Emo-ções - Por Todos Os Motivos Errados
23 Capítulo 23:As Aparências Enganam.
–Hey! Acorde!
Preguiçosamente a mente do garoto deitado viajou de seu mundo de criação própria e retornou para o mundo real. Um mundo confortável, macio, claro...
–Garoto! Acorde!
Abriu seus olhos sem um pingo de vontade. Encarou a incomoda claridade com um esfregão de punho serrado, ajeitando sua visão. Bocejou e, sem prestar atenção no quarto por estar tonto de sono encontrou aquele que lhe retirara de seus sonhos encostado no batente da porta com uma xícara esfumaçada em mãos. Sorriu, sentando-se na cama e puxando o lençol para cobrir, pelo menos a parte inferior de seu corpo nu.
–Venha comer algo. Você tem aula.
–Cadê o “bom dia, dormiu bem?”? – questionou Luke, insatisfeito com o tom ríspido que seu professor usara para consigo.
–Deve estar junto com minha dignidade, moralidade e lucidez perante os olhos da sociedade.
–Quer dizer que não gostou? – perguntou Luke, direto, sem paciência para ponderar o significado da complicada frase proferida por seu tão belo professor.
–Quer dizer que eu transei com um aluno meu! E para que a desgraça seja completa ele é menor de idade! E eu bebi tanto que nem ao menos me lembro como foi! – mentiu... Em partes...
–E daí? – Luke deu de ombros e jogou-se de costas na cama, aconchegando sua cabeça no travesseiro de penas de ganso. Recém acordara e já estava discutindo. Isso não fazia parte de seus planos. Bom, dormir com o professor mais gostoso que já conhecera também não fazia.
–E daí, garoto, que se descobrirem eu não somente serei demitido como nunca mais me contratarão. Ninguém aceitará um professor pedófilo que faz sexo com seus alunos lecionando em sua escola. Sem contar os anos de prisão que eu pegarei.
–Irão querer sim se descobrirem o quanto ele é gostoso e bom de cama... – respondera Luke de olhos fechados, seguido de uma risada. Virou seu corpo para o lado esquerdo, onde se encontrava a porta e abriu novamente os olhos, fitando seu professor calmamente. –Relaxa... Estamos no Brasil. A polícia daqui é uma merda.
Rafael desmanchou sua pose despojada, irritado. Estreitou os olhos para o adolescente sorridente em sua cama e apertou os dedos sob a xícara de café que carregava em mãos, contendo sua raiva.
–Você não contará para qualquer outra pessoa. Isto não sai deste quarto – Rafael pronunciou pausadamente. – Fui claro?
–Não sei... Nem um “bom dia” eu recebi... – debochou Luke, apoiando ambos os braços encima do travesseiro e descansando sua cabeça sobre eles.
–Escute Luke, iss-
–Lembrou meu nome! Bom progresso.
–Isso não é brincadeira – Rafael exaltou-se. Pausou. Fechou os olhos e respirou fortemente, abrindo os olhos e espirando. –Escute, você vai arruinar minha vida se contar a alguém.
–Não se preocupe, eu não vou contar... – Luke respondeu calmamente, movendo a cabeça de um lado para o outro, sentindo-se leve. Não era nem de longe uma reação normal de uma pessoa que acordara de ressaca. Talvez tenham misturado mais algumas coisas na bebida dele... Não que isso fosse o suficiente para explicar o estado do adolescente de cabelo colorido. –Agora volta pra cama e esquece o mundo lá fora...
–Pare de brincadeiras! Veja, eu tenho aula para dar; você tem aula para assistir. Levante-se e venha comer algo.
–Ahh professor... – choramingou o aluno, manhoso. – Mas eu quero suas aulas particulares... – dito isso Luke puxou o lençol que lhe cobria a parte inferior do corpo. Como estava de bruços expôs suas nádegas e sorriu travesso, mordendo o lábio inferior.
Por alguns segundos Rafael esqueceu-se daquilo que diria, atônito perante aquela atitude, mas logo recompôs-se.
–Entenda: foi somente uma noite em que ambos estávamos bêbados e não sabíamos o que estávamos fazendo...
–Eu sabia – intrometeu-se Luke, erguendo as pernas e balançando-as no ar. – E sabia ‘muuuuito bem... – completou com um sorriso malicioso.
Rafael tivera de respirar profundamente mais uma vez.
–Foi um erro. Isso é crime, sem contar o quão errado e sujo. – pausou, analisando suas próprias palavras. É claro que não admitiria, mas não achava aquilo, nem de longe errado e sujo em sua percepção. – Foi somente uma noite e não irá se repetir.
–O quê? Não vai se repetir? Como assim? É claro que vai!
Luke exaltou-se, sentando na cama e tornando-se mais ativo de supetão.
–Não, não vai. Você vai contar a alguém?
–Já disse que não.
–Então isso acaba agora. Venha tomar o café da manhã logo, caso contrário me atrasarás.
–Que insistente! Hum... Foi ‘tãaaaoo bom! Meu corpo não vai se contentar com somente uma vez... Meu professor não me ensinou tudo que eu precisava saber em somente uma noite...
–Você é tão desinibido... Alheio as consequências!
–Que consequências? Eu já disse que não irei contar! Se não vou contar você não vai perder o emprego nem ser preso. Qual a consequência? Tem medo que eu fique grávido? – debochou Luke, sorrindo descontraidamente.
–Não usamos camisinha? – assustou-se o professor, quase derrubando a xícara de café de suas mãos.
Luke balançou a cabeça de um lado para o outro, em sinal negativo. Mesmo depois de já ter passado o recado ele continuou com os movimentos, distraído, alheio e feliz, completamente satisfeito com sua noite.
–Não se preocupe. Eu não tenho nenhuma doença – respondeu Luke, sem sessar com os movimentos da cabeça, de um lado para o outro...
–Estou fodido!
