Emo-ções - Por Todos Os Motivos Errados

1 Capítulo 1: Sozinho ou acompanhado?


Meu despertador tocou. A mesma música de sempre, mas até hoje não sei o que diz, nome ou quem toca. Pensei em dormir mais cinco minutinhos, mas percebi que aqueles cinco minutinhos já haviam passados. Na verdade, aqueles cinco minutinhos tinham se transformado em quinze minutinhos e eu estava atrasado.

Levantei-me e segui minha rotina de sempre, porém apressado. Me vesti com um casaco com listras horizontais preto com vermelho e coloquei o capuz. Pus meus acessórios de sempre, como corrente no pescoço e pulseira de taxas. Passei base e lápis de olho levemente, rezando para não borrar e ter de refazer levando em consideração que eu já deveria ter saído de casa. Calcei meu all star preto e peguei minha mochila preta cheia de botons e acessórios. Passando pela cozinha peguei uma maçã e saí de casa comendo-a.

Uma brisa soprava de leve, porém não estava frio. Mesmo assim puxei levemente as mangas de meu casaco até a metade da palma de minha mão, segurando-o com meus dedos de unhas pretas.

A medida em que fui me aproximando mais da escola – o qual ficava a duas quadras de minha casa – comecei a ficar nervoso. Sim, estou mudando de colégio... De novo. Até três dias atrás eu morava com meu pai, até o mesmo descobrir que sou homossexual. Já lhe era difícil aceitar que seu único filho fosse emo, descobrir que sou gay foi a gota d’água que fez o copo transbordar. Mas não o culpo, eu não sou um bom filho mesmo.

Então, no momento moro com minha mãe. Ela não é contra eu ser emo e homossexual, mas também não é fã dessa idéia. Ela trabalha o dia todo e não pode me dar muita atenção, por este motivo que até hoje morei com meu pai. Mas agora não há escolha.

Eu sei como será, o que dirão de mim e como reagirão, porém é impossível me manter calmo. Quando o portão do colégio se tornou visível a meus olhos meu coração acelerou drasticamente, como se possuísse vida própria. Ignorei-o na medida do possível e segui rumo a minha nova vida.

Adentrando lá a primeira coisa que pude perceber foram os olhares voltados para mim; olhares até demais. Quis vasculhar o local e procurar por um grupo no qual eu me encaixasse, mas o orgulho e a vergonha me ensinaram a manter-me focado, visando nada de especial, porém concentrado. Foi meu modo de dizer “não importa o que pensem de mim”, mas era mentira. Me importa.

Fui até a diretoria e peguei meu horário. Procurei pela sala 23, na qual eu teria minha primeira aula: matemática. Quando encontrei-a, pela movimentação e ausência do sinal deduzi que a aula ainda não houvera começado. Entrei na sala de aula focado e mais uma vez sentindo aqueles olhares numerosos demais e incômodos em minha direção. Será que nunca viram um emo, é?

Sentei como quarto da fila encostada na parede. Joguei minha mochila ao lado de minha cadeira e, suspirando apoiei meu cotovelo na classe e meu rosto em minha mão. O nervosismo ainda pairava em meu corpo, quase fazendo-me tremer.

-Ele é estranho – sussurraram. Suprimi minha imensa vontade de dizer “chama-se emo. É somente um estilo diferente, sabia?”

-Ele é parecido com aqueles garotos do segundo ano – ora, ora. Quem diria que há emos nesse fim de mundo! Ainda bem, pois estou acostumado a morar e estudar no centro de cidade grande, onde há maior movimento.

-É emo – continuaram a sussurrar, como se eu não escutasse.

Não é como se tais comentários fossem de suma importância para minha vida, mas a vontade de chorar predominou. Sei que tenho problemas com emoções, mas não sei o que eu possa fazer. Não costumo contar coisas assim para meus pais, não sou importante o suficiente para usufruir do prazer de passar meus problemas para eles.

Quis chorar por medo de ficar sozinho. Infantil, não? Porque não passaram pelo que eu passei. Sou propenso a solidão por motivos os quais não sei citar, mas isto é mais acentuado agora que defini um estilo e preferência sexual diferente. Sei que se eu mudar minha aparência e esconder minha personalidade tenho mais chances de me enturmar, mas não é isso que eu quero. Não quero ter de me esconder ou ser aceito somente por aquilo que não sou.

