EmMusas - The Lost Canvas
39 As desvantagens de ser um animal
Notas iniciais

Capítulo 39
– Entendo o que vocês enxergam nisso, mas se virássemos assim – Clio virou o mapa do céu. – É bem perceptível que trata-se de uma posição diferente. Ou seja, esses dois registros aconteceram em um período em que a movimentação se deu, por mais que tenham sido apenas milímetros.
– Não compreendi. Está dizendo que há um risco de estarmos enganadas porque, naquela época, a movimentação dos astros se deu mais rapidamente? – Urânia questionou, com a testa franzida.
– Há um sentido nisso realmente – Calíope disse, após comparar os dois registros celestes feitos pela reencarnação anterior da deusa. -, embora seja uma mudança quase insignificante.
– Discordo. Talvez o período dos ataques tenha sido escolhido justamente com essa função. – Clio se posicionou.
– Sim, mas ainda não temos certeza à qual lado se refere as marcações em latim. – Calíope entregou os registros para Urânia e pegou uma das folhas que continham as descrições astrais de acordo com as posições das constelações de duzentos anos atrás. – Isso não faz sentido! Por que ela deixaria algo tão vago?
– Está se referindo a quê? – Urânia perguntou, aproximando-se da irmã para ver o que ela checava.
– Impetum e Comminatio. Ataque e Ameaça. Certo, mas e então? Nada disso ajuda. Aliás, pelo o que percebi temos várias peças que possuem ligação, no entanto, o que falta é a peça principal que liga todas essas e que dá algum sentido.
– Concordo, mas não sabemos o que essa peça é! Caso contrário, estaríamos à sua procura. – Urânia informou.
Enquanto as três musas embaralhavam as folhas na mesa da deusa, Sasha observava o horizonte de sua imensa janela. Uma brisa muito agradável dançava pelo espaço, convidando-a a relaxar por alguns minutos. Ela realmente merecia, pois, nas últimas semanas, passara a maior parte de seus dias se dedicando às entrelinhas de cada registro feito pela reencarnação de duzentos anos atrás. Sentia que estava mais perto da verdade, mas que ainda assim esse ponto não seria alcançado através das leituras diárias.
– Olhem, pode ser que isso seja um calendário, de fato, mas ele está sem resposta alguma para o que mais importa: a posição de quem o domina. Ou seja, importa muito se ele diz respeito ao lado de Athena ou Hades, só que com a falta dessa informação, ele não serve de nada. – Calíope argumentou.
– Serve para ficarmos atentos. – Clio rebateu. – Veja bem, infelizmente, estamos dependendo do primeiro movimento. O primeiro lado que se mover vai denunciar a posição desse calendário.
–...
Um rápido minuto de silêncio tomou as três, que se entreolharam incrédulas. Como puderam ser tão ignorantes? Antes de falarem suas descobertas, Sasha se colocou:
– Então, esse é o calendário de ataque de Hades, porque nós não atacaríamos sem algum motivo.
– AH, como é bom confirmar essa suspeita! – Urânia comemorou, soltando um enorme suspiro de alívio. Por vezes, procurou raciocinar logicamente acerca do que tinha para ver se conseguia formular alguma teoria mais trabalhada, porém não contou com a questão sensível por trás disso.
– Sempre achei que isso não funcionasse. – Clio disse.
– O quê? – as outras perguntaram.
– Essa questão de pensar com o coração... Digo, nessas ocasiões mais sérias. Quero dizer, também sei que uma questão amorosa requer seriedade, mas... – de repente, a musa da história parou de falar.
– Alguém anda muito confusa com os próprios passos aqui. – Calíope cantarolou com malícia, fazendo Sasha e Urânia rirem de leve. Clio apenas revirou os olhos.
– Eu entendi o que quis dizer, Clio. Confesso que não me passou pela cabeça procurar com um olhar mais sensível.
– A preocupação, por vezes, nos cega, Urânia. – dessa vez, Sasha se colocou. – Para falar a verdade, nunca achei que fosse um calendário de ataque nosso, mas se eu me limitasse a pensar apenas assim, estaria me cegando para as outras possibilidades.
