CAPITULO X

–sho chan, o almoço esta servido.

Já sentada junto da mesinha de centro existente ali no quarto de hotel, lançava seu mais falso sorriso ao cantor que naquele momento estava no meio de uma crise de risos devido a algo que ela dissera momentos atrás, os olhos ambares porem emitiam um brilho quase mortal demonstrando todo o ódio que sentia por estar ali junto de sho.

naquela manha”

Na noite passada Ren havia lhe dito para tirar esse ultimo dia de folga a assim poder aproveitar o dia para comprar as lembranças que ela pretendia dar a suas amigas da sessão Love-me, a Maria e os donos da pensão onde ela vivia, por isso naquela manha após se despedir do seu nii san, arrumar o apartamento e vestir suas roupas de kyoko, colocou um chapéu e um lenço sobre o mesmo a fim de ocultar seus cabelos e rosto, estava prestes a deixar o hotel quando seu celular começou a tocar.

–alo

–kyoko mogami?

–sim sou...

Deteve-se, aquele era o celular exclusivo de setsu, desesperadamente pensou em um modo de corrigir sua resposta, mas antes que pudesse fazê-lo a pessoa do outro lado da linha havia voltado a falar.

–por que demorou tanto a tender sua estupida

–shotaro... como conseguiu esse numero?

–fui eu quem encontrou o celular, alias quando se empresta algo de alguém deve ter cuidado para não perde-lo sua estupida.

–como sabe que o celular é emprestado?

–eu estava lá quando sua amiga foi busca-lo, nunca pensei que uma estupida como você seria amiga de uma garota como aquela.

–DE QUEM SOU OU DEIXO DE SER AMIGA NÃO É DA SUA CONTA SHO BAKA

–POR QUE ESTA GRITANDO IDIOTA?

–O UNICO IDIOTA QUE EXISTE NO MUNDO É VOCE SHOTARO

sho moderou seu tom de voz ao ver que pessoas que passavam pelo corredor o fitavam de modo estranho

–estupida, não tenho tempo de discutir com você.

no breve momento em que a discussão havia sido interrompida pelo silencio do loiro uma ideia assustadora percorreu a mente de kyoko, a qual mesmo após ouvir a voz de sho que voltara a falar ao telefone, mantinha-se perdida em pensamentos.

Sho havia dito que estava lá quando setsu foi buscar o telefone, mas para ele saber que setsu dissera sobre o celular ser emprestado para sua amiga significava que sho estava realmente muito perto..., mas onde?...ela não o havia visto em nenhum canto do saguão, lembrava-se de ter olhado bem para todos os cantos para não correr o risco de ser vista mais ainda assim ele a vira, isso só poderia significar que...

–esta ouvindo estupida?

–você é...

não pode deixar de notar o som de surpresa na voz dela, o que aquela estupida estaria pensando que a deixou surpresa?

–Yuri

–hum... como sabe?

Kyoko sentiu todos seus demônios se agitarem no desejo ardente de matar o loiro que mais uma vez a havia enganado.

–kyoko, se você não estava lá como sabe que eu me disfarcei e usei o nome de Yuri?

podia ouvir o tom inquisitorial na voz de sho, como odiava quando ele usava aquele tom era algo tão ameaçador quanto o sorriso gentil do tsuruga san.

–setsu me disse que havia conversado com um fã meu no saguão do hotel e que ele se chamava Yuri

–fan?

kyoko pode ouvir claramente o riso de deboche de sho, o que só aumentava seu desejo de espanca-lo.

–eu nunca seria seu fã, o que eu disse foi apenas para poder descobrir qual a ligação dela com você e com a minha inteligência é claro que descobri.

–hum...?

–kyoko não há nada na sua vida que eu não saiba, inclusive.

o loiro fez uma breve carreta antes de prosseguir

–descobri a verdade sobre o tsuruga também, por isso kyoko a partir de agora você fara tudo o que eu mandar.

–POR QUE EU FARIA ISSO BAKA

–POR QUE VOCE ME DEVE OBEDIENCIA ESTUPIDA

–EU NUNCA IREI OBEDECER VOCE, A KYOKO ESTUPIDA EM QUEM VOCE MANDAVA E QUE FOI USADA COMO PANO DE CHÃO E DEPOIS JOGADA FORA JA NÃO EXISTE MAIS.

Por que ela sempre tinha de recordar isso, havia sido um grande idiota ao manda-la embora, mas jamais havia imaginado que acabaria por se apaixonar pela estupida sem graça com quem seus pais um dia haviam pretendido que ele se casasse, mas agora tudo o que podia fazer era reafirmar seu lugar no coração dela fazendo com que kyoko o odiasse ainda mais.