Rafael retirou-se do quarto, inquieto. O charmoso professor de artes realmente tinha um fetiche por alunos e plena consciência da deliciosa noite que passara com Luke gemendo para si. Isso sem contar os efeitos que ver o jovem nu em sua cama, chamando-o e provocando-o causaram em seu corpo...
–Não professor! Sou eu quem fui fodido!
Luke bufou e atirou-se novamente na cama. Parou para pensar por poucos segundos e, em seguida um sorriso malicioso tomou conta de seu rosto, alastrando-se rapidamente. Seus planos eram diabólicos... Diabolicamente deliciosos...
–Vamos ver se não irá se repetir, querido professor...
.
Assim que cheguei ao colégio fui direto para minha sala de aula. Ultimamente os alunos têm comentado muito mais sobre mim e quando eu digo muito significa muito mesmo. Isso porque eu e Pedro namoramos e Pedro... Bom, ele é conhecido por boa parte do colégio... E desejado.
Sorri ao entrar na sala, pois percebi que meu namorado estava lá. A porta estava encostada, então eu a coloquei de volta no lugar. Quando fui em direção de Pedro percebi que somente eu e ele estávamos na sala e automaticamente meu sorriso alastrou-se mais, tomando conta de meu rosto. Aproximei-me já ficando sem graça, pois ele não tirava os olhos de mim um segundo sequer, como se quisesse me devorar. Pedro estava sentado em seu lugar, embalando a cadeira para trás e apoiando ela na parede. Puxei a cadeira mais próxima e sentei ao seu lado.
–Oi – cumprimentei-o.
–Bom dia.
Trocamos um beijo muito rápido com nossas línguas encontrando-se por um breve momento. Era incerta a entrada de alguém na sala de aula, por isso nos mantemos distante de toques e demonstrações de carinho.
–Dormiu bem? – Pedro me perguntou enquanto acariciava minha bochecha com as costas de sua mão.
–Não muito... – admiti, junto de um suspiro. –Eu fiquei pensando no que fizemos com você e... Não achei certo...
–Por que não? Foi uma brincadeira, Bryan. Foi divertido. Você se preocupa demais – ele respondeu enquanto passava os dedos pela minha bochecha. Senti uma pontada de dor e afastei meu rosto.
–Desculpa Pedro. É que doeu.
–Claro! Sua bochecha está machucada!
Ele me mostrou os dedos que anteriormente acariciavam minha bochecha. Estavam sujos com minha base. Era a bochecha que machucara quando caí encima do espelho.
–Você sabe... Eu caí...
–Mas nunca me explicou.
Aproximei-me mais e depositei um selinho em seus lábios. Não sei quando poderei beijá-lo novamente. Talvez quando a aula acabar, se eu tiver sorte com meu pai e verdade seja dita, eu não tenho sorte.
–Eu tropecei e caí encima de um espelho. Veja.
Estranhamente paciente eu puxei a manga de meu casaco o máximo que pude, expondo meu antebraço. Havia vários cortes de diversas profundidades e tamanhos. Alguns pequenos, outros grandes... Pontinhos e linhas na horizontal, vertical e diagonal.
–Está feio... Você tem que cuidar pra não infeccionar.
Pedro segurou minha mão, cuidadoso para não encostar a sua em meus machucados. Acariciou levemente minha mão com o polegar, no conforto que não podia fazer em meu braço.
–Bryan?
A porta fora aberta de supetão, interrompendo e adentraram na sala o meu grupo de amigos. Puxei meu braço separando de Pedro e abaixei minha manga, pois Matheus vinha em minha direção.
–Você tem que vir conosco.
–Agora?
Matheus chegou a mim e me puxou pelo braço, fazendo-me levantar.
–Oi Pedro – ele parou para cumprimenta-lo, sorrindo com seu aparelho de borrachinhas verdes. –Quanto tempo...
–Bryan, você pode se agarrar com seu namorado em outra hora. Isso é importante! – insistiu Luke, pondo as mãos na cintura. Continuaram a me puxar com força e eu só tive tempo de sussurrar um “desculpe” para Pedro.
Arrastaram-me para fora do prédio, voltando para o pátio. Fomos para uma parte mais isolada do colégio, onde poderíamos conversar em paz.
–O que aconteceu de tão importante e urgente? – perguntei, cruzando os braços sobre o peito.
–Eu transei com o nosso “querido” professor – anunciou Luke, estufando o peito, orgulhoso de si mesmo.
Eu travei, desmanchando minha postura.
–Que professor? – perguntei desconfiado e incrédulo.
–O mais lindo, mais charmoso, mais gostoso, mais sedutor, mais inteligente... – começou Luke, dando forma a uma extensa lista. Aos poucos minha ficha foi caindo junto de meu queixo. –O Rafael!
–‘Tá brincando!
–Noops. E vocês não tem noção do quanto ele é bom de cama!
Não acreditei. Fitei os garotos um por um, procurando por algum sinal de brincadeira ou algum risinho contido, mas nada. Thiago, Matheus e Mi comi estavam sérios, demonstrando que aquilo só podia se tratar da verdade.
–Quando?
–Ontem. Ele quem me trouxe para o colégio... Ah, e foi na casa dele. Nada de motel.
Não acredito... O Luke é muito filho da puta! Que sorte dele e desse rabinho!
.
De tarde combinamos de sair somente para passear um pouco. Fora difícil convencer o maníaco do meu pai para me deixar sair novamente depois de ontem, mas consegui com a ajuda da tia Clara.
–Vamos até a praça? – perguntou Luke, tomando à dianteira.
–Pode ser.
–Vamos passar na frente de minha casa. Quer conhece-la, Bryan?
–Depende. Seus pais são... – fiz uma careta e ergui a mão aberta, inclinando-a na diagonal de um lado para o outro.
–Não. Eles são bem legais. Toda minha família é bem tranquila... Tranquila nesses assuntos porque eles não são nem um pouco calmos.