-‘Falaê aluno novo!- cumprimentou-me alguém.

Eu disse o quanto sou distraído?

Voltei meu olhar na direção do garoto de pé ao meu lado. “Lindo” foi meu primeiro pensamento, então sorri. Ele jogou sua mochila encima da classe na frente da minha e sentou-se de lado na cadeira, dando atenção a mim.

-Você se destaca, sabia? E... Usa maquiagem! Nossa! – ele exclamou assustado, aproximando mais seu rosto do meu, deixando-me nervoso, envergonhado e... Deixa pra lá. –Você é viado ou isso é comum da onde você veio?

Analisei as opções. Se eu dissesse que sou gay talvez tivesse uma chance dele não ser preconceituoso e eu poder levá-lo para o outro lado, porém também há a grande chance dele ter nojo, já que usou o termo “viado”. Já se eu negasse e, mais tarde ele descobrisse que sou acabaria com as chances. Na segunda parte, sobre ser comum de onde eu vim, nem adianta discutir, pois há outros como eu, mas não é comum. Sendo assim a escapatória seria mudar de assunto.

-Essa é sua primeira pergunta? Não quer nem saber meu nome? – eu perguntei sorrindo, para que assim ele não me interpretasse grosseiramente.

-‘Malz ‘aê. Seu nome?

-Bryan. E o seu?

-Pedro.

Pedro... Um nome bem comum. Agora posso dizer: Pedro é lindo! Ele é bem... “garoto”. Digo assim porque ele é normal, diferente de mim. Cabelo castanho escuro e curto, olhos escuros... Não há nada de muito diferente, porém ele é lindo.

-Você vai ter de tirar o capuz, os professores não deixam usar dentro da sala.

Abaixei o capuz do casaco e balancei a cabeça, em seguida passei os dedos de leve na minha franja, arrumando-a.

-Nossa cara, você usa maquiagem mesmo!

-É normal os garotos emos usarem um pouco de maquiagem – expliquei por alto, sem entrar em maiores detalhes. –Os professores se atrasam aqui? – mudei de assunto antes que ele perguntasse por mais.

-‘Noops. Na verdade, entram antes do sinal bater.

-Bom dia.

Foi só ele falar que uma mulher baixinha e loira adentrou a sala, carregando consigo vários livros e cadernos. Pensei em responder para ela, mas ninguém respondeu.

-Começamos há poucos dias o segundo trimestre. Você vai precisar da matéria.

-Você a tem?

-Não. Mas posso consegui-la facilmente para você – ele disse rindo, levando uma mão até minha cabeça e bagunçando meu cabelo. Calmamente, arrumei com as mãos os fios bagunçados, tentando ajeitá-los de volta. Pedro estranhou. –Cara, você é estranho.

-E você é normal – respondi com um sorriso, fazendo, assim, ele sorrir também.

O sinal bateu e a aula começou. A professora não exigiu que eu me apresentasse detalhadamente. De meu lugar mesmo ela deixou eu apenas dizer meu nome, idade e o que mais gostava. Quando ela começou a passar matéria, para mim pareceu que a professora falava grego. Explicava tudo embolado e, como eu não tinha a matéria para entender a parte anterior fiquei boiando. Espero que Pedro realmente me ajude.

Depois de dois períodos com aquela tortura era hora da aula de química. Trocamos de sala e, na de química era para os alunos sentarem-se em duplas nos balcões. Foi só Pedro entrar na sala que várias garotas vieram para a volta, como abutres em carne podre. Sinceramente, achei que as garotas daqui não fossem bobinhas assim, pelo menos não eram na minha outra escola. Lá, eram os garotos que corriam atrás. Mas, não poderia ser para menos. Pedro é lindo e não destrata nenhuma delas... Infelizmente.

-Desculpe garotas, mas hoje sentarei com Bryan.

Que vontade enorme de jogar isso na cara delas, agarrando-me firmemente no braço de Pedro. Mas, limitei-me a sorrir de forma arrogante, sendo alimentado pelas caretas de irritação daquelas garotinhas chatas.