– Mas, esperem um pouco. Segundo as palavras em latim, isso não é um calendário só de ataques. Aliás, não acho que seja um calendário, e sim uma carta de instrução. – a musa da poesia épica estreitou os olhos novamente para os documentos em mãos.
– Também cogitamos essa possibilidade, mas não é muito diferente no âmbito intencional, Calíope.
– Urânia está certa, o que importa é o cuidado que temos que tomar com esse documento e a atenção a o que ele implica. De certa forma, estamos contando com algo que possui margens de erro, até porque a posição dos astros mudou consideravelmente desde aquela época, portanto não podemos esperar os mesmos resultados de acordo com as coordenadas citadas aí. – Clio se aproximou e tomou, educadamente, uma das folhas que a ruiva segurava. – Se conseguíssemos fazer um cálculo que informasse a proporção de cada coordenada de acordo com o período do tempo, chegaríamos a um valor mais próximo de um suposto calendário atual.
– E se não conseguíssemos fazer esse cálculo? – Sasha perguntou calmamente; já imaginava a resposta.
– Bom, se não conseguíssemos, teríamos de esperar até daqui a... – a musa da história hesitou. – A uns dias para saber por onde começar, porque, segundo esse calendário, a primeira ameaça acontecerá dentro de duas semanas.
– Urânia, talvez seja interessante observamos o céu por Star Hill. – Sasha falou, encarando intensamente a musa da astronomia.
– Athena está certa – Calíope acrescentou. -, suas leituras andam limitadas demais, e não só porque estamos num local completamente diferente do vale.
– Só estou... Um pouco aflita, mas nada que esteja atrapalhando minhas leituras. – a morena rebateu, não gostando nada dos olhares estranhos das irmãs.
– Bom, o importante é que não percamos esses registros de forma alguma. – Clio deu um leve tapa da mesa, onde as folhas estavam organizadas, e mirou as demais com olhos sérios e penetrantes. Quis realçar bastante a importância da situação. Teria sido melhor se Sasha e Urânia tivessem chamado-a mais cedo, mas, por exceção, ela e Calíope foram chamadas apenas nesse dia.
As quatro assentiram entre si e viraram o rosto assim que ouviram batidas na porta. Depois de Sasha permitir a entrada, Pío entrou com uma bandeja composta por chá e biscoitos de mel.
– Perdoem-me por atrapalhar. – a pequena serva, encolhida e intimidada por tão ilustres presenças, pousou a bandeja delicadamente na mesa de centro da sala. Apesar de estar acostumada com a presença da Musa da Astronomia, sentiu-se miserável ao ver outras Musas juntamente com a Deusa, quase como se não merecesse estar ali entre divindades tão admiráveis.
Urânia sentiu o estado da pequena serva e tratou de emanar sua áurea celestial até a áurea comum da jovem.
– Pío – a deusa chamou; a serva ergueu rapidamente o rosto. – O Cavaleiro de Peixes já foi informado de sua próxima missão?
– Sim, minha deusa. – ela fez uma leve reverência. Sasha acabou rindo sozinha e chamou atenção das musas, consequentemente.
– E qual foi a reação dele? – a pergunta foi inevitável, até porque Sasha queria muito saber. Mal conteve um risinho.
– Hãn... – Pío pensou um pouco em como falar; geralmente, não relatava os acontecimentos, apenas falava, em poucas palavras, a resposta direta das perguntas que lhe faziam. – Ele ficou bastante confuso e me perguntou se eu estava tirando-o para tolo. Confesso que fiquei um pouco assus... Oh, perdão, isso não importa. Eu...
– Acalme-se, Pío. Pode falar, fique à vontade. – Sasha tentou incentivar, mas a serva só tremeu ainda mais na base (ainda mais com a plateia de musas assistindo ao momento). – Ah, na verdade, perdoe-me por lhe fazer passar por isso. Era de se imaginar que Albafica fosse achar algo desse tipo. Mas continue...
Urânia, Clio e Calíope encararam Sasha com olhos surpresos. Com certeza, quem pensou naquela ideia teve muito sucesso.