Matheus esticou o grande pacote de rufles que trazia em mãos. Eu aceitei. Todos nós tínhamos nos juntado e comprado várias coisas para comer. Parece normal... Eu acho. Soa normal entre nós, mas eu nunca fiz isso antes. Bom, não teria como se tratando de meu antigo grupo.
–Também quero, Matt! – Mi comi interceptou o caminho de Matheus, ficando a sua frente e abrindo a boca. O moreno dos olhos verdes sorriu com seu aparelho e colocou alguns salgadinhos na boca de Lucas, o loiro não somente os comeu como também lambeu os dedos de lhe entregaram.
Movi meu olhar para o lado e percebi que Thiago permanecia quieto, como se mantivera a manhã toda. Mantinha-se em silêncio, fitando um ponto fixo qualquer.
Erick não quis nos acompanhar porque as provas estão se aproximando, mas agora eu começo a duvidar de seus motivos. Seria uma briga entre eles a verdade...?
–Tudo bem Thiago?
–Tudo sim – ele me respondeu sorrindo como sempre.
–Entre você e o Erick?
Ele quase parou de andar, surpreso com minha pergunta. Piscou duas vezes e, logo, voltou a sorrir.
–Normal.
–“Normal” – repetiu Luke, debochado. –Thiago, por favor! Todos já perceberam que você tá caindo de amor pelo ‘nerdzinho.
Thiago ficou sem graça. Suas bochechas ganharam uma coloração vermelha, contrastando com seu rosto pálido. Ele desviou o olhar e levou a mão a parte de trás do cabelo, sem graça.
–Mas ele não gosta de mim dessa forma...
Tive de parar por alguns segundos para raciocinar. É verdade! Sempre foi verdade... Ele gosta do Erick! Que bonitinho... Eles formam um belo casal porque são tão amigos e tão diferentes...
–Não pense assim, Thiago. Pedro também não tinha interesse em mim, pelo contrário, era hétero – tentei ajudar, porém ele somente riu de forma suspeita e debochada, me incomodando.
–Bem... Eu não fui tão paciente quanto você, Bryan... Nem tão pacífico...
Assustado, ponderei sobre suas palavras e abri a boca, pronto para perguntar o que ele fizera com Erick, mas Luke me interrompeu.
–Olha! Não é aquele ali o namoradinho do Alex?
Acho que todos nós acabamos olhando para ele ao mesmo tempo, pois o garoto assustou-se. Olhou para nós e para o outro lado, procurando por alguém que poderia ser o foco de nossa atenção. Claramente ele não encontrou e voltou a nos fitar com uma sobrancelha arqueada em uma indagação muda. Ele parou e ficou lá, no meio de nosso caminho, esperando que nos aproximássemos.
–Quem são vocês e o que querem? – ele perguntou irritado, colocando as mãos na cintura.
Ele era moreno com o cabelo liso e bem bagunçado. Os olhos bem azuis. Pálido com o rosto e porte físico magro... Exageradamente magro. Usava uma camiseta listrada azul e preta, suspensórios igualmente pretos, um colar de caveira e uma pulseira de taxas em um dos pulsos.
–Você não é o namorado do Alex? – perguntara Luke, sem se importar em mexer naquela ferida que, definitivamente não deveria ser reaberta. Mas, cá estamos nós e admito que estou curioso de quem seja este menino.
–Sou. E daí?
–É que nós éramos amigos e andávamos com ele – explicou Matheus, tentando não entrar muito em detalhes e poder encerrar o assunto por ali.
O garoto moreno estreitou os olhos para nós e ainda com as mãos na cintura empinou o nariz, erguendo o rosto. Achei graça de sua arrogância, pois era um garoto um pouco mais alto que Mi comi e bem magro. Nada prepotente.
–O que eu tenho a ver com isso?
Ele é pior que aquela coisa menino/menina que conhecemos na sorveteria! Pelo menos aquele não era tão arrogante... Se bem que ele tentou atacar o Mi comi...
Matt tentou encurtar o assunto, por motivos óbvios. Infelizmente Luke insistia em interrompê-lo e seguir com a conversa.
–Nada. Nós já vam-
–Vocês combinam muito bem! Dois idiotas. Sabia que há dois meses seu namorado tentou estuprar meu amigo?
Revirei os olhos e Matheus fuzilou Luke com o olhar. Luke nunca ficava calado. Ele adora falar e fazer fofocas. Às vezes seu modo de agir assemelha-se com o de uma garota e torna-se irritante, contudo todos nós temos defeitos e eu não sou ninguém para ver defeitos. É meu amigo, recuso-me a falar mal dele.
–Ele estava tão mal de sexo assim a ponto de ter que estuprar? – o moreno rebateu debochado, sem realmente dar alguma importância. – Quem foi? Um de vocês?
–Na verdad-
–Ele! – apontou Luke, puxando o braço de Mi comi para retirá-lo de trás de Matheus.
Mi comi fitou ao moreno com a mão direita coberta pela manga do casaco listrado roxo e preto posicionada na frente dos lábios. Seus grandes olhos castanhos levemente marejados fitavam ao outro garoto.
O moreno achou graça e seu sorriso alastrou-se pelo rosto. Ele inclinou o corpo levemente para ficar da altura de Mi comi, visto que eram quase do mesmo tamanho. Permaneceu com as mãos na cintura.
–Você é engraçadinho. O que aconteceu? Não quis dar para ele?
–Eu amava ele. Mas era minha primeira vez e ele quis me forçar a fazer em um beco nojento e sujo – o loiro falso respondeu como a pequena e frágil criança que ele não era. Seus olhos brilharam mais, avisando sobre as lágrimas iminentes.
–‘Ohhh. Você vai chorar? Porque foi ruim? Porque amava ele? Ainda era virgem? Também te bateu? Como foi quase ser estuprado por quem amava? Doeu?
Com a provocação as lágrimas começaram a escorrer pelos olhos bem marcados de preto do Mi comi. Matheus indignou-se e puxou o loiro para seus braços, agarrando com força e o consolando.
