Em família
22 Picante
Notas iniciais
Luzes coloridas dançavam pelo ambiente. A música estava alta, o ambiente quente apesar da baixa temperatura na rua que marcava o início do inverno. As pessoas se amontoavam, em pé e nas mesas, ouvindo o show ao vivo, especialmente próximos do pequeno palco no canto do bar.
Um suspiro escapou dos lábios de Shikamaru.
“Se você não queria vir, podia ter me dito.” Temari sorria, ao mesmo tempo se divertindo e se desculpando da situação de Shikamaru. Ela falava alto, mas Shikamaru quase não a ouvia devido ao som da música, então para terem uma conversa decente ambos precisavam estar assim, inclinados sobre a mesa.
“Não, tudo bem. Você queria vir aqui, é meu dever como guia te acompanhar.” Ele assegurou a Temari. Ambos sabiam que na verdade ele não tinha nenhuma obrigação de acompanhá-la em um bar a noite, mas apenas Shikamaru sabia que ele praticamente dava essa missão de guia a si mesmo toda vez que ela vinha a vila. Eles eram bons aliados, ele diria. “No entanto, nós devemos ser as únicas pessoas que estão aqui pela batata frita.”
Temari riu, e um sorriso automaticamente tomou o rosto de Shikamaru. Ele não chegara a ouvir a risada, mas ele a viu nitidamente no rosto da kunoichi da Suna. Shikamaru não sabia dizer porque – talvez fosse o momento, ou talvez fosse só a luz da pequena lanterna decorativa na mesa – mas Temari parecia tão serena, tão frágil, tão angelical. Mas ele a conhecia bem o suficiente para não deixar que aquele belo sorriso o enganasse.
Temari se aproximou mais dele, um brilho misterioso nos olhos. “Se eu soubesse que tinha um show, teria deixado para vir aqui outro dia. Porque você não me avisou?”
Shikamaru só deu de ombros. “Eu também não sabia, e porque eu teria que saber? Não é como se eu saísse muito por aqui...”
“Hahaha, quer dizer que você só conhece os lugares aqui de Konoha por minha causa?” Ela com certeza estava se divertindo as suas custas. Shikamaru coçou sua nuca.
“Bem, em parte. Eu sei que eles existem, mas eu não tenho muitos motivos para sair quando você não está por aqui.” Temari caiu na gargalhada, e dessa vez ele pode ouví-la mesmo que o som estivesse abafado, e imediatamente se arrependeu de sua escolha de palavras. “Eu saio com Chouji também, mas Chouji sai mais pela comida...” Ele emendou, sem tentar desfazer o seu erro e tentando não demonstrar qualquer emoção em seu rosto – talvez ele tivesse corado, já que isso era difícil evitar, mas Temari provavelmente não perceberia com o ambiente mal-iluminado.
“Ei, eu também estou aqui só pela comida, sabia?” Ela falou com falso desdém, que só era aparente pela feição divertida dela. Shikamaru achava que ela gostava de vê-lo sofrer – ou talvez ela gostasse da companhia dele, mas isso era improvável. Tirando Chouji por diversas razões, quem gostaria de ter como companhia um garoto desinteressado como ele?
“Batata frita aos quatro queijos flambada...” Os olhos dela estavam perdidos em algum ponto acima da cabeça dele, o gesto das mãos indicando que ela estava agora se deliciando com a imagem do prato que eles deveriam receber em breve. Ela deu um pulo na cadeira, olhando para ele no mesmo segundo. “Ah! E os melhores molhos também! Sempre que eu venho aqui eles tem um diferente. Qual será o de hoje?” Os olhos dela correram sobre o balcão do bar, onde serviam principalmente bebidas, mas onde também havia diversos utensílios descartáveis e condimentos para acompanhar os pedidos.
“É, eu ouvi dizer que eles tem sempre um ‘especial do dia’ e que eles trocam todos os especiais a cada 2 ou 3 meses.”
Temari inclinou a cabeça, mas continuou olhando para o balcão, aparentemente pensando em algo. “Bem, isso explica porque eu sempre provo algo novo. Se eu morasse aqui eu provavelmente já teria enjoado do local...” A voz dela estava abafada pelo som, mas com a mesa pequena e ambos apoiados sobre ela, Shikamaru acreditava ter entendido o sentido geral da frase dela. Se você morasse aqui... Foi tudo que passou pela cabeça de Shikamaru.
E então Temari se virou para ele com um sorriso inocente e infantil, os olhos apertados, e Shikamaru já se preparou. “Você fica aqui enquanto eu vou ali pegar um molho?”
Shikamaru soltou o ar que nem sabia que estivera prendendo ao ouvir um pedido tão simples. Ele apenas acenou com a cabeça vagarosamente, fechando os olhos no processo.
