Embracing
1 único
Paolo e Agdar cresceram num vilarejo em que a agricultura familiar estava presente em todos os lares que residiam ali. Era um lugar muito verde e no horizonte se encontravam as montanhas. Pelas manhãs havia uma neblina e sobre as plantas o orvalho da noite. As pessoas que moravam nesse vilarejo eram praticamente adultas ou idosas, e talvez por esse motivo os dois se tornaram tão unidos, mesmo com a pequena diferença de idade.
O tempo passou, a cada ano caçavam menos besouros ou trepavam menos em árvores. Agdar se tornou uma moça que cursava o ensino médio, enquanto seu primo, Paolo, trabalhava como empacotador de um supermercado.
Os dias eram cansativos, principalmente com o pai desempregado, mas tudo ficava bem quando deitavam de barriga para cima no assoalho da varanda e ouviam os sinos dos ventos soar apenas com uma fina brisa. De noite sempre ouviam os insetos ou o coaxar de um sapo. No entanto, Agdar andava estranha, pelo menos era isso que Paolo pensava.
Talvez fosse a puberdade.
Uma vez tiveram a visita de uma pedagoga da escola de Agdar, ela não estava presente porque passeava na moto de Paolo. Os pais receberam uma notícia chocante, quando ouviram da pobre mulher, que não conseguia recuperar nem o fôlego por ter subido tanto pra chegar ali, de que Agdar não estava mais indo as aulas e que gostaria de saber o motivo.
No entanto, nem os pais sabiam disso. Quando Agdar chegou em casa, ela ficou de castigo e Paolo teve que levá-la e buscá-la da escola todos os dias, sempre dando partida na moto só quando tivesse certeza de que ela atravessara os portões.
Paolo percebeu que Agdar estava ainda mais triste que antes e resolveu perguntar o que ela fazia quando não assistia as aulas. Os dois estavam sentados na varanda com os sinos dos ventos pendido sobre suas cabeças.
— Eu desço pra cidade e vou pro cinema.
— Ham? Te deixam entrar?
— Eu troco de roupa no banheiro público perto de lá e tenho uma identidade falsa.
Paolo arqueou a sobrancelha, surpreso de sua prima ter uma identidade falsa.
— Mas por que cinema?
— Como assim? Não acha incrível você ver cowboys trocando tiros ou então os que terminam com o casal morto ou ainda aqueles em que há músicas?
— Westerns, tragédias e musicais.
— Oi?
Paolo riu por ver que Agdar nem sequer sabia os nomes dos gêneros.
— E os atores e as atrizes são tão bonitos!! É encantador!! — Continuou.
— Ora, mas você não precisa matar aula pra ir ao cinema. Eu posso levá-la na minha moto, você gosta de andar nela, certo?
— Gosto. — Disse, mas de forma retraída. — Eu não gosto da escola, Paolo.
Então, Paolo começou a compreender por que ele a achava cada vez mais triste.
— Alguém te faz algum mal?
— Na verdade, não. Só não é encantador. É monótono como esse verde que vemos todos os dias... queria que aqui tivesse alguém da minha idade, pelo menos.
— Mas a escola tem.
— Mas ninguém quer falar de filmes...
— Se sente sozinha?
— Não! Tenho amigas, apesar da maior parte do tempo eu as achar umas tontas. Sabe, elas não são maduras como você.
Paolo piscou os olhos e apontou para si. — Gosta de mim?
— Gosto de sua moto! — Agdar mostrou a língua, fazendo seu primo rir com o ato.
— Sabe, eu fiquei assim um tempo também, meio deslocado... mas me lembrava dessas estrelas que nenhuma cidade conseguiria exibir, das pessoas trabalhando desde cedo com suas terras e com os seus próprios esforços, e das nascentes que parava para beber água depois de um tempo caminhando num verde etéreo e tão virgem...
— Não estou entendendo nada do que está falando.
— Claro! Você é só uma adolescente. Acredite, quando arrumar um trampo sentirá falta de coisas simples na vida.
Agdar ficou quieta, porque compreendeu um pouco.
— Após as aulas vamos ao cinema, que tal? Assim terá com quem conversar sobre.
Ela assentiu com a cabeça e deu um belo sorriso. A mãe chegou na varanda e disse que já era hora dela se deitar, Agdar se levantou e deu um beijo no rosto de Paolo antes de partir.
— Eu não gosto só da sua moto, você também é muito legal.
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