Em construção
1 Capítulo 2
Capítulo 2
— E como vamos sair sem ninguém nos ver? — Yuki já está de pé, parada em frente a pequena porta e analisando-a — Não temos a chave, então iremos ter que arromba-la, o que vai fazer chamar a atenção para essa parte do hospital. Vão nos pegar.
— Deixe eu pensar um pouco, Yuki — Deborah está com o dedo na boca, olhando para o chão. E depois de um tempo, ela continua: — Mas acho que você tem razão. Não da pra sair por aqui.
— Ninguém tem um grampo? — Kiara pergunta — Talvez, poderíamos tentar...
— Eu tentei isso na porta de cima, antes de descobrir qual era a chave. — Deborah está olhando para as duas, implorando para terem uma ideia que as tirem dali.
— Não custa tentar — Yuki já está mexendo no cabelo a procura de um grampo ou uma presilha. Ela tira um grampo preto do cabelo e tenta coloca-lo na fechadura. Não dá certo.
— O que vamos fazer? — Yuki fala, caindo vagarosamente contra a parede até encostar no chão, coloca a cabeça nos joelhos e fica em silêncio, apenas escutando o som da sua própria respiração.
Kiara sente uma vontade louca de começar a chutar a porta. Chutar a porta até arrebenta-la, e quando vir um Supervisor prende-la, dar-lhe um soco na cara, derruba-lo no chão, e sujar toda sua roupa preta-fluorescente de terra. Ela não merece isso. Ninguém merece ficar presa aqui.
Ela encosta a cabeça na parede, e tenta pensar em algo para acalma-la. Qualquer coisa. Como por exemplo, Umbra.
Foi difícil esses 2 meses sem ela, Kiara sentiu falta dela. Sentiu falta de tudo o que tinha antes. Até dos pais. Sim, foi tão difícil que Kiara agora parece estar preparada para tudo. Não tem mais medo de nada.
Os pais dela, a deixaram com os tios pouco mais de 3 meses antes da Guerra. Eles haviam brigado, queriam divorcio, e foram para a cidade de Houssewife, onde se encontrava o advogado deles. Kiara nunca mais os vira. 5 meses sem ver o rosto da mãe, que sempre dizia que a amava, que sempre a ajudava quando brigava com suas amigas, que dava conselhos sobre meninos. Saudades dela.
Kiara nunca perguntou para ela, em nenhuma das ligações o por que de seus pais a abandonarem. Ela tinha em sua cabeça que os pais estavam passando por uma fase difícil, e que precisavam ter um momento para conversarem, para entrarem em um acordo, pegar a guarda dos filhos. Só que sempre que sua mãe ligava para ela, seu pai não estava junto, e vice-versa.
Mas o que mais doía para Kiara, é o que o destino fez na vida dela. Na vida dos pais dela. Kiara chorava só de pensar.
A pouco mais de 1 semana para a Guerra — ninguém sabia dela, mas Kiara calculara os dias — os pais dela mandaram uma vídeo para Kiara. Os dois. Juntos. Kiara viu o vídeo umas 80 vezes no dia. Não podia acreditar.
Quando se separaram, os dois foram a procura do advogado da família, para ele ajudar um dos dois, mas no vídeo, eles falaram que foi o próprio advogado que os ajudaram a se reconciliar. E estavam voltando para casa daqui a 5 dias, pois eles precisavam tirar as papeladas e conviver a sós alguns dias. A viagem de Houssewife até Mungleton — a cidade onde Kiara, a irmã, e os pais moravam — era de 1 dia, então chegariam no dia em que tudo aconteceu.
Kiara esperava por eles na casa dos tios. Apreensiva, feliz, todas as coisas boas no mundo. Mas o céu clareou em um branco mais branco e limpo que o corredor do quarto das meninas, o 57. Ficou tão claro, que os olhos de Kiara, mesmo fechados, clamavam por um pouco mais de escuridão. E então, ela ouviu um barulho alto, parecia um grito vindo do inferno, debaixo da terra. Tudo tremeu, Kiara se lembra do estrondo da árvore caindo, dela agarrando a cadeira em que estava sentada, afim de tentar não cair no chão que tremia. E ela lembra do carro dos tios apitando. Ela também lembra de Umbra pela última vez, naquela mesma manhã, falando que os pais delas iriam chegar a tarde. E depois disso, Kiara não se lembra de nada.
Foi tão rápido, mas foi tão doloroso. Kiara se lembra de seu último pensamento naquele dia: será que meus pais vão demorar?
Sim, demoraram. Ainda não chegaram.
Kiara é acordada de seus pensamentos por sentir a lágrima caindo no seu braço. Não estava quente, nem fria. Não era morna. Não tinha explicação. Nem a lágrima, nem o mundo. Onde Kiara tinha ido parar?
— Vocês estão ouvindo? — Deborah estava de pé, caminhando até a escada que dá acesso ao quarto dos computadores e drenadores. — Venham ver.
