Emma Turner, em carne, osso e TDAH
1 1. Irmãos, gatos, tinta azul e waffles cor de rosa
Notas iniciais
Olá! Bom, a partir de agora (e por causa da doutora Ana) estou escrevendo esse diário/guia de sobrevivência para as situações mais bizarras que uma adolescente relativamente normal poderia vivenciar. Começando por hoje, quando meu gato resolveu dar a louca com a tinta azul.
Dia 1, à noite (porque eu estava com preguiça de buscar esse diário no meu quarto na parte da tarde).
Devo começar me apresentando, né? Meu nome é Emma Stuart Turner, tenho quinze para dezesseis anos (24 dias!) e tenho uma aparência bem normal para falar a verdade: 1,63 de altura, cabelos curtos meio onduladinhos e marrons claros e os olhos cor de mel. Meus problemas são mais mentais, sabe? Tenho déficit de atenção e uma tendência à hiperatividade ainda não descoberta. Isso significa... Olha um mosquito! Será que ele tem família? Se eu tivesse um mosquito de estimação, chamaria ele de Quito. Daí ele teria um casamento arranjado com uma mosquita chamada Quita, e eles teriam filhinhos: Quitinho, Quitinha e Anastácia.
Voltando, eu tenho um gato. Ele é uma bolinha preta cheia de energia chamada Eustáquio Darth Blue Luno Terceiro. Ou somente Taq, para os íntimos, e também os sem paciência de chamá-lo pelo nome inteiro (oi, eu e o resto do mundo!). Ele tem os olhos azuis e um pouquinho, bem pouquinho mesmo, vesgos. Mas é claro que todos o zoam, coitadinho. E exatamente por ele ser essa bolinha de energia, ele estava correndo pela casa coberto de tinta azul e sujando todo o chão que eu tinha acabado de limpar, gastando minhas unhas (quase) pintadas e minhas costas, que já são detonadas por natureza.
Agora é aquela hora que você pensa: Mas por que o pobre gato estava coberto de tinta azul? Se você não pensou nisso, comece a pensar. Enfim, tudo começou quando meu irmão chegou de uma das viagens dele. Ele estava na porta de casa, cheio de malas e caixas de presente para mim, enquanto eu estava esperando ele na cozinha com waffles cor de rosa cozinhados pela minha pessoa. Daí eu acordei.
Ele estava na porta, com a mochila habitual dele, enquanto eu tentava não me enforcar com o fio do fone descendo correndo as escadas e pulando direto em cima do pobre menino. O problema (um deles) é que tinha um pequeno objeto quase não identificado no caminho. Isso mesmo, o Taq.
Caí eu, o Taq, o Ed (meu irmão divo), a mochila do Ed, e... O pote de tinta que eu estava usando para pintar as paredes do meu quarto e que por algum acaso do destino estava do lado da porta. E isso resultou em alguns xingamentos da minha parte, uns suspiros do Ed e um gato correndo desesperado pela casa e a colorindo de azul-claro-quase-céu. Eu estava (e ainda estou) ferrada.
Deixando o incidente do gato maluco de lado, meu irmão favorito (e também o único haha) tinha chegado! Ele era mais velho, tinha 21 e por ser super inteligente, dava aula de física para meros mortais estudantes como eu. A parte ruim disso é ele era lindo e fofo, então meninas riquinhas e desocupadas o “alugavam” para ser professor particular por uns dias, pagando a passagem se necessário e o hotel – porque é claro que você precisa de um professor particular de física a poucos metros da sua casa para consultar durante as férias de verão (cof cof aquelas idiotas cof cof). E por isso eu ficava sem meu irmão em boa parte das férias, sente o drama.
E sim, estávamos na cozinha e eu fazia waffles cor de rosa pra ele. Eu me esqueci de falar, mas ele tem a mesma cor de cabelo que eu, cortado deixando um topete estiloso, tem uma barba ruiva (super diva) só no pescoço subindo pras costeletas e os olhos dele são azuis claros (totalmente injusto) e tem 1,87 de altura – totalmente injusto parte 2: O retorno.
– Explica de novo o porquê do nome dele, Emms.
– É o seguinte: Eustáquio, porque ele é irritante igual o primo dos Pevensie das Crônicas de Nárnia. Darth por ser preto igual ao Darth Vader, Blue por eu gostar de azul..
– Isso é meio óbvio – Ed me interrompeu apontando pra ainda bagunça azul pela casa, mas eu não liguei, porque quando sorria surgiam umas covinhas super xuxus na bochecha dele.
– Sim, sim. Luno porque eu sou apaixonada pela Lady Ártemis, – antes que me interrompesse de novo (detesto quando me interrompem) completei – É a deusa grega da noite e da Lua, daí o nome.