–Deixe-o em paz!
–Você é mau! – resmungou Mi comi em seu tom de criança, fazendo um grande bico com os lábios pintados.
–Que bonitinho! Parece uma versão mais infantil e inocente de mim! – comentou o garoto sorrindo, aparentemente satisfeito. Gesticulou com as mãos, complementando sua fala. Isto somente o deixou mais parecido com Mi comi. – Não se preocupe loirinho oxigenado. Vou terminar com ele.
–Eu não quero isso – choramingou Mi comi, surpreso com a tomada fácil de sua decisão.
–Gabriel! – Alguém chamou pelo nome e o “namorado” de Alex prestou atenção, apurando seus ouvidos. Respondeu um “já vou” para alguém atrás de nós e voltou a sorrir para nós.
-Tudo bem loirinho oxigenado, – o moreno dos olhos azuis deu de ombros, fazendo pouco caso – não é como se eu realmente gostasse dele. Só me era conveniente ser seu namorado.
Lucas tentou esconder, mergulhando o rosto no peito de Matheus, mas estava sorrindo. Aquilo não deixava de ser uma vingança, mas eu penso que se estiver bem para Mi comi então assim deveria ser, pois o mais afetado pelo que se ocorrera foi ele e em segundo lugar fora Matheus.
–Viu Mi comi? Agora você tem um novo amiguinho – brinquei com ele, amenizando o clima.
–Mi comi? – repetiu o “ex” de Alex, achando graça. – Essa coisa pequena? Se você se chama Mi comi eu deveria ser Mi fodi – debochou o maior. Eu sorri. Não simplesmente, como também ri perante tal linha de raciocínio.
–Você que adora isso, né ‘Bryaaan! – disse-me Mi comi, fazendo graça e colocando a língua para fora, em minha direção, ainda aconchegado nos braços de Matt.
Chamaram pelo nome de Gabriel novamente. O moreno disse-nos que deveria ir, se despediu de Mi comi ao bagunçar seus fios de cabelo descoloridos e saiu, atravessando a rua e indo para onde outros garotos lhe esperavam.
Rimos e seguimos nosso caminho, conversando e brincando. Por um lado era bom, por outro eu não conseguia esquecer essa sensação estranha de ser “normal”. Estou com um namorado, amigos, família... Eles não me julgam ou criticam. É estranho... Estranho, mas bom. Pela primeira vez em toda minha vida eu sou considerado um adolescente normal...
Tenho medo e fico me perguntando quanto tempo isto irá durar porque soa bom demais para ser real...
...Eu não tenho esse tipo de chance na vida...
.
No caminho paramos na casa de Matheus. Era um edifício alto e tivemos de usar o elevador. Eu sorri plenamente satisfeito ao perceber observando pelo espelho que estávamos nós, cinco emos dentro de um elevador. Belo de se ver. Paramos no sexto andar e Matheus nos guiou. A última porta do corredor, com um enfeite de porta bem... Customizado, brilhoso e cheio de purpurina, provavelmente feito por uma pequena garotinha... Ou gay, também há essa opção.
Matheus apertou a campainha e esperamos. Fiquei nervoso, claro. Sendo amigo ou não conhecer a família de um gay que provavelmente sabe sobre sua orientação sexual não pode ser uma boa opção. Contudo, estranhamente me pareceu que sou o único nervoso aqui. Ninguém mais se importava e conversavam animadamente com Matheus.
Será que somente eu ainda não conheço a família do Matheus?
Ouvi o barulho da fechadura sendo destrancada. Então agora seriam o momento dos sorrisos envergonhados, olhares indignados, abraços falsos; cumprimentos vazios.
–Oi mamá!
Quem abrira a porta fora uma moça baixa, um pouco menor que eu, de cabelos castanhos claros lisos passando o ombro. Traços delicados e femininos. Tinha poucas rugas e suaves olheiras que não mexiam em seu sorriso contagiante. Possuía olhos grandes com muitos cílios moldurando os verdes muito semelhantes aos de Matheus, contudo eram menos claros. Ela jogou-se encima de Matheus, apertando-lhe exageradamente.
–Oi mamãe. Trouxe amigos.
Assim que ela soltou Matheus fitou a todos nós de uma forma geral. Em seguida abriu um grande sorriso e puxou Mi comi para seus braços, apertando-lhe como se fosse um brinquedo ou um animalzinho de estimação.
–Oi Luquinhas! Que saudade! Você não tem vindo visitar a gente e sentimos tanto a sua falta! Se soubesse que você viria teria feito um bolo de chocolate.
Mi comi parecia exageradamente confortável com aquilo. Sorriu de volta e agradeceu, retribuindo o aperto. Era quase como... Como se o loiro falso fosse irmão de Matheus, pelo tratamento que recebera.
Deixando Mi comi de lado a mãe de Matheus começou a cumprimentar-nos um por um, seguido de um abraço. Thiago, Luke... Até que parou em mim e ficou me encarando. Sorri sem graça, sem saber exatamente como deveria reagir. Vergonhosamente eu sou o único que ela ainda não conhece, então eu fico sem um exemplo a ser seguido.
–Você é novo.
–Esse é o Bryan, mãe. Que se mudou para o nosso colégio alguns meses.
–Ah, o Bryan! – ela exclamou como se já me conhecesse. Sorriu e veio me abraçar docemente. – Oi Bryan, é um prazer finalmente te conhecer. O Mamá já falou tanto sobre você! Entrem meninos.
Entramos no apartamento um por um. O loiro falso de raiz escura agarrou-se na mãe de Matheus e ela o abraçou, como se fosse uma criança. Na sala a primeira coisa que chamou minha atenção foi uma montanha de brinquedos espalhados pelo chão, encima do carpete. Ali tinha desde bichinhos de pelúcia até bonecas, barbies, uma grande casa de bonecas e acessórios de casa. Eu não sabia que Matheus tinha uma irmãzinha...