–se não fizer o que eu mandar vou publicar tudo o que sei sobre você e aquele cara inclusive o que esta acontecendo aqui.

Sorriu vitorioso ao ver que a garota já não tinha argumentos, esse era o momento certo para convencê-la a aceitar sua proposta.

–o que você quer de mim baka

–quero que passe o dia comigo

–foi você quem me quis longe, por que agora quer que eu passe o dia como você?

–estou entediado e a sua estupidez me diverte, além disso, estou cansado da comida do hotel.

–já ouviu falar em lanchonete, tenho certeza que existem outros restaurantes ai perto.

–quero que você cozinhe para mim, se recusar mandarei publicar tudo o que descobri sobre aquele cara.

–sho... ta...ro

kyoko cerrou o punho enquanto seus demônios se agitavam ainda mais,

–vou fazer com que se arrependa dessa ideia idiota

–ainda posso ouvi-la sua estupida, se planejar algo contra mim enviarei tudo para shoko e pedirei que publique tudo ainda hoje e assim quando voltar a tokyo a fama daquele cara já estará destruída.

reunindo o máximo de seu autocontrole ela conseguiu por fim perguntar

–onde o encontro?

–no mesmo hotel de antes

sho sorriu após haver encerrado a ligação, sabia o quanto estava se arriscando, kyoko podia simplesmente envenenar sua comida ou fazer qualquer outra coisa que pusesse sua vida em risco, mas naquele momento a presença da garota era realmente necessária por isso usara aquele blefe, na realidade a única coisa que descobrira era que tsuruga Ren havia se encontrado com ela na praia e que na ocasião o ator estava com os olhos e os cabelos claros, mas considerando às vezes em que kyoko mudara para um papel era de supor que o mesmo se aplicava agora com tsuruga.

tempo atual”

–sho chan o almoço vai esfriar

fitou a garota sentada diante de si, era estranho pensar que aquela bela mulher fosse à mesma kyoko com quem ele crescera seus olhos cheios de vida, seu sorriso encantador, seus trejeitos na hora de comer, com exceção de seus cabelos tingidos tudo nela seguia sendo o mesmo de outrora, mas ao seus olhos ela se tornara a mais linda dentre todas, a atriz mais talentosa e a garota mais importante em sua vida, ninguém seria capaz de compreendê-lo como ela era.

Apanhou o prato que ela lhe servia, kyoko era a única mulher capaz de preparar suas comidas preferidas do jeito como ele gostava, era como se ela fosse um extensão de si mesmo, um parte de si que havia se distanciado mais que naquele momento estava ali para torna-lo novamente completo.

Ao vê-lo sentar-se próximo de si, não pode evitar o sentimento de nostalgia que se apoderou de seu coração, mesmo sentindo um ódio mortal pelo cantor não podia evitar se sentir daquela maneira vendo-o ali tão relaxado e sorrindo ao saborear sua comida, não conseguiu simplesmente deixar de recordar os tantos momentos felizes que tivera ao lado dele, era verdade que sho era um idiota que apenas a usara, mas era verdade também que nunca sentiu nada de falsidade no sorriso que ele dirigia a ela em seus momentos passados antes de deixar Kyoto.

Os risos que compartilhavam enquanto assistiam TV, a preocupação na cara de idiota dele quando a via chorar, o momentos de brincadeira, às vezes em que ele evitara que algum garoto a incomodasse na escola, as musicas que ela o ajudara a melhorar.

–não vai comer?

–hum...

foi chamada de seus pensamentos pela voz do loiro

–se não quer vou comer tudo sozinho, não se deve desperdiçar comida.

teve ímpeto de sorrir ao lembrar que a mãe de sho sempre dizia isso para eles.

–sim

–obrigado kyoko

ergueu o olhar da comida para fitar o loiro, mas esse agora tinha sua atenção completamente presa a TV enquanto sustentava a taça de arroz em suas mãos quase a deixando cair, em seu rosto haviam alguns poucos grãos de comida, num ato inconsciente kyoko apanhou o lenço da mesa no intuito de limpar o rosto do cantor como fazia no passado, seus pequenos demônios a impediram de tal gesto.

Viu quando a garota deixou a mesa seguindo direto para o banheiro, seu primeiro pensamento foi que a mesma havia se engasgado com algum alimento e como no passado procurava resolver o problema por si mesma somente para não incomoda-lo.

Deixou a taça de arroz sobre a mesa seguindo o mesmo caminho que ela tomara.

–kyoko

tentou abrir a porta, mas a mesma estava trancada.

