EmMusas - The Lost Canvas

22 O broto das dúvidas


Notas iniciais
Boa tarde, queridxs leitorxs! Antes de qualquer coisa, queria dizer que, dessa vez, não poderei fugir do aumento dos dias pra postar. Pois é, assim como para muitxs, minhas aulas retornarão nessa segunda, então pretendo postar quando der na semana que vem e ver quantos dias são bons pra estabelecer entre as postagens. Farei de tudo pra não demorar muito! Bom, contando com o cap. passado, esse cap é o fragmento de um dia que ainda durará uns dois caps. Estou escrevendo esse dia com cuidado porque ele será bem importante pra melhorar/piorar casos e acasos. E to preparando uma surpresa pra certas pessoas que shippam um casal :x Ugh, preciso calar a boca! LEIAM AS NOTAS FINAIS! :) Boa leitura!

Capítulo 22

Sentindo-se um pouco estranha por não ter companhia, Tália desceu até a arena dos cavaleiros de ouro, esperando encontrar não só eles como também Clio e Terpsícore, que informaram sua ida mais cedo. Assim como todas, ela sentia a energia estranha que se alojara entre elas depois do conflito com Defteros. Ela não queria ver a irmã menor chateada, mas a preocupação gritava mais alto. Percebera as tentativas nada discretas da loira de se afastar e isso a magoara profundamente. Entretanto, não queria se sentir pior, já se encontrava nessa aflição desde semana passada, e o Sol praticamente implorava pelo seu sorriso. De cabeça erguida, seguiu até onde estava o ponto azul, despenteado e torto.

Tália se aproximou com certa pressa, cuidando para não deixar na cara seu objetivo. O ponto azul estava na sua mira, o corpo estava escondido atrás de um muro que delimitava a entrada da arena, facilmente reconhecível. Ele parecia falar com alguém, mas, naquele ângulo, ela não pôde ver. Estranho, achou que ele estava treinando. Decidiu apressar o passo, sentindo uma pontada de aflição. Talvez fosse exagero, mas Tália sentia certas distorções.

Não havia muita surpresa ou distorção no fato, mas ele não deixou de intrigá-la. Uma amazona corpulenta, um pouco mais alta que ela e vestida por uma roupa justíssima acabara de passar as costas da mão no rosto de Manigold, enquanto ele retribuíra através de um sorriso safado. Os olhos dele não se preocupavam em mirar a máscara – item menos interessante do conjunto da amazona -, e sim o bumbum bem empinado dela, que quase sorria para ele. Ao lado dele, Régulus fez o mesmo.

– Está vendo isso? Você acha que algo assim vai te ameaçar num treino? Lógico que não! – exaltou-se Manigold, falando com Régulos, cujos olhos foram hipnotizados pela parte de trás do corpo da amazona que se afastou. – Sísifo é doido de deixar você sem esse conhecimento. Tô dizendo que você precisa sair com quem entende do assunto. – apontou para o próprio peito.

– Meu tio nem sempre me prende, Manigold. É você que anda desinformado. – retrucou o leonino, com um sorriso orgulhoso.

– Você não convence ninguém, garoto! – deu um peteleco no ombro do colega. – O que eu quero dizer é: conhecer o paraíso que as mulheres escondem não vai te prejudicar. Pelo contrário, digamos que dá um sentido maior na luta pela Terra.

Régulus gargalhou diante de tais palavras, Manigold não demorou em fazê-lo.

– Você ri, mas é verdade. Olha só que beleza! – apontou para outra amazona que passava. – Elas fazem isso de propósito. Elas querem que a gente aprecie porque elas também apreciam. É uma troca justa.

– Uma nota para aqueles seios. – pediu Régulus.

– Um oito bem redondo que nem eles devem ser. – o canceriano fitou intensamente o movimento dos seios da amazona.

– E aquela lá? – apontou, para a surpresa dos dois.

– É complicado. Quem pode dar uma nota digna é Defteros. – respondeu, pondo-se a rir em seguida.

Então, você confirma que aconteceu alguma coisa entre eles no dia em que fomos pedir esclarecimentos, Manigold?

