Minhas pernas pareciam ter vida própria enquanto eu corria morro acima, provavelmente era efeito da adrenalina em conjunto com o medo fazendo com que eu desse um jeito de sobreviver, porém ouvindo os estrondos atrás de mim, nem um leopardo correria rápido suficiente.

De acordo com os meus cálculos, já fazia mais de um ano que a guerra havia começado e eu sei que já deveria ter me acostumado com as mudanças que ocorreram mundialmente, mas ainda era chocante demais. Agora viviamos num mundo onde o governo com uma proposta perturbadora de acabar com todos os problemas da sociedade, decidiu começar do zero. Apenas o ciclo social interligado com as pessoas importantes da política e todo exercito juntamente com suas famílias foram autorizados de se manterem vivos, todo e qualquer resto da humanidade deveria ser exterminada, e assim, iniciariam um novo modo de educação e de reger a sociedade. E obviamente todos que não estavam inclusos na lista dos escolhidos para continuarem a viver não concordaram nada com isso, porém era tarde demais, foram bombas jogadas em cidades, venenos por tubulação, massacres em massa, e agora haviam sobrado poucos de nós, e estávamos sem moradia, alimento, materiais básicos e sozinhos contra todo o exercito que vagava pelas ruas procurando mais gente para matar. Irônico, não é mesmo? Por causa de uma proposta para o tal bem da humanidade, mais da metade dela estava morta.

Olhar as explosões, mortes e destruições me deixava mais convencida de que eu não iria sobreviver ao amanhã, já era sorte demais ter chego até aqui, ainda mais depois dos soldados terem massacrado meus familiares, amigos e conhecidos num momento que eu não estava junto e assim me deixando completamente sozinha. Eu queria correr para sempre até que uma hora ou outra essa briga se cessasse e eu conseguisse viver longe, talvez numa casa de campo e em paz, mas os barulhos estavam próximos e eu precisava olhar para trás e saber o quão era isso. Então ainda com a respiração ofegante eu paro e me viro, vendo centenas de pessoas que estavam instaladas nas moradias improvisadas no morro sendo arrastadas pra fora a força e sendo massacradas brutalmente pelos soldados defensores das ideias do Novo Mundo. Os soldados não tinham a mínima ideia de quem essas pessoas eram, mas as ordens foram claras, deveriam matar qualquer um fora da base do governo, sem exceções.

Estavam massacrando uma família inteira como de rotina para assustar mais ainda a população, primeiro o pai, depois a mãe, depois as duas crianças, e todos que estavam detidos pelos soldados estavam desesperados e tão chocados quanto eu, e era horrível não poder fazer nada.

Em meio aos meus pensamentos que não engoliam o que a humanidade havia se tornado, gastei tempo demais parada e visível, e logo os soldados detectaram uma movimentação da região mais acima do morro onde eu estava. E eles vinham em minha direção. Todos nós sabemos que uma garota de 17 anos contra um exercito com tanques de guerra avassaladores era vencida em questão de segundos, se não milésimos, então decido não correr e sim me esconder numa caçamba de lixo, a chance era pequena porém maior do que continuar correndo. Por sorte havia uns restos de cadáver ali dentro, então jogo eles sobre mim e como eu estava imunda de um ou talvez dois meses na fuga sem banho, logo eu parecia ser um cadáver também.

–Isso é tudo culpa de vocês, podiam ter se aliado ao exercito, lutado pelo Novo Mundo, mas agora vão todos morrer! — Escuto um soldado dizer num tom autoritário e furioso, como se tivesse odeio daquelas pessoas por algum motivo que eu não conseguia compreender e então o som de mais um tiro ecoa, os choros eram altos e desesperadores, a cada morte minha vontade de chorar alto e desabar em meu desespero era maior, mas me manti firme por um bom tempo, até que o massacre se da um fim e os soldados do Velho Mundo vão embora clamando por uma noite cheia de vodka após um dia cheio.

O cheiro dos cadáveres a minha volta era horrível, quase tanto o fato de serem uma comunidade inteira morta por critérios tão frios. Eu tinha decido ficar na caçamba por mais algum tempo só para previnir que ninguém ia aparecer e eu viajar de madrugada com um pouco mais de tranquilidade, mas o vomito devido aos cadáveres vem subindo e rapidamente tento sair dali de dentro, porém não tive tempo suficiente pra chegar ao chão, vomitando em cima dos mortos na caçamba.

– Me desculpem por isso, camaradas, não foi intencional deixar a dignidade de vocês num nível abaixo de zero — Eu gostava de falar sozinha, ajudava a me manter sã.

Desço da caçamba mas logo escuto algo se revirando la de dentro, parecia ser um animal e eu estava faminta então paro ali mesmo e fico esperando por mais sinais, se eu levasse sorte seria um bicho grande suficiente para fantasiar um banquete.

Logo uma cabeça decapitada de antes é jogada pra fora, então o corpo decapitado também, fazendo com que eu desse um pulo pra trás pois não seria um animal que jogaria os cadáveres para fora. Sinto um resmungo de meu estômago, eu já havia perdido tudo o que jantei ontem a noite e agora parecia ser mais uma noite passando fome. Porém todos esses meus pensamentos somem quando avisto a coisa que menos esperava ver ali dentro. Era uma pessoa, viva, e ele parecia estar pensando no que fazer igualmente como eu estava. Até que ele lança um sorriso amistoso e desce dali, me mantenho afastada e abraçando minha barriga enquanto aguardava ele dizer algo.

– O que? Você vomita em mim e não consegue nem dizer um "me desculpe"? — Diz ele estendendo a mão para um aperto mas como a mesma estava suja ele recua a mesma logo em seguida — Se eu fosse um soldado, sabe que não deixaria baixo ter vomitado em mim né? Mesmo sendo bonitinha.

Não me aguento e solto um sorriso sincero, então solto os braços o encarando de cima a baixo, ele talvez fosse um homem bonito se não fosse a sujeira, vomito, fome, e diversos fatores da guerra. E acima de tudo ele parecia estar tão enrascado quanto eu, e sedento por uma amizade ou alguém para lhe fazer companhia. E bem, talvez valesse a pena tentar.

– Me desculpe pelo vômito, não sabia que tinha um cara dividindo uma caçamba de lixo comigo por horas. Me chamo Charlotte Francis mas pode me chamar de Charlie.

Notas finais
Espero que tenham gostado, vou postar mais logo logo!!