EmMusas - The Lost Canvas
36 A cicatriz de Tália
Notas iniciais

Capítulo 36
– Preciso achá-la! – Manigold exclamou, indignado.
– Não vai achá-la, ela é a melhor de todas em se esconder. – Clio disse.
– Ela tem de ser, infelizmente. – Urânia complementou.
– O que querem dizer com isso?
– Que ela aprimorou essa qualidade depois de certo... Acontecimento. – a musa da astronomia especificou.
– Isso tem a ver com a cicatriz? – elas assentiram. – Viu? Eu preciso saber o que aconteceu, droga! E não é só por curiosidade, mas, pelo visto, falei alguma merda que fez ela se lembrar disso. – Manigold parou. Muita coisa fez sentido, parando para pensar assim. Rapidamente, virou-se para as quatro musas. — Foi isso, não foi?
– Foi. – Urânia respondeu. – Mas não podemos falar, todo conteúdo que envolve uma de nós deve ser-
– Dito por ela, blá blá blá. – o canceriano interrompeu, irritado. – Tá, eu sei disso! Mas não me importo, preciso saber! Afinal, qual é o problema de vocês falarem já que ela não quer falar?
– O problema, cavaleiro, é que essa é uma regra verdadeira. – Clio informou, normalmente. –Realmente devemos segui-la.
– Ou então o quê? – perguntou ele.
– ...
– Eu vou contar. Isso já está irritando. – Calíope disse.
– Calíope, isso é um assunto pessoal. – Clio a encarou seriamente. Mel e Urânia acompanharam, aflitas. – Entenda, cavaleiro, um assunto dessa categoria não pode ser tocado por nós se for em relação à Tália. E acredito que ela não quer falar sobre isso. – dessa vez, lançou o olhar para todas as irmãs.
– Não seria melhor ela passar por cima disso logo? – Manigold falou de braços abertos, já impaciente.
– Não é tão fácil assim. Aliás, ela passa por cima todos os dias.
– Ainda mais quando pessoas como você a tratam daquela forma. – Calíope eriçou. Por mais rude que fosse com as irmãs, seu amor por elas era grandiosamente protetor.
Manigold suspirou e deixou os ombros caírem, num ato de perdição.
– Droga! Como posso me desculpar se não sei exatamente pelo quê? – a pergunta saiu esganiçada. Calíope e Clio bufaram.
– É sério, vou contar a esse idiota agora. – a impaciência de Calíope ameaçou transbordar após o comentário dele. De fato, se ele soubesse do drama, poderia aprender melhor a tratar uma musa, ainda mais uma tão sensível como Tália.
– Então eu conto com você e dividimos a condição. – Mel pegou a mão da irmã mais velha e lançou um olhar carinhoso. Faria qualquer coisa para amenizar o sofrimento de Tália, mesmo que a via não fosse a mais recomendável. A irmã gêmea sempre fez questão de ocultar sua história trágica, mas, por um lado, Manigold teve razão. Admitir a história poderia torná-la mais esquecível no âmbito da superação.
– Que condição é essa? – Manigold estreitou os olhos, enquanto Clio reprovou as irmãs com o olhar.
– Calíope... – Urânia começou, mas não finalizou o que queria. – Ugh, apenas... Conte logo. Assumo a cumplicidade também.
– Mas afinal, qual é o problema? – o canceriano não aguentava mais esse ar misterioso das musas.
– O problema – Clio começou, antes de qualquer irmã falar algo, e o fez com uma pequena raiva. – é que essa regra é legítima e, quando quebrada, insiste numa condição, mais entendida como punição, para quem a quebrou. Ou seja, Calíope, Melpomene e Urânia deverão apoio divino em alguma circunstância imposta por Tália futuramente e não poderão reclamar ou se abster. Por mais que confiemos umas nas outras, não é uma condição interessante para nenhuma de nós. Mexer com questões divinas é algo sério e comprometedor.
– Então, basicamente, vocês vão dever um favor a ela? – ele tentou simplificar, pois Clio fez questão de complicar o entendimento.
A musa da história serrou os dentes e teve sua mão apertada por Melpomene, Urânia abriu um tímido sorriso e Calíope riu ironicamente.
– Justamente. Odeio esse fato, por sinal. – Calíope respondeu.
– Tália não é cruel. – Mel revidou, chorosa.
– Mas eu sou, e acredito que ela nunca se esquecerá disso.