Manigold travou com a voz que vinha de trás de si. Aquela voz doce que muitas vezes vinha acompanhada de uma risada gostosa e um pouco infantil parecia irritada. E com razão. Ele rezou mental e rapidamente para que ela não tivesse ouvido nada, por mais que não houvesse problema nisso. Ele e Tália não tinham nada de mais, trocavam beijos – e primeiros beijos, segundo ela -, mas ainda assim ele a considerava um pouco mais para submetê-la a chateações e sabia que mulheres podiam se incomodar muito com esse tipo de comentário. Sem falar que ela o chamou pelo nome. O chamou pelo nome! Ele se virou lentamente, fazendo uma careta.

Os olhos de Tália pareciam brilhar mais, porém exibiam um vazio até então desconhecido.

– Não, não. Não confirmo nada. – levantou as palmas das mãos. Até Régulus negou com a cabeça. Os dois demonstraram nervosismo.

Tália bufou e arqueou uma sobrancelha.

– Então não fale besteira, cavaleiro. – o tom de ordem dela tinha um quê de severidade nunca ouvido antes por nenhum dos dois. – Ainda mais se envolver o nome da minha irmã.

– Foi mal, Tália. Não foi isso que quisemos passar. – Régulus se colocou, após perceber um silêncio de longos segundos por parte do canceriano. Manigold estava estranho.

– Mais um motivo para não falarem sobre isso. Podem passar impressões erradas como acabaram de fazer.

Manigold não acreditava que aquela era mesmo Tália. Ela estava com uma seriedade ainda mais incômoda do que a do dia do conflito com Defteros, não queria nem cogitar a possibilidade de ser culpa de seus comentários infelizes, mas sentia que era.

– Tália... – ele a chamou baixo e recebeu um olhar seguro.

Olhar que, no fundo, de seguro não tinha nada.

– Se eu ouvir um boato sobre Terpsícore por aqui e for estilo os comentários que estavam fazendo, deduro seu colega de gêmeos para o Grande Mestre sem pesar. – ameaçou ela.

Manigold poderia ter bufado e dado de ombros, não se importava tanto assim, não era o culpado de nada. Entretanto, a preocupação dela o deixava preocupado. Não estava gostando da Tália que conversava com eles.

Assim como ela não estava gostando do Manigold que via as amazonas como um pedaço de carne.

Régulus apenas assentiu, ainda contrariado com a atitude da musa, que sempre se mostrou tão animada e compreensiva. Talvez tivesse ouvido a conversa mesmo, mas não tinha necessidade de tal mudança de comportamento, na opinião do leonino.

– Com licença. – ela disse enquanto se virava para seguir outra direção. Não ficaria naquela arena nem mais um minuto.

Manigold deu um tempo para ela se afastar, pediu que Régulus tomasse conta do treino por um curto tempo e correu atrás dela, até estarem próximos de um caminho que levava à parte leste da floresta. Não entendera muito o próprio impulso, só sabia que não queria que ela saísse com aquela impressão dele.

– Tália! – chamou mais alto, no intuito de informá-la de sua presença.

– Hum? – ela mal o olhou. Mexia o corpo como se fosse impossível parar quieta. E era mesmo, seu nervosismo parecia procurar uma forma de sair e se personificar diante dela.

– Não vai assistir ao treino? – perguntou ele, chateado. Não hesitou em pegar na mão da musa.

– Vou. – ela não afastou. – Estava indo em direção à arena.

– Mas você... Já estava lá. – Manigold quase perdendo a voz. Não entendia o clima que se originava ali.

– Ah, não, não verei o seu. – Tália disse um pouco seca.

– Mas eu queria que você visse.

– Eu não quero ver, principalmente se ficar comentando aquele tipo de coisa fizer parte dele. – dessa vez ela tirou a sua mão da dele e percebeu as expressões do canceriano ficarem mais próximas do chateado.

Ah, ele estava chateado? Uma pena...

Manigold bufou.

– Sabia que tinha a ver com isso! – ele sorriu. – Não fique assim. Aliás, por que está agindo assim? Sinto cheiro de ciúmes de novo, que engraçado!

– Deixe disso, Manigold.

– Não me chama assim... – fez biquinho. Tália quase riu, mas se controlou. Odiava a capacidade dele de fazer tudo que era ruim sumir com um simples gesto.

– Você não tem moral para pedir algo assim, eu sempre peço e você nunca me atende. – ela cruzou os braços e fez um bico inconscientemente, desencadeando um sorriso bobo no canceriano.

– Ah, ótimo, estamos progredindo. Quer dizer que está acumulando as coisas. Certo... – fez cara de quem reflete sobre o caso, quase arrancando outra vez um riso dela.

