Emo-ções - Por Todos Os Motivos Errados

16 Capítulo 16:...E envolvido em amor.


Corri para as escadas e subi sentindo minhas roupas grudarem mais. Odeio isso! Pior é o frio. Passei no hall e entrei no quarto de meu pai, rumando para o banheiro dele. Tenho certeza que hoje ele não irá reclamar nem se eu transformar o banheiro em um lago.

Apressado, retirei minha roupa e larguei no chão, propositalmente. Liguei o chuveiro no quente e aguardei impacientemente enquanto esquentava.

Quer saber uma verdade? Eu quero ficar doente. Quero poder ficar bem gripado, tossindo até meus pulmões para, assim, poder ficar na minha casa com meu pai se preocupando com o filho com os braços e rostos cortados e saúde momentaneamente debilitada. Sabe qual o pior? Faz tempo que eu não fico doente. Terei sorte desta vez? Fiquei bastante tempo na chuva e depois com a roupa encharcada no frio.

Entrei embaixo d’água e fechei o box. Devo descrever o quão maravilhosa e perfeita e essa sensação? A água bem quentinha escorrendo por meu corpo gelado, aquecendo-me...

Hum... Como as coisas mudam. Passei a tarde acreditando que meu pai não me queria mais e iria adotar, agora estou em casa, tomando banho no banheiro de seu quarto, prestes a usar seus xampus, me secar em sua toalha, comer um macarrão bem quentinho e gostoso exatamente do jeito que gosto... Tudo indo perfeitamente bem, bem ate demais... Melhor não pensar que quando tudo vai bem o perigo é iminente.

Não só esta tudo tomando um rumo perfeito e belo como também teve aquela conversa estranha, mas boa. Eu sou tudo para ele? Desde quando? E, se é assim então por que nunca disse nada antes? Nem parece meu pai... Aliás, ele conversou com a psicóloga! Sério, isso parece piada. Meu pai frequentando a psicóloga? Ele nunca quis nem ao menos me acompanhar. Na verdade era um sacrifício ele me levar e buscar, mas assim fazia para ter certeza que eu iria.

Droga, vou ter de tirar os curativos e puxar não adianta. Preciso de uma tesoura. Como vou conseguir uma tesoura no banheiro? O melhor de objeto cortante que conseguirei é lâmina de gilete e, bem, lâmina perto de meu braço me traz algumas lembranças...

E aí, chamo meu pai ou uso a lâmina? Bem, eu não quero que ele venha enquanto estou tomando banho, seria bem estranho... Então é lâmina.

Peguei-a. Com cuidado usei para arrebentar os curativos grudentos de meu braço e até que não machuquei a pele – mais do que já está.

Flexionei o braço. Dói um pouco, mas nada demais comparado com o que já senti. Acho que os cortes não foram fundos, pois somente um teve de levar dois pontos, o resto foi enfaixado. Custava muito eles me dizerem que os machucados foram leves? Custava eles dizerem aos meus pais que os machucados não são graves? Pais... Plural. Quanto tempo faz que não posso usar essa palavra no plural? É sempre um ou outro. O máximo de contato que eles chegaram esses últimos anos foi hoje no hospital e as conversas por telefone.

-Bryan?

Puta que pariu, meu pai! Tem mesmo que entrar no banheiro?! Enquanto estou tomando banho?!?

-Fala pai.

E ele entrou. Eu não vou dizer para ele que tenho vergonha, pois é meu pai, mas também não é normal, ‘né. Eu já tenho 15 anos!

-Pegaste roupa?

-Hum... Não. Que roupa? Eu não moro mais aqui – forcei um pouco. Obviamente que fico triste em não morar mais aqui, mas ele também é afetado por ter mandado o filho embora.

-Pelado não ficarás. Não deixou nada aqui?

Permaneci de costas, escondendo meu corpo. Sério mesmo que tem que conversar comigo de dentro do banheiro?

-Só deixei umas roupas velhas que nem me serviam mais.

-Retiraste os curativos do braço?

-Eu encharquei tudo mesmo...

-Deixe-me ver.

Quando percebi ele empurrara para o lado a porta de vidro temperado e esperava que eu mostrasse o braço. Corei gradativamente.

-Pai! Eu estou tomando banho!

-Ser gay não te torna uma garota.

-Ser pai não te dá o direito de invadir o banho do filho de 15 anos!

-Ah, então é isso! – ele exclamou em um tom de “ah, entendi”. –Não queres que eu te veja, por isso ficas de costas...

