Em seus olhos
4 Capítulo 4
Notas iniciais
As semanas iniciais se passaram sem muitas surpresas. Amber mantinha um padrão em sua rotina, acordava sempre antes das outras sonserinas e fechava as cortinas de sua cama antes de aparecerem para dormir. Intercalava seu tempo livre entre a biblioteca e os jardins onde simplesmente sentava em baixo de uma árvore e lia, algumas vezes tendo a companhia do Trio de Ouro e outras vezes só de Hermione. Dificilmente eles a deixavam sozinha por muito tempo, principalmente a castanha que se propôs a ajuda-la nos deveres e no assunto que perdeu, já que entrara na escola duas semanas depois da data normal. Amber ainda achava que dividir com eles tudo o que passava nas mãos dos Sonserinos fora a pior coisa que fizera até aquele momento, porque o trio nunca mais esqueceu e insistiam todos os dias para que ela fosse reclamar a Dumbledore.
Mas se Amber fosse falar algo com Dumbledore, teria que ser na presença de Snape e com a varinha de ambos confiscadas, onde os forçaria a contar aquela história maluca que escutara no seu primeiro dia sobre o espião duplo. O que levava seus pensamentos em direção ao Snape... na sua humilde opinião o seu não muito querido professor de Poções era, de fato, completamente bipolar. Amber notava as expressões dele mudarem tão rápido e de forma tão drástica que ela começara a pensar que Snape tinha sérios problemas de personalidade. Toda vez que ia buscar as malditas poções na sala dele, ele fazia as mesmas perguntas: Já comeu? O que comeu? Somente isso? Passou quantas noites sem dormir? Quer se matar senhorita Evans?
Ali havia uma clara preocupação, mas depois tudo isso sumia e o único olhar dirigido a ela era um bem próximo ao desprezo. E o pior é que a ruiva se importava. Snape era a sua única saída quando criasse coragem suficiente para desafiar Voldemort e agora temia que o professor apenas lhe desse às costas quando contasse toda a verdade. Amber continuou cumprindo as ordens do pai, tentando parecer fraca e buscando a pena dos outros. Era um tanto difícil já que sempre era castigada quando abaixava a cabeça. Mais difícil ainda foi ter paciência ao esperar que os outros notassem a diferença no corpo dela. Mas já sabia que seu corpo não ia mudar tão rápido.
― Parece abatida Amber, tudo bem? ― Draco foi o primeiro a questionar.
― Claro, Draco. Apenas um pouco atarefada com esses assuntos atrasados ― ela afirmou forçando um sorriso.
A amizade de Draco surgia apenas nas noites em que fugiam para a Sala Precisa, onde o loiro a ajudava a treinar feitiços defensivos simples. Então ela não se sentiu obrigada a contar nada sobre as ordens a ele.
E as ordens de Voldemort estavam sendo cumpridas com perfeição. Pelo menos quase todas. Amber intercalava os dias tentando organizá-los de uma forma que não a matasse. Nos dias de treino se alimentava mais, porém não dormia e nos dias em que dormia, não havia muita comida e nem treino. As informações que passava a Voldemort sobre Harry eram muito básicas e sobre Dumbledore quase inexistentes, alegava que nenhum dos dois confiavam tanto nela para contar algo além do que qualquer pessoa saberia. Mas ela não sabia por quanto tempo mais poderia sustentar isso.
A única parte, que de fato, faltava, era as detenções com Snape. Antes de tudo porque não havia informações para serem passadas ou reunidas, e depois porque em suas aulas ela permanecia calada e não dava motivos a ele.
Mas tudo começou a mudar em uma aula de Transfiguração.
O exercício era bem simples. Transfigurar um simples livro em uma taça voadora. Toda a sala estava ficando entediada e cada um tentava aceitar sua própria desistência. O exercício era fácil, porém exigia concentração. E ninguém conseguia se concentrar naquela tarde especialmente calorosa.