–Mariana, Nathalia! Vejam quem está aqui!
Logo que a mãe de Matheus chamou vieram duas pequeninas. Uma corria na frente, com talvez uns seis anos de idade, tinha o cabelo castanho claro liso passando os ombros, um vestido azul e meia-calça branca, como uma bonequinha. A segunda era mais devagar e aparentava ser mais nova, com talvez uns quatro anos. O cabelo era como o de crianças novinhas, com fios finos e cor de mel. Os olhos eram castanhos, mas tirando isso sua semelhança com Matheus era surpreendente. Era impossível negar o parentesco sanguíneo daqueles dois.
–Luquinhas! – elas exclamaram, correndo na direção de Mi comi que fora obrigado a soltar a mãe de Matheus. Ele se abaixou e recebeu as duas crianças que grudaram nele, felizes.
–Você veio brincar com a gente? – perguntou a menorzinha, tropeçando em uma palavra e outra. A voz era doce e meiga, completamente inocente e característica de uma criança.
–Veio brincar comigo! Ele é meu namorado! A gente vai se casar – exclamou a maior, apertando mais o loiro falso.
–Não – resmungou a mais nova, contrariada, formando um bico com os pequenos lábios. – Ele é meu ‘momolado.
–Aí Lucas, ein? Já tem duas garotas competindo para ser sua namorada – implicou Luke, deixando Mi comi mais sem graça do que já estava.
Por mais estranho que aquilo fosse parecia soar-lhe normal ter as duas pequenas agarradas nele, brincando por sua atenção. Lucas afagava o cabelo de uma e de outra, abraçando as pequenas com carinho.
–Ah! – exclamou Matheus, chamando nossa atenção. – Minha avó queria te ver – referiu-se a Lucas, erguendo os olhos para a mãe. – Ela está dormindo?
–Não. Ela deve estar no quarto vendo TV.
Matheus saiu para ver a avó. As duas pequenas continuaram sua briga pela atenção de Mi comi, puxando cada uma para um lado diferente, como nos desenhos. A mãe de Matheus não se importou com aquilo e veio até nós, fitando-me e sorrindo amigavelmente.
–Faz tempo que quero te conhecer. O Mamá fala tão bem de você, Bryan.
–Ah, obrigado – sorri sem graça, não familiarizado com aquela situação. – Matheus também fala muito bem da família – menti, em partes. Matheus não fala muito da família, mas nas raras ocasiões que fala dela é sempre de forma positiva. Raras, pois eu nem mesmo sabia que ele tem duas irmãs e mora com a avó, muito menos que sua família tem uma obsessão por loiros oxigenados.
–Você é um rapaz bonito, tem que vir aqui mais vezes – ela tinha uma voz doce e calmante, exatamente como esperado da mãe de Matheus. Sorriu para mim e virou-se para Thiago e Luke, fechando a expressão. – E vocês, senhor Thiago e senhor Luke, estão muito encrencados! Estou decepcionada que tenham esquecido de vir nos visitar. Não vou mais fazer lasanha para vocês!
Enquanto os meninos riam sem graça Matheus apareceu e arrastou Mi comi consigo, sendo seguido pelas duas pequenas que eram realmente encantadoras e perdidamente, inexplicavelmente cegas pelo Mi comi.
–Ah tia, não foi de propósito. Agora eu sou um garoto muito estudioso – explicou Thiago, abraçando-lhe em seguida. Abraços parecem muito frequentes por aqui... Frequentes até demais. Eu não sou acostumado com tanto contato assim.
–Tá bom, Thi. Está perdoado. Vai passar esse ano e continuar sendo colega do Mamá?
–Assim espero.
–Que bom. E você, Luke? Tem uma boa desculpa, vai me enrolar...? O que vai ser? – incrementou sua fala com gestos, pondo as mãos na cintura decididamente. – E quero uma resposta rápida!
Luke ficou sem graça, pois diferente de Thiago não tinha um bom motivo. Fiquei aliviado por não estar metido nessa, pois descobri que a mãe de Matheus é bem autoritária. Ficamos pouco tempo ali. Ela conversava comigo e com meus amigos por igual, mas era mais fácil para eles, que já a conheciam. Nos fez perguntas sobre o colégio, passeios, amigos e até mesmo relacionamentos! Convidou-nos para ir lá mais algumas vezes, inclusive para dormir. Era uma excelente mãe e isto me deu uma pontinha de inveja, pois por mais que eu ame a minha ela não fez nada disso por mim, nem ao menos sabe quem são meus amigos.
Depois de alguns minutos Matheus surgiu para seguirmos nosso caminho. Atrás dele veio o Mi comi, com um sorriso espalhado por todo seu rosto e uma touca cinza de lã escondendo a raiz escura de seu cabelo, deixando apenas algumas mechas da franja soltas. Ainda, atrás dele surgiram as duas pequenas, como se fossem filhotinhos de pato seguindo a mãe.
–E está touca, Lu? – perguntou Thiago, fazendo a pergunta de todos nós.
–Ganhei da avó. Está começando a fazer frio. – Achei uma graça à forma como ele se referiu à avó de Matt.
–Vamos?
–Já? Rodrigo vai ficar decepcionado por não ver vocês, principalmente você, Luquinhas.
–Ah, é que a gente já tinha feito planos, tia. Mas eu venho outro dia e brinco com as meninas.
–Vai mesmo voltar, Luquinhas? – perguntou a mais velha, agarrando-se a perna de Mi comi para que ele não fosse embora.
–Não se preocupem meninas, eu juro que volto logo.
Foi mais um sacrifício a família de Matheus deixar nós irmos embora, principalmente porque as pequeninas não largavam Mi comi por um segundo. A mãe dele também complicou, pedindo para que nós ficássemos por lá que ela fazia um excelente lanche para nós. Depois de muitos minutos tentando nos desvencilhar deles finalmente pudemos ir, com Matheus um pouco chateado com a insistência da família. Não que eu tenha me incomodado. Já no elevador Matt não aguentou e com um pesaroso suspiro agarrou Mi comi, segurando-lhe em seus braços, como se quisesse dizer “ele é meu e vocês não vão roubá-lo” para a própria família.
