EmMusas - The Lost Canvas
7 Kurabie
Notas iniciais

Capítulo 7
Terpsícore sentia a felicidade que emanava do local influenciando na sua bela dança, atraía olhares de vários passantes e moradores da vila, rodopiava e envolvia as curvas em sintonia com os instrumentos de corda dos músicos. Chamou tanta atenção que uma pequena roda se formou envolta dela para apreciá-la, crianças se juntaram e um poeta, no canto, escrevia sobre ela. A musa estava radiante em todas as formas.
De longe, Defteros a observava, intimamente intrigado com a atenção que ela recebia, e a devorava com os olhos. Com certeza, havia sensualidade nos movimentos dela e, considerando sua imaginação, podia imaginar os movimentos em outra ocasião... Decidiu se aproximar, de forma que entrasse num ângulo visível para ela, e permaneceu parado.
Terpsícore não demorou em encontrá-lo. Sentiu, na hora, um tremor no corpo e uma sensação sombria percorrer a espinha; acabou finalizando a dança, queria fugir do olhar que recebia de Defteros. Aplaudida e ovacionada, ela se retirou educadamente do local e seguiu para uma das barraquinhas; a fome já se anunciava.
– Olá – cumprimentou o vendedor da barraquinha -, o que é isso? – apontando para uma espécie de biscoito.
– Olá, querida. Isso é kurabie, típico biscoito de amêndoas. Apesar de ser suspeito em falar, digo-lhe que é muito gostoso. – o vendedor abriu um sorriso amável, por baixo de um pequeno bigode que Terpsícore achou engraçado.
– Um kurabie para a senhorita e um tiganopsomo com biftekia para mim, por favor. – a voz grave de Defteros fez o pedido prontamente, surpreendendo a musa e o vendedor. O segundo logo colocou a comida em dois pequenos pratos e entregou para o cavaleiro, que pagou tudo.
Ela, que não esperava a gentileza, se animou, mas antes que pudesse agradecer, viu Defteros se afastando como se nada tivesse acontecido. Acabou seguindo atrás.
– Defteros! – ela o chamou, ele se virou sem se importar. De frente para ele, ela suspirou. – Obrigada. – sorriu.
– Não agradeça, é nossa obrigação pagar o que comerem, já que não lidam com o dinheiro. – cortou-a bruscamente, deixando a musa de olhos arregalados. Era questão de tempo até ele se mostrar grosseiro novamente, pensou ela.
Defteros gostou de vê-la desiludida, abriu um sorriso e seguiu caminho, mas parou assim que sentiu algo bater em sua nuca. Virou-se para o chão e viu o kurabie meio mordido. Terspícore havia jogado o maldito biscoito nele e agora o olhava com uma expressão provocadora — grave erro.
Irritado, caminhou lentamente até ela, que, nesse ponto, já se arrependia de ter jogado o biscoito. Defteros conseguia assustá-la como ninguém. Ele puxou-a para um pequeno beco e, com as duas mãos firmemente nos braços dela, chacoalhou-a.
– Você só pode ser louca para fazer isso! – exclamou. Ela pôde ver um brilho diferente no olhar perigoso dele. A musa deixou uma reclamação de dor escapar, por mais que lutasse contra isso, e Defteros rapidamente a soltou, observando o vermelho no braço dela. – Você é ridiculamente sensível, musa da dança.
– E você é um grosso! Não é à toa que tem essa áurea sombria. – gritou, a adrenalina em seu corpo pedia por isso.
– Posso cortar essa sua “áurea iluminada” facilmente, é só insistir em me seguir. – com um sorriso maldoso. – Seria bastante divertido testar essa sua felicidade.
Após as palavras, ele a soltou com força e a deixou. O coração acelerado de Terpsícore pôde sentir um pequeno vazio, ela não entendia sua necessidade de ficar próxima, e distante ao mesmo tempo, de alguém tão sombrio como Defteros. No fundo, sentia um calor diferente, um calor nunca sentido, um calor gostoso...
~
Numa mesa de madeira, Sasha, Sísifo e Urânia estavam sentados; Melpomene acabou se juntando a eles. O vendedor que havia proporcionado o vinho para os três primeiros logo trouxe uma taça para a musa da tragédia.