~
Com muita disposição e alegria, Terpsícore pulava por entre as variadas raízes do lado leste da floresta do Santuário. No interior desta, um clima excepcionalmente agradável, misturado com um aroma natural abençoado, inspirava a musa a tocar sua lira e a dançar por entre as flores; por vezes, ela deixou o instrumento musical de lado para poder se pendurar nos galhos das árvores, e ousou até a subir numa das mais altas, no intuito de ter uma bela vista do mar de folhas que se estendia naquele lado do Santuário. Com certeza, cada esforço valia a pena dentro daquela floresta.
Alguns animais se atraíram por sua áurea reluzente e feliz, algo que deixou Terps completamente emocionada, pois ela quase acreditou que havia perdido esse fragmento de sua essência. Entretanto, concluiu que era apenas questão de tempo e lugar – sim, aprender sobre si mesma foi um dos ápices de todos os acontecimentos recorrentes. Ela pôde constatar a influência que todos os fatores possuem em sua própria áurea. Finalmente entendeu, na prática, que não pode se inspirar enquanto estiver chateada.
Tal conhecimento veio apenas porque, pela primeira vez, ela se sentiu incompleta ao ouvir a fala de alguém. De fato, Defteros colaborou com sua decadência ao anunciar que os dois nunca tiveram nada. A princípio, ela não compreendeu, mas depois foi obrigada a isso; só que, pouco tempo depois, sentiu uma leve mudança no ar costumeiro do cavaleiro de gêmeos. Inclusive, Terps sentiu uma sensação completamente nova quando o viu na arquibancada, no dia em que foi admirada por ele, no dia em que ele não a provocou usando uma amazona qualquer. Foi, com certeza, um dia feliz para Terps.
Com a lira em mãos, iniciou uma bela canção e uma dança solitária, tendo como público alguns animais de pequeno porte que, às vezes, intrometiam-se no caminho dela. Se não fosse pela noção da realidade, ela teria jurado que estava sonhando. Mas não, realmente estava flutuando e em alta velocidade. Segundos depois, parou, mas seu corpo continuou leve.
– Peguei você. – uma voz aveludada cochichou em seu ouvido e logo mãos serpentearam seu corpo, até colocá-lo no chão e atacar a parte da boca com um beijo lascivo.
Terpsícore retribuiu o beijo, claro. Ela sabia quem estava beijando e desejou isso por muito tempo depois do último beijo que tiveram. Apesar de tudo, ela adorava quando ele aparecia do nada para desafiar sua sanidade e espalhar os arrepios pelo seu corpo. No entanto, se aceitasse isso normalmente, iria de encontro aos princípios que adquiriu depois de aprender com Yuzuriha.
E então Terps empurrou Defteros.
– Não. – ela disse, ofegantemente. Sua fala saiu muito fraca, porém, e não convenceu nem um pouco. Quando ele se aproximou novamente, ela o parou com as mãos abertas no peitoral masculino. – Eu disse que não.
– Disse, mas está mentindo.
– Não estou, pare de botar palavras na minha boca. – Terps se afastou bruscamente e quase tropeçou, mas foi pega por Defteros novamente. – Estou falando sério, quero que me solte.
– Em que sentido? Não vou soltar a presa que acabei de caçar, Terpsícore. – ele ronsou.
– Assim vou achar que não passa de um animal.
– Todo ser humano tem um pouco de instinto animal, caso não saiba.
– Isso não me interessa, sinceramente. – Terps virou o rosto.
– O que houve com você?
– Por que a pergunta? Está me achando estranha? Como pode achar algo assim se nunca se preocupou em me conhecer de verdade? – havia uma mágoa evidente nas palavras da musa da dança, uma mágoa que Defteros estranhou imediatamente. Era óbvio que Terpsícore era sensível, mas aquilo não fora apenas drama.
– Então você quer conversar. – ele afirmou, com um sorriso divertido no rosto.
– Q-Quero. – ela engoliu seco por causa a sensualidade daquele sorriso cretino. – Mas quero que me leve à sério.
– Muito bem, Terpsícore. Comece a conversa. – Defteros cruzou os braços e apoiou as costas num grosso tronco. Seus olhos desafiavam a musa com pura ironia, ele não estava realmente acreditando que ela queria apenas isso.
– Eu odeio quando você me olha assim.
