EmMusas - The Lost Canvas
9 O contrário do doce gosto
Notas iniciais

Capítulo 9
Urânia acordara mais cedo do que o costume para observar o nascer do sol. Encontrava-se sentada na bancada da janela de seu quarto, enquanto Calíope continuava em seu sono profundo. A musa da astronomia mal dormira devido aos pensamentos mal vindos que lhe ocuparam a mente. Havia beijado o Cavaleiro de Ouro de Sagitário no dia anterior, beijo que proporcionou o melhor deleite até ser interrompido por um lapso de lembrança dela. Claro que Urânia não compartilhara o fato com o cavaleiro, mas, por se dar conta de que sua mente ainda guardava lembrança daquele ser desprezível, assustou-se e se atrapalhou no momento. Contudo, a musa compensara a preocupação de Sísifo dando mais beijos e, consequentemente, tornando a noite mais agradável para ambos.
Na cama, Calíope não mais dormia, apenas pensava nas palavras esclarecedoras de Athena sobre Asmita. Ainda se intrigava com a personalidade dele, queria provocá-lo e ver até onde aquela paciência se delineava; talvez o provocasse a ponto de ele abrir os benditos olhos para admirá-la... Ah, sim, a musa acordara inspirada e com certeza falaria com ele nesse dia que se iniciava.
Por volta do meio da manhã, as seis musas se reuniram numa espécie de sala particular de Athena, pois Sasha havia requerido a presença delas em seu desjejum. As seis prontamente apareceram.
Sasha se sentia feliz ao lado delas, conseguia sentir a bela energia que emanavam e a linha inspiradora que traçavam a cada passo. Prestava atenção em cada movimento delicado das irmãs, realmente eram graciosas.
– Urânia. – a deusa chamou e a musa logo se virou. – Gostaria de pedir um favor, caso não atrapalhe seus planos para hoje.
– Por favor, Athena, fique à vontade. – a musa sorriu, não só com a boca, mas com os olhos. E que olhos!, Sasha observou, depois percebeu que as outras irmãs a encaravam também curiosas.
– Bom, pela sua exemplar leitura das estrelas, gostaria que me ajudasse a lê-las... – Sasha disse, um pouco acanhada. Havia mais, mas não sabia como dizer exatamente.
– Claro! Então minha presença será necessária à noite? – perguntou Urânia, procurando maior objetividade no pedido da deusa.
– N-Não... – Sasha iniciou. – As leituras não estão no céu, Urânia.
A informação deixou as seis musas curiosas e desconfiadas. De que forma queria que Urânia lesse as estrelas? Clio, em seu rápido raciocínio, arriscou uma possibilidade:
– Por acaso precisa ler céus de dias passados, Athena?
– Anos. Anos passados, décadas até... – respondeu a deusa, um pouco aliviada por ter sido compreendida.
– Como? Isso é possível? – Tália perguntou curiosíssima, mal continha-se sentada direito à mesa.
– É sim – dessa vez a resposta veio de Urânia. – Se houver registro dos céus passados. – as coisas começaram a fazer sentido na cabeça da musa da astronomia, seria até interessante participar dessa leitura, gostava de observar as mudanças que o tempo causava nas estrelas.
– E há, Urânia. Encontrei-os e serão extremamente importantes. Aceita me ajudar? – Sasha queria logo a resposta, não falaria mais do que o necessário, por mais que quisesse, pois a informação deveria ser guardada seguramente. Claro que diria sua intenção para Urânia porque, talvez, ajudasse a leitura, mas pediria segredo.
– Obviamente. – Urânia fez uma pequena reverência automaticamente, o que fez Sasha rir.
– Vocês não precisam fazer isso para mim, é até melhor que não façam! – o comentário fez as outras musas rirem também, o clima definitivamente estava melhorando entre as sete garotas.
~
– Mel, vamos logo! Não quero me atrasar para a primeira reunião da comissão. – Clio chamou alto, parada em frente à porta do quatro de Melpomene e Tália, com uma expressão de impaciência.
– Sinceramente, não entendo esse seu interesse em se meter nesse assunto da vila. Viemos usufruir do Santuário e você arranja um trabalho! – Tália comentou fingindo incredulidade com os olhos arregalados. Estava com os braços atrás da cabeça, apoiada em dois travesseiros e deitada na cama.