Temari riu novamente “Não faça essa cara de ‘eu não tenho nada melhor para fazer mesmo’”.
Dessa vez Shikamaru também sorriu de canto e levantou uma sombrancelha, devolvendo “E eu tenho algo melhor para fazer?”
Temari virou os olhos e disse algo que não chegou aos ouvidos de Shikamaru, mas o fato de ela ter dado de mão e se virar dirigindo-se ao balcão lhe indicou que ela estava apenas o retorquindo, o que na verdade só o entretia.
Shikamaru ficou a observando andar até o balcão, onde ela passou a olhar os condimentos disponíveis, e então ele se virou para ver a banda no palco.
Enquanto ele se distraia assistindo a banda e a multidão de pessoas na frente do palco, ele foi surpreendido por uma mão em seu ombro. Embora como shinobi ele estivesse ciente da proximidade do rapaz, o toque o pegou de surpresa. Com o ambiente lotado, Shikamaru não estranhou a proximidade, e por isso não previu este movimento.
O rapaz falou alguma coisa que Shikamaru sequer fez questão de entender ao ver que ele estava apontando para a cadeira de Temari. O Nara nem gastou suas energias para dizer qualquer coisa, visto que ele não seria ouvido de qualquer forma, e apenas apontou em direção ao balcão que Temari estava. O rapaz olhou na direção geral e levantou o polegar, se afastando, e então Shikamaru voltou sua atenção para Temari.
O que ele viu não lhe agradou. Temari estava tensa, embora fosse dificil perceber para quem não a conhecesse, já que Temari também escondia bem suas emoções. Um homem falava com ela no balcão.
Por um instante, Shikamaru pensou em se levantar e ver o que estava acontecendo, ser um bom guia. Mas ele imediatamente descartou essa idéia. Primeiro, porque se ele se levantasse eles ficariam sem lugar para sentar – e comer. Depois, porque ele sabia que Temari era uma excelente kunoichi e diplomata, ela saberia como lidar com a situação sozinha. E por último, ela mesmo pedira para ele ficar ali, e não ficaria nada feliz se ele fosse até lá, não só por perder a mesa, mas por achar que ela precisava de ajuda. Só pensar no sermão já lhe dava dor de cabeça...
Depois de alguns segundos, Temari voltou para a mesa com um pote de papel descártavel cheio de molho. Ela se sentou na cadeira a sua frente, e Shikamaru pode ver a tensão desvanecer pouco a pouco. Isso era um bom sinal.
Ela sorriu olhando para ele. “Se divertiu bastante? Você parece bastante animado.” Ou talvez só estivesse se divertindo às custas dele. Ele revirou os olhos em falsa moléstia, ele não se incomodava realmente com as zoações dela, desde que isso a deixasse feliz. “Vamos lá, pelo menos a música está boa.” Ela continuou.
Ele concordou com um pequeno aceno de cabeça. “Sim, a música é boa. Só alta...”
Ela riu e disse algo que Shikamaru não ouviu novamente, e iria perguntar se ela não tivesse se virado para ver a banda, para a qual ela estava quase de costas.
Temari se virou rapidamente e parecia que ia dizer alguma coisa, mas seus olhos rapidamente desviaram e se iluminaram, e logo Shikamaru viu o motivo: o pedido deles chegara. O garçom pegou o maçarico e derreteu o queijo ali na mesa deles. Shikamaru achou que Temari parecia uma criança ganhando um brinquedo novo.
Quando o garçom foi embora deixando dois garfos na mesa, ele aproveitou o momento para devolver o comentário. “Não sei se você gosta mais da batata ou do fogo...”
Ela inclinou a cabeça e sorriu rendida. “O fogo é uma coisa bonita de se ver.”
“Pena que não posso dizer o mesmo do vento.” Ele respondeu arrastado e automaticamente.
Um. Dois. Três segundos. Esse foi o tempo em que eles ficaram se encarando muito sérios. E então os dois caíram na gargalhada.
“Você é péssimo com piadas, você sabia?” Temari falou depois que as risadas diminuiram.
Ele só sorriu para concordar e bebeu um gole do seu chá. “Talvez devessemos comer antes que esfrie.” Ela concordou com a cabeça, pegando os dois garfos e oferecendo um para ele.
Com a primeira garfada, Temari fechou os olhos e mastigou lentamente, saboreando sua comida. Shikamaru sorriu involuntariamente. Era bom saber que ela se sentia a vontade com ele também. Em seguida, Temari pegou apenas uma batata e foi experimentar o molho que trouxera. Ela foi bem delicada ao fazê-lo, Shikamaru diria.
Ao experimentar, ela franziu o cenho “É até doce...” Ela murmurou.
