Zara estava mais uma vez falando e falando, eu não estava mais na sala de visitas há muito tempo. Minha mente vagava enquanto ela falava de mais uma jóia que ganhou de seu futuro marido e como estava feliz por ser a primeira esposa e não a segunda como seu pai pensava de início. Respirei fundo e a olhei com interesse quando ela citou Edward.

– Você não sabia? – ela perguntou e eu apenas disse não.

– É claro que ninguém contou, daqui a dois anos ele poderá tomar uma nova esposa.

Dois anos não era o tempo em que o contrato acabava? Ele tinha planejado isso de alguma forma?

– Hum.. como isso funciona? Ele continuará casado comigo?

Ela olhou para os lados vendo que as mulheres que nos serviam estavam longe.

– Comentam que está triste porque sabe que não pode ter filhos. – arregalei os olhos abismada com isso.

– Como...

– Falam pelo palácio que você e o sheik não estão conseguindo gerar um herdeiro e que ele está ansioso demais até mesmo para esperar os dois anos para casar novamente e ter uma esposa que lhe dê filhos.

Não era para me importar com isso, mas essa informação além de chocar me deixou triste. Edward e eu usávamos camisinha sempre. Ele mesmo me garantiu que isso poderia esperar, mas o resto das pessoas não sabia disso. Eu não queria filhos, a idéia de ficar nesse país presa a um casamento e filhos não me atraia.

– Você está tomando algo? Pode falar, é crime, mas somos amigas.

Não, não éramos eu quis gritar. Mas em vez disso eu me levantei.

– Obrigada pela visita.

E fui embora me trancado no quarto. Eu odiava esse lugar e o ódio que eu tinha por ele se estendeu a Edward e toda esse acordo. Horas mais tarde a porta abriu e eu levei um susto vendo Edward na minha frente. Sua expressão era casada e sofrida, não mais que a minha eu avaliei.

– Me ligaram preocupados, você está aqui há horas.

Ele se aproximou devagar e sentou na cama. Me sentei sentindo falta da comida e da água. Horas? Pareceram minutos.

– Você não está feliz. Eu não consigo lhe fazer feliz...

Antes que ele começasse eu desabei em um choro quase histérico. Era uma mistura de frustração, medo, saudade e tristeza. Eu chorava pensando em meus pais, Alice e Rose, minha faculdade e meus sonhos. Chorava pensando que já estava casada enquanto minhas amigas moravam juntas e iam a festas da faculdade. Chorava porque eu sabia que amava Edward, mas nunca seria feliz com ele. Éramos mais opostos do que ele imaginava e não cabíamos no mundo um do outro.

– Não chore... isso acaba com meu coração Ya chrayin l alb. Acaba com minhas forças. Me diga o que fazer... o que preciso fazer..

Olhei para os olhos dele suplicando por algo que ele não poderia me dar, continuei chorando e tentando em vão parar. Por fim, o sono e o cansaço me pegaram e a escuridão veio. Eu tive um sono agitado, eu sentia as mãos de Edward e seu cheiro. Ele cantava baixo uma canção em sua língua e às vezes beijava minha testa. Eu amava esse carinho, essa atenção. Só eu sabia que quando abrisse os olhos eu iria querer mais.

– Bom dia. – Edward falou quando abri meus olhos. Ficamos nos olhando e eu passei a mão em seu rosto trazendo um sorriso contido ao seu rosto. Ele estava triste. – Meu futuro está nas suas mãos, mas eu não consigo fazer você feliz. Sua triste enche minha alma de uma tristeza ainda mais profunda.

Eu queria dizer que íamos ser felizes, mentir que estava sendo somente sentimental demais, mas não era isso e eu não conseguiria mentir.

– Me diga o que quer e será seu. Só peça.

– Eu preciso ir. – ele não se alterou. Era como se no fundo, inteligente como ele era, soubesse a resposta, mas não conseguia encarar ela. – Eu vim aqui por um contrato, descobri um mundo fantástico e diferente, sempre serei grata por tudo que fez por mim e a minha família. Só que eu não sou essas mulheres, eu fui criada para ser mais Edward. Não quero ser uma esposa que fica te esperando, se embelezando e fazendo sala para sua família. Minha beleza não pode ser só o que me representa. Eu não ligo para o luxo ou status, meus pais foram felizes sem isso e eu sonho em ser feliz sem isso. Eu quero ser mais Edward, viver... eu sinto que tive as asas cortadas mesmo antes de começar a voar... e isso dói, me corrói... me impede de amar como eu sei posso, desejar e me entregar. Eu preciso ir...