– É sempre interessante aprender os costumes políticos de lugares diferentes, faz parte de sua história e essência. Isso muito me interessa, acredito que seja óbvio o porquê. – Clio curta e direta. Tália soltou um riso, achava engraçada a forma de resposta da irmã. Mas realmente fazia sentido, Clio, a musa da história e da criatividade, era a mais política de todas as nove musas.
– Não implique, Tália. Vamos, Clio. – Mel disse, saindo do banheiro. As duas irmãs observaram que havia um brilho diferente no rosto da musa da tragédia, um ar romântico a cercava... – Vocês podem parar de me olhar assim?
– Mas você está tão bonita, parece diferente! – uma voz melodiosa foi ouvida e, quando as três se viraram para a porta, viram Terpsícore rodopiando feliz. As três riram da cena. Terps foi até a musa da comédia e puxou um dos braços. – Tália, levante-se, vamos descer!
– Ah, por que eu? – Tália fazendo drama, mas logo parou quando lembrou da conversa com Terpsícore no festival, ela não deixaria a irmã passar por Gêmeos sozinha. – Tá, vamos, mas nada de cachoeira hoje, quero dar uma passada na arena!
Terpsícore não gostava de observar os cavaleiros treinando, a violência a assustava, mas, mesmo assim, assentiu para o pedido da irmã – qualquer coisa, deixaria Tália lá e daria uma volta sozinha.
As quatro seguiram até o Salão do Grande Mestre e encontraram Calíope prestes a descer as doze casas, decidiram se juntar a ela. Ao passar por Peixes, não encontraram o cavaleiro; Mel ficou frustrada, gostaria de desejá-lo bom dia, mas sequer imaginava que, apesar de não se mostrar, Albafica a observava admirado, escondido atrás de uma coluna.
Degél e El Cid estavam com seus discípulos, então as Casas foram passadas rapidamente. Sísifo deu passagem pela de Sagitário, mas foi em direção oposta a das musas. Kárdia e Dohko também treinavam no momento em que elas passaram por suas casas, mas o próximo protetor com certeza estaria em casa.
– Podem ir. – Calíope disse para as irmãs, que estranharam de imediato.
– Não desce conosco? – perguntou Clio. Tália e Terpsícore se entreolharam, Mel observou a decoração indiana da Casa de Virgem.
– Vão logo. – a ruiva mandou, tentando controlar sua irritação. Melhor teria sido se tivesse descido sozinha e evitado os olhares insinuantes das irmãs. Assim dito, as outras musas seguiram caminho.
– Nem com suas irmãs a senhorita consegue ser mais amena? – a voz serena e quase divina foi ouvida por Calíope. Ela se virou e foi até onde Asmita meditava no altar, parando de frente para ele.
– Abra esses malditos olhos! – ela pediu, dessa vez estava irritada. Asmita franziu o cenho com a ordem absurda da musa, ainda mais pela forma grossa que foi feita, preferiu permanecer em silêncio. – Pode pelo menos me responder algo?
– Recuso-me a responder diante desse seu comportamento tão desagradável.
– Como ousa falar isso? Desde o momento em que pisei aqui pela primeira vez, você tem me tratado como uma pessoa qualquer! – bateu o pé, sem tirar os olhos daquela figura.
– O que lhe faz tão diferente dos outros?
– Eu sou a Musa da Poesia Épica, da Ciência e da Eloquência! – o título saiu com raiva, por mais orgulhosa que fosse. Não entendia como alguém poderia desprezá-la tão facilmente como ele fazia, e muito menos como seu interesse por Asmita crescia cada vez mais.
– E eu sou o Cavaleiro de Ouro de Virgem, o mais próximo de deus. – respondeu calmamente.
“É o mais próximo de deus. E ele realmente preza muito por sua função, mas percebo que, às vezes, esquece-se de que também é humano." Calíope se lembrou das palavras da deusa.
– É ridículo um ser humano realmente acreditar nisso. Se bem que, provavelmente, você esquece-se desse detalhe. – jogou ela, venenosa.
Asmita, novamente, franziu o cenho – era incrível a capacidade que ela tinha de causar tal reação nele.