– Está com medo de ser vingada pelo o que aprontou com ela no passado, Calíope? – Urânia brincou.
– De forma alguma. Se for pensar, devo me orgulhar pelo o que fiz nessa história trágica de Tália. – ela cruzou os braços e fechou o rosto.
– De fato. – Mel sorriu para a irmã mais velha e Urânia assentiu.
– Vocês tão fazendo de propósito, né? Estão me torturando de propósito, é óbvio. – Manigold arranhou as bochechas, no intuito de descontar a impaciência. Zeus, como elas eram difíceis!
– Acalme-se, cavaleiro. – Clio pediu. – Vou deixá-los a sós para que comecem essa história. Não tenho interesse em entrar numa memória tão dolorosa. – levantou-se duramente, seu rosto mostrou a tristeza que ela tanto sentia pelo assunto. Com certeza, nenhuma das musas foi capaz de esquecer.
– Clio...
Manigold observou aquele momento com cuidado e percebeu a intensidade de o que estavam a ponto de fazer. Talvez tivesse cobrado demais delas por causa disso, mas queria compreender o que Tália tanto passou. Entretanto, a mudança do semblante das quatro que ali estavam foi perfeitamente perceptível e deixou bastante claro que entrariam num dos piores assuntos sabidos por elas. Acabou engolindo seco e quis que Tália estivesse com ele.
Clio se virou de costas e deu três passos até parar. Nenhuma das irmãs tirou os olhos dela, como se soubessem que ela pararia. Provavelmente sabiam, pois a ligação que as envolvia era tão evidente que chegava a ser surrealmente palpável. Clio bufou.
– Entendam, por favor, que, para mim, é tão difícil trazer essas memórias à tona quanto para Tália. – ela disse, com um ar cansado. – Sei que todas nós passamos por isso juntas, mas quem ficou mais tempo com ela depois disso fui eu e isso eu não quero lembrar.
A fala de Clio saiu tão doída que Manigold quase se arrependeu de ter pedido para saber da história. Foi tão horrível assim? Aquela cicatriz escondia tanta dor? Logo depois, a musa saiu.
– Não sei por onde começar... – Urânia disse, cabisbaixa.
– Você está com medo de começar... Que nem eu. – a bela voz de Calíope saiu minimamente embargada, mas ela logo engoliu seco e se recompôs.
Até Calíope!, Manigold pensou.
– Eu começo. – Melpomene, a trágica. Claro. Antes, suspirou profundamente. – Há uns anos, eu e Tália decidimos prestigiar um festival de Teatro numa província perto de Atenas. Ficamos ansiosas quando soubemos, e decidimos partir imediatamente e, como éramos discretas, não nos reconheceriam como musas quando chegássemos. Isso seria bom por causa da tranquilidade que teríamos no evento, nada de intenções interesseiras e oferendas ou devoções. Queríamos apenas desfrutar do que mais nos atrai e inspira.
– E a burrice começou aí, por não terem nos informado anteriormente. – Calíope comentou.
– Não pensamos que um simples evento fosse causar tanto. Eles eram amadores! – Mel se exaltou levemente e Urânia a afagou no braço.
– Não interessa! No momento em que saem do vale para lugares assim, devem nos informar. Bom, aprenderam a lição. – a ruiva devolveu.
– Quem vê você falar assim nem pensa que sofreu junto.
– Não ouse dizer uma coisa dessas, Melpomene! Esqueceu-se do que tive que fazer para que saíssem bem? – Calíope fuzilou a irmã com o olhar. Não admitiria isso, não depois de ter feito o que fez. – Pago o preço até hoje.
– Ugh, sei disso. Perdoe-me. – Mel pediu, sinceramente. Respirou fundo novamente e voltou a olhar para o canceriano. E, com certeza, aquele momento só intensificou a melancolia dos seus olhos. – Certo, o festival. Bom, esse festival era pequeno, até porque se tratava de uma província, então tudo era mais... Humilde. No entanto, não sabíamos que havia uma pequena competição hostil entre dois diretores de teatro. E, ironicamente, um deles apresentaria uma comédia e o outro uma tragédia. Isso, no momento, nos animou, mas ao “conhecê-los”, percebemos que a energia hostil era realmente séria. Nossos cosmos não saíram do estabelecido, porém tivemos um cuidado maior em relação a inspirá-los, pois poderiam acabar o caso com violência. O espírito competitivo realmente nos assustou. Mas, para mudar isso, pensamos em convergir as energias para que eles se inspirassem de uma forma pacífica. Ledo engano...