― Por que está tão quente? ― questionou o corvino ao seu lado, enxugando a testa pela segunda vez.
― Você não é da casa dos nerds? Por que não transforma logo esse maldito livro em um copo voador e pede para sair da sala? ― questionou Amber impaciente.
Não bastava ter que aguentar o calor, ainda tinha que aguentar um idiota reclamando o tempo todo no ouvido dela.
O corvino apenas a fuzilou com os olhos e se afastou, reclamando de sua grosseria.
Amber fechou os olhos e respirou fundo, erguendo a varinha mais vez. Tentaria de novo e de novo, até poder sair daquela maldita sala.
Sua mão tremeu e o feitiço falhou, soltando apenas faíscas cinzas. O corvino a olhou confuso, mas Amber se preocupava apenas em controlar sua dor. Seu pulso esquerdo latejava e sua marca ardia como se estivesse novamente sendo feita a fogo. Fechou os olhos e tentou controlar seu corpo. A única coisa que pensava era que não podia tocar na marca. Não podia tocar na marca de jeito nenhum. Pois se tocasse muitos espertos ali ligariam os pontos que os levariam para a verdade, e isso incluía a professora McGonagall.
Levantou-se sem dar explicações e saiu da sala, deixando suas coisas para trás.
― Senhorita Evans, volte aqui!
Ela ignorou a professora e fechou a porta. Não pensou duas vezes antes sair correndo até a saída. Era o sinal de Voldemort mencionara em uma de suas cartas. Quando a marca ardesse, deveria encontrar um jeito de sair de Hogwarts e encontra-lo pessoalmente. Sua marca ardera somente poucas vezes em toda a sua vida, sempre quando seu pai estava furioso. E a ardência e a dor que sentia era exatamente a mesma que sentira nas outras vezes. A dor começava na Marca Negra, mas passava por todo seu braço até fazer seu coração comprimir. Voldemort estava furioso.
A claridade forte do sol tocou o seu rosto, alertando-a que já estava no jardim frontal. Ainda assim os portões estavam bem longe. O que ela poderia ter feito de errado? Por que seu pai estava tão furioso? Será que alguma informação tinha vazado?
Os portões estavam cada mais próximos, mas havia uma figura a esperando do lado de fora. Seus passos diminuíram, seus olhos se arregalaram.
― Pai?
Voldemort estava exatamente em frente a ela do outro lado dos portões. Seu sorriso era quase malicioso, mas sua varinha não estava avista.
― Amber... venha ― chamou em tom quase paterno.
A ruiva fitou os olhos vermelhos do pai com desconfiança, havia algo ali que não sabia decifrar. Cautelosamente abriu o portão, sabendo que ele não poderia ultrapassar os limites criados pela barreira que protegia a escola.
― Algum problema pai? ― perguntou temerosa ― Por que me chamou?
― Primeiro vamos sair daqui ― avisou segurando a mão dela.
Aparataram em uma espécie de salão, mas estava escuro demais para Amber ter certeza.
― Como sabia que eu sairia pela porta da frente? ― questionou enquanto tentava enxergar algo além da escuridão.
― Fácil... era o que eu faria se estivesse no seu lugar ― Voldemort respondeu se afastando e sumindo na escuridão.
― Pai? O que está acontecendo? ― Amber questionou já em alerta ― Por que me chamou?
― Eu soube ― a voz dele ecoou por todo o recinto, fazendo os pelos de Amber se arrepiarem ― Que você está mais próxima de Potter do que me contou.
Ela prendeu a respiração, começando a sentir seu coração martelando com o medo, mas tentou se manter indiferente ao responder:
― E quem passou tal informação ao senhor?
― Ah não foi qualquer fonte ― a voz suavemente letal dele parecia estar vindo de todos os lados ― Eu mesmo invadi a mente de Potter e me surpreendi com o que vi.
A ruiva fechou os olhos praguejando mentalmente e quando abriu ouviu o farfalhar das vestes de seu pai passarem bem ao seu lado, virou-se assustada. Mas não havia mais nada ali.
