CAPITULO XXV

–mal de wilson

sentado no solitário apartamento onde antes morava, a luz da lua era a única a iluminar o local, não sabia quantos horas estivera ali nem quantas vezes seu telefone tocara com chamadas de yashiro antes de haver desligado o aparelho, os livros atirados ao chão, as almofadas jogadas pelos cantos, a completa desordem do local dava a impressão a quem entrasse que o local havia sido palco de uma briga, mas a luta que ocorria naquele momento não era no apartamento e si dentro da mente de ren, as palavras do medico ecoavam em sua mente.

Mal de wilson, uma doença genética que geralmente se manifesta em crianças e adolescentes e faz com que o organismo retenha o cobre obtido através dos alimentos, o acumulo de cobre passa a afetar o figado e o cérebro por vezes causando danos permanentes, em alguns casos um transplante de figado se torna necessário, fora isso que o medico lhe dissera.

Fitou o frasco de remédio em suas mãos, o medico lhe receitara aquele remédio como uma solução temporária ate que ele pudesse providenciar tudo para seu internamento o mais rápido possível.

Devido a lesão que sofrera anteriormente na cabeça seu cerebro estava agora mais sensível do que na maioria dos pacientes, sem o tratamento adequado a doença poderia avançar muito rapidamente e causar-lhe a total paralisação de suas atividades mentais, poderia se tornar uma pessoa em estado vegetativo e na pior das hipóteses uma vitima de paralisia cerebral.

–por que...?

cerrou os punhos ate que suas unhas acabacem por ferir sua própria palma, aquela dor era insignificante diante do que sentia naquele momento

–por que comigo?...Rick você mentiu,

as lagrimas agora rolavam pela face do rapas que já não tinha razão para conte-las, precisava desabafar sua dor e aquele local era o único onde poderia faze-lo, quando deixasse seu antigo apartamento a face sempre serena de ren teria de voltar, havia decidido que não voltaria a esconder sua verdadeira personalidade de kyoko mas simplesmente não tinha forças para suportar ve-la sofrer por sua causa novamente.

Apanhou o celular religando-o e revendo os poucos vídeos que encontrara sobre pessoas com aquela doença, todas tinham suas vidas repentinamente destruídas felizmente por serem jovens sua recuperação era rápida e completa, mas esse não era o seu caso seu histórico medico não lhe dava muitas esperanças de recuperação, além disso a doença já não estava em seu estado inicial, era inteligente o bastante para compreender que o frasco que continha em mãos era apenas uma ilusão, sua única chance era a internação, mas como conseguiria suportar submeter sua amada a isso, como mante-la presa a um homem enfermo que talvez jamais se recuperasse.

–rick, você disse que bastava ter a mulher certa ao nosso lado e ela espalharia sua magia e assim eu poderia viver feliz...eu sou feliz agora mas

com o cotovelo apoiado em um dos joelhos e a cabeça apoiada em sua mão, via as lagrimas que deixavam seus olhos caíndo sobre o tapete da sala, cerrou os dentes impedindo que um soluço fugisse-lhe dos lábios

–mas... talvez eu já não tenha mas tempo para viver.

***********

–mogami kyoko falando

–estupida, passa o telefone para o tsuruga

–sho..ta...ro

–ja ouvi que sabe soletrar o meu nome, agora passa logo o telefone para aquele cara

–ren esta trabalhando ainda, diferente de você que fica vadiando o dia todo

ao ouvir as palavras de kyoko findou a chamada passando então a buscar o numero do celular do ator o qual conseguira horas atras com a ajuda de shoko, esperou ate que a ligação fosse encaminhada para a caixa postal, digitou então o numero que já conhecia perfeitamente

–kanae preciso do telefone do quatro olhos

–hum...?

–o empresario do tsuruga

–yashiro san?

–sim, no tempo em que ele foi empresario da kyoko ele lhe passou o telefone dele caso houvesse alguma emergência, e kyoko não pudesse atender ao celular

–sim, vou procurar e retorno a ligação

tão logo kanae passou o numero, discou o mesmo

–passa para o tsuruga

–hum...? fuwa?