Mel se levantou e passou a caminhar pelo espaço, sem focar o olhar em algum ponto, simplesmente caminhou. Urânia e Calíope pareceram mergulhar em lembranças distantes, mas nenhuma mostrou algo na expressão – o que deixou Manigold mais intrigado ainda e completamente atento às palavras da musa da tragédia.
– Eu estava tímida demais para pôr nosso plano em prática e, por isso, Tália me puxou para as carroças dos dois grupos. No primeiro, estava o diretor da tragédia e nos apresentamos para ele assim que apareceu. O homem era sério demais, mas, às vezes, dava espasmos de desespero, os quais me deixavam tensa. Tália informou que éramos musas da tragédia e da comédia e que eu estava disposta a permanecer com ele para que seu grupo se inspirasse antes de entrar em cena. A melhor desculpa é sempre essa: vamos lhe inspirar, senhor. Mas, no fundo, queremos ficar próximas para ver se tudo correrá bem. E, nesse momento, apenas queria garantir que a violência não partiria dele. Entretanto, ele ofendeu Tália inescrupulosamente... – Mel engoliu seco ao se lembrar das palavras dele. – Foi... Muito cruel, mas ela aguentou sem tremer e ignorou as ofensas completamente, e com elegância.
– Minha musinha! – Manigold piou baixinho, mas foi escutado por elas. Urânia foi a única que lhe concedeu um sorriso simpático, pois Calíope apenas revirou os olhos.
– Como sabe, Tália tem uma particularidade em sua aparência. – dessa vez, Urânia tomou a fala para que Mel se recuperasse. – E isso já a colocou em situações muito cruéis, mas ela sempre revidou com classe. No entanto, não significa que não se abalou. Tália sabe se esconder muito bem, inclusive em si mesma; por isso não se engane com um sorriso bonito após uma fala errada, Manigold. – o recado foi dado e ele compreendeu perfeitamente.
– Odeio quando dizem que ela não parece uma musa. Por mais que seja verdade, é uma fala nojenta. – Calíope comentou com asco.
– “Verdade”, Calíope? Isso insiste numa discussão relativa. Por mais que o belo seja, na maioria das vezes, ideal, ele ainda assim é relativo. – Urânia opinou sabiamente.
Calíope quase revidou, mas foi impedida por Mel, que pigarreou, dando a entender que continuaria a história. Manigold permaneceu calado e ansioso, queria entender logo a gravidade do problema, mas, pelo visto, demoraria (ainda mais dependendo da musa da tragédia, amante do drama, para narrar).
– Ainda assim, ela me deixou com esse horrendo ser e foi conversar com o diretor da comédia, que parecia tremendamente perturbado. Tentei avisá-la, mas ela respondeu que entendia e gostava dos loucos. Acabei achando graça disso e focando na minha conversa com o diretor da tragédia. O homem era realmente competitivo e estava a ponto de sabotar o figurino de seu rival. Claro que o impedi e ele começou a gritar comigo, mas ouvimos Tália ser ofendida ainda mais alto. Porém não foi só isso, ela foi literalmente chutada da carroça. Nesse momento, fui em direção a ela, mas o diretor trágico me puxou e me acusou de farsa junto com Tália, que continuou deitada no chão. Os dois diretores começaram a discutir conosco e entre si, foi uma gritaria nervosa e assustadora, da qual nós, os alvos secundários, quase fomos banidas violentamente. Teria acontecido isso, realmente, se Tália não tivesse intervindo assim que fui puxada pelo diretor da tragédia.
– Mania de proteção, artefato de família. – Calíope soltou.
Manigold gelou assim que Mel pausou a narrativa e quase compreendeu o que seguiria. Já tinha percebido o jeito protetor de Tália para com as irmãs, até lembrou-se dela defendendo Terpsícore de seus comentários cretinos e também dela preocupada com Melpomene sempre. Ah, a musinha era destemida, com certeza.
– Pois bem, Calíope, acho que essa história demonstra isso muito bem, inclusive se tratando de você. – Urânia colocou, sorrindo timidamente.
– De fato... – a ruiva devolveu o sorriso, por milagre. – Continue, Mel.
– Tália aumentou o cosmo imediatamente e revelou a verdade por trás das nossas informações. Foi uma das poucas vezes que tivemos desequilíbrio cósmico entre nós, mas foi totalmente necessário. E Tália ficou furiosa...