–kyoko

podia ouvir claramente a voz do loiro, mas não tinha o menor desejo de responder, tudo o que conseguia fazer era confirmar para si mesmo que aquilo não passava de uma simples atuação, que a antiga kyoko não existia mais, que o único homem por que sentia algo além de ódio era Ren, jamais deixaria que sho voltasse a ser parte de sua vida, tinha certeza que jamais voltaria a sentir por ele o que um dia sentiu, mas também não se permitiria vê-lo como seu amigo de infância, para ela ele não passava de um cantor desconhecido e idiota para quem ela agora interpretava uma antiga conhecida dele.

Fitou sua imagem no espelho, sim aquele não era mais do que um papel que ela deveria representar, assim como um dia tivera de atuar como o filho de seu sensei, agora teria de atuar como antiga e já inexistente amiga de shotaro fuwa, quando chegasse à tarde sua missão estaria cumprida e o segredos dos irmãos hell estariam a salvo.

–kyoko

chamou pela terceira vez sentindo o pânico tomar conta de si, o que faria se houvesse desmaiado sem ar, estava a ponto de arrombar a porta do banheiro quando a mesma se abriu, a sensação imediata de alivio se apoderou de si e num gesto impensado a abraçou com toda a força do seu desespero.

–nunca mais faça isso estupida

–o que pensa estar fazendo shotaro

–shi.só me deixe ficar assim um pouco

estava a ponto de afasta-lo de si a força quando sentiu o braços dele se tornarem mais relaxados e o que ate então era um aperto se tornou um cálido abraço

–sho

não sabia ao certo o que fazer, seus pequenos demônios lhe diziam para afastar sho a força de si mas algo dentro dela lhe dizia para permanecer como estava, após segundos que para ela pareceram uma eternidade, sho se afastou seus cabelos loiros estavam sobre os olhos a impedindo de ver claramente a expressão em sua face.

–pode ir embora agora

–hum...?

–além de estupida ficou surda

–fale como gente dai posso entendê-lo idiota

seguiu sho enquanto esse deixava o local e seguia para junto da cama onde estava sua jaqueta, retirando de dentro do bolso um pen drive que jogou o mesmo sobre a cama.

–pegue e vá embora, ai esta tudo que descobri sobre aquele cara

–quero sua palavra que não dirá a ninguém

–confia tão pouco em mim?

–tenho motivos para não confiar

–não direi nada a ninguém dou minha palavra, agora vá embora

saiu praticamente à força do local, não era como se desejasse permanecer ali mais o comportamento repentinamente estranho de sho a deixara surpresa, sentiu em seu bolso o celular começar o vibrar procurando não pensar mais em sho atendeu ao telefone enquanto seguia seu caminho de volta ao apartamento.

os olhos ainda umedecidos do loiro fitaram a distancia a figura feminina que se afastava pela rua alguns metros abaixo de si, não podia ver claramente mais sabia que era ela, havia planejado passar o dia com kyoko e assim usaria a garota como sua inspiração para completar a ultima e mais importante canção do seu novo álbum, queria que essa musica fosse capaz de expressar a alegria dos momentos que se passa com alguém especial, mas tudo o que sentia naquele momento era a dor por imaginar perder a pessoa amada.

Sentou-se na cama apanhando seu caderno de musica, não tinha a intenção de compor uma musica agora, mas sentia que precisava dar vazão a dor que sentia, mesmo tendo já a certeza de que ela estava bem não conseguia controlar suas próprias emoções.

–setsu

–nii san, já almoçou?

–sim

respondeu o moreno que já esperava pela pergunta

–comeu algo nutritivo e não algum tipo de comida com pouco carboidrato e proteínas?

–o diretor me convidou para almoçar com ele

kyoko sentiu-se aliviada, almoçar como diretor significava que Ren se forçara a comer algo decente

–setsu já almoçou?

–sim

disse ela temendo que Ren lhe perguntasse algo mais e assim teria de mentir para ele, algo que realmente não desejava fazer.

–nii san o que gostaria para o jantar

–na verdade foi por isso que liguei, setsu quer ir jantar fora hoje?

–hum...

Ren procurou abaixar um pouco mais a sua voz, mesmo estando dentro do camarim de Cain hell temia que alguém pudesse ouvi-lo

–já é hora de termos um encontro não acha kyoko

corou ao ouvir a voz sussurrada de Ren a chamando pelo nome uma vez que ele só fazia isso à noite e durante os poucos momentos íntimos que havia tido desde aquela noite.

–sim

–ótimo

não pode deixar de sorrir com a ideia de ter seu primeiro encontro de verdade com kyoko, ainda que esse fosse sobre a forma de setsu e Cain

–irei para a casa assim que a gravação terminar

–sim

encerrou a ligação após se despedir dela, olhou sua própria imagem refletida no espelho do camarim e após alguns minutos consegui que sua expressão volta-se a ser a de Cain hell, deixou o camarim seguindo para o estúdio.