EmMusas - The Lost Canvas

2 A rosa e a meditação


Notas iniciais
Boa leitura!

Capítulo 2

– Estão dispensados. – Sage encerrou a reunião, e os dourados voltaram para as casas zodiacais respectivas. – E as senhoritas – virou-se para as musas – sintam se à vontade para desfrutar dos aposentos dessa casa e dos lugares que compõem nosso humilde Santuário.

– Agradecemos a hospitalidade e prometemos não criar problemas, Grande Mestre. – Clio falou por todas, as musas assentiram, menos Calíope.

– E sintam-se à vontade para vir conversar comigo! – Sasha disse com tom animado.

As seis assentiram e foram para seus respectivos quartos; cada um receberia duas musas: Calíope e Urânia, Tália e Melpomene, Terpsícore e Clio. Os quartos possuíam um padrão estético: duas camas um pouco maiores que as de solteiro, um penteadeira, dois guarda roupas, um banheiro espaçoso, duas grandes janelas e um sofá.

– Duvido que Athena nos considere irmãs. Para mim, essa cordialidade é só fachada. – Calíope não resistiu em comentar.

– Deixe de ser ciumenta, Calíope, Athena nunca roubou seus namorados. – Tália brincou. Apesar de achá-la antipática, tratava a irmã de forma agradável, por mais que, às vezes, sentisse vontade de chacoalhá-la.

– Ridículo, Tália. – a musa revidou.

– Achei ela tão graciosa! – Terpsícore rodopiava pelo corredor.

– Pare com isso, Terpsícore, estou ficando tonta. – Calíope ordenou.

– Sendo cordialidade ou não, devemos respeito a ela. – Clio disse, havia força e segurança em suas palavras que intimidavam. Nenhuma das musas discutia muito com ela, pois seus argumentos eram, geralmente, fatídicos e objetivos. – Além disso, não precisamos, necessariamente, mudar nossos hábitos só porque estamos aqui.

– Esse é um dos objetivos, porém, será difícil. – Urânia colocou. – Espero, pelo menos, encontrar um bom espaço para ler as estrelas.

– Sério, Urânia? É nisso que está pensando depois de ver todos aqueles cavaleiros maravilhosos? – Tália ainda pensava nos belos rostos que fitara. Urânia corou ao lembrar de certo cavaleiro.

– Não implique, Tália. – a voz melancólica de Melpomene apareceu em meio à conversa.

– Mel, por que essa cara? – Terpsícore percebeu as sobrancelhas franzidas da musa da tragédia.

– Não vejo motivo para tanta alegria, o Santuário está envolvido na tensão da próxima Guerra Santa, esqueceram-se disso? – ela respondeu.

– Mas a alegria não deveria deixar de existir! – a musa da dança não aceitava tristeza, fazia de tudo para alegrar um indivíduo infeliz, talvez fosse esse o motivo de ter sempre pessoas em sua volta. Era uma musa excepcionalmente alegre e animada.

– Não force, Terpsícore. – Calíope cortou. A musa da dança não se deixou chatear, mas também não comentou nada.

No final do corredor, uma serva aguardava a aproximação das musas, e logo as conduziu para os quartos. No primeiro, Terpsícore e Clio ficariam.

– Olha que bela vista, Clio! – a loira logo se dirigiu à enorme janela de vidro, sorria ardentemente enquanto fitava os territórios do Santuário. Virou-se para a serva. – Tem alguma cachoeira por aqui?

– Sim, senhorita, há uma cachoeira perto de uma clareira que fica na entrada da floresta. É só descer as doze casas e seguir à esquerda. – a serva respondeu docemente.

– Perfeito!

– Há uma vila por aqui também, não? – Clio aproveitou a companhia da serva.

– Sim, deve-se descer as doze casas igualmente, senhorita, mas vire à direita.

As duas musas agradeceram à serva e arrumaram seus pertences no espaço do quarto. Enquanto isso, Tália e Melpomene escolhiam suas camas.

