua voz era tão fraca e perdida que meu pânico apenas aumentou. Ele não tinha voz, reação, expressão, lágrimas... Tudo que percebia-se era sua respiração cada vez aumentando mais, soando como um alarme. Eu não conheço Thiago bem o suficiente para saber se isso é um mau sinal. Sério Matheus, cadê você?
Fiz o melhor que me veio à mente e avancei, rodeando suas costelas magras com meus braços, sentindo que na mesma hora ele retribuiu. Thiago é mais alto que eu, o que torna um pouco mais difícil consolá-lo, pois eu não sei qual sua reação. De repente ele me apertou mais, forçando meu peito contra o seu e pude ouvi-lo chorar baixinho. Meu coração quebrou.
Respirei fundo, considerando se deveria dizer algo, eu acho que sim, mas não sou bom com palavras, então me mantive quieto, abraçando-o e passando a mão suavemente por sua coluna. Estou dando o meu melhor, eu juro. O seu coração está partido e tudo o que eu consigo pensar é no quanto ele deve estar arrasado em saber que perdeu Erick.
– Está tudo bem, não é Bryan? – ouvi-o murmurar baixinho após alguns minutos, afrouxando o aperto. Ele afastou-se de mim somente o suficiente para que eu pudesse ver as lágrimas manchando sua maquiagem e escorrendo pelas bochechas. – Eu podia tê-lo perdido, como meus pais e meu irmão, mas ele está bem e feliz.
Se eu já estava alarmado antes, então agora estou assombrado. Não retirei as mãos de seu corpo e assisti enquanto ele esfregava as bochechas.
– Você... Perdeu seus pais e irmão? – repeti, clamando por convicção. Thiago assentiu, esboçando algo que deveria ser um sorriso.
– Você não sabe? Doze anos atrás, desde então eu moro com meus tios.
Eu apenas soprei um “ah”, sem querer obriga-lo a seguir no assunto. Thiago tentava conter o choro, secando e fungando, borrando ainda mais a maquiagem. Permaneci como estava, fazendo um leve carinho em suas costas, tentando alguma forma de consolo.
– Bryan, está tudo bem, certo? – Seus olhos pareciam esperançosos e eu apenas concordei, mudo. – Então por que eu me sinto tão mal?
As lágrimas voltaram e eu o abracei novamente, inseguro. Eu realmente gostaria de fazê-lo se sentir melhor, contudo eu simplesmente não posso porque eu sei como dói e se nunca encontrei palavras o suficiente para mim mesmo...
– Por que eu não sinto que tudo está bem...? Por que... – ele foi interrompido por um soluço e eu fechei os olhos, respirando fundo. — Por que eu sou tão idiota? Eu sempre soube que ela quem faria ele feliz... – outro soluço, atropelando suas palavras. – Mas o fato dele estar feliz com a garota de seus sonhos não faz com que meu coração não quebre...
Afastei-me um pouco, tocando em seu rosto pálido e magro, tentando retirar as manchas da maquiagem. Eu não sei se devo dar-lhe esperanças de que Erick pode mudar de ideia ou apenas consolá-lo, dizendo que é melhor assim e ele também encontrará alguém, pois, no fim, Erick é heterossexual.
– Olha, agora é hora da prova de fogo. Se Erick mudar de ideia...
– Ele não vai mudar – respondeu rápido, assustando-me. – Ela é o amor da vida dele e Erick sempre foi hetero. Ele não vai mudar de ideia.
– Se ele não mudar de ideia então eu te ajudo a encontrar alguém. Não é o fim do mundo e como você disse, poderia ser pior. Ele ainda vai ser seu amigo – disse-lhe tão incerto de mim mesmo que quase me repreendi. Thiago merecia palavras melhores de alguém melhor, ele é tão... Doce e gentil.
Um mínimo sorriso surgiu em seus lábios. Puxei fôlego, sentindo a dor em meu coração. As lágrimas sessaram e eu segui limpando seu rosto vendo que meus dedos ficavam bem sujos de lápis e base cremosa, obviamente não me importei.
– Certo. Desculpe o choro.
Assenti sem graça e abracei-o novamente, acariciando sua nuca suavemente em uma tentativa de acalmá-lo. Thiago retribuiu o abraço, os soluços sumindo assim como as lágrimas. Respirei um pouco mais calmo, tentando ganhar a confiança que jamais tive. Eu não sou forte o suficiente, tanto que nesse momento Thiago está sendo muito mais do que eu.
“Não é o fim do mundo” eu não sei que tipo de consolo é este. Se fosse o fim do mundo então todos morreríamos, acabando com todas as preocupações para, talvez, vivermos em nossos paraísos ideais onde nossos sonhos se realizam. Não seria mais fácil encarar o fim do mundo...?
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