–Okay,continue.
– E Terceiro porque é meu terceiro bichinho de estimação com esse nome.
– Você nunca teve animal de estimação, Emms.
– Se lembra do gambá fofinho que eu tive...?
– Por dois segundos?
– Exato, nosso amor à distância continua até hoje. E o segundo foi o cachorrinho. E agora o Taq.
– Espera aí, aquele cachorro de pelúcia que você ficou arrastando pela casa por uma coleira quando a mamãe negou te dar um cachorro?
– Esse mesmo.
– Ah, okay então. – Meu irmão finalmente aceitou que eu tenho problemas mentais, porque ele decidiu não fazer maiores comentários das minhas crises “quero um bicho de estimação pra poder apertar até explodir”. – Onde foi parar o gatinho? Não vejo ele desde...
– Deve estar sujando mais alguma coisa por aí, normal.
E sim, ele estava sujando “alguma coisa por aí”, que por acaso era minha cama. Pelo visto, ficar correndo pela casa, miando que nem um condenado e coberto de tinta gasta bastante a energia de uma bolinha preta, porque ela estava alojada no meu travesseiro, na sua melhor pose de inocente.
– EUSTÁQUIO, SEU GATO FILHO DA MÃE!
Sabe quando sua mãe te chama pelo nome inteiro e você sabe que vai ficar de castigo por três semanas no mínimo, se você tiver sorte e ela estiver com muito amor no coração? Meu gato semimorto não conhece essa sensação, porque ele nem levantou a cabeça ou mostrou algum sinal de vida. Então eu fiz o que uma pessoa normal faria (ou não, tanto faz). Peguei o outro pote de tinta que eu tinha e virei em cima do intruso. Duas palavras: ele acordou. Só que ele acordou e saiu correndo pela porta miando novamente, parecendo mais atacado que antes.
– Ei irmã, viu minha... – e então o Taq (e suas garrinhas) encontraram o rosto do Ed, que estava entrando pela mesma bendita porta.
Depois de eu desgrudar o projeto de réu do rosto agora arranhado do meu irmão e decidir finalmente dar um banho no gato pra ele me deixar em paz e parar de sujar minhas coisas, eu estava na lavanderia segurando uma bacia que era relativamente grande e com certeza caberia o Darty. Ele estava fazendo uma vigia em volta de mim, esperando pelo banho.
– Agora é seguro aparecer? – Uma cabeça barbada apareceu na porta, com um pouquinho de sangue ainda escorrendo pelos arranhões.
– Olá, pode vir, o Blue vai se comportar dessa vez.
– Ele gosta de tomar banho?! Quão estranha essa sua coisinha pode ser?
– Essa é a questão, é a “minha coisinha”.
– Faz sentido. – Nessa hora eu já tinha enchido a bacia de água morna e o gato, nem um pouco atacado (sente a ironia), já tinha pulado lá dentro me encharcando no processo. – Em uma semana que eu estava fora você já conseguiu o tio Darty. Como?
– Eu tenho meus métodos.
– Você o fez seguir você com frango ou leite?
– Waffle cor de rosa.
– Por que isso não me surpreende?
– Por que eu realmente sei fazer waffle?
– Hm.
– Ah, vai tomar banho que quando eu acabar aqui eu vou ver seus machucados.
– Sim, senhora.
Terminei a sessão Parque Aquático da Polly Pocket com o bichano (que me lembrava agora um rato preto esgurmitado da boca de uma cobra, não recomendo essa visão e muito menos o Discovery National Geography) e fui ver o Ed. Cheguei no quarto dele já segurando o “pequeno” kit de primeiros socorros (digamos que eu consigo me machucar muito facilmente).
– Hey, brother!
– Hey, sister. – Ele já estava de pijama, no caso das tartarugas ninjas que eu tinha dado pra ele de natal, deitado na cama. E eu ainda toda encharcada e molhando a casa inteira. Muito. Injusto.
– Agora fica quietinho, sim? – Abri a caixa e tirei o pacote econômico de bandaid, que vinha com 200 unidades de tamanhos variados. Já falei que me machuco muito facilmente? Então.
– Uma pergunta, mana.
– Manda.
– Por que os curativos são da Hello Kitty?
–Essa é uma resposta desnecessária. Ela é fofa e ponto final. To indo pro meu quarto, boa noite.
– Hm, okay, boa noite irmãzinha.
E no final eu tive que dormir abraçada no Taq, senão ele morreria de hipotermia por estar molhado. Eu ainda não decidi se isso seria bom ou ruim. Mentira, te amo Taquinho (se eu falar o contrario pode ser que eu acorde sem as sobrancelhas. Ou coberta de tinta).
Notas finais
Até o próximo ♥
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