― Parece que ele confia bem mais em você do que o esperado e você sabe disso...
― Não pai ― ela insistiu entrando em desespero ― Eu juro que não sabia. Em todo assunto sério ele sempre dizia aos outros dois que contaria mais tarde. Quando eu não estivesse ali.
Era mentira, ela mesma saía do círculo de conversa quando sentia que o assunto remetia a Voldemort. Mas tinha que tentar, temia pelo o que o pai poderia fazer se descobrisse que sua única filha estava o desafiando.
― Eu preciso admitir... ― a voz dele veio de mais perto dessa vez , fazendo-a recuar às cegas ― Que não sou capaz de amar. Nunca fui. Sou o fruto de uma poção do amor e fui criado sem ele, então também perdi essa capacidade... de amar.
― No entanto ― escutou as unhas dele passarem pelas janelas de vidro que ela não podia ver ― Você apareceu. Quando a vi pela primeira vez... imediatamente pensei em como se tornaria uma bruxa poderosa, talvez tão boa quanto eu um dia. Por isso foi treinada desse jeito, eu não confiaria seu treinamento a mais ninguém além de mim. Mas o segredo da sua existência também me forçou a cria-la sozinho... agora me imagine criando um bebê ― ele riu ― Eu estava me dando bem, ouso dizer, mas o ataque aos Potter esgotou minhas energias, chegou um momento em que não consegui mais e fui forçado a dividir o segredo com alguém.
Amber notou que ele se aproximava, a pele dele era clara demais para ser escondida com perfeição pela escuridão, mas não ousou interrompê-lo.
― Narcisa me ajudou, talvez com medo de que eu fizesse algo com o filho dela. Usou a poção polissuco por segurança e bondosamente me cedeu a segunda Mansão Malfoy. Anos se passaram, anos torturantes onde eu cogitava matar você a cada choro, a cada desobediência. Mas em um certo momento eu descobri que dessa vez era a sua vida que eu não confiaria a mais ninguém além de mim.
A respiração dela falhou. O que exatamente ele queria dizer com tudo aquilo? Virara o super pai agora?
― Pai...
― Seria hipocrisia dizer que a amo ― Voldemort a cortou ― Mas se há alguém que eu confio... esse alguém é você Amber. E não suporto a ideia de estar sendo traído pela minha própria filha.
― Eu não estou-
― Espero que não ― ele a interrompeu de novo e dessa vez ela sentiu um desespero maior para encontra-lo ― Mas chamei você aqui hoje para mostrar o quanto confio em você e um pouco do que poderá acontecer caso decida me trair. Hoje vamos treinar nossos... novos feitiços.
― Não!
Amber recuou e tentou sacar a varinha, mas ela não estava lá.
― Não... sem varinha ― Voldemort sibilou adquirindo um tom sombrio ― Além de minha filha, você é minha seguidora e meus seguidores... não me desafiam.
Quando a ruiva notou seu pai surgir bem a sua frente, a varinha dele já estava pronta.
― Dolor.
Ela curvou-se em pura agonia e dor. A angustia tomou conta de sua mente como se estivesse rodeada de Dementadores, todo o seu corpo se arrepiou e tremeu até que seus joelhos fraquejaram, deixou-se cair no chão procurando por oxigênio, por controle, mas nada surgia além da horrível sensação de que tudo em seu corpo estava sendo substituído pela dor e pelo desejo suicida.
― Timor.
Gritou de raiva ao escutar o feitiço, mas logo a raiva se transformou em desespero. Seu corpo estava agora inundado pelo medo. O medo irracional que a fazia querer cavar o piso com as próprias mãos para ter um lugar onde se esconder.
― Olhe em volta, filha.
Amber obedeceu ofegante, reparando que estava em um lugar totalmente desconhecido. Parecia uma casa a muito abandonada.