– Você viu quanto homem bonito? – Tália perguntou à irmã gêmea.

– Não reparei muito...

– Não me diga que vê tragédia nesse fato!

– Não, só... Não vi e ponto.

– Tudo bem, eu acredito. Até porque, quando você vir, eu vou saber. – Tália comentou, deitando-se na cama que seria sua. Sorriu para a irmã que devolveu com um sorriso tímido.

Tália sabia da falta de interesse da irmã nas outras pessoas, era uma questão a ser mudada, pois não era saudável. Melpomene não se valorizava tanto, e isso preocupava a musa da comédia. No entanto, Tália se perguntava como seria se ela carregasse o fardo da tragédia. Talvez julgasse demais a irmã a ponto de não observá-la do jeito certo.

– Mel, você é tão bonita...

– “Devia sorrir mais” já sei. Você sempre diz isso. – Melpomene interrompeu, essa era uma frase dita com frequência.

– Porque é verdade! E vou dizer até você levar a sério. Não... A sério não, nada de seriedade. – Tália riu. Como não rir?

No último quarto, Calíope e Urânia organizavam as coisas, até a primeira sentar na penteadeira e apreciar a própria beleza.

– Solto ou preso? – Calíope segurava o cabelo, experimento seus visuais.

– Se não fosse para meditar, eu até opinava, mas... Tanto faz, Calíope.

– Você simplesmente não ajuda. – ela se virou para Urânia, indignada.

Urânia ignorou e terminou de guardar as roupas no armário e saiu. Calíope passou um perfume doce que, segundo ela, combinava com usa personalidade. Estava pronta para descer as doze casas e ser bem notada.

No Salão do Grande Mestre, Sísifo, Degel e Kárdia se encontravam ainda em conversa com Sage — Athena havia se recolhido para seu templo. Ao verem as musas entrando, eles se posicionaram normalmente. Kárdia devorou Terpsícore com os olhos e acabou recebendo um beliscão de Degel; Sísifo mantinha os olhos em Urânia. Ela, por sua vez, retribuía discretamente. Os olhares não eram insinuantes. Calíope deu um passo à frente.

– Grande Mestre, procuro um local interessante para meditar, poderia me indicar algum? – a musa perguntou. Antes que Sage pudesse responder, Kárdia abriu a boca.

– Casa de Virgem, senhorita. – sorriu entre dentes. Em consequência, recebeu uma fuzilada através do olhar de Sage. Calíope ficou sem entender.

– Calíope, acredito que a praia seja um lugar ideal para tal ideia, nesse momento. Afinal, todos os cavaleiros se encontram em treinamento. Sugiro, mais precisamente, os rochedos. – Sage disse, Calíope viu Sísifo assentir.

– Agradeço a indicação, com licença. – ela foi em direção à escadaria.

– Grande Mestre, também gostaria de uma informação. – Urânia iniciou, quase se esquecera disso enquanto observava o sagitariano. – Onde fica a biblioteca do Santuário?

– Oh, sim, a biblioteca! Sísifo – virou-se para o cavaleiro -, poderia levá-la até lá, por gentileza?

Urânia e Sísifo se encararam surpresos. Apesar de não terem trocado uma palavra sequer, pareciam se entender diante do pedido de Sage. O cavaleiro assentiu e a musa o seguiu, um pouco afastada.

Tália e Terpsícore anunciam sua ida à cachoeira e Sage elogia a escolha, as duas iniciam a descida. Clio pergunta sobre a vila e comenta sua vontade de conhecê-la, Sage pede para Degel acompanhar a musa, e Kárdia logo se anima e vai junto – deixando o Grande Mestre desconfiado.

– E você, querida Melpomene?

– Ah, senhor... Quero dizer, Grande Mestre... Não pensei em nada ainda. Alguma sugestão? – a musa da tragédia não se sentia tão confortável quanto às outras ainda. Geralmente, as musas interagiam com lugares e pessoas, mas Mel preferia um canto solitário.