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–Agora eu entendi! Você explica de um jeito muito mais fácil. Obrigada, Erick!
A loira de mentira repuxou seus lábios rosa chiclete, mostrando todos seus dentes. Piscou os olhos redondos e amendoados de grandes e volumosos cílios, hipnotizando completamente o pobre nerd que, em um lapso de realidade fechou a boca, impedindo a si mesmo de babar.
–Bom, qualquer coisa que você não entenda pode me perguntar que eu te ajudo.
Desviou o olhar esverdeado para o caderno, nervoso demais para fitar a garota ao seu lado. Ela era linda e há anos que o nerd nutria um sentimento diferente por aquela garota. Era a primeira vez que “conversavam” tanto, tão bem e animadamente.
–Sabe, eu acho ‘tãaaaaoo legal que você tenha tão certeza de ser hétero que ande com gays sem se abalar.
Erick ficou completamente bobo com o elogio, principalmente porque Alice não parara por ali e com a mão por baixo da mesa colocou-a sob o joelho de Erick, alcançando a mão do garoto que recuou ao assustar-se com o toque. Arregalou os olhos por de trás dos óculos de aro fino e arrependeu-se amargamente da atitude automática.
–Obrigado – agradeceu tentando fitar a garota nos olhos, mas o nervosismo o fazia agir de forma cautelosa. – Eu não tenho duvida alguma, então não vejo problema algum em permanecer na presença de homossexuais. São legais... – mentiu. Mentiu feio porque todos os dias ele sentia-se abalado na presença daquele-que-o-nome-lhe-deixava-nervoso.
–E nem se compara com Pedro! – a loira exclamou, seguido de uma careta de desgosto. – Aquele lá fingiu ser hétero o tempo todo, nem falava mais com o Bryan e agora estão namorando! Vê se pode?
Erick somente ergueu o olhar com o coração aos pulos. O que dizer? Concordar e falar mal de seu amigo, mas agradar a mais bonita aos seus olhos ou defender seu amigo e correr o risco de perdê-la?
–Ah, desculpa! Estou falando mal de seus amigos e você nem me xingou. Você é tão legal, Erick!
Sorriu, bobo por sem querer ter tomado a atitude certa; nenhuma. Fitava a Alice encantado, pois ela era linda e vestia-se incrivelmente bem. Era bom poder conversar com alguém normal, sendo esta uma garota e que se vestia de uma forma não emo.
–Na verdade eu não gosto do Pedro – explicou, sabendo que aquelas palavras teriam uma reação positiva por parte de Alice.
–Sério? Ah, que bom porque eu também não o suporto! Do nada resolveu virar gay! Você não acha que isso não faz sentido? Antes ele saia com um monte de garotas, agora resolveu que quer namorar um garoto. Isso é tão estúpido. Aposto que ele só quer experimentar um pouco, mas quando terminar com o Bryan mais nenhuma garota vai querer ficar com ele. Perdeu moral completamente e é bem feito.
Erick deu de ombros, sem muita coragem para responder. Também não precisava, pois Alice falava por ambos. Ela fazia a pergunta e ao mesmo tempo a respondia, dando explicações e complementos. Falava gesticulando e mudando rapidamente de expressões, fazendo com que Erick mais a admirasse que lhe desse alguma atenção.
Então, sem aviso prévio e em uma questão de segundos Alice calou-se, com a respiração oscilante sorriu, jogando o cabelo para o lado charmosamente.
–Por que você não me liga para podermos conversar? Ou então pode me levar a algum lugar...
–Claro!
Descrente Erick assistiu enquanto que Alice usava de uma caneta com tinta laranja para escrever um número de celular na folha de seu caderno, branca, com linhas cor-de-rosa e sombreados de modelos com looks de moda.
– Tenho que ir, mas não se esquece de me ligar.
A loira recolheu seu material rapidamente, pondo tudo em sua bolsa colorida com chaveiros de bichinhos fofos. Levantou-se, sorriu para Erick uma última vez e com um pequeno e significante ato piscou o olho direito, sem deixar de mostrar os dentes, feliz. Observou abobalhado o pedaço de folha que recebera, analisando cada número ali... Em sua cabeça ressoava o som dos passos da bota de couro, na direção da porta da biblioteca.
Próximo da porta um moreno observava com desgosto a cena que se desenrolava. As atitudes oferecidas vindas da loira, as risadas forçadas, o papel com o número... E ela teve de passar exatamente ao seu lado na hora de sair dali. Pode sentir o perfume doce vindo de seu cabelo comprido, impregnando em suas narinas aquele cheiro que lhe provocava náuseas pela associação com a dona. Aguardou alguns segundos antes de poder se livrar daquele aroma e aproximar-se do mais novo.
Erick não percebeu nada a sua volta. Completamente distraído e afoito com o bilhete da garota que por tanto tempo somente admirou. Era um sonho realizado! Mais que isso, pois conversaram e se deram tão incrivelmente bem que não parecia real...
–Oi Erick.
Um calafrio percorreu a coluna do moreno, arrepiando os pelinhos da nunca. Não sabia dizer se a reação era somente pelo bafo quente ao pé de seu ouvido ou causado pelo dono daquela voz...
–O que é isso? – perguntou o emo de olhos bem marcados, já tendo plena consciência do que se tratava.
–Da Alice – respondeu Erick de má vontade e envergonhado, já guardando o pedaço de papel na sua mochila.
–Ah... A loira. Eu a vi saindo agora mesmo, olhando para trás o tempo todo... Ficou bem interessada em ti.