Não prestei atenção na aula. A professora de química era uma abobada, passou uma tarefa e nos deixou conversando. Pedro comentou algumas coisas sobre minha aparência e meu estilo, comentou rapidamente sobre os emos nos quais eu houvera escutado as garotas citarem mais cedo e logo trocou de assunto, fazendo-me perguntas sobre gosto e preferências. Já eu, como o distraído que sou limitava-me a responder e apreciar sua voz, já que tudo nele era encantador. Ele é exatamente o tipo que me atrai.

-Bryan! Bryan, você me escutou?

-Sim – menti.

-Então vamos.

Ele se levantou e esperou que eu me levantasse. Olhei para a volta tentando entender e percebi que o sinal para o intervalo começar houvera soado alguns segundos atrás, pois a maioria dos alunos já tinham deixado a sala. Levantei-me e o segui um pouco mais atrás, quando de repente ele parou.

-‘Peraí. Camila – ele chamou virando-se para trás e, logo uma garota morena de cabelo liso se aproximou correndo, sorrindo de um jeito idiota.

-Sim Pedro?

-Você me faz um favor?

-Claro!

-Então copie a matéria de matemática do segundo trimestre para Bryan, ok?

Ela não sorriu, mas fez que sim com a cabeça. Eu fiquei parado enquanto Pedro voltou até minha mochila e começou a mexer nela normalmente, como se fosse a sua própria.

-Qual deles é?

-O de banda.

Ele pegou meu caderno com o Simple Plan na cama e entregou-o para a garota. Conversaram alguma coisa em sussurros e Pedro voltou para meu lado. Seguimos para fora da sala.

-Ela tem uma bela letra, mas não é bom jogar um monte de cadernos encima dela em um dia. Português pode ficar com a Bianca, Biologia com Amanda...

-Fácil assim? – eu perguntei interrompendo-o, sem saber para onde estávamos indo.

-Claro. Elas fazem qualquer coisa por mim. Qualquer garota do colégio você me diz que consigo ela para você, fácil, fácil – ele comentou animado, envolvendo meus ombros com seu braço, fazendo assim meu coração dar um pulo. –Mas de preferência não as muito metidas, principalmente do terceiro ano. Elas me dão nos nervos. Há poucas exceções, mas da nossa turma qualquer uma!

Não, obrigado. Não gosto de garotas. São tão fúteis, falsas e superficiais...

Limitei-me ao silêncio e percebi que haviam muito mais olhares sobre minha pessoa do que antes. Tentei ignorá-los como sempre, mas desta vez me pareceu impossível.

-Estão me olhando mais do que quando cheguei – comentei para Pedro.

-É claro que sim. Você está andando comigo. Sou bem popular aqui.

-Percebi.

Eu ia manter o silêncio, mas a dúvida estava me consumindo por dentro, quase corroendo, impondo-me condições de tortura mental para caso eu não a extinguisse.

-Por que você, mesmo sendo tão popular assim quis se aproximou de mim?

Pedro não deu muita bola para minha pergunta. Continuou com o braço sobre meus ombros, guiando-me para algum lugar o qual desconheço.

-Porque você é diferente. Não me pareceu que fosse querer se aproximar de mim só porque sou popular.

-Você tem razão – o comentário escapou de meus lábios sem querer, daquele jeito que sai e nunca mais voltam.

Pedro parou de caminhar de supetão, em um solavanco. Largou meus ombros e puxou meu braço com força pelo mesmo caminho pelo qual viemos. Estranhei, mas quando fiz menção de perguntar o porquê daquela atitude quando uma onda sonora de freqüência alta viajou pelo ar até meus ouvidos, irritando-me, causando a meus tímpanos um enorme desconforto.

-Temos mais um para nosso grupo!

Pedro tentou me puxar com mais rapidez, porém um puxão em meu pescoço obrigou-me a ir para trás, quase formando um cabo de guerra comigo.

-Você é lindo! – aquela voz aguda de amplitude forte novamente, porém desta vez tão próximo de meu ouvido que acabei por agir inconscientemente e fazer uma careta.

Olhei para o lado e vi um garoto menor que eu, loiro falso, pois a raiz escura já começara a nascer. Um casaco preto de caveira, pele coberta por maquiagem, pulseira de espinhos, botas rasteiras com fivelas e olhos bem marcados.

Um emo.

Notas finais
Sem reviews, sem história. Simples - e cruel - assim! =D