Shikamaru soube imediatamente que algo a incomodara. Ela parecia até... com raiva? “E isso é um problema?” Ele perguntou cuidadosamente.
Temari se virou no mesmo instante, como que surpresa de ouví-lo falar. Toda a irritação sumira de seu rosto. “Oi?” Ela perguntou.
O Nara percebeu que fosse o que fosse, o motivo do aborrecimento dela não era ele, então decidiu testar sua melhor suposição. “O molho não é o que você esperava?”
Ela sorriu amigável “Ah! Ele estava marcado com faixa preta, o molho mais picante do dia, mas achei até meio doce. Quer experimentar?”
Shikamaru não gostava especialmente de coisas picantes, mas aceitou a oferta da kunoichi. Ele mergulhou apenas um lado da sua batata, e depois mastigou cuidadosamente. “Bem, com certeza é picante...”
Temari riu novamente. “Muito forte?”
“É comestível, mas não meu estilo de comida.” Ele apenas dispensou cautelosamente, ao que ela puxou o molho de volta para si. O problema aparentemente não era o molho.
Shikamaru sentia que estava sendo observado, mas não se preocupou com isso, e tentou puxar algum assunto. Desde quando ele tentava puxar assunto? “Me explique novamente, como o motivo de você gostar de comidas picantes é o mesmo pelo qual você não pode comê-las?”
Ela sorriu ainda divertida. “Eu até posso comer, só não é aconselhável. Me lembra da Suna, a queimação e ardência, traz a sensação de vida e calor, de estar vivo. No entanto essas também são sensações de insolação, e como o corpo reage a pimenta, isso pode agravar o quadro de insolação, ou fazer você ignorar os sintomas. Logo, não aconselham a ingestão quando em longa permanência no deserto.” Ela terminou com um ar de quem sabe o que está falando.
“Ouvindo você falar assim, até parece que você gosta de problemas na sua vida.”
Ela sorriu altaneira “Isso explicaria porque você não compartilha meu gosto por comidas picantes.”
Ele só inclinou a cabeça em um aceno preguiçoso. “Culpado.” Ele falou arrastado, e ela sorrriu tornando a comer feliz.
Como a sensação de ser observado ainda permanecia, Shikamaru procurou a sua volta quem seria seu observador. Não foi difícil descobri-lo no balcão. Só não era Shikamaru quem estava sendo observado, e sim Temari. Pelo mesmo cara que falara com ela antes.
“Aconteceu algo no balcão que eu deveria saber?” Ele perguntou, pensando que talvez esse fosse o motivo da irritação dela a algum tempo atrás.
Ela franziu o cenho. “Porque a pergunta?” Bingo.
Ante a resposta defensiva, ele decidiu mostrar desinteresse e deu de ombros. “O cara com quem você falou está olhando pra cá, só isso.” Ela acenou séria, e por um instante ele achou que eles não falariam mais sobre o assunto.
“Espera, você disse que ele está olhando para cá?” Shikamaru fez que sim com a cabeça. “Você vai querer mais molho?” Ela perguntou erguendo o pote de papel para lhe mostrar.
Shikamaru não entendeu onde ela queria chegar. “Não, fique a vontade.”
“Você se importa se eu virar aqui?” Ela indicou o lado que ela estava comendo da porção de batata frita, e ele apenas negou com a cabeça.
Ela sorriu altiva enquanto virava o conteúdo, e depois voltou a comer efusivamente – ou pelo menos, efusivo para o padrão Temari, mas nada escândaloso.
A julgar pelo sorriso e o pequeno show, Shikamaru resolveu se arriscar novamente. “Então, vai me contar o que houve agora?”
Temari virou os olhos. “É só um cara idiota...” Ela ficou em silêncio, então ele acenou com a cabeça achando que ela não queria falar do assunto. No entanto, um suspiro e ela continuou. “Eu estava olhando os molhos, e peguei o com a faixa preta, que é pra ser o mais picante do dia, e peguei esse potinho pra colocar, e ele chega ‘Ei, você não quer fazer isso docinho.’. Eu me viro e vejo que ele está falando comigo. Não me agrada a idéia de que ele supõe que eu sou ignorante ao que eu estou fazendo. Mas tudo bem, eu só respondo tranquilamente: ‘Esse tem a faixa preta, eu ainda não experimentei, quero experimentar.’” Ela fez uma cara ao tentar imitar a voz do indivíduo. “ ’Você tem certeza? É muito picante.’ Eu só respondi amigavelmente ‘Não, tranquilo, tenho certeza.’.” Ela parou por um instante para comer, mas o aborrecimento de Shikamaru pelo rapaz já era evidente. Porque alguém iria querer se meter nos problemas dos outros quando não lhe condiz? Especialmente não sendo nenhum conhecido. E esse outro ser Temari. “Aí ele vem com ‘Eu acho que você não deveria, porque foi demais até para mim’ ” Ela lançou um olhar de indignação para ele, e embora Shikamaru soubesse que ele não era o alvo de fato da incomodação dela, não era bom ter aquele olhar em sua direção. “Por acaso eu pareço alguém que precisa de uma babá? Eu só virei pra ele e respondi séria ‘Está tudo bem. Sério.’ Ele só fez um ‘Okkaaay’ ” ela levantou as mãos abertas para dar ênfase “com aquela voz de ‘depois não diga que eu não te avisei’ “ Ela virou os olhos de novo, e Shikamaru só colocou a mão no rosto
“Como você disse, um cara idiota.” Ele comentou.