– O que veio fazer aqui além de me aborrecer, Calíope? – perguntou mais sério, o tom da voz mais grave intimidou minimamente a musa. – Conte-me, fiquei curioso, pois não imagino de que outra forma uma musa mimada e nada eloquente se colocaria diante de mim.
Ser chamada de mimada não era novidade para Calíope, até aí tudo bem. Mas no momento em que Asmita julgou sua representação, a irritação da musa se intensificou.
– Não acredito nisso. – apesar de raiva na voz, havia uma perceptível chateação. – Como consegue ofender uma dama tão bem? Não me impressiona que seja cavaleiro de virgem.
Asmita não resistiu mais e saiu da posição de lótus, já havia perdido toda a concentração mesmo... Para Calíope, vê-lo em pé na sua frente era motivo para se assustar, mas não mudaria seu semblante de forma alguma. Já o estava enfrentando mesmo...
Ele se aproximou dela e inspirou fundo.
– O seu aroma é doce, ao contrário de sua personalidade. – tocou lentamente o braço dela com um dedo, deslizando para baixo. – Sua pele é macia, assim como sua voz, mas não como as palavras rudes que diz. – levou a mão direita até o queixo dela, puxando-a para mais perto e a beijou.
O beijo delicado logo se desenvolveu quando os dois pediram passagem com a língua. Asmita prendeu os cabelos macios dela nos dedos e a puxou mais para si, possibilitando-o de sentir levemente o calor do corpo dela. Calíope mal podia acreditar no que se passava. O coração respondia ao momento batendo forte como nunca. De repente, Asmita se afastou.
– Seu gosto é como uma saborosa fruta em seu melhor estado para ser degustada, mas, ainda assim, sua essência é desagradável. E você não é mais do que ninguém, mesmo sendo uma Musa. – e do mesmo jeito que saiu de sua posição de lótus e se aproximou, ele voltou, iniciando uma meditação.
Calíope estava estática, sentia-se totalmente humilhada não só pelas palavras, mas pelo gesto. Como Asmita pôde utilizar algo tão bonito para proferir palavras tão cruéis? De repente, as pernas dela fraquejaram e ela se ajoelhou diante dele. Olhava o virginiano extremamente incrédula.
– Eu só queria que você abrisse os olhos. – disse ela. – Apenas isso, mas parece algo sobre-humano no seu caso.
– Não há motivos para tal ato, ainda mais se for apenas um pedido caprichoso. – ele respondeu perfeitamente estável, sua calma era quase absurda e cada palavra dita chegava em Calíope como um golpe.
Sem mais se submeter àquele momento doloroso, ela se levantou e saiu, virando as costas bruscamente para ele. Logo se achou idiota por fazê-lo já que o cavaleiro não a veria com os olhos fechados. Extremamente desgostosa, Calíope voltou para o 13º templo.
~
Tália e Terpsícore passaram por Leão e encontraram Régulus terminando seu desjejum para ir treinar, após um pequeno papo para descontrair, elas seguiram em frente.
Tália sempre atenta às reações de Terpsícore, decidiu andar mais próxima dela, pois, caso fosse necessário, prender-se-ia à irmã e só deixaria o cavaleiro de gêmeos falar com ela se fosse junto. Duas em uma.
Aproximaram-se da casa, entrando calmamente. Era quase possível ouvir o coração de Terpsícore de tão agitado que estava, mas ela prendeu a respiração e seguiu com Tália. Por sorte, Defteros não estava em casa – o que, ironicamente, deixou Terps com uma pontinha de frustração.
– Olá, musa! – Manigold apareceu na frente de Terpsícore assim que as duas entraram em Câncer. Ele abriu um sorriso de orelha a orelha e se virou para Tália. – Musinha.
– Olá, cavaleiro! – Terps respondeu, meio corada com a atenção que recebia dele.
– Cavaleiro, por acaso toma banho? – Táli perguntou normalmente, fitando-o. Manigold estranhou, mas imaginou que fosse alguma gracinha.
– Sim, vários. Por que, estou cheiroso? – passou a mão pelos cabelos.
– Hmmm – Tália botou a mão no queixo e o analisou. – Não, não é isso. Você lava os ouvidos?
– É claro que sim, musinha. – Manigold ficou um pouco acanhado com a pergunta, até porque não eram perguntas interessantes para responder diante de Terpsícore.