– Tália furiosa é algo raro, porém potente. Acho que não há nada mais assustador que isso. Que fique como dica, cavaleiro. – Calíope falou severamente a última frase e Manigold engoliu seco. Ele nunca imaginou a musinha furiosa, sempre pareceu algo impossível. Porém lembrou-se de como ela ficou depois que ele e Régulus comentaram maliciosamente sobre Terpsícore. Não foi legal...
– Sim, as pessoas mais calmas são as piores quando provocadas dessa forma, ainda mais quando envolve algo pelo o que têm grande afeto. – Urânia concluiu. – Continue, Mel.
– Após o aumento do cosmo, os diretores entenderam que falávamos a verdade. O tratamento não mudou totalmente, porém. – Mel suspirou. – Minha irmã me afastou dos dois e seguimos para a plateia, mas sem antes ouvi-los pedirem por inspiração. Claro que estaríamos inspirando, mas secretamente. – seu coração acelerou. – Quando o festival começou, os dois primeiros grupos se apresentaram tranquilamente. Foi agradável demais assistir às peças com Tália ao lado, nos divertimos muito. Mas quando o espetáculo do diretor da comédia que havíamos conhecido apresentou, só ouvimos vaias e pedidos para que abandonassem o palco. Ele fuzilou Tália com o olhar.
Manigold mal percebeu, mas começou a suar frio com a história. Sentiu a tensão das musas e concluiu que estavam se aproximando do problema. Seu coração acelerou por pura raiva – não tinha ouvido toda a história ainda, mas já sentia raiva dos infelizes diretores.
– Depois, foi a vez do diretor da tragédia que se deu muito bem apresentando seu espetáculo. A proposta do enredo foi realmente ótima, mas, no final, um equívoco na articulação de algo desencadeou na queda de uma madeira em cima da fogueira no palco. Sim, confuso demais... – Mel franziu o cenho. Começou a parte ruim. – Obviamente, o fogo se espalhou... E foi trágico. Nunca soube se houve morte, mas sei que houve bastante estrago, sabe? Só que os habitantes da província não esperaram respostas, pois os diretores gritaram que éramos musas e que havíamos causado tudo isso por vingança. Você já imagina que todos acreditaram neles, certo?
– Não! Todos acreditaram? ISSO É UM ABSURDO! – Manigold se levantou com raiva e punhos fechados.
– Claro que sim. O que espera de uma província, onde os habitantes, geralmente, se conhecem? Um fala, o outro confirma ou acredita. – Urânia explicou, calmamente, porém conteve a mesma raiva que o canceriano.
– E não, cavaleiro, esse não é o absurdo da história. Cale a boca e escute. – Calíope cortou, não aguentava mais permanecer ouvindo aquela história dolorosa.
Manigold observou Mel respirar fundo e tristemente, Calíope tapar a boca com as mãos, enquanto apoiou os cotovelos nos joelhos, e Urânia piscar os olhos no intuito de conter as lágrimas. Entendeu, imediatamente, que a próxima parte revelaria o problema. Tentou se preparar, mas mal conseguiu pensar direito, ficou cogitando as possibilidades. O quanto a musinha sofreu?
– Eu... – Mel respirou entrecortadamente. — Eu não sei se quero continuar... – disse, chorosa.
– Enquanto pessoas apagaram o fogo, vários habitantes correram atrás de Melpomene e Tália com fúria nos olhos e pedras na mão. – Calíope tomou a palavra com a voz firme, porém carregada de rancor. Parecia ver a cena perfeitamente enquanto olhava para o nada. – Eu segui imediatamente para aquela província quando senti o cosmo de Tália se alterar e imaginei que algo havia acontecido. De início, não compreendi nada porque cheguei antes do fogo, mas quando vi um aglomerado de gente enfurecida soube para onde ir. Vi Tália defender Mel, pondo-se à frente dela, e tomar várias pedradas. E Tália não aumentou o cosmo! – disse com raiva. – A estúpida não aumentou o cosmo quando deveria ter aumentado! Em vez disso, o diretor da comédia iniciou uma sequência de ofensas e alegações. “Você não inspira ninguém”, eles repetiam.
Manigold sentiu o coração morrer após a fala dela. Foi exatamente o que disse à Tália antes de ela sumir; agora tudo fez sentido... Sentiu-se indiscutivelmente canalha, mas deixou para se condenar após o relato. Queria ouvir tudo.