– O que está achando do festival, Melpomene? – Sasha perguntou.
– É adorável, Athena. Há uma vivacidade inexplicável. Conheci a amiga de Degél, Redka. – comentou animada, realmente se sentia bem no evento, mas seria melhor se certo alguém estivesse com ela.
– Ah, sim, nossa querida florista. Sempre a procuro quando fazemos algo especial no Santuário. – a deusa sorriu.
– Às vezes pede as flores por capricho também, não? – Kárdia se aproximou. Os quatro o olharam curiosos. Sasha riu da intromissão.
– Sim, mas isso não precisa ser revelado, Kárdia. – respondeu com graciosidade. Kárdia chamou o vendedor de vinhos e pediu um para si.
– Desculpe-me. – ele riu. Passou os olhos pelos amigos e percebeu que Mel tinha uma rosa em mãos. – Ah, essa rosa definitivamente não é de Redka. – para ela. A musa corou ferozmente, não havia comentado sobre sua aproximação com o cavaleiro de peixes. Sasha percebeu e lançou um olhar de reprovação para Kárdia. O escorpiano, em resposta, deu de ombros e sorriu, saindo com a taça em mãos.
– Athena, se me der licença, gostaria de levar Urânia para dar uma volta. Não saímos daqui desde que chegamos. – disse normalmente, mas, por dentro, ansiava por esse momento. Urânia o olhou, encabulada; Sasha consentiu de imediato, esperava essa atitude dele e apoiava. Os dois, então, levantaram-se para desfrutar do evento.
– Posso saber o que envolve essa rosa ou ainda é cedo para falarmos disso? – Sasha, cuidadosamente, perguntou para a irmã musa. Mel se surpreendeu com o interesse da deusa, mas se sentiu à vontade para falar.
– Eu... Bom... O cavaleiro de peixes me deu como uma gentileza por... Não poder me acompanhar nesse festival. – disse sem jeito. – Mesmo que não seja um evento de acompanhante...
– É bem bonita, como você, Melpomene. – a deusa sorriu, achou engraçada a expressão sem graça da musa. – Mas, se há um motivo tão querido para isso, por que se encontra com esse desânimo?
– Ah, Athena, não é como se... Algo maior fosse possível, entende? O significado dessa rosa é justamente a lembrança de que Albafica não pode ser tocado, sequer desfrutado em companhia... – tristemente, ela deixou claro o interesse. Sasha sentiu pena, a sina da musa parecia presente até nesse sentimento tão bonito.
– Sabe, Melpomene... Albafica aguenta o preço de seu cargo com muito esforço, por mais que finja que não. Acredito que, no caso dele, só um veneno para impedir outro. – comentou, compartilhando da fatalidade do caso.
Athena sempre prezara pelo amor, e saber que esse sentimento era tão limitado na vida de seus cavaleiros a deixava com um peso. Eles eram humanos que lutavam por algo do qual não poderiam desfrutar, ainda mais num período tão próximo da guerra. Esse fato a própria deusa encarava como seu preço.
Sasha esticou a mão até tocar na da musa, que retribuiu com um carinho; as duas se olharam com cumplicidade. Mel sabia que, assim como seus cavaleiros, Athena também possuía limites, mas nem imaginava a responsabilidade que tinha.
~
– Dois keftedakia para o belo casal! – a vendedora entregando os bolinhos de carne para Sísifo e Urânia, que desviaram o olhar, constrangidos.
– Obrigado, senhora. – Sísifo agradeceu, os dois voltaram ao passeio.
– E você nem desmentiu! – Urânia comentou rindo, mordiscava o delicioso bolinho típico. Sísifo corou um pouco.
– E você o faria? Viu como aquela senhora ficou feliz ao nos comparar com o filho e a nora falecidos? Eu que não teria coragem. – riu de volta para ela, que se encantou com a gentileza do sagitariano.
– Tudo bem, vou acreditar nessa sua desculpa... – Urânia sorrindo.
– Não quer melhorar a felicidade daquela senhora me dando a mão? Acho que ela está nos olhando ainda... – Sísifo brincou com o galanteio, por mais que houvesse um fundo de verdade em sua intenção.