― Essa era a casa do meu pai ― ele esclareceu ― E agora os trouxas da vila devem estar pensando que o lugar é mal assombrado por causa dos seus gritos!
Voldemort se aproximou tão abruptamente que Amber ousou recuar, fazendo os olhos vermelhos dele se tornarem ainda mais brilhantes de raiva.
― Não ouse recuar diante de mim Amber! ― rosnou segurando-a pelo pescoço e fazendo-a ficar de pé ― Eu lhe treinei para ser uma grande bruxa das trevas, minha herdeira! Não aceitarei suas fraquezas, não admito falhas!
Ele a empurrou e em seguida se afastou, voltando a coloca-la na mira de sua varinha e olhando-a com repugnância.
― Deve aguentar tudo de pé... não admito que se curve diante uma dor tão banal como essa! Existe dor e desespero pior, sabe muito bem disso! Mas se insiste em procurar motivo para gritar como uma bruxa qualquer, então grite! Vulnere!
Amber rosnou ao sentir os cortes sendo feitos em seu corpo, ardendo como se tivessem sendo queimados. Curvou-se de novo, dessa vez em uma tentativa desesperada de manter tudo dentro de si.
― Grite, Amber! Agora eu quero ouvir o seu desespero! Sua agonia! Dolor máxima!
E ela gritou, deixando-se tombar no chão mais uma vez. Sentiu todos os cortes se abrindo ainda mais e o sangue escorrer livremente. Debatia-se tão violentamente que com certeza já teria maiores problemas além dos cortes e da dor.
― Implore pela morte ― ordenou Voldemort.
Amber cogitou a hipótese tão seriamente que assustou a si mesma. O desejo suicida estava lá, junto com a dor, o desespero... tão fortes que ela mesma já pensava em se jogar pela janela para escapar de tudo aquilo. Mas sabia que tudo isso era consequência do que seu pai estava fazendo, do que estava sentindo. E tudo aquilo era temporário. Não poderia desistir assim tão fácil.
― Implore!
― Não! ― ela gritou abrindo os olhos.
Seu pai sorriu e abaixou a varinha, interrompendo o feitiço. Aproximou-se dela novamente e agachou-se ao seu lado, avisando em tom calmo:
― Quando voltar a Hogwarts, irá continuar a cumprir suas ordens com perfeição e determinação. Estou com pressa e quero informações úteis Amber ― ele passou a mão sobre os cabelos ruivos dela e segurou sua cabeça ― Mas se eu suspeitar que está tentando me enganar... vai desejar estar morta quando a encontrar.
O corpo da garota tremeu ao vê-lo se afastar e voltar a erguer a varinha.
― Agora vamos voltar com uma bem conhecida... Crucio!
***
Os corredores estavam lotados de alunos, todos apressados para chegar até o Salão Principal e colocar fim a fome que sentiam. Alguns corriam para atravessar o pátio descoberto, o sol forte da manhã resultou em uma chuva igualmente forte no jantar, fazendo-os chegar quase completamente molhados no Salão. Os professores já estavam lá, totalmente secos e presos em suas próprias conversas. Dumbledore apenas se limitava a observar a entrada dos alunos, repentinamente interessado na reação de cada um diante da chuva.
O barulho das asas das corujas entrando no Salão anunciou a hora do correio. Os alunos sorriam ao receber uma carta ou soltavam uma exclamação de susto quando uma encomenda caia bem em cima do seu almoço. Mas uma coruja especial nem chegou a passar da mesa dos professores, parando exatamente ali, na frente do Mestre de Poções, que arqueou uma sobrancelha em questionamento. Ele nunca recebia cartas. Lançou um olhar desconfiado a Dumbledore que estava sentado do seu lado e que desistira de observar os alunos assim que a coruja marrom pousou ali. Sem outra escolha, Snape pegou a carta.
Amber precisa de seus cuidados.