Edward beijou minha testa e se levantou. Eu sabia que eu não poderia pedir isso, mas naquele momento, nada no mundo me parecia mais importante do que voar. Os dias se passaram tranqüilos, eu recebi a ligação de meus pais avisando que minha irmã tinha nascido e que ao contrário do que pensávamos tudo correu bem. Papai ficou tão emocionado e ao mesmo tempo triste porque eu não estava lá. Prometeu mandar as fotos e isso me animou, pretendia colocar ela em um lugar que pudesse ver toda vez que passasse. Um lugar especial. Samira entrou em meu quarto com uma expressão surpresa.

– O Sheik a chama e seu escritório.

– Eu nunca fui lá...

Não tinha visto Edward desde aquele dia. Eu sabia que ele tinha muitos compromissos e até mesmo entendia que ele precisava de um tempo para refletir sobre a minha visão dos fatos, talvez ele nunca entendesse. Fomos em silêncio, Samira me olhava um pouco receosa.

– Acha que é grave? – perguntei e ela me olhou.

– Ele se reuniu com o conselho toda a semana... tem certeza que não está grávida?

– Não... não é... possível...

– Oh...

Ela pareceu mesmo muito decepcionada. Paramos e vi que demos a volta entrando na parte que dava para o outro lado do meu quarto.

– Ele está sozinho. Pode entrar.

Abri a porta e o vi, dessa vez ele estava virado para a porta, sorriu e veio ate mim. Fiquei aliviada quando vi sua expressão relaxada. Não parecia que isso iria ser ruim como imaginei.

– Venha aqui azis.

Fui até ele e ele me abraçou. Senti saudade de seu cheiro e seu toque. Como uma menina apaixonada, sorri.

– Eu quero te explicar algumas coisas... venha.

Edward me levou para um sofá e sentamos.

– Eu vou fazer algo que nunca imaginei que seria forte o suficiente.

Ele ficou em silêncio por alguns minutos.

– Eu preparei tudo para que vá.

– Oh...- não esperava por isso.

– Eu não quero que fique aqui desse jeito... eu achei que daríamos certo...

Ele estava triste. Era uma despedida.

– Somos casados. – falei.

– E continuaremos. Eu vou lhe sustentar, terá...liberdade para...

– Eu não sei...

E agora dentro de mim havia felicidade e tristeza. Eu nunca mais veria Edward?

– Vamos nos ver? – perguntei tímida.

– Eu não posso sair frequentemente daqui. O país vive momentos de transições complicados, minha presença dá segurança e força a uma nova era. Esperança para aqueles que querem o progresso.

– Como vamos ficar?

– Eu queria continuar casado. Eu... não tenho desejo de me casar novamente e se um dia você quiser voltar, eu estarei aqui. Te esperando. Faça o que quiser, voe. Eu não vou cortar suas asas Ya chrayin l alb.

Eu estava feliz e triste, essa mistura me fez soltar lágrimas e amar mais esse homem. Ele tinha me esperado por anos e dizia na minha frente que iria esperar por mais alguns ou para sempre. Mesmo que eu não voltasse.

– Seja muito feliz. – disse sincero – A sua felicidade é a minha. Saiba disso.

E então nos beijamos, o beijo mais profundo que havíamos até então dado um no outro. Agarrei seus cabelos trazendo ele mais para mim como quem agarra o último fio de vida e nos separamos cedo demais.

– Eu te amo. – disse e ele passou a mão em meu rosto como se tentasse gravar cada parte dele.

– Eu sempre te amarei.

Antes de sair eu observei um quadro com várias fotos. Várias fotos minhas em preto e branco. Tinha uma minha sorrindo com meus pais, no dia da minha formatura, nos meus aniversários. Olhei Edward em pé e firme. Mesmo sofrendo ele ainda era mais seguro e forte do que qualquer que tenha conhecido. Um verdadeiro líder. Fui embora com a expectativa de vida nova, mas com o coração cravado nas areias do deserto.

Alice: Quanto tempo dura o eterno?
Coelho: As vezes apenas um segundo.
(Alice no País das Maravilhas)

Lewis Carroll