“Exato.” Ela concordou, e eles voltaram a comer em silêncio – ou tão em silêncio quanto se poderia naquele ambiente, até que ela voltou a comentar. “Será que eles vendem uma garrafa para levar para casa? É muito bom o molho...”
“Você não acha que é muito forte para você?” Ele a provocou divertido, e ela só virou os olhos. Shikamaru riu. “Você quer que eu vá perguntar se eles tem uma garrafa?”
“O quê?!” Shikamaru não ouviu ela falando, já que ele se afastara com o intuito de se levantar, mas o movimento dos lábios junto a expressão facial dela deixavam bem claro o que ela disse. “Nara Shikamaru se oferecendo para fazer algo? Isso é uma coisa inédita!” Ela sorria com aparente inocência, e Shikamaru só revirou os olhos.
“Vamos, você quer ou não? Rápido antes que eu mude de idéia...” Ele falou arrastado. Ela sorriu amplamente e acenou veemente com a cabeça. Ele se levantou e ela fez sinal para ele “Traz mais um” apontando para o pote de papel.
Shikamaru chegou ao balcão e pediu a garrafa de molho para Temari. Imediatamente, ele sentiu um par de olhos pousarem sobre ele, o que ele simplesmente ignorou. A balconista informou que levaria uma até a mesa, e perguntou se eles gostavam de coisas picantes. Shikamaru confirmou que Temari gostava, e a balconista disse que levaria mais alguns que eles não podiam servir no balcão por ‘razões processuais’, segundo ela. Shikamaru só acenou com a cabeça, não querendo gastar energias desnecessárias, e encheu um novo pote descartável de papel com o molho que Temari pegara. Faixa preta.
Ao virar-se para voltar a mesa, ele propositalmente se voltou para a esquerda, de onde a sensação de ser encarado vinha. E como ele esperava, ele pôde agora observar de perto o rapaz que aborrecera Temari. Era um rapaz magrelo, provavelmente na faixa etária deles, mas definitivamente não shinobi. Ele devia ser bem ignorante, para não conhecer Temari, e também estúpido, para não perceber que tipo de mulher ela era. Shikamaru conseguiu analisá-lo nos poucos instantes que levou para se virar, mantendo o rosto apático e fazendo todo seu movimento tão despreocupado que pareceria que ele nem tomara conhecimento da presença do rapaz ao seu lado.
Ele andou até a mesa e se sentou preguiçosamente, oferecendo o molho para Temari que o pegou alegremente. Depois de virar mais um pouco de molho na sua batata, ela olhou para ele e ergueu as sombrancelhas. Ele se inclinou sobre a mesa para respondê-la. “Eles vão trazer aqui. E mais uns outros molhos especiais.” Os olhos dela se iluminaram. Ele sorriu. Quem diria que uma kunoichi tida como a mais cruel poderia ter um lado tão agradável e infantil?
Quando trouxeram os diferentes molhos de pimenta, Temari se divertiu experimentando um a um – e comprou todos, sob o olhar atento do ‘babá-de-plantão’. Ela ainda conversou um pouco mais com o atendente, que era excessivamente simpático na opinião de Shikamaru, e logo acertaram a conta. Com o ambiente aos poucos ficando cada vez mais sufocante por conta da música e da multidão de pessoas, eles decidiram terminar e ir embora o quanto antes. Ambos precisavam descansar.
Logo ambos estavam prontos para sair. Shikamaru se levantou preguiçosamente, e observou Temari fazer o mesmo, mas de forma muito mais graciosa e ao mesmo tempo sem deixar de demonstrar sua personalidade poderosa. Quando ficou em pé, ela se virou diretamente para o rapaz que ainda os observava do balcão e o encarou diretamente. Ela calmamente pegou o pote de papel vazio e o lambeu ainda o encarando. Em seguida, ela jogou o papel no prato vazio e se virou em direção a porta, como se nada tivesse acontecido.
Involuntariamente, Shikamaru sorriu de lado, orgulhoso. Essa era a Temari que ele conhecia.
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