Manigold tinha uma forma de tornar todo o problema divertido. Não só o problema, mas absolutamente tudo. A energia gostosa dele quase a abraçava e a confortava, como se quisesse dizer que era bobagem. Como se fosse capaz de fazer gracinha só para vê-la sorrir. E ela estava certa, afinal; só não sabia.

– Não, só... Não achei legal vocês comentarem aquelas coisas. Posso estar sendo boba e provavelmente inocente... – Tália baixou a cabeça na tentativa de esconder as bochechas coradas.

Nunca fora alvo de tais comentários, mas sempre viu as irmãs serem. Tudo bem, ela tinha total conhecimento de sua excentricidade e não desejava mesmo ser alvo de comentários como aqueles. Entretanto, perguntou-se se não exagerou um pouco na própria autenticidade. Perguntou-se se Calíope não estava certa sobre ser egoísmo em vez disso. Certo, ela não tinha o direito de cobrar Manigold em relação àquilo, mal sabia o motivo de ter se irritado tanto. Seria mesmo pela perspectiva carnal ou seria porque ela não se enquadrava em tal perspectiva?

– Tália. – ele chamou baixinho e subiu lentamente a cabeça dela através do queixo, que era conduzido por seu indicador. – Fale mais.

A intensidade do olhar dele era incomum e parecia buscar a alma da musa através dos orbes de cores diferentes. Talvez ele nunca admitisse, mas os olhos dela, que antes ele via como uma bizarrice e sacanagem de Zeus para com a própria filha, hoje via de outra forma. Achava-os charmosos e hipnotizantes. Tália sabia usar o olhar que tinha.

E havia a cicatriz intrigante também.

– Tália, fale. – pediu novamente. Ela puxou ar e o fitou com a mesma intensidade que ele.

– Falar o quê? O que quer ouvir? O que você quer que seja dito em palavras quando muitos de nós já sabemos? Eu sei que não devia me importar e falar assim com você, mas sei também que quando chegar a noite, pensarei nisso antes de dormir. Pensarei em como você me enxerga. – estreitou os olhos, reprimindo uma expressão de dor; estava falando mais do que queria, mas era melhor ser logo sincera. – Vive me beijando. Sou saborosa como um pedaço de carne?

– Não fale assim, Tália. – a voz dele engrossou. – Não dramatize o caso. Você ouviu nada mais, nada menos que comentários sobre o corpo bonito de uma amazona numa perspectiva diferente da sua. Não sei em que momento desrespeitei alguém com isso.

Tália negou lentamente com a cabeça e ele ficou sem entender. Ela estenderia esse ponto?

– Você está certo, não sei o que estou dizendo. Acho que sou... Inocente demais nisso, como você bem disse. – a voz calma contrastou alto com o ritmo frenético de seu coração. Se pudesse, teria gritado tudo o que queria, porém lhe faltava certa razão realmente. Estava movida a sentimento, como sempre.

– E se eu estiver errado?

– Quanto à minha inocência ou...? – não soube finalizar, mantinha uma sobrancelha arqueada.

Manigold não gostou da distância que se formou entre os dois, portanto se aproximou calmamente, esperando uma possível rejeição. Como não veio, continuou até chegar perto o suficiente para abraçá-la.

Tália não se afastaria, não mesmo. Sentia-se mal por não conseguir resistir aos braços malhados do canceriano e ao calor de seu corpo. Mas não se afastaria.

– Quanto a qualquer coisa. O que você faria se eu estivesse errado? – falou no ouvido dela, enquanto uma das mãos acariciava as costas macias.

– Te mostraria outra perspectiva. – respondeu de olhos fechados, aproveitando toda a essência do carinho. Manigold sorriu com a aceitação dela.

– Então é isso que vou fazer.

– O quê?

– Vou te mostrar uma nova perspectiva que vai te fazer entender que não há mal algum em desejar o corpo da outra pessoa. E em comentar também, contanto que não comente para a pessoa, eu acho... Nesse caso, eu concordo que seria atrevido e impróprio demais... – deu uma risadinha no final e se afastou dela. – O que acha?

Tália já sabia disso. Sabia muito bem que não havia mal em desejar o corpo da outra pessoa. Claro que nunca passar disso – Desejo –, mas já cogitou. Na verdade, cogitava. Sentia um desejo tremendo pela pessoa que estava disposta a mudar sua perspectiva. Mas como explicar isso? E, acima de tudo, qual método ele usaria para mostrar a nova perspectiva? Que perspectiva era esse que se mostrava tão segura na boca dele? O que tinha de diferente?