Era tudo o que estava escrito. Não compreendeu de imediato, mas franziu o cenho ao notar que reconhecia a letra. Jamais esqueceria dela e nem da primeira que recebera uma carta com aquela letra. Era do Lord das Trevas. Uma preocupação dominou sua mente. Algo estava errado e podia ver isso nos olhos de Dumbledore. Por que Evans estaria precisando de sua ajuda?
Imediatamente passou os olhos sobre o Salão a procura da ruiva, mas encontraram apenas a Weasley mais nova atravessando as portas. Procurou novamente e nada. Trocou mais um olhar desconfiado com Dumbledore, ambos estavam vendo Potter olhar ao redor preocupado e logo depois ir ao encontro de Minerva que conversava com uma lufana. Os dois trocaram algumas palavras até a professora também ganhar o semblante confuso e preocupado. Ela deu uma última olhada ao redor e apressou-se para se aproximar do diretor.
― Alvo ― chamou quase ofegante ― O senhor Potter veio me perguntar sobre a senhorita Evans. Ela saiu no meio da minha aula e de acordo com ele, não apareceu mais em nenhuma outra aula desde então.
― Procuraram no dormitório? ― questionou Dumbledore já se levantando.
― Os fantasmas da Sonserina disseram a ele que os dormitórios e o salão comunal estão vazios.
― Por que ela abandonou a aula? ― foi a vez de Snape questionar.
― Não sei dizer, estávamos no meio de um exercício quando ela simplesmente saiu correndo ― Minerva respondeu exaltada.
― E não foi procurar saber o motivo? ― desacreditou Snape lhe lançando um olhar irritado.
― Não fale como se fizesse isso Severo ― ela se defendeu.
― Eu sou o professor mais odiado e não você ― rebateu Snape entre dentes.
― Fiquem calmos ― pediu Dumbledore.
O diretor fitou os alunos e ergueu a voz:
― Desculpem interromper o jantar de vocês. Sei que devem estar famintos, porém preciso fazer uma pergunta urgente ― os alunos se entreolharam confuso, esperando o diretor continuar ― Alguém viu a senhorita Amber Evans depois do almoço ou sabe onde ela está?
Os murmúrios começaram, mas apenas uma voz se sobressaiu:
― Eu não sei onde ela está, diretor ― disse um corvino levantando e erguendo uma mochila azul nas mãos ― Ela saiu correndo e deixou a mochila para trás. Eu só notei que ela estava sentindo dor por causa da cara que fez.
― Eu tinha esquecido um livro aqui ― anunciou Luna Lovegood serenamente ― Estava saindo quando ela passou correndo e foi para o jardim.
Algo dentro de Snape se iluminou, fazendo-o arregalar os olhos. Claramente Evans queria sair da escola, mas se sua Marca estava mesmo ardendo, como ele achava, então ela também queria sair dos terrenos para aparatar. E só havia uma saída fácil.
Amber precisa de seus cuidados. Ele se levantou em um sobressalto, chamando atenção para si. Mas nem se importou, precisava chegar até os portões de Hogwarts.
― Onde você vai? ― Dumbledore questionou ao ver o Mestre de Poções atravessar o salão em passos largos e rápidos.
Mas Snape não se deu o trabalho de responder. Agora tudo fazia sentido para ele agora. Evans não estava em Hogwarts, estava com o Lord das Trevas. E agora, de acordo com o próprio Lord, precisava de cuidados. Snape conhecia o bruxo das trevas suficientemente bem para saber o que a garota deveria estar passando agora.