– Bom, para uma pessoa indecisa, sugiro uma caminhada espontânea. – ele sorriu. – Apenas siga a trilha que sentir vontade, querida.

Mel retribuiu o sorriso, meio tímida, e se pôs a descer as doze casas, mas parou assim que sentiu um delicioso aroma de rosas. Seguiu o cheiro e se deparou com um belíssimo jardim, abaixou-se para pegar uma rosa, mas quase foi atingida por outra.

– Oh! – exclamou ela, procurando a origem disso. Um dos cavaleiros de ouro a observava, tinha o rosto sério e levemente bravo, olhava a musa com olhos precisos. Ela se intimidou com o olhar, mas não se moveu, apenas esperou a fala dele.

– Não lhe informaram que esse jardim é terminantemente proibido? – a hostilidade da voz dele constrangeu a musa.

– N-Não, me perdoe... Hãn... – dando a entender que não sabia seu nome.

– Albafica.

– Sim, me perdoe, Albafica. Mas por que é proibido? – Mel não queria sair dali, não sabia o motivo, mas sentia uma áurea melancólica extremamente convidativa no cavaleiro. Além disso, ele era dono de uma beleza excepcional, não conseguia desviar os olhos.

– O veneno das rosas não perdoa nem a mais bela das musas. – os olhos dele possuíam um azul cristalino tão profundo, Mel quase se perdeu neles.

– E por que você se aproxima delas?

– Porque meu veneno também não perdoa.

A resposta pegou a musa de surpresa, ela não entendeu de imediato o que aquelas palavras significavam, mas compreendeu o peso que tinham. Algo nas expressões de Albafica havia denunciado a tristeza por trás do fato. Ele observou a testa franzida dela e os olhos estreitos, talvez ela estivesse tentando lê-lo – que tola.

– O que acontece se eu lhe tocar?

Albafica não respondeu, ao invés disso, arrancou uma rosa do jardim e a fez definhar em sua mão, finalizando a rosa em cinzas. Enquanto isso, ele olhava sério para a musa, que se encontrava encantada com a atitude. Estranhou os olhos curiosos dela, esperava vê-la se enojar com tamanho desprezo dele com a rosa, mas não, ela não. Parecia maravilhada.

– Somos tão assim... – ela disse, por fim. Ele se assustou com as palavras, era como se ela compreendesse algo incomum.

– O que está insinuando?

– Que somos frágeis e sempre teremos o mesmo destino. O fim do terceiro ato. – Mel se aproximou do jardim.

– Não se aproxime! – ele alertou, um pouco mais alto. Não queria acreditar que a musa fosse tão tola a ponto de brincar com seus avisos.

– Albafica – a voz dela estava mais séria -, você realmente acha que essa rosa me fará sofrer? – havia um mínimo deboche em sua voz, como se a resposta fosse óbvia. Albafica não gostou da ousadia.

– Não se engane com a graciosidade dela e, muito menos, subestime seu encanto. – fez uma pequena pausa enquanto a mirava ferozmente — Sendo responsável pela sua segurança na Casa de Peixes, peço que se retire daqui. – os dois se encararam. — Por gentileza.

Melpomene suspirou, era tão sensível que provavelmente as palavras duras e frias de Albafica a machucariam muito mais do que o veneno de uma mísera rosa. Não que ela menosprezasse a potência do veneno, mas, como representante da tragédia, nada a inspirava mais do que esses momentos. Doía mais ter que ver um cavaleiro tão belo e solitário confinado a viver o segundo ato sem companheiros de palco.

– Desculpe-me, cavaleiro, não queria importuná-lo. – cabisbaixa, levantou-se e o encarou. Albafica fitou os olhos tristes da musa; de certa forma, sabia como era ser afastado dessa forma. Ela se virou para atravessar a casa. Com um rápido movimento, ele fez uma rosa aparecer.