– Eu topo. – disse ela. Eram muitas perguntas sem respostas para que dissesse não.

~~~

Melpomene acordou mais inspirada que o normal, viu Tália sair rapidamente e iniciou o momento de higienização no banheiro. Sozinha no quarto, não conseguiu conter a vontade de pular na cama; há tempos não fazia isso e sentia a felicidade desabrochando pela primeira vez depois de tantos anos. Ela soube na hora o significado de tal estado: finalmente encontrou o portador do maior elemento inspirador existente – o amor. Admitiu para si assim que beijou Albafica pela primeira vez, e pela segunda, e terceira... Sim, depois daquele dia, ela o visitou com mais frequência, mas sem deixar de finalizar o dia na loja de flores e voltar mais forte; inclusive, preparou-se para fazer o mesmo nesse dia.

Numa corrida, alcançou a décima segunda casa zodiacal em minutos e adentrou silenciosamente, optando por deixar o protetor sentir sua presença de outras formas. Ela gostava disso, era um tipo de brincadeira entre eles, na qual ela passava sem cumprimentá-lo e ele a reprovava de um jeito carinhoso por tê-lo “esquecido”, depois os dois riam e se acariciavam ternamente, como se lapidassem o rosto um do outro. E ele nunca deixava de entregar a rosa no final da passagem.

Mel continuou enquanto um sorriso se formava em seu rosto até sentir algo macio vendar seus olhos. As mãos de Albafica se denunciaram pelo cheiro de rosas, assim como o resto que o compunha.

– Você está cada vez mais confiante ao passar aqui sem avisar. Qualquer dia lhe intercepto e prendo aqui comigo por causa da ousadia. – disse ele baixinho.

A voz aveludada dele era o bastante para arrepiá-la e desencadear um riso nervoso.

– Há um propósito por trás da ousadia. – ela comentou, corada.

– Está subestimando minha inteligência ao revelar isso.

– Por quê? Por acaso já sabe? – ela sorriu e corou mais ainda. Albafica sentiu as bochechas dela mais quentes e sorriu também.

– Eu sei de tudo.

Ele desceu as mãos do rosto dela para o pescoço e afagou, depois até os ombros, onde massageou com cuidado. Mel deixou uma arfada escapar, pois, por mais carinhoso que fosse o toque dele, não deixava de ser perigosamente sensual.

– Não conhecia esse seu lado convencido. – ela subiu uma das mãos até as madeixas azuis do pisciano e acariciou.

– Ter você assim me convence de que devo ter feito algo muito bom na vida.

– Você faz todo o dia.

Ela não aguentou mais e se virou para beijá-lo, mas foi impedida pelo desvio dele, que transformou o gesto num abraço. Confusa, franziu a testa e se afastou.

– Calma. – pediu ele, percebendo a expressão dela. – Antes que vá, quero que feche os olhos.

Mel não compreendeu de primeira, mas obedeceu e riu internamente percebendo a preocupação dele para com sua provável ida. Ela não gostou muito de ter que ficar assim, sem tocá-lo por breves segundos, pois, independente da quantidade de carinho que trocavam, não conseguia saciar a vontade de tê-lo. Podia não conhecer muito bem o universo desse tipo de amor, mas, assim como ele, entregar-se-ia completamente se o destino permitisse, ainda mais depois de ter provado que a tragédia desse amor era contornável. Sim, não bebia o elixir apenas para ficar perto dele, mas também para protestar contra sua representação – a tragédia devia ser apenas isso e não sua sina.

Por considerar um crime ter que fechar os olhos diante da presença do cavaleiro mais belo de todos, um desconforto nasceu em Mel e fez seu lábio tremer. O silêncio também era ruim, ela apenas ouvia a respiração serena do pisciano. De repente, algo tocou seus lábios, algo que não tinha uma textura de um lábio; era mais aveludado e macio, parecia ser fino e conter camadas que faziam cócegas em seu lábio inferior. E na mesma espontaneidade com que veio, esse algo se foi.

– De novo. – ela pediu, entorpecida. Como tudo naquele lugar cheirava a rosas, Mel não percebeu que era uma dessas flores que a beijava. – Eu gostei.

– Obrigado por me falar. – Albafica trocou a rosa por seus lábios e iniciou um beijo intenso na musa da tragédia.

Nenhum beijo que eles deram, alguma vez, falhou ao expressar a quantidade de afeto que havia entre eles. Todo beijo era repleto de volúpia. Até Mel criar coragem para se afastar e seguir rumo à loja de flores, os dois mantiveram as carícias. Mas não foi necessariamente a coragem que a fizera parar, e sim a dor que cresceu em seu interior, advertindo a hora de abastecer o corpo de veneno.