Meu rosto ferveu e, obrigatoriamente eu me virei de frente para ele. Meu pai simplesmente esticou a mão com a manga puxada, esperando que eu mostrasse meu braço. Supri minha imensa raiva o máximo que consegui e estiquei o braço. Ele olhou com cara feia.

-Isto é tua tentativa de suicídio?

Encarei-o, confuso.

-Acho que sim...

-Não.

Meu pai retirou o relógio de meu pulso e deixou aparecer minhas cicatrizes. Várias linhas horizontais paralelas, mal e tortamente.

-Isto são cicatrizes de uma tentativa de suicídio. Isto no teu braço são machucados.

-Eu disse, não disse? – respondi em um tom de “eu estava certo”. Meu pai odeia quando faço isso.

-É nisso que dá levá-lo a um pronto-socorro! Só tem merda lá! Doutor mesmo há somente em clinicas particulares.

Abaixei os braços, segurando o pulso esquerdo com a mão direita. Fiquei esperando meu pai se acalmar e me deixar tomar banho em paz. Ele bufou.

-Posso tomar banho?

-Deixe-me ver teu rosto.

Puxei todo o cabelo para a parte de trás da cabeça, deixando minhas bochechas a parecerem. O curativo já estava quase caindo por si próprio, fora necessário somente um puxãozinho que nem doeu.

-Não está tão feio... – ele comentou, mas para não estar tão feio para meu pai tem que ser minúsculo e doeu muito o rosto. Ele está mentindo. –Nada que um bom cirurgião plástico não resolva.

-Eu ainda não vi – disse-lhe, sentindo um ar frio bater em minha pele, fazendo-me tremer.

-Ligou o aquecedor, criança?

-Não.

Odeio quando ele me chama de criança. Faz isso quando quer dizer que ajo como uma criança; imaturo, irresponsável, infantil...

-Quer ficar doente, não é Bryan?

-Claro pai. Agora posso tomar banho em paz?

Empurrei a porta de vidro temperado, fechando o Box. Virei de costas, cruzei os braços e bufei, corado. Ouvi sua risada atrás de mim.

-Certo criança. Vou ver-te algumas roupas.

Revirei os olhos.

-Se soubesse o que faço não me chamaria de criança – resmunguei baixinho.

-Eu ouvi bem, Bryan?

Merda!

-Conte-me, então. O que fazes?

-Nada, pai.

-Ora, tua chance de deixar de ser criança.

-Nada! Não faço nada! Tchau!

Antes de sair ele riu, jogou no lixo os curativos e retirou o aquecedor debaixo do armário da pia, ligando-o. Em seguida dirigiu-se para fora do banheiro.

-Faço sexo, tá bom? Sexo com outros garotos e bato uma no colégio – sussurrei bem baixinho, só para mim. Imagina só o que acontece se meu pai tem uma mínima noção disso...

Mais aliviado e menos envergonhado eu pude terminar meu longo banho. Saí do chuveiro para um banheiro quentinho e não pude reclamar de frio. O incômodo foi não poder me secar e me vestir.

-Pai! – gritei-o. Sorri ao lembrar que ele odeia quando faço isso. –Paaai! PAI!

-Espera!

Sorri separando os dentes e estreitando os olhos. Logo ele chegou e abriu a porta. Novamente me vi numa situação que fez minhas bochechas arderem.

-Berras como uma criança escandalosa.

Colocou uma toalha branca macia sobre meus ombros, pendurou as roupas que trouxera nos ganchos atrás da porta e largou coisas para se fazer curativos encima da bancada.

Sequei as feridas e enrolei-me na toalha antes dele me pedir o braço. Quando o fez estiquei-lhe o direito e começou a fazer os curativos. Passou uma pomada e foi enrolando a gaze do pulso até o cotovelo.

-Apertado?

-Não.

Quando terminou fez o mesmo procedimento no outro braço. Depois foi a vez de meu rosto.

-Pronto.

Beijou-me a testa e esfregou meus ombros.

-Trouxe-lhe uma cueca e uma calça de moletom do teu armário e um blusão meu. Não deixaste nada quente.

-Certo.

-Te veste e vá comer que está quase pronto.

Desta vez não perguntou nada. Somente trocamos essas palavras e o resto foi silencio. Bem, esse é o normal de meu pai, mas desta vez não foi em um clima sério ou tenso. Saiu do banheiro e deixou que eu me vestisse sozinho.