– Ah, vamos conversar sobre as coisas que você odeia em mim de novo? Já não passamos disso? – com deboche, ele fez as perguntas. O sorriso de canto não deixava sua boca nunca.
– Não passamos, não, porque você continua fazendo coisas que eu odeio! – dessa vez, a voz de Terps subiu uma oitava.
– Então devo mudar meu comportamento para agradar você?
Terpsícore se arrependeu. Ah, e como. Precisou sentar numa raiz grossa para colocar seus pensamentos em ordem. Como não esperar esse joguinho psicológico? Defteros sempre se divertiu vendo-a assim, desesperada e emocionalmente desestruturada. Como não ia procurar deixá-la assim novamente? Entretanto, ele estava ali, na cara dura, apresentando a perfeita oportunidade para que ela mostrasse o que aprendeu com Yuzuriha.
Só que era difícil...
– Não foi isso que eu quis dizer... Eu só... Gostaria que você parasse. Ou pelo menos me explicasse o porquê de me chatear tanto. – as palavras simplesmente saíram, ela sequer o olhou, deixou o rosto cabisbaixo. Já era conflitante estar na presença dele.
– Erga essa cabeça, Terpsícore. – ele mandou. Quase pareceu que não ouviu mais nada do que ela disse. Quase.
– Pare de mandar em mim... – saiu baixo demais, porém ele ouviu.
– Por que, se você gosta?
– Que absurdo. Quem é você para ditar o que eu gosto ou não? – não resistiu, levantou-se para encará-lo, com fúria nos olhos. Defteros sorriu.
– Uma pessoa que conhece seu corpo melhor do que você. Entendo todos os seus sinais, musa. Seu corpo praticamente grita o meu nome quando me vê, suas bochechas coram toda vez que eu te olho e sua respiração muda totalmente quando eu chego perto. Posso até não ter conhecimento completo das coisas que te agradam, mas sei que uma dela sou eu. Musa safada. – com esse discurso, ele a deixou estática. Terps não conseguiu se mover, nem quando teve a cintura enlaçada por ele e os lábios tomados agressivamente num beijo furioso.
Seus dedos, automaticamente, procuraram mergulhar na cabeleira azul e macia do geminiano, que correspondeu serpenteando seu corpo com as mãos. Era evidente a briga entre a razão e da emoção que Terps estava enfrentando, repercutia em seus movimentos de forma quase literal e causava hesitação em certos toques, mas o desejo acabava falando mais alto e ela se deixava levar. Uma batalha perdida.
Num movimento rápido, ela se soltou do cavaleiro e foi para trás; dessa vez, não tropeçou. Defteros limitou-se a rir da atitude dela.
– Há algo diferente no seu olhar imaturo, não sei gosto muito. Me agrada quando você age de forma idiota por aí, iludida com as próprias impressões. Era isso que queria saber? – silêncio. -Por que me olha assim, musa da dança? O que tanto procura?
– Uma brecha. – rapidamente respondeu.
– E pra quê? – Deftero se aproximou dela lentamente.
– Pra ver se encontro algum rastro de humanidade em você. – ríspida e séria, foi quase como se tivesse cuspido as palavras. O geminiano, por pouco, não recuou.
– Ah, pois eu sou bastante humano, só que você não está acostumada com isso, Terpsícore. Garanto que, no seu vale, há tudo do jeito que você gosta. Não há desafios desagradáveis, muito menos pessoas perturbadas e agressivas. Estou certo? – Defteros manteve o olhar sustentando o da musa, sem piscar, sem desviar, apenas atraindo como uma cobra analisando seu alvo, no intuito de hipnotizá-lo. — Ora, acredito que os animais de lá são dóceis também, não? – com o polegar e o indicador, puxou o queixo de Terps para cima. — Mas, no fundo, você está gostando dessa mudança.
– É muito veneno numa fala só.
O coração de Terps quase abandonou seu corpo após tais palavras, mas teve de dizê-las, teve de arrancar a expressão de incredulidade que o geminiano fez, teve de arriscar, teve deimpor.
Lentamente, Defteros largou o rosto de Terpsícore, mas seu olhar continuou mergulhado no dela. Um pesar se apossou dele, porém, e se afastar foi inevitável.