–sim, agora passa o telefone para ele

–bem...nesse momento o ren não pode atender a ligação, ele...

–não esta com você

pelo silencio do outro lado da linha soube que suas suspeitas estavam certas, ren não estava com o empresario

–não, eu não entendo o que houve mas ren precisa ficar sozinho agora

–não, ninguém precisa segurar uma barra dessas sozinho

–hum?

–preciso do endereço do antigo apartamento dele

–fuwa o que...

–apenas me de o endereço

anotou o endereço e tão logo encerrou a chamada, apanhou o casaco as chaves do carro e deixou o local.

A passos incertos seguiu para a cozinha apanhando do armário um vidro de wishky a muito guardado ali, sabia que era um ato egoísta e covarde mas se o remédio em suas mãos não poderia salva-lo talvez aquela bebida pudesse dar fim logo aqueles dias tormentosos de longa espera pela morte que estava por vir, retornou a sala com um copo de gelo e a garrafa em mãos, já havia se servido de uma dose e levava a mesma aos lábios quando a porta não trancada de seu apartamento foi aberta com um movimento brusco.

–você é idiota

o copo literalmente chutado de sua mão rolou pelo carpete deixando um rastro de amarronzado pelo caminho.

–o que faz aqui?

–vim impedir um idiota de se matar

–e por que eu faria isso, tenho uma vida cheia de marcas dolorosa, sou um assassino, um ator mesquinho que finge ser o que não é, um péssimo filho, um pai ainda pior que nem esteve presente no nascimento do filho, um namorado horrível que só causa dor a mulher que ama, mas que mesmo assim...queria poder seguir ao lado dela.

Passou a mão pelos cabelos, os olhos acinzentados fitaram a lua que agora podia ser vista pela janela frente a eles.

–quando enfim pensei que poderia ser feliz, ter um lar e um vida de verdade eu...outra vez eu me mostro sendo um inútil, meu organismo é incapaz de eliminar corretamente o cobre.

–a maioria das pessoas com mal de wilson se recuperam com o tratamento adequado

–com sabe que tenho isso?

–kanae foi fazer alguns exames de anemia, decidi ir busca-la você esbarrou em mim sem me ver e acabou deixando cair isso

ren apenas olha brevemente em direção o loiro, reconhecendo o papel nas mãos de sho

–guarde para você, já sei o que diz ai não preciso mais disso

–tsuruga

–va embora fuwa, não preciso que fique aqui me olhando com pena, mas antes de ir me prometa que cuidara dela quando eu não estiver mais aqui

sentiu-se ser repentinamente levantado pela gola da camisa e sem qualquer chance ou vontade de se defender, recebeu o impacto do punho de sho em seu rosto

–foi por isso que a roubou de mim, para abandona-la na primeira oportunidade?

sentou-se no chão onde havia caído devido ao soco, sentindo o liquido quente escorrer por seus lábios

–se quer mesmo morrer posso ajuda-lo, irei mata-lo aqui mesmo se é o que quer, faria isso sem qualquer remorço mesmo que eu va preso por isso depois, mas sei que se fizer isso aquela estupida ira sofrer como nunca sofreu antes, por isso pare de pensar apenas e você e se levante dai.

Simplesmente não conseguia conter sua ira, sabia que o moreno precisava de apoio naquele momento mas não estava mais suportando a expressão de derrotado que ele tinha na face, ainda furioso acendeu a luz do local a fim de verificar se havia machucado muito o ator com seu golpe, afinal ren deveria estar debilitado devido a situação, surpreendeu-se ao ver o moreno se levantando com um sorriso nos lábios ainda sujos com um pequeno filete de sangue.