Sequei todo meu corpo. Usei a própria toalha para secar meu cabelo, pois o secador está na casa da minha mãe. Quando terminei coloquei a cueca e vesti aquele blusão escuro dele duas vezes meu tamanho, porém confortável e quentinho. Coloquei a calça velha de moletom e as meias brancas. Catei meu tênis e saí do bafo do banheiro para o ar frio do quarto. Calcei os tênis e saí do quarto, descendo as escadas, indo na direção da cozinha.

-Que gracinha minha criança – desdenhou ao ver-me com aquele blusão tão grande que me caia do ombro. Revirei os olhos –A comida está pronta – avisou e virou para o armário, ainda rindo.

Ele abriu o armário e começou a pegar dois pratos, dois garfos, duas facas... Ajudei-o pegando dois copos e levando-os para a mesa de jantar.

-Para beber?

-Fiz suco de maçã.

Suco! Vitória! Ah, ainda é de maçã... Amo! E ainda quando é meu pai a fazer significa maçã mesmo, nada de pozinho. Não há como comparar a casa de meu pai com a de minha mãe.

Voltei para a cozinha e busquei na geladeira a jarra de vidro com o suco de maçã. Levei de volta para a mesa de jantar e larguei no centro da mesa, entre onde eu sentaria e onde sentaria meu pai. Ele quem escolheu que ficaríamos um de frente para o outro. Servi meu prato com bastante macarrão, pois estou com fome, tive um péssimo almoço. Mais um copo de suco e me sentei.

Começamos a comer. Lembrei de corrigir a postura. Se me aproximo muito do prato meu pai reclama. “Não se leva a boca à comida, mas a comida à boca”. O problema é: quanto mais longe a boca estiver do prato, mais chances há da comida cair no caminho. E... Bem, minha mãe e Amanda não se importam se eu me aproximo um pouco do prato.

-Como anda o colégio?

-Bem – respondi a sua tentativa de puxar assunto.

-Fez amigos?

-Na verdade sim – respondi com um sorriso. –Bastante, até. – E meu pai estranhou.

-Hum... Talvez um namorado?

Tive de colocar a mão na frente da boca para não cuspir o suco longe. Meu pai perguntou mesmo isso? Droga, minha garganta e meu nariz estão ardendo. Engoli o que ficou em minha boca com dificuldade e pensei numa resposta, mas qualquer coisa me parecia “errado”.

-Você me perguntou mesmo isso, pai?

-Estou melhorando, não? Quero mesmo ouvir uma resposta.

Certo... Ele realmente espera uma resposta... O que direi? Eu dormi com o Matheus, mas foi somente uma noite. Gosto do Pedro, mas não é recíproco. Já fiquei com o Mi Comi, Alex, Luke... Não, Luke não. Por que eu nunca fiquei com o Luke? Me ajeitei melhor na cadeira enrolando um pouco de massa no garfo.

-Bem... Não.

-Parou para pensar.

-Eu gosto de alguém, mas não é recíproco e tem alguém que gosta de mim... – respondi rapidamente metendo uma garfada dentro da boca para não ter que continuar a falar. Tomei o cuidado para dizer “alguém” ao invés de “um garoto”. Eu não sei se é realmente normal ouvir isso para ele, mas não é normal para mim dizer a meu pai. Nem consigo conversar fitando-o!

-Huum...! – saiu sem querer e automático. O sabor estava incrível e único, exatamente do jeito que só meu pai sabe fazer. Meu paladar agradeceu milhares de vezes.

-Que bom que gostou da comida, filho.

Esbocei um sorriso sem dentes por estar com a boca cheia de comida. Como senti saudades disso...

-Qual o nome dele?

Ruborizei de imediato com tal pergunta. Ele é meu pai! Não pode me perguntar esse tipo de coisa! Que tipo de mágica a psicóloga fez...?

-Por que quer saber?

-Porque é a vida de meu filho.

Engoli a comida com dificuldade. Também não precisava de exagero. Eu não me sinto a vontade de conversar sobre isso com meu pai.

-...Pedro – respondi depois de um longo tempo de silêncio para raciocinar.

-Viu? Não doeu.

-Você quem diz...

Continuei a comer em silêncio, pensando se deveria mesmo ou não ter contado o nome de Pedro a meu pai. Poderia ter dito o de Matheus, mas é provável que meu pai chegue a o conhecer, pois anda comigo.

-Bryan?

-Hum?

Fitei-o, já sabendo que viria bomba. Continuei a comer enquanto ele suspirava antes de pergunta, nervoso.

-Por favor, me diga que este garoto não se assemelha a uma garota ou uma criança.

Tapei a boca e novamente quase cuspi o suco. Como o Lucas? Ele quer saber se o garoto que eu gosto não é um Mi comi da vida? Coitado do loiro oxigenado! Imagina só se eu apresento o Mi comi como Pedro? Meu pai tem um ataque cardíaco! Vai acabar completamente com a bondade e compreensão!

