Naquela manhã eu havia colocado um novo rosto e então, tinha saído de casa.

Caminhei pelas ruas vazias banhadas pelo Sol da tarde de domingo. Uma tranquilidade assustadora e, ao mesmo tempo, interessante de se contemplar.

Caminhei solitário pela rua paralela aos trilhos do trem e me questionei: O que estava fazendo? O que aquilo significava? O que estava acontecendo?

Aquele desconforto me invadia. Aquele arrepio percorria a partir do momento em que passei pelos portões abertos do parque de eventos abandonado. Siga em frente, ele disse. A voz ecoou na minha cabeça. Depois vire a direita. E então, nada.

Aquilo que parecia ser um estacionamento, igualmente vazio; atrás de mim, a quadra parcialmente destruída.

Eu havia virado a direita, afinal. Segui as instruções. Não havia sido mencionado nenhuma passagem além e, por causa daquilo, fui até os degraus do arquibancada ao longe, não antes de tirar uma foto do vazio corredor que tive que passar.

Eu fiquei lá, sentado, e ouvi vozes. Em algum canto, além do estacionamento, havia pessoas. Talvez a pessoa que eu estivesse procurando estivesse lá, afinal, mas sequer me movi naquele instante.

O que estava acontecendo?

E então eu senti um filete escorrendo pela minha bochecha e observei a lágrima que tirei do rosto com as costas da mão, indiferente.

Ninguém me viu quando levantei e caminhei em direção à saída. Eu poderia seguir simplesmente pela rua que havia vindo… Nossa, parando para pensar, se eu tivesse feito isso talvez as coisas pudessem ter acontecido de outra forma e eu não estaria escrevendo isso agora.

Virei à esquerda, dei a volta do lado de fora do parque e segui em direção ao viaduto ali do lado, que atravessava a ferrovia.

Não havia espaço para pedestre, mas a via dupla era grande e havia poucos carros; nenhum ônibus. De um lado, observei a paisagem e as árvores sobre um rio poluído. Fiquei percorrendo a mureta com dois dedos, imitando um soldadinho que andava.

Do alto, olhei para o parque e consegui notar algumas pessoas ali, em uma parte que eu não havia visto antes de lá de baixo. O campo de visão era bloqueado pela copa de outras árvores, do outro lado. Não iria fazer diferença se alguém me visse, pois não me conheciam ainda. Era apenas uma pessoa atravessando a ponte… Que relevante.

E dali de cima, alguns passos depois, consegui ver um grupo de três pessoas entrando pelo portão principal, distante. Reconheci claramente uma delas, afinal era o amigo que havia me convidado para treinar naquele lugar, apesar de que um outro rosto também me parecia ligeiramente familiar.

Não parei, apenas continuei andando até um ponto em que não conseguiriam mais me ver, caso olhassem naquela direção. Então, olhei para os trilhos que se estendiam, tão convidativos logo abaixo.

Pensei em tudo aquilo que estava acontecendo e que acabara de acontecer e lembrei de algo, antes esquecido. Um rosto há muito tempo destruído. Um garoto que, algumas vezes por semana, pegava o caminho mais longo da escola para casa e andava a pé, apenas para passar sobre a ponte que dividia a cidade e todas as outras em dois e contemplar os trilhos. Toda vez, ele olhava, como que para registrar aquele simetria mais uma vez e renová-la em sua memória.

E na ponte, o garoto passava e observava a paisagem e os trilhos abaixo, enquanto os carros passavam ao seu lado. O garoto pensava em pular, mas se questionava a respeito daquele final súbito como uma temporada que acaba e deixa dezenas de perguntas com respostas em aberto, sem nenhuma confirmação de qualquer episódio ou continuação.

E então, depois de um tempo, o garoto voltava a andar, deixando para trás tudo aquilo.

E foi exatamente aquilo que aconteceu.

Assim como o garoto, continuei andando e fui embora.

Embora para casa.

Notas finais
História real
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