~~~

Urânia voltou rapidamente para o Templo do Grande Mestre, onde ficou de ajudar Athena com as leituras e especulações. Sentiam-se longe e perto da resposta ao mesmo tempo, então decidiram reler alguns registros novamente, à procura de observações mais profundas. Sísifo voltou para a arena dos cavaleiros de ouro e se animou ao ver seus discípulos envolvidos com o treinamento proposto por El Cid, que permaneceu apenas observando e dando instruções altas o bastante para não precisar sair do lugar.

A expressão seca e antipática continuava na cara do capricorniano, fato que fez Sísifo se perguntar se nem na companhia de Clio ele conseguia ser gentil.

– Boa tarde, Cid. — cumprimentou Sísifo simpaticamente, acenando para os aspirantes que se encontravam na arena.

– Tarde. – El Cid respondeu.

– Por acaso a musa não está te inspirando? – o sagitariano exibia divertimento na fala, mas certa pontada de curiosidade real.

El Cid não moveu um músculo da face.

– Nem comente.

– Deu tão errado assim?

– Kárdia apareceu.

Sísifo fez uma careta e colocou a mão no ombro do amigo em sinal de cumplicidade e consolo.

– E ela não aceitou o convite? – perguntou ele. El Cid mantinha os olhos para frente.

– Aceitou.

Em segundos, o capricorniano foi empurrado para frente, chamando a atenção de todos, inclusive de Clio.

– Ora! Então desfaça essa cara, El Cid! – Sísifo mal podia acreditar que estava consolando sem necessidade. Era só birra de El Cid. – Não acredito nisso!

– Que merda foi essa, Sísifo? – o capricorniano se recompôs, mas manteve a cara emburrada, que apenas foi enfatizada após esse gesto do amigo.

– Me responda você, que me deu essa notícia boa com essa cara de quem comeu, não gostou e não conseguiu vomitar depois!

– E quer que eu faça o quê? – finalmente um indício de expressão diferente foi vista na testa de El Cid, algo próximo de um incômodo.

– Sorria, meu amigo! – o sagitário falou um pouco mais alto e abriu os braços. – Mas, agora -, aproximou-se do outro e diminuiu o tom da voz. – me fale sobre Kárdia.

– O problema não é ele, e sim o que ele me disse sobre Cléo.

– Ela está amarrada ainda?

– Sim.

– Sim o quê, Cid? Que mais? – uma leve impaciência cresceu em Sísifo. Odiava quando o amigo respondia diretamente as perguntas, sem recheá-las com o resto dos fatos.

– Ela acha que possui algum vínculo comigo e, pelo visto, está a fim de provar.

– Diga a ela que ele não existe.

– Quando? Hoje à noite, enquanto estiver com Clio? Estamos falando de Cléo.

Sísifo riu um pouco.

– Já confundiu os nomes? – arrependeu-se de fazer a pergunta assim que foi fuzilado pelo olhar do capricorniano.

– É capaz de Cléo providenciar uma cena se me vir com Clio. – El Cid bufou.

– É capaz de ela fazer isso sem você estar acompanhado, amigo. Devia ter esclarecido tudo muito mais cedo. Além disso, o fato de Cléo alimentar esse sentimento por você também é sua culpa, você continuou visitando-a sem se preocupar com os sentimentos dela. – disse Sísifo mais sério.

Era questão de tempo até Sísifo jogar a verdade que El Cid já sabia; o capricorniano até estranhou a demora. De qualquer forma, Cid não podia negar sua culpa realmente, teria que enfrentar a circunstancia que aparecesse à noite sem pestanejar. No entanto, o problema não era esse, e sim o de submeter Clio a outro momento desagradável com Cléo. Ah, sim, essa possibilidade o assustava mais do que qualquer outra.

– De fato, sou culpado. – o capricorniano retomou o foco. – Posso não ter esclarecido que não tínhamos um vínculo, mas nunca confirmei o contrário. É isso que me incomoda.