–É? – Erick demonstrou-se ansioso, irritando o mais velho. Thiago conteve sua frustração e puxou a cadeira que anteriormente estava Alice, sentando-se ao lado do nerd. Já tinha seu plano bolado mentalmente.
–Com certeza. Tá aí, te deu até o número ao invés de pedir para alguém vir falar contigo!
Thiago era uma pessoa calma, brincalhona... Mas quando viu que Erick virou o rosto para o lado, ficando vermelho até as orelhas manteve-se completamente inquieto, querendo dar meia-volta e ir atrás da loira falsa que provocara seu nerd. Que na verdade não era bem assim, sua propriedade... Mas deveria ser!
–Agora você tem que ligar, convidá-la pra sair e já sabe, né...
–O quê?
Thiago sorriu travesso, segurando o ímpeto de inclinar seu corpo para frente e apertar as bochechas vermelhas de dar dó. Os olhinhos tão inocentes e apaixonados, não característicos de Erick... Seria lindo e admirável, se não lhe fervesse o sangue por se tratar de uma menina qualquer.
–Como assim “o quê”? Não sabe o que acontece quando você sai com uma garota?
–Não. Tenho coisas mais importantes a fazer do que ficar saindo com qualquer uma.
“Qualquer uma”. Mas Alice era especial! Porque Alice isso, Alice aquilo... E infelizmente Thiago já estava acostumado a ouvir seu amigo falando da moça vinda do “País das Maravilhas”.
–Pode ser, mas o que acontece não é nenhuma novidade. Saem, conversam, tornam-se amigos e no final o beijo. É como nesses romances, tipo filme, novela... – o garoto de cabelo escuro como breu jogou a cabeça de um lado para o outro enquanto explicava. Foi observando cada gesto de Erick. Percebendo que estava alcançando seu objetivo continuou – Não que a verdade se compare com os beijos ensaiados. É bem mais emocionante, o ápice do encontro! E tem que beijar bem para conseguir a garota.
–Beijar bem?
Finalmente Thiago havia chegado onde queria. Com um pequeno sorriso mordeu o seu próprio lábio inferior e foi soltando devagar, deixando sair entre os dentes brancos provocando intencionalmente.
–Claro! Se o beijo não vale a pena não importa a pessoa e olha, tem gente que beija muito mal.
Erick abaixou o olhar, já o moreno inquietou-se na cadeira, satisfeito com os resultados. Lembrava muito bem de quando roubara um selinho de Erick e este fizera um escarcéu, como se aquilo fosse o fim do mundo. Dissera que não era seu primeiro beijo, mas ficara explícito que sim. Sabia que se por um lado ele queria ter aquilo de Erick, por outro o moreno não admitiria facilmente que mentira.
– E como demônios eu vou saber isso? – perguntou indignado, guardando agressivamente seu material dentro da mochila.
–Eu te ajudo! – Thiago não demorou a oferecer, assustando o amigo. – Posso te avaliar e ensinar. Tenho boa fama.
Erick ficou atônito com uma oferta daquelas, principalmente vinda de alguém que considerava seu amigo. Talvez mais que isso! Thiago chegava a ser seu melhor amigo, mesmo que nunca tivesse dado bola à hierarquia de amizades. Sua primeira reação foi sentir-se ofendido e reagir assim, pegando sua mochila e puxando a cadeira agressivamente, sendo repreendido.
Não que aquilo fosse inesperado para Thiago.
–Erick!
Erick saiu e Thiago foi atrás, contornando o prédio atrás dos passos apressados.
– Qual o problema? Erick!
–O problema é que você é um idiota nojento!
–Eu sou nojento por querer retribuir tudo que você fez por mim e te ajudar? Ou você age assim porque eu sou bi e você tem nojo de mim?
Erick parou, irritado. A verdade era que estava nervoso e inquieto com a proposta e por mais... Estranho que aquilo lhe soasse não poderia deixar Thiago pensando que estava irritado por causa da escolha sexual do amigo. Isto era completamente inconcebível porque não achava que havia algo errado em ser gay.
–Você vai falar direito comigo, Erick?
–É estúpida esta sua proposta! Não pode dizer algo assim para o amigo heterossexual.
–Mas eu não te chamei para sair nem perguntei se queria ficar comigo, como uma proposta gay. Eu te ofereci ajuda, de um amigo para o outro. Não é nada de sentimentos, Erick. É completamente diferente – mentiu e mentiu muito bem, a ponte de convencer o nerd. A verdade era que Thiago estava apaixonado por Erick há algum tempo e só estava esperando uma desculpa para ter algo mais íntimo com ele.
–De qualquer forma Thiago, eu não sou gay.
–Eu sei. Eu vou te ajudar, você vai se sair bem com Alice, namorarão, crescerão, se casarão, terão filhos e ficarão juntos pelo resto da vida como um casal hétero.
–Quantos verbos conjugados no plural da terceira pessoa no futuro do presente.
Thiago sorriu, achando graça e amenizando o clima entre eles. Uma pessoa normal diria apenas “quantos ‘rão’”, mas Erick era diferente, de um jeito bom; de um jeito encantador aos olhos cobertos pela maquiagem.
–Então, você vai querer minha ajuda?
Erick parou para pensar por alguns segundos. Olhou em volta e remexeu as pernas, inquieto. Suas bochechas estavam pegando fogo e suas mãos suando. Era uma proposta tentadora, estranha e, talvez, errada. Queria poder impressionar Alice para realmente se tornarem um casal, mas para atingir seu objetivo deveria beijar o seu atual melhor amigo. Deveria mesmo aceitar algo assim? Porque até alguns meses atrás aquela proposta lhe soaria grotesca e cômica, completamente sem juízo. Nem pensaria duas vezes antes de rejeitá-la, mas agora a diferença era que seria com Thiago e o que sentia ao pensar em beijá-lo era completamente distante do nojo e da repulsa...
.
“Não acredito que estou aqui” – pensou o nerd pela vigésima quarta vez. Tinha pensado e repensado aquilo antes de sair de casa, pois ainda lhe soava irreal.