–obrigado

apertou confuso a mão que o ator lhe oferecia, certo de que aquele homem havia enlouquecido

–eu precisava disso, só não sei como explicar para a kyoko o rosto inchado

–diga a verdade que brigamos

–ela perguntaria o por que

–futebol

ren sorriu de verdade ante a incapacidade de sho de inventar uma boa mentira

–muita gente briga por causa de futebol

–não gosto de praticar ou assistir nada relacionado a esportes

–mulheres

o olhar do moreno o fez compreender o quão ridícula fora sua segunda sugestão, mas naquele momento havia sido o que lhe ocorrera

–digamos que você me procurou bêbado, você caiu fui ajuda-lo e sem querer você me bateu com o ombro no meu rosto.

–por que eu é quem tenho que ser o bêbado?

–seria louco se batesse em mim mesmo, ainda que estivesse bêbado

–faz sentido

–sim

–tsuruga, não me entenda mau, mas se precisar de ajuda com isso, pode contar comigo

disse sho um pouco sem jeito

–hum?

–não faço isso por você mas pela kyoko e o bebe

–sim, eu sei e agradeço

–melhor irmos agora ou aquela estupida pode ficar preocupada

–sim,

deixaram juntos o apartamento mas uma vez havendo adentrado seus carros cada um seguiu seu caminho.

******

–bom dia yashiro san

–ren onde você esteve ontem eu precisei...preci...sei

as palavras morreram em seus lábios, havia passado o resto da tarde e parte da noite se desculpando e remarcando compromissos que simplesmente não conseguiria dormir direito a noite devido ao estresse, sabia que ren tinha uma vida real agora, que o moreno já não tinha 100% do seu tempo dedicado somente ao trabalho mas ainda assim não conseguia deixar de estar irritado com o moreno por sua atitude pouco profissional, logo após o almoço ren recebera um telefonema e após sair com a desculpa de que o presente que encomendara para o filho havia chegado e que iria apanhar o mesmo rapidamente retornando a tempo de cumprir sua agenda, ren simplesmente desapareceu, nem kyoko nem lory sabiam do paradeiro do rapaz, sua primeira atitude foi ir ate o apartamento antigo de ren mas o mesmo a estava abandonado, ligou enumerar vezes para o celular do rapaz mas só caia na caixa postal, como se não fosse o bastante o estresse que passou remarcando compromissos ainda esteve a noite toda preocupado com o amigo.

Seu pensamento inicial naquele manha fora de que ao encontrar com ren lhe daria um belo sermão como era obrigado a fazer as vezes, aceitaria então as desculpas do rapaz, ouviria sua justificativa e arrancaria de ren a promessa de que isso não se repetiria, mas agora ao chegar na lme e encontrar ren com uma expressão que jamais vira no rosto do rapaz simplesmente não teve como aplicar-lhe seu sermão, os olhos de ren brilhavam intensamente, o sorriso que lançava as pessoas que o saudavam era algo fora do normal, havia serenidade em seu rosto era como a face de homem santo que alcançara a iluminação.

–acredito que essa sua expressão seja obra da kyoko chan

viu o moreno levar a mão ao rosto ficando levemente corado

–não haja como uma inocente garota colegial agora, essa sua expressão de um monge iluminado deixa evidente quão boa sua noite deve ter sido.

–não diga coisas tão vergonhosas yashiro san

a voz fina de ren fez o empresario ficar realmente envergonhado devido a que muitas pessoas agora fitavam com interesse a ambos.

–ren as pessoas estão olhando

o moreno sorriu divertido

–yashiro san quem disse que eu estava agindo como uma inocente colegial

–isso por que você fingiu estar envergonhado com a minha pergunta

ren levou a mão a cabeça passando a coçar levemente os cabelos, num gesto juvenil que yashiro nunca o vira fazer antes

–isso por que as palavras do yashiro san me fizeram recordar da noite maravilhosa de amor que tive nos braços da minha mulher

foi a vez do empresario ficar completamente envergonhado, esperava que ren desviasse do assunto como sempre fazia, nunca pensou que receberia uma resposta tão direta.