Para a surpresa dele, Urânia pegou a mão aberta do cavaleiro e a olhou, preenchendo-a com a sua, de forma que medissem o tamanho das duas. Sísifo adorou o contato, não havia experimentado algo próximo com ela, esperava a abertura sempre. Mas, dessa vez, numa brincadeira, ela se abriu — de forma sutil, mas se abriu.
– Boa tarde. – El Cid cumprimentou, aparecendo por trás do casal. Os dois se assustaram e Urânia recolheu a mão na hora. Sísifo estreitou o olhar para o amigo, que não poderia ter aparecido em momento pior.
– Boa. – Sísifo disse, Urânia apenas sorriu e acenou com a cabeça.
– Posso lhes acompanhar por um momento? – perguntou o capricorniano, mesmo sacando o olhar reprovador do amigo.
– Claro, cavaleiro. – Urânia respondeu, antes que Sísifo o cortasse. O sagitariano inflou as narinas enquanto se segurava para não exclamar poucas e boas para El Cid, que com certeza tinha entendido seu momento.
– Obrigado, Urânia. – respondeu, deixando claro que o agradecimento seria só para ela. – O que estão comendo?
– Por quê? Vai querer também? – Sísifo ironizou, Urânia riu achando que era apenas brincadeira, mas, entre os dois, o entendimento era outro. El Cid sacara a indireta, mas não se importou, já percebia o estado do sagitariano.
– Poderiam me dar licença por um minuto? – Urânia se interessou por uma loja de tecidos e, imaginando que os cavaleiros não tivessem interesse, acabou indo sozinha à vitrine.
– Cid, pode me dizer o que está fazendo aqui? – Sísifo aproveitou o tempo sozinho com o amigo para averiguar suas intenções.
– Você pode não acreditar, mas só vim lhes acompanhar mesmo. – respondeu seriamente. Às vezes, para Sísifo, era difícil ler as expressões tão idênticas do amigo. – E cuidado com esse ciúme, Sísifo, é desnecessário. Não é com essa musa que meus olhos se encantaram. – a admissão romântica do capricorniano quase não fora sentida devido à frieza de suas palavras, mas o sagitariano se impressionou.
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Clio, ainda na companhia de Degél, conversava com ele sobre as estruturas da cidade e as futuras obras nos vilarejos próximos. Entretida com as informações, mal pôde reparar na ausência de Kárdia, que, quando voltou, segurava uma taça de vinho.
– Tome, Clio. É o melhor da vila. – oferecendo a taça. Clio pegou e bebericou, sorriu com gosto ao provar a bebida.
– É realmente muito bom. Encorpado, não? – ela comentou, dando mais um gole. Kárdia abriu um belo sorriso ao ver a musa agradada.
– Vá devagar, Clio, esse vinho é forte. – Degél alertou.
– Ora, não é como se Dionísio amaldiçoasse vinhos fortes, Degél. – Kárdia com as mãos na cintura, emburrado. Não deixaria o amigo estragar seu triunfo.
– Dane-se Dionísio, os deuses não precisam controlar todos os bons momentos dos seres humanos. – Clio disse, seca. Os dois cavaleiros estranharam o humor que apareceu nela, parecia carregado de pensamentos negativos; independente disso, seguiram para onde ela caminhou.
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Calíope desfrutava da atenção que recebia pela sua beleza incomum, passava pelas barraquinhas exibindo-se e, às vezes, permitia-se cantar para os moradores da vila. Em determinado momento, juntou-se com alguns músicos para que seu canto tivesse companhia – algo muito apreciado pelos passantes da praça. Tudo estava muito bom.
No entanto, a musa sentia um vazio dentro de si. Não queria cogitar a possibilidade de sentir falta de Asmita no festival, mas isso era tão viável... Apesar de criticá-lo, algo nele a atraía; algo que a impedia de curtir o evento em toda sua essência.
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– Hey! – Manigold gritou para Tália, que atravessava um arco para ir ao outro lado do festival. – Acha que pode me roubar um beijo e sair assim só porque é musa, garota?