Kiara enxuga o rosto. Não quer que a vejam chorando, pois ela iria desmoronar se alguém desse um abraço de consolo nela, e perguntassem o que ela tem. Ela tinha que ser forte. Até o fim da vida.
Yuki se levanta e caminha na frente de Kiara, até subir a escada. Kiara não agradece, mas fica contente. O mais distante das outras enquanto o choro se vai, melhor.
— O que você ouviu? — Yuki pergunta para Deborah, ela está encarando-a muito confusa.
— Vozes, passos, Supervisores — Deborah diz, olhando para o minúsculo vão entre a porta e o batente. Deborah parece apreensiva, nervosa — E são mesmo, ouçam.
Kiara aguça o ouvido, deixando a orelha mais para frente do corpo.
Sim, há passos vindo na direção delas. De repente, sem mais nem menos, elas ouvem um pedaço do que parece ser uma conversa. E o pior, parece estar se aproximando.
—... eu falei para elas não saírem do quarto, Íon — Kiara reconhece a voz do Supervisor Henry. E como sempre, ela está alta e fria — Aquelas meninas vão se ver comigo. Vou ter que matar mais uma hoje?
Kiara arregala os olhos, sente o coração acelerar, um frio na barriga estonteante. Ela precisa se sentar.
Kiara agacha silenciosamente, e coloca a mão na cabeça. Não vai chorar, mas ela sente seu corpo todo mole, depois duro, depois mole. Seu corpo não parece ter processado ainda o que ouviu. Mas de uma coisa Kiara tem certeza, o Supervisor Henry estava falando de Molly.
Yuki também parece perceber isso, e solta um gemido que ela própria cobre com a boca. Kiara percebe a arfada de Deborah a procura de ar. Deborah e Molly eram mais amigas do que Kiara e Yuki eram de Molly, mas depois de conviver diariamente com uma pessoa a 2 meses, você sente algo por ela.
Uma mistura de raiva e tristeza, toma conta de Kiara, mas logo a surpresa acaba com isso. Kiara está realmente estressada esses dias. Tudo acaba com a felicidade dela em pouco segundos, não que ela esteja feliz, mas ela estava com raiva a minutos atrás.
Deborah ainda está no mesmo lugar, olhando para o vão da porta. A que mais deveria estar chocada, está apenas tentando se proteger, e se importando com o presente. Kiara já sabe em quem se espelhar.
Ela levanta, passa por Yuki, que agora já está sentada na escada, e vai em direção ao vão entre o batente e a porta do lado esquerdo de Deborah, ela olha para a escuridão que está ali, e não entende o porque Deborah está naquilo há minutos. Kiara entra na conclusão de que, ela está esperando que alguém abra a porta e deixe a luz do dia entrar. Deve ser isso.
Agora ela consegue ouvir mais da conversa entre o Supervisor Henry, e da outra pessoa.
— Você não vai falar por que me trouxe aqui? — Henry dispara, impiedoso. — Precisamos procura-las.
— Elas devem estar nas salas de drenagem, ou nas UTIs, Henry — Diz uma voz calma, mas firme e alta, como a de Henry. — Quero te mostrar o que eu consegui pegar esses dias.
Agora Kiara estava desesperada. Ela colocou o corpo para trás, a fim de tentar olhar para Deborah, exigindo uma saída. Mas Deborah ainda olhava fixamente para o outro lado da porta.
— O que nós vamos fazer? — Yuki estava chorando, e sussurrou mais uma vez — Não quero morrer.
— Não vamos morrer — Deborah disse, num tom calmo, mas convicto.
Kiara ouve um estalo baixo, e ouve uma chave girando, seu coração está tão acelerado, que é capaz de parar por tanta energia que está gastando. Kiara agarra a blusa de Deborah, e ela para de olhar para o vão da porta. De pouco em pouco, as três vão descendo as escadas, até chegarem onde está toda aquela comida enlatada e água. Kiara ouve mais a conversa, mas não entende nada o que estão falando. Seu coração bate forte e alto, ela não consegue associar o que é real, e o que é medo.
— Precisamos nos esconder, rápido — Deborah diz, indicando o pequeno espaço que tem debaixo da cada prateleira. — Vão para baixo.
Yuki corre pra prateleira que está mais perto da porta e mais perto de nós. Talvez seja o pânico, ou talvez ela está tão nervosa que nem calculou a pequena distância entre a porta e ela. Deborah corre para baixo de outra também. Kiara faz a mesma coisa.
Ela consegue ouvir a respiração acelerada através das teias de aranha e da sujeira que está ali embaixo. Ela não consegue respirar muito forte, porque o espaço ali é bem pequeno, e se ela se estufar muito, vai ficar prensada.
Kiara pede proteção para Deus, mesmo não sabendo quem é ele. Fé, sua mãe dizia, tenha fé naquilo que você quer, que a fé vai te levar para o que você precisa. Kiara tinha fé nela mesma, foi por isso que conseguiu aguentar 2 meses longe de tudo e de