-Ele é, não é? – ele questionou mais nervoso ainda e um tanto irritado.

Me levantei bruscamente e corri para a cozinha, cuspindo o suco na pia. Livre, ri a vontade. Ri de mais, apoiando minhas costas na pia. Ri, ri muito ao me imaginar chegando com Lucas e beijando-o próximo de meu pai. Coitadinho do Mi comi! Pesadelo dos pais no requisito namorado...

-Bryan, venha comer.

Devo comentar que ele está um tanto mal humorado?

Ainda rindo levemente me levantei e retornei a sala de jantar. Ele não olhou para mim.

-Calma pai. Ele não é um gay ‘purpurinado, está bem? É um garoto normal que faz parte do time de futebol do colégio, tem amigos normais...

Ele me encarou, ainda desconfiado e eu sorri. Coagitei a possibilidade de ir até ele e abraçá-lo de uma forma carinhosa, mas... Bem, isso não faz parte de minha personalidade. Eu nunca fiz isso antes, principalmente com meu pai. Tenho... Vergonha de começar agora.

-E...?

É, meu pai entende bem. Levantei as mãos de palmas abertas com os cotovelos flexionados em um questionamento mudo; “quê?”.

-Eee...? – insistiu, esperando um complemento. Entendi a indireta. Bati as mãos nas pernas, junto ao corpo e olhei para o lado, suspirando.

-E é hétero.

Não precisei ver para saber que sorrira.

-Coma Bryan, a comida está esfriando.

Puxei o ombro do blusão e voltei para meu lugar, sentando. Lembrei-me do motivo pelo qual me levantei e sorri de automaticamente. Enrolei um pouco de massa no garfo e comi, saboreando-a.

Terminamos de comer em silêncio. Meu pai nunca gostou de conversar no almoço e jantar. Terminei o macarrão mais do que satisfeito. Conversamos um pouco sobre coisas bobas até meu pai decidir ir tomar banho antes de dormir. Ele subiu e eu tirei a mesa, obviamente deixando a sujeira na pia.

De repente algo me despertou de meus pensamentos. Uma música alta vindo da sala de jantar. Segui o som do toque de meu celular e o encontrei bonitinho na cristaleira. Peguei-o. Era uma mensagem de “Mi comi”.

“De: Mi comi

17 de junho, às 22:03

Bryan fofuxo, linduxo amorzinho, tenha uma boa noite com muuuuuuuitos bons sonhos! Lindos, lindos sonhos... Muitos beijinhus do Lu =*”.

Vomitei um arco-íris ao ler. Como ele é meloso e grudento! Mas, coitadinho... É carente. E depois do que aconteceu entre ele e o Alex... Ai, nem quero pensar nisso! Lembro da vez que quase aconteceu o mesmo comido... O desespero é tão horrível...

Respondo a mensagem para fazê-lo mais alegre e saltitante? Melhor, vou ligar. Disquei o número pela agenda e, enquanto chamava fui subindo as escadas. Chamou um pouco e, logo, ele atendeu.

-Bryan? – me chamou do outro lado da linha com uma voz diferente.

-Oi fofo – respondi, sorrindo ao recordar o quanto ele gosta de ser chamado assim.

-Oi Bryan! Tudo bem? Por que me ligou?

-Nada em especial, só para conversar. Não queres?

-Quero! Sim! É só que é raro você me ligar.

Rimos. Sentei em um dos puffs ao lado da janela. Na rua o céu encontra-se bem escuro e a chuva transformara-se em uma tempestade.

-Tudo bem?

-Sim...

-Mesmo? – insisti.

-Não... – respondeu-me, fungando.

-O que houve?

-Estava brigando. Meu pai me xinga porque ando chorando mais. Diz que sou afeminado, gay, uma bicha louca...

O pai dele é tão bonzinho quanto o meu. Bem, agora não tenho do que reclamar.

-Chorando por alguém que não merece.

-Alguém que eu amo...

O barulho de choro surgiu do outro lado da linha.

-Por que não conta a algum dos teus pais?

-Impossível! Minha irmã vai rir, meu pai ficar furioso por ter um filho vergonhoso e minha mãe já tem problemas demais.

-Bem... Tens a mim e a Matheus...

-Bryan... Não me leva a mal e nem me chama de ingrato. Amo vocês e me sinto bem melhor em tê-los, mas agora, mais que tudo no mundo eu gostaria que tivesse alguém para me dar o amor que eu esperava dele.