– Melpomene. – chamou calmamente, fazendo a musa estremecer. Gostou de ter seu nome dito por ele... Ela se virou e o viu com uma rosa na mão. – Espero que entenda. – ele jogou a rosa para ela, que pegou delicadamente, sem desviar os olhos dele.

– Essa não tem veneno. – ela entendera.

– Não.

Mel assentiu, mas não agradeceu, apenas sorriu; vê-la sorrindo deixou Albafica tranquilo, não queria intensificar a sina da musa, apesar de saber que quem o conhecia poderia ter um destino trágico. Por mais tonto que estivesse por ter sugado o veneno da rosa antes de entregá-la, manteve-se observando a musa passar pela Casa de Peixes.

~

Calíope descia as doze casas graciosamente, apesar de se sentir horrível por estar suada — realmente fazia calor na Grécia. Aproximava-se da Casa de Virgem, as passagens anteriores haviam sido agradáveis, pôde perceber os olhares dos cavaleiros admirados com sua beleza – ela já esperava por isso, claro.

Ao se aproximar da próxima casa, sentiu uma energia diferente, acolhedora e particularmente mística, não hesitou em explorar.

– Olá? – anunciou sua chegada. – Olá? – parou no meio de um corredor, esperando ser respondida, sabia que o cavaleiro estava ali, mas não obteve resposta e se irritou. – Olá?!

– Ouvi da primeira vez. – uma voz calma e serena respondeu finalmente, mas a musa não reconheceu de onde.

– Por que não respondeu? Onde está? – ela parecia mimada.

– Estou meditando, não gosto de ser interrompido, e a senhorita sabe que pode passar.

A voz possuía um tom de desimportância desprezível aos ouvidos da musa, não aceitava ser tratada e ignorada daquela forma. Incomodada, pôs-se a procurar o dono da casa. Asmita se encontrava na sala principal da Casa de Virgem, sentado em cima de um altar, o corpo em posição de lótus e os olhos fechados. Calíope olhou admirada a decoração que envolvia o ambiente, e admirou mais ainda o cavaleiro à sua frente. Asmita sentiu a presença, mas não se moveu.

– Espero, sinceramente, que não esteja esperando ser levada até a saída.

– Não quero ser acompanhada por alguém de má vontade. Com licença. – ela deu alguns passos, esperava ser parada, mas o cavaleiro permaneceu imóvel. Calíope estava indignada, ninguém nunca a tratara dessa forma, geralmente tinha homens correndo atrás dela pelos bosques, mas esse a tinha em sua casa e sequer abrira os olhos para vê-la.

Asmita percebeu que a musa ainda estava ali, podia sentir o aroma doce que exalava dela, pôde ouvir o barulho sutil de seu andar, parecia ser leve.

Calíope, por mais que quisesse sair dali depois de tudo, permaneceu observando o belo cavaleiro meditar – ficara surpresa por ter esse hábito em comum com ele. Até ousou pensar em fazer o mesmo ao seu lado, mas isso seria ridículo e, acima de tudo, humilhante. Ele não era digno de sua companhia, pois não soubera valorizá-la nem num cumprimento.

– O que prende seus olhos? – perguntou Asmita, quebrando o silêncio novamente e trazendo a musa de volta para a realidade. Calíope corou.

– Aqui? Nada, cavaleiro. – o tom fora tão esnobe que quase fizera Asmita franzir a testa, mas ele não se deixaria importar com uma musa tão mimada e convencida. Sentira esses traços de sua personalidade assim que ela se apresentou de manhã.

Calíope saiu de nariz empinado, não perderia tempo com um cavaleiro tão antipático. No entanto, foi atormentada, no resto da descida, por um sentimento estranho; sentiu crescer uma vontade de meditar com o cavaleiro. Não sabia exatamente como, mas, junto de todo o desgosto, ficara intrigada com ele.

Notas finais
Espero que gostem! Beijos