Em primeiro lugar
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A primeira vez que senti a distancia que nos separava foi na nossa festa de aniversário de onze anos. Balões coloridos, confetes para todo lado e um monte de crianças barulhentas rodeavam o bolo cheio de glacê. Diante dele eu e Tiago encarávamos a vela (havia apenas uma) acesa e tremeluzindo. “Façam um pedido!” mamãe gritou entre o burburinho de palmas. Eu sorri e cruzei os dedos desejando com força ganhar aquele Playstation dos meus sonhos. Olhei para o lado e meu irmão estava lá, parecendo muito entediado com aquilo tudo. Ele deu de ombros, acenou para mim e assoprou a vela. Mais tarde, depois de muito brigadeiro, confetes e salgadinhos eu perguntei que pedido ele havia feito. “Nada” ele respondeu “eu não preciso desse tipo de coisa”. A pior parte é que ele estava dizendo a verdade.
Tiago nunca realmente precisou de pedidos de aniversário para alcançar o que queria. Um dos melhores alunos da escola, ótimo jogador no time, vencia várias competições e era sempre cercado de pessoas. Todo mundo queria conhecê-lo. E eu? Bem, em vez de ter um nome eu era simplesmente o irmão gêmeo do Tiago. Idêntico a ele, mas nunca tão legal quanto. Os meus amigos também eram os dele, nossos tênis e roupas eram compartilhados, frequentávamos a mesma escola e dormíamos no mesmo quarto, assim como também dividíamos os presentes que ganhávamos no Natal. E nem preciso dizer que a grande maioria das crianças naquela festa de aniversário não estava ali por minha causa.
E assim, naquele dia eu fiz minha decisão: Eu queria minha própria vida e identidade. Eu nunca mais viveria sob a sombra de outra pessoa. A partir daquele dia trabalhei duro, rachando de estudar e me esforçando até o limite. Ser o melhor e o número um em tudo se tornou a minha missão pessoal. E eu me empenhei nisso. E sete anos depois e todo o esforço do mundo me trouxeram até o dia de hoje, em frente ao gigantesco mural com a lista preliminar dos classificados no vestibular.
Eu segurava o celular junto ao ouvido e abria caminho com meu braço livre entre a multidão de candidatos enquanto Sofia torcia animadamente por mim do outro lado da linha. Ela não conseguiu chegar a tempo para conferir os resultados comigo, mas insistiu que eu a mantivesse no telefone e a informasse de tudo em tempo real. Avistei a lista que eu queria. Medicina, bacharelado, período integral. Procurei, como sempre, meu nome no topo da lista de aprovados. Nada. Vasculhei novamente a lista piscando algumas vezes para limpar a visão e encontrar alguma explicação para aquela catástrofe. Pela primeira vez em sete anos meu nome não estava em primeiro lugar. E também não estava em segundo, em terceiro ou em quarto e não consegui encontrá-lo nem mesmo depois do décimo.
Respirei fundo e engoli o gosto amargo do meu orgulho destruído. Eu poderia ficar lá de pé até criar raízes no chão de concreto e ainda assim a realidade não mudaria: meu nome não estava escrito naquela lista. Acho que devo ter ficado um bom tempo em silêncio pois Sofia começou a chamar meu nome, perguntando se eu estava bem e se eu queria que ela viesse até aqui me ver. Eu recusei e ela não insistiu. A vantagem de você ter a melhor amiga como namorada é não precisar ficar explicando muito as coisas. Ela simplesmente me conhecia bem o bastante para saber que eu estava envergonhado demais naquela hora. Combinamos de nos encontrar mais tarde e eu desliguei. Minha primeira opção de faculdade estava numa lista de espera até o próximo semestre. Parabéns para mim. Que fiasco. Um ano inteiro de estudos jogado direto no ralo. Eu queria evaporar e desaparecer na atmosfera.
Praguejando minha própria sorte, procurei nos arredores a última pessoa a quem gostaria de ver, mas que por uma infelicidade do destino me daria a carona de volta para casa. Sim, pois não basta só o fracasso e a humilhação, eu também precisaria olhar na cara do meu irmão que já havia sido aprovado em, pelo menos, duas faculdades de direito antecipadamente. Como eu conseguiria ficar no mesmo espaço e respirar o mesmo ar que ele pelos próximos trinta minutos de viagem era um mistério para mim. As vezes eu sinceramente acho que a vida gosta de me sacanear.
Não foi difícil achar a figura alta do meu irmão no estacionamento. Apoiado no capô do carro, Tiago olhava fixamente para um casal mais ou menos da nossa idade que caminhava de mãos dadas em direção a uma moto monstruosa. Eu segui a direção do seu olhar tentando entender o que ele via de tão interessante naquela cena.
Os dois pareciam um daqueles casais saídos direto de um filme oitentista. O cara usava jaqueta de couro e sussurrava alguma coisa no ouvido da garota, que riu despreocupadamente. Um flash me passou pela cabeça e subitamente eu a reconheci: Alice, a mais bonita do nosso bairro. A garota que, até vinte quatro horas atrás, eu acreditava ser a namorada do meu irmão. Em seguida, os dois colocaram os capacetes e montaram na motocicleta. Alice enlaçou a cintura do cara e eles deram partida deixando um rastro de poeira para trás. E eles nem sequer notaram a nossa presença.
Eu nem preciso dizer que o clima de repente ficou pesado, não é? Apenas para deixar bem claro, meu irmão e eu temos alguns problemas na nossa relação, mas eu não desejaria aquela situação para ninguém. Eu não tinha ideia do que houve entre ele a namorada, mas era evidente que as coisas não andavam muito bem.
Tiago apenas abriu a porta do carro, sinalizando para que eu entrasse. Eu o segui, ocupando o lugar do carona. O tempo todo ele não deixou escapar nenhum xingamento, nenhum grito, nenhum sinal de raiva. Como sempre, ele parecia calmo e perfeitamente controlado. Qualquer outra pessoa se enganaria com aquela expressão apática no rosto dele, mas eu não. Passei a vida inteira convivendo com aquele infeliz e sei muito bem quando ele não se importa com alguma coisa e quando ele simplesmente fingia não se importar.
Tiago olhava direto para a estrada e dirigia quietamente, como se eu sequer estivesse ali. Não tive coragem de dizer qualquer coisa e as frases que me surgiam à mente não trariam nenhuma ajuda. "Você e ela terminaram? Você está bem? Ela já tá com outro? É impressão minha ou aquele cara da moto é o vizinho surfista que mora lá na nossa rua?". Era constrangedor demais. Porém, algo ficou claro para mim: As vezes, até mesmo meu irmão excepcional perdia o primeiro lugar naquilo que mais queria.
Respirei fundo e decidi quebrar o silêncio. Pedi a ele que parasse o carro numa padaria ao lado da avenida e, para a minha surpresa, ele aceitou. Acho que nenhum de nós queria realmente voltar para casa. Ao fazer o pedido ambos escolhemos automaticamente chocolate quente e pão de queijo, e isso não me incomodou nem um pouco. Aliás, durante o tempo que estivemos ali eu me esqueci daquela maldita lista de classificação e tampouco me lembrei da nossa antiga rixa. Pouco a pouco, a imagem distorcida de Tiago ia se desfazendo e eu começava a enxergar um pouco de realidade no meu irmão. Um cara orgulhoso, teimoso e complicado exatamente como eu. Era óbvio que bastava chegar em casa para as nossas brigas e desavenças recomeçarem, mas durante aquelas poucas horas eu me recusei a pensar nisso. E ocupar o outro lugar naquela mesa de café não era tão ruim, afinal.
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