– “Não parece musa, e sim uma plebeia desgraçada”. “Zeus deve ter lhe mandado como punição”. “Você não é filha de Zeus!”. – Calíope falou cada frase com uma profunda tristeza. – Frases horríveis, de fato. Ouso dizer que o ato todo foi desumano, mas não pelas ofensas, e sim pela violência. O ser humano tem tanta necessidade de fugir de seus conhecidos pecados a ponto de culpar alguém inocente. É o desespero de se salvar à custa do outro. Ninguém tem coragem de admitir os erros, só de apontá-los em outro alguém. Ato desprezível e... Profano.
– Foque, Calíope. – Urânia pediu; também sentiu raiva ao se lembrar de tais palavras, mas engoliu contrariamente o choro. Melpomene desabou assim que ouviu a primeira frase.
Manigold, num impulso, levantou-se, foi até onde Melpomene sentou no chão e a puxou para um abraço acolhedor. Depois de afagar um pouco seu cabelo, carregou-a nos abraços até onde estava sentado, posicionou-a ao seu lado e pegou sua mão para afagar. Além de consolá-la, sentiu que precisava de consolo também... O sentimento de impotência sempre foi o pior de todos.
Urânia e Calíope observaram a cena em completo silêncio.
– Enfim... Quando me aproximei das duas, tentei gritar para que se infiltrassem nas árvores, mas percebi que elas estavam cercadas. Tália abraçou Melpomene para protegê-la, mas cedeu a uma provocação e, quando se virou, o diretor da comédia jogou um livro em seu rosto. O que é um livro jogado perto da significância do ato? – Calíope filosofou e riu sarcasticamente. – Teria ficado tudo bem se não fosse o detalhe do livro. – fechou as mãos, controlando a raiva. – Esse malditolivro tinha proteção de ferro nas pontas da capa e uma delas estava torta. Foi justamente essa ponta que cortou o rosto de Tália e a fez se assustar a ponto de deixar Melpomene levar uma pedrada, mesmo tendo tomado tantas em seu lugar. Quando vi o sangue de Tália, não resisti...
Calíope parou e deixou uma lágrima descer seu rosto. Essa seria a única. Prometeu não derramar mais lágrimas por causa dessa história, mas foi inevitável. Lembrá-la sempre foi doloroso.
Manigold não sabia o que fazer, estava chocado demais com a imagem de Tália cheia de hematomas por causa das pedradas e com o corte profundo lançando o sangue. Imaginou quantos rostos novos o Yomotsu teria ganhado se tivesse presenciado a cena.
– O que você fez, Calíope? – perguntou ele com muito esforço para não demonstrar sua frustração e seu ódio. A musa permaneceu quieta.
– Ela usou a parangelía*. – Urânia respondeu por ela. Mel e Calíope trocaram olhares cúmplices, e a primeira sorriu.
– Foi necessário. – a ruiva disse.
– Que ordem é essa? – Manigold quis saber.
– Essa é uma informação que não podemos revelar, cavaleiro. E não porque diz respeito a uma de nós... – Clio respondeu, para a surpresa de todos. Sim, não conseguiu sair dali quando Mel iniciou o relato, ficou mesmo sabendo que choraria; e chorou. – Calíope usou de algo que temos como dom, algo proibido. Nesse caso, todas nós a apoiamos depois que soubemos da história. O importante é que Tália ficou relativamente bem. Sua cicatriz é apenas um detalhe, o que realmente dói, e que nunca vai cicatrizar, é a lembrança desse dia.
Clio caminhou até Urânia e tomou sua mão – precisou de um leve amparo para organizar sua psique. Mel se libertou do afago de Manigold e tomou a outra mão de Clio; em seguida, Calíope se levantou e envolveu os ombros da musa da tragédia com um braço.
Um belo retrato da força que tinham, pensou Manigold. Era bonito vê-las unidas, compartilhavam uma cumplicidade inigualável e intensa. Eram Musas, mas, acima de tudo, irmãs.
– Nós cuidamos umas das outras, Manigold. Não ouse chatear Tália novamente, mesmo que não saiba de seu passado. Muitas coisas que nele estão, devem ficar, principalmente se for para criar novas e belas memórias futuras. – Urânia falou, calmamente. E logo depois amenizou o clima com sua áurea celestial.
– Ela protegeria você, sabe? – Mel fitou Manigold.
– É, cavaleiro. – Calíope disse. — Não queira ser uma mancha ruim do passado de Tália...
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