Escutou o trovão fazer as janelas tremerem e apressou os passos. Tinha que cumprir ordens que o obrigavam a cuidar da menina, mas acima de tudo sentia-se responsável por ela. Sempre que olhava para a garota se lembrava tanto de Lilian que chegava a doer, parecia que a vida queria lhe dar uma segunda chance para fazer as coisas certas e proteger a menina. Mas sempre que começava a pensar assim lembrava que a garota não era sua Lily, não sorria o tempo, não era doce e carinhosa com todo mundo e não carregava o brilho dela. Amber era única. Além de ter o peso da Marca sobre os ombros, ainda sofria com as ordens que recebia do Lord das Trevas. Snape não conseguia entender a ligação que havia entre os dois. Nunca ouvira falar de garota alguma sob a proteção do bruxo, mas toda vez que conversavam sobre ela, Voldemort a tratava como seu bem mais precioso, como se tivesse plena certeza de que a garota faria exatamente o que lhe foi ordenado.
Amber Evans parecia uma máquina criada pelo próprio Voldemort. Era assim que Snape pensava na maioria das vezes. Mas quando a olhava nos olhos... enxergava um desespero que conhecia bem: o desespero da obrigação de cumprir ordens. Mas se Voldemort confiava tanto nela e ela lhe obedecia sem pensar duas vezes, então por que ela estava desesperada?
A chuva o acertou com força, mas não recuou, já estava completamente ensopado só indo até ali. Atravessou todo o terreno mirando apenas os portões, ela só poderia chegar até ali. Por conta da grossa chuva, precisou atravessar os portões para poder encontra-la. Estava deitada no chão e inconsciente, os cabelos ruivos estavam grudados em seu rosto e a violência do vento fazia até umas mechas ensopadas se moverem. Ele agachou ao seu lado e analisou o rosto pálido de Amber, os lábios já estavam roxos por causa do frio. Passou os olhos pelo resto do corpo dela e encontrou sangue, muito sangue, notando também vários cortes profundos por todo o corpo.
Pelo menos ela ainda respirava.
Snape não pensou duas vezes antes cobri-la com sua capa e pegá-la no colo, fazendo todo o caminho de volta ao castelo.
― O que houve com ela? ― guinchou Minerva assim que ele entrou.
A professora se aproximou de Snape completamente assustada com a quantidade de sangue que cobria a garota e o próprio Snape.
O Mestre de Poções lançou um olhar irritado para os professores e alguns alunos que estavam ali, esperando por ele. Demorando-se mais em Dumbledore, que devia ter tirado todos dali antes que ele voltasse.
― Não há tempo para explicações ― anunciou secamente quando recomeçou a andar ― Manterei ela em meus aposentos.
― Mas ela precisa ir para a Ala Hospitalar! ― rebateu Minerva.
― Algum dia vai perceber que ela não pode ficar na Ala Hospitalar em uma situação como essa ― ele retorquiu sem parar de andar.
E estava certo. Quantas perguntas os alunos fariam ao vê-la naquele estado? E mesmo que visitas fossem proibidas, duvidava que Potter fosse ficar quieto até conseguir entrar.
Passou pelas masmorras quase correndo e ainda mais rápido pelo próprio escritório. A respiração de Amber estava cada vez mais lenta e fraca. Quando a colocou em sua própria cama e ouviu gemendo de dor, apressou-se para limpar os ferimentos. E havia muitos. Nos braços, nas pernas, nas costas e no colo. Forçou-a a beber uma poção para aliviar a dor e começou a tirar a roupa dela com cuidado, imaginando que tipo de escândalo ela faria se acordasse agora e transfigurando um pijama seu para que ela ficasse devidamente vestida. Começou a limpar os ferimentos, ficando cada mais furioso a cada corte profundo que encontrava. Por que Voldemort fizera aquilo? O que ela havia feito de errado?
Ela tremeu sob suas mãos e ele notou que a febre estava vindo com toda força. Apressou-se com os cortes e em passar a poção cicatrizante. Cobrindo-a em seguida.
― O que ele fez com você Amber? ― perguntou passando a mão na cabeça da ruiva.
Tentou não notar na magreza da garota ou nos olhos fundos adquiridos depois de noites sem dormir, mas não conseguiu ignorar os hematomas e todo o sangue que agora estava dentro da bacia com a água que usara para limpá-la.
O que tinha acontecido com ela?
Fale com o autor