– Hmm, gostou e, pelo visto, quer mais. – disse um pouco travessa, mas com firmeza o suficiente para passar a impressão de que conhecia bem o assunto. Manigold, por segundos, não soube o que responder, deixando Tália divertida com o momento.
– Se eu realmente quisesse, já teria conseguido, musinha. – respondeu, recuperando a pose.
– Ah, é? – ironizou ela. – E como? Como esse seu humor, que não é dos melhores, eu duvido muito!
– Engana-se. – entrando no jogo dela e enchendo o peito para falar. – Sou bem humorado e atraio mulheres com isso. – sorriu, empinando o nariz. Tália deixou um leve riso sair, mas logo tapou a boca.
– Vou fingir que não ouvi isso. Virou-se em direção a uma barraquinha, onde parou para olhar os pratos. – Boa tarde, senhor, gostaria de um desses bolinhos de carne dos quais todo mundo fala, por favor. E, ah, quanto custa? Meu amigo aqui vai pagar! – apontando para Manigold e sorrindo para o vendedor.
– Hunf, vou mesmo. – disse meio emburrado, mas depois galante. – É sempre interessante fazer gentilezas para acompanhantes.
– Não sou sua acompanhante, e, ainda que fosse, só seria uma. – rebateu ela, Manigold não pôde deixar de rir com a língua afiada da musa. Quase podia dizer que ela era adorável. Acabou pedindo um kurabie para si também.
Os dois voltaram a caminhar, sem perceberem a espontaneidade do momento. Tália mordiscava o kurabie, enquanto Manigold já havia comido o seu e olhava para o dela com uma fome constante – Tália percebeu e parou a caminhada.
– Toma! – pegou a mão do canceriano e colocou o bolinho ali, com certa força. – E pare de me olhar assim! – pediu rindo. Manigold se animou com a comida em mãos, mas virou para ela erguendo uma sobrancelha.
– Você é muito convencida, garota. – fitou o bolinho, sem o comer.
– E você é estranho, mas eu gosto. – sorriu e empinou o nariz, exatamente como ele havia feito antes. – Agora... – voltou a olhá-lo, fingindo intriga. – Esse seu cabelo azul é engraçadíssimo.
– Você realmente está falando do meu cabelo? Já se olhou no espelho? – o tom da brincadeira era agradável e nada ofensivo; Tália se divertia.
– Antes o meu penteado autêntico do que um arbusto azul mal picotado! – devolveu ela. Ele gargalhou e enfiou o bolinho na boca dela, surpreendendo-a.
– Você fala demais, musinha. – ainda rindo, ele disse. Tália corou com a iniciativa e engoliu rápido a comida, engasgando-se.
A musa começou a tossir sem parar, sentia o mal estar da engasgada e procurou alívio, controlando a respiração, mas não conseguiu e a tosse aumentou. Manigold, preocupado, iniciou uma série de tapas nas costas dela; nunca teve a intenção de causar esse mal a ela, era só uma brincadeira, tinha que consertar o que tinha dado errado urgentemente.
Um pouco mais aliviada, ela se recuperou gradualmente, deixando as lágrimas — adquiridas com o incômodo da garganta — saírem. Manigold também ficara aliviado ao vê-la melhor, mas sua atenção logo foi desviada. Terpsícore passara correndo entre eles, estava visivelmente atordoada, dando-lhes apenas um “oi” – o qual foi o bastante para o canceriano empurrar Tália para o lado.
Como sempre, ele estava bobo com a beleza da musa da dança. Sem deixá-lo perceber, Tália ficou profundamente chateada com a cena. Era absurdo o grau da gentileza baixar tanto a ponto de virar ignorância em segundos. Por mais que se sentisse mal por ser, literalmente, jogada para o lado, não demonstraria. Reergueu-se e recompôs-se, virando-se para o canceriano.
– Bom, cavaleiro, tchau pra você. Há outra pessoa que precisa de minha atenção muito mais do que você! – referindo-se à Terpsícore. Tália não esperou ele responder, por mais que visse sua expressão confusa. – E mais uma coisa: pare de me chamar de musinha. – saindo em direção à irmã.
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