– Eu queria compreender melhor – Terps respirou fundo – o motivo de você ter me tocado daquela forma, de ter me beijado, de ter despertado essas malditas sensações gostosas que sinto ao lhe ver. Porque, sim, você está certo, meu corpo reage exatamente assim, porém não porque eu quero. Não porque eu gosto, não porque é agradável. Na verdade, é desagradável lhe ter dessa forma, cavaleiro. – mal percebeu que algumas lágrimas deslizaram de seus olhos. – Queria encontrar o sentido nisso tudo, nesse prazer que você tem em me rebaixar. E, sobretudo, no prazer que eu sinto quando, às vezes, você faz isso.
Defteros mal acreditou na última frase da musa. A palavra “estático”, ou talvez “incrédulo”, estava bem longe de defini-lo naquele momento. Primeiro, porque nunca imaginou Terpsícore falando e admitindo tais questões. Segundo, porque o que acabou sentindo ao vê-la daquele jeito foi totalmente novo. Sentiu vontade abraçá-la e protegê-la de si mesmo... Mas não conseguiria.
– Isso faz parte do jogo, Terpsícore.
– Que jogo é esse que eu desconheço? – exclamou, irritada. – Diga-me, pois entrarei nesse jogo a partir de agora. Se for a forma que você considera plausível pra mostrar o quanto mudei, então é assim que farei.
Havia determinação em suas palavras, isso era fato. E, lá no fundo, assustava o cavaleiro de gêmeos.
– Existe diferença entre quem sabe jogar e quem sabe roubar no jogo, musa. – disse, entre dentes.
– Sim, você rouba demais para não saber disso. – ela respondeu, afiada. Manteve o mesmo contato através do olhar, só que, por dentro, temeu completamente.
– Ah, é? – Defteros se aproximou, não hesitou em deslizar sua mão pelo braço delicado dela. – E como tem tanta certeza disso?
– Porque você usa o sentimento que tenho por você para me atingir. Usa algo que eu considero bom para causar o mal. Se isso não é roubar num jogo, então não sei como classificar você.
– Mal posso esperar – ele respirou fundo e afagou, com carinho, o rosto dela. – pelo seu fracasso.
Em seguida, se foi, deixando uma Terpsícore nervosa e emocionada no meio da floresta.
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Um vaso de cerâmica foi atirado no espelho pequeno, que ficava em cima do cômodo de madeira, ao lado de uma janela alta. Um pequeno buraco na parede foi feito com a força de um soco carregado de raiva e dor, mas os cortes que isso causou nos dedos dele não importaram. Ele precisou urrar, precisou rosnar para o espelho e pegar aquela maldita máscara que refletia todo seu passado doloroso, precisou colocá-la para impedir que seus caninos mordessem a primeira pessoa que passasse pela terceira casa zodiacal.
Transtornado, Defteros sentiu o peso daquela máscara de ferro que sempre usou quando mais jovem; objeto que nunca permitiu que ele superasse as memórias de seu irmão. Claro, por isso mantinha-o ao lado do espelho maior, ao lado da cama, pendurado como se fosse um rosto na parede, que o fitava sempre com suas correntes julgadoras.
Sem querer encarar mais nada, o geminiano deitou na cama, em posição fetal e permaneceu com as imagens recém adquiridas de Terpsícore; tão bela e graciosa ela era, mesmo tentando se impor. Na verdade, ficou ainda mais desejável dessa forma, pena que ia de encontro às preferências dele.
Não, não poderia deixar Terps fugir assim, ou rejeitá-lo de forma tão brutal. Por um bom tempo permaneceu sozinho, em meio a um mundo que o julgava como animal, então como não agir como tal? Ela o cobrava humanidade e vontade de conhecê-la, mas tinha ela as mesmas cobranças para com ela mesma? Defteros sempre se questionou sobre isso. Sempre pensou no que Terpsícore sentia quando tomava certas atitudes; aliás, sempre pensou em Terpsícore. Um “sempre” que não o abandonou desde o momento em que ela passou pela terceira casa pela primeira vez.
E agora ela seria sua oponente nesse jogo mal definido que ele criara, do qual sempre fora a maior vítima. Mas ninguém entenderia isso; afinal, ninguém compreendia muito bem os animais.
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