– Mas alimentou o contrário cada vez que se encontrou com ela, Cid. Não pense que ela vai ler seus pensamentos e saber que seus gestos não significaram o que ela queria. – Sísifo pigarreou. – E cuidado para não repetir a questão com a próxima convidada.

Novamente, o olhar hostil foi lançado ao sagitariano.

– Não me olhe assim, sabe que estou certo. E, no fundo, sei que quer que dê certo com Clio, então não estrague.

Sísifo saiu assim que finalizou a frase, mas antes deu três tapinhas no ombro do amigo. El Cid precisou respirar fundo para não mergulhar nas palavras do outro; pelo menos não agora. Ao retomar o foco nos aspirantes, mais um esforço foi feito, pois Clio passou para a outra arquibanca por causa do sol. Ele se permitiu observar a beleza da musa mais um pouco.

~~~

Aquele contato era único para ela, que nunca tinha sido tocada daquela forma. Sentiu que a água do corpo entraria em ebulição se continuasse assim, o que era estranho, pois ela não se descontrolava dessa forma perante alguém – esse era um dos pensamentos que tiraram o sossego de seus últimos sonos. Sim, por mais agradável que fosse aquele contato, para ela, era estranho, como se não tivesse domínio sobre si mesma.

E Calíope odiava não ter domínio das coisas.

Ela reconheceu a excitação e o prazer que gritavam a cada passada de mão de Asmita em seus seios, assim como a umidade entre suas pernas, por mais que nunca tivesse passado disso. Foi pega de surpresa ao perceber que o virginiano parecia seguro diante daqueles passos e refletiu um pouco acerca das formalidades para ser cavaleiro de virgem. Talvez o termo não exigisse sua literalidade fora disso, mas ela não se sentia pronta para comprovar nada. Aliás, Calíope não se sentia pronta para muita coisa quando estava com Asmita, e isso a incomodava profundamente. Ela podia reconhecer as sensações, mas quase não reconhecia a si mesma; perdeu um pouco dos traços ariscos, os quais garantiam sua segurança diante de muitas pessoas e afastavam os interesseiros, assim que se envolveu com ele. Na verdade, perdeu um pouco de si.

– Calíope? – Asmita puxou o queixo dela para cima ao senti-la cabisbaixa e quieta.

– Hum?

– Aceita tomar um chá em minha casa? — Asmita sentiu a dúvida no cosmo de Calíope, portanto achou melhor encerar o momento íntimo que estavam tendo, por mais que quisesse continuá-lo.

– Na verdade, gostaria de continuar a meditação na água, se não se importa... – disse ela, hesitante. Mal o olhava, sentia que era observada por trás das pálpebras dele.

Asmita entendeu o recado e, levemente aflito, depositou um beijo na testa dela e iniciou a volta à Casa de Virgem. Calíope, ao vê-lo se afastar, sentiu um aperto no peito, ao mesmo tempo em que sentiu alívio. Com tantas pessoas em sua volta desde que chegou ao Santuário, sentiu o peso de não poder ficar sozinha por um momento, o que fazia muita falta já que, normalmente, vivia em seu vale, longe de todos e, na maioria das vezes, apenas na companhia da fauna e da flora. Aprendeu a ser assim desde cedo, pois foi a primeira das nove Musas que nasceram e presenteada com um de seus símbolos mais preciosos: uma coroa de louros, ornada com grinaldas – dada especialmente pela mãe, Mnemósine. O artigo era guardado com muito amor em seu templo, por isso Calíope quase se arrependeu de não tê-lo trazido consigo. De qualquer forma, seus outros três artefatos importantes andavam quase sempre com ela, podia considerá-los quase seus melhores amigos devido às belas palavras que ofereciam a ela. Ilíada, Odisséia eEneida, que livros fascinantes.

E mais um sorriso sincero apareceu nos lábios da musa ao pensar em seus queridos complementos. Perguntou-se se haveria espaço para mais um.

Notas finais
Perguntas do capítulo: Por que vocês acham que Albafica agradeceu a opinião de Mel sobre a rosa nos lábios? O que vocês observaram da relação de Manigold e Tália? Pergunta da fic: Que casal vocês acham que eu trarei de surpresa pra vocês? (sei que não dei dica alguma de como e quem vou trazer, mas soltem a imaginação :*) Beijocas!