–o que kyoko te obrigou a comer no café da manha ren

–arroz, ovos, frutas, carne e salada, a comida dela é tão saborosa que nem me importo de comer demais, alias pode guardar isso para mim

–obentõ, kyoko chan deve ter levantado muito cedo para preparar um

–ela fez um para você também, embora ainda estou pensando se deixarei outro homem comer a comida preparada pela minha linda futura esposa

–você não seria sovina com o seu empresario seria, além disso ouvi dizer que a comida da kyoko chan é maravilhosa

–nunca provou?

–não

–nem quando foi agente dela?

–kyoko chan me convidava para tomar o dejejum mas nunca achei correto já que o fuwa não parecia ir muito com a minha cara

–ele não é tão idiota quanto parece

–hum...

estava pensando no quanto o soco que havia levado e que felizmente não deixara nenhuma marca que ainda estivesse visível, o ajudara a se libertar da tristeza e do sentimento de auto compaixão que o dominara após receber aquela desagradável noticia, foi então que sentiu a mão do empresario tocar sua testa.

–mesmo não tendo febre acho que deveria ir ao hospital

por um momento sentiu-se apreensivo com as palavras do empresario, haveria algo em sua fisionomia que evidenciasse seu real estado de saúde

–você falando algo agradável do fuwa só pode ser algum tipo de delírio

–com tudo que já fiz de errado na vida, acho que sou a pessoa menos indicada para criticar o fuwa, além do que ele namora a kotonami san agora não tenho mais motivos para continuar a discutir com ele

–resumindo não tem mais por que sentir ciumes

antes que ren pudesse responder ao longe a figura de uma linda mulher passou ao longe acompanhada por seu empresario o qual na opinião de ren, estava próximo demais da garota

–acho que o fuwa é o único do qual deixou de sentir ciumes não é ren?

Fitou o empresario sem nada dizer, aquela cena o havia deixado levemente de mau humor

–tarde passada quando vim apanhar a agenda que deixei no seu camarim ouvi alguns cometários bem interessantes a respeito do reino

arrumou os óculos atras dos quais se escondiam um olhar cheio de malicia, sorriu discretamente ao ver que com suas palavras capturara novamente a atenção de ren

–não estou interessado em fofocas

o sorriso que ren lhe ofertara lhe desconcertou um pouco, como podia o ator haver mudado seu modo de agir de forma tão repentina, seguiu atras de ren que naquele momento seguia a passos calmos ate seu camarim ofertando a todos em seu caminho o mesmo sorriso que trazia nos lábios quando se encontraram aquela manha.

–ren você esta agindo de um jeito tão fora do normal

–você acha yashiro san

havia agora um sorriso inocente na face do moreno, como aqueles que ren geralmente usava para esconder algo.

–sim

–compreendo, acho que é por que decidi não me importar mais

–hum...?

–decidi não me importar mais com o que as pessoas pensam ou falam sobre mim, a única opinião e conselhos que ouvirei a partir de hoje são dos meus amigos e da minha família

–ren só espero que isso não signifique que saíra por ai provocando escanda-los

–pensa que eu seria capas disso yashiro san

havia agora um olhar de cão abandonado, que fez o empresario sentir-se verdadeiramente culpado por sua insinuação de ren agora agiria como um delinquente ou um playboy qualquer

–ren me desculpe eu sei que você não faria isso

na verdade se fosse tempos atras seria exatamente isso que ele faria, porem agora que havia encontrado sua felicidade ao lado da mulher e do filho não havia razões para agir daquele modo inconsequente

–você é um bom amigo yashiro san

–hum...

viu o moreno adentrar o camarim, mesmo havendo convivido com ren durante cinco anos como seu empresario o moreno jamais havia lhe dito que eram realmente amigos, ele já usara a palavra amigo mas em momentos de brincadeiras por isso nunca levara a serio, porem agora não podia deixar de sentir-se emocionado, arrumou os óculos tentando controlar suas emoções e só então adentrou o camarim.