Eram duas das únicas pessoas dentro do cinema, totalizando em umas 12. Todas estavam bem mais a frente, próximos da tela onde a imagem era projetada. Era um filme de aventura, não muito comentado e com pouca propaganda em jornais, televisão, sites... E tal falta de comunicação acarretou no pequeno número de pessoas ali para assisti-lo.
As condições de Erick foram claras: fora do colégio e longe de todos os conhecidos. Não queria que ninguém visse e que lugar melhor para que não fossem descobertos que uma sala de cinema quase deserta? O problema se tornara o fato de Erick sentir-se em um encontro, com as luzes baixas e o local calmo e silencioso, extremamente romântico.
“Não acredito que estou aqui”.
Sentiu um suave toque em sua mão, vinda da de Thiago. Respirou fundo, tentando acalmar o coração que saltara descontroladamente. Ele o tocou e acariciou sua pele levemente.
–Não precisa ficar nervoso.
Como se dizer aquilo realmente fosse ajudar em alguma coisa. Era obvio que estaria nervoso! Depois de 15 anos daria seu primeiro beijo! Depois de ter mentalizado milhares de vezes que aquilo seria com Alice, a garota de seus sonhos, quando tinha sonhado com aquele momento sendo com uma garota especial e quando finalmente tinha a chance seria com o melhor amigo, ainda por cima um garoto! Por sua escolha!
–Erick – chamou Thiago, pedindo por sua atenção que fora prontamente recebida. – Não precisa ficar nervoso. Sou eu, o Thiago.
O nerd bufou, falsamente irritado. Era só o nervosismo que não queria deixar transparecer por conta de seu orgulho. Thiago fazia parecer fácil, mas não era, era seu primeiro beijo! Entendia o que aconteceria, somente de forma técnica. O gosto, clima, sabor, atitudes... O resto não fazia parte de seu entendimento.
Thiago lhe sorriu enquanto lhe encarava. Aproximou-se e o coração de Erick respondeu, com um salto. Fechou os olhos quando sentiu que o hálito quente estava próximo de seu rosto e recebeu o segundo encostar de lábios da sua vida. Apenas.
–Psiu, você não pode fechar os olhos. É você quem terá de beijá-la. Vai errar a boca.
Contrariado Erick obedeceu, abrindo os olhos. Odiava estar errado. Observou Thiago com a cabeça inclinada, com aquele característico cabelo, olhos castanhos exageradamente pintados de preto, o nariz fino e bem desenhado, a pele extremamente pálida e seus lábios geralmente pálidos agora estavam mais avermelhados, aguardando por um beijo.
Embalou-se para frente e lhe alcançou, podendo fechar os olhos após o contato. Thiago abriu a boca e assim Erick fez, imitando-o. Sentiu quando a língua do mais velho escorregou para fora da boca, vindo para a sua. Durou poucos segundos até Thiago descolar os lábios, mantendo-se a centímetros de distância. Mais uma vez abriu os olhos, contrariado e controlando-se para não bufar.
–Não tenha medo de colocar a língua pra fora. É assim que funciona – Thiago explicou rapidamente, soprando em seu rosto. Em seguida retornou para seus lábios, permitindo que mais uma vez Erick fechasse os olhos.
Obedecendo, seguiu os movimentos de Thiago. Levava sua língua ao encontro da do moreno, ouvindo nitidamente os barulhos que produziam. Ainda não entendia muito bem, mas até que estava sendo fácil... E gostoso. Era muito bom e pela primeira vez entendeu o porquê de garotos e garotas se beijarem apenas por beijar.
Quando sentiu que Thiago levara sua mão até sua nuca, aprofundando o beijo começou a mover suas mãos, passando pelo torso até os ombros, pescoço e rosto de Thiago. Saboreava o contato de suas línguas. Era muito melhor do que esperava!
Quem finalizou o beijo fora Thiago, terminando, mas permanecendo próximo de Erick. Sorriu para ele, feliz. Extremamente feliz, com aquele sorriso lindo e apaixonado, passando despercebido pelo nerd.
–Gostou?
A resposta em um ato, com Erick inclinando-se para frente e indo alcançar os lábios do moreno mais uma vez, aumentando o contato dos corpos.
Notas finais
Qe ótima forma de comemorar uma sexta-feira Santa =D E este já é meu doce de páscoa pra vcs (o extra do Erick e do Thi)
Gente, eu NUUUUUUUUNCA vou desistir, posso demorar, mas desistir nunca pq amo vcs! Amo msm u.ú
O capítulo (qe não saiu mto bom, mas ok) é para o Pedro Henrique (qe fez o desenho mais lindo do mundo qe eu me exibi para todos qe conheço), Dhow (qe fez uma recomendação linda demais e me chama de My Queen), a Momo-chan (qe não comeu meu fígado com sason =)), a Jéssica... Oi Jéssica o/ Segunda vai ser dia de Emo-ções u.ú (qe é minha coleginha de aula), ao pessoal do ask qe amaldiçoou até minha alma por ter demorado =) (mas é anony, então não posso dizer qem), e todo mundo que SEMPRE acompanha mesmo eu demorando meses! Me perdoem por não citar todos, mas saibam qe realmente são especiais e qando vejo o review sempre lembro qem são (se n mudarem a foto e o nome ao msm tempo, né) e são especiais s2 Sério gente, vcs são tudo e sem vcs n tem história, então continuem sempre cmg e com meus eminhos lindos e fofos =3
Outra coisa: vcs sabem qe Emo-ções acabará. Eu chuto qe deva ter... Cinco capítulos?? Por aí... MAAAS eu n vou deixá-los sozinhos! Pq os amo e vou continuar a impregnar suas vidas com emos =3
Perdoem minha demora. Sou um desastre. O próximo capítulo vem com grandes, graaaaaaaaaaaaaaaaaaandeeees Emo-ções =D (qe coisa...)
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