– Então como não se lembra do meu pedido para parar de me chamar de musinha? – dessa vez, ofereceu uma expressão de impaciência e tédio para ele. Manigold riu alto.
– Ah, Tália, que engraçada, pode vazar, digo, passar logo. – empurrou levemente a musa, que prendeu o braço de Terpsícore e a arrastou consigo.
– Eu vou, mas ela vai comigo, seu tolo. – respondeu sorrindo e piscando. Manigold bufou e as viu passar. Por mais estranha que Tália fosse, seu jeito era de certa forma gracioso sim. Essa mania dela de respondê-lo e brincar com ele o agradava bastante.
Rapidamente, as duas desceram o restante das casas até Áries, mas, antes de atravessá-la, Terps parou.
– Que foi agora, Terpsícore? – Tália perguntou, queria chegar logo na arena.
– Esqueci minha lira! – deu um leve tapa na testa.
– E só percebeu agora? Sério mesmo? –
– Tália, eu gostaria muito de ir buscar minha lira. – a voz quase implorando deixou Tália aflita, mas ela não subiria as doze casas naquele momento, ainda mais sem dourado para admirar.
– Ahhh, Terps. – gemeu de insatisfação. – Preciso mesmo ir com você? Não há problema algum se você subir sozinha, as casas estão todas vazias, te espero na arena.
– Tá bom! – Terps respondeu, realmente não haveria problema. Na verdade, nunca houvera, dessa vez quem insistia em ir com a irmã era Tália, ainda mais depois de saber sobre Defteros e seu comportamento bruto.
Se não fosse pela ausência do cavaleiro de gêmeos, Terpsícore enfrentaria um desafio sozinha. Desde que descobrira o verdadeiro nome do cavaleiro, estava mais aliviada, conseguiria se defender de sua confusão, mas algo a impedia de se sentir melhor; ainda sentia a áurea sombria que havia lá.
Passando pelas primeiras casas até chegar na de Gêmeos, adentrou silenciosamente, acreditando que Defteros não se encontrava, até que viu as portas e janelas se fecharem sozinhas, fazendo estrondo. A musa pulou de susto e seu corpo vacilou, caindo no chão. Sentiu seu braço ser apertado por algo e o corpo puxado para cima.
– Tão fraca e sensível. — Defteros fechava a mão no fino braço da musa, deixando-o vermelho. Por mais que ela reclamasse, ele não tinha intenções de soltá-la. Sorria como um predador que havia acabado de capturar a presa; o canino saltado só intensificava. — Você tem um cheiro muito bom, musa da dança. — puxou-a para si e enterrou o rosto em seu pescoço, dando um cheiro profundo. A musa fechou os olhos, por mais aterrorizada que estivesse, gostara da proximidade ousada do cavaleiro, mas não acreditava que ele estava realmente ali.
– C-Cavaleiro — tentou empurrá-lo, mas em vão; ele a puxou de novo, dessa vez com força. — Oh. — gemeu ela, Defteros sorriu maliciosamente, descendo uma mão para a cintura da musa e apertando-a; o braço continuava preso em sua mão. Ele soltou um pouco para ver o estrago, o local onde apertara estava intensamente vermelho, tentador demais...
Terpsícore tentava entender oq eu estava acontecendo. Então ele estivera ali o tempo todo?
Defteros apertou novamente, Terpsícore gemeu de dor em resposta, mas ele logo tratou de desconcentrá-la passando a língua em seu colo. A musa estremeceu, nunca havia sido tocada daquela maneira, sentia um calor diferente entre as pernas ao mesmo tempo em que sentia medo. Ele apertou mais ainda a cintura dela e, em seguida, a virou de costas para ele, contorcendo um pouco o fino braço que segurava, depois aproximou a boca do ouvido esquerdo dela.
– Vou lhe dar três minutos para encontrar a saída. — a voz aveludada intensificou o medo e o calor da musa. — Caso não a encontre, ficará presa aqui comigo. E, ah, estarei lhe caçando enquanto isso, portanto, corra AGORA! — empurrou-a, soltando o corpo violentamente.
Terspícore tropeçou e caiu no chão, virou o rosto e viu o cavaleiro a encarando com olhos famintos, e se levantou desesperadamente, adentrando um corredor escuro.
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