-Acho que não posso te ajudar nisso.

-Você já faz muito, muito, muitíssimo por mim. Obrigado!

-Poréeeem...

-O quê?

-Nós podemos passear um pouquinho, conhecer novos garotos... Quando quiseres, claro. Mas não demore para os melhores não fugirem.

Ele riu, bem mais animado. Lucas é como uma criança, nem percebeu que um desconhecido é mais perigoso que Alex.

-Sim, sim! Mas agora quero alguém que viva sem sexo.

-Então teremos de ir a uma Igreja e olhe lá!

Rimos e nos divertimos. Fiquei a conversar com Lucas até meu pai terminar seu banho. Quando assim o fez eu desliguei.

-Não vais dormir filho?

-Contigo.

Ele sorriu e fez sinal para que eu entrasse enquanto secava seu cabelo com a toalha. Apagou a luz e fechou a porta do quarto. Sentei no lado da cama, esperando-lhe. Faz muito tempo que não durmo com meu pai e acabei sendo levado pelo momento “pai e filho”. Ele ligou a televisão, deixou a toalha em algum lugar qualquer. Voltou na minha direção e sentou-se do meu lado. Tocou em minha testa, conferindo minha temperatura e me deixou. Pegou o controle e deitou-se no meio da cama.

-Tens que dormir, filho. Amanhã cedo tens aula.

Suspirei.

-Vai pra lá, pai! – disse empurrando-o mais para a beirada. Ele não entendeu muito bem, mas obedeceu-me. Deitei na cama de lado, recostando minha cabeça em sua barriga, por cima da coberta. Senti seu peito subir e descer em movimentos ritmados enquanto observava-o de um ângulo diferente.

-Não vais ver televisão?

Movimentei a cabeça em sinal negativo.

-Tens sono?

Concordei com um aceno de cabeça.

-Tudo bem?

Assenti.

-Estava conversando?

-Com um amigo – complementei.

-Tens bastantes amigos neste novo colégio, não é?

-Sim.

-Quem diria... Encaixas-te melhor em um colégio público que um particular.

-Antes não se importavam comigo, mas com dinheiro. Os professores eram simpáticos pelo emprego, os alunos ou eram amigos interesseiros ou me odiavam completamente.

Meu pai trouxe sua mão para próximo de meus cabelos, puxando minha franja para trás. Em seguida passou seus dedos pela extensão de meus fios negros, carinhosamente.

-Agora não é assim?

-Acho que agora gostam de mim de verdade. Me entendem, minhas tristezas...

-Tristezas? – indagou curioso.

-Sempre quis voltar pra casa e ouvir você dizer que ainda me ama.

Recebi um sorriso em resposta.

-Não sou o único que mudei, não? Estás fazendo amigos, socializando, estudando, sendo menos frio... O que te fizeram?

Ri , ajeitei o ombro do blusão e puxei a coberta até meu pescoço.

-Pergunto o mesmo. Num momento eu era o pirralho gay de merda, no outro... Um filho perfeito.

-Porque pulamos um pedaço. Houve um processo.

-Digo o mesmo.

Não deixei de sorrir enquanto conversava, nem quando disse do modo como me chamava. Sinto-me vibrando por dentro e não sei como explicar a felicidade de dentro de mim.

O silêncio entre nós tornou-se, pela primeira vez agradável.

-Filho... – chamou-me com carinho enquanto seus dedos escorregavam de minha bochecha quente a minhas mechas negras e macias. –Queres voltar para casa?

A felicidade que nasceu em meu peito e abrochou rapidamente não cabia dentro de mim. Quis apertar-lhe, gritar, rir, chorar... Tudo ao mesmo tempo. Se eu voltasse para casa e meu pai não mudasse seria perfeito...

...Não é...?

E...

...O colégio...?

Notas finais
Háaaa! Terminei o caítulo rapidinho! Também, passei sexta escrevendo... E sábado... E domingo... Kkkk E... Eu queria muuuito postar esse capítulo essa semana porque Kouwonf, um leitor muuuuito importante me pediu! Ele sempre deixa reviews grandes e inteligentes, sabe, entende direitinho as coisas "escondidas" nos capítulos e que, se um personagem age estranho é porque tem algo... me pediu que fosse essa semana! Mas, espera, domingo é o primeiro dia da semana, então... Shit! Vamos ignorar isso, certo?
Boa notícia! Vou ganhar um notebook! E como eu passo das 7 horas às 19 no colégio, posso levar o note e escrever lá! Irão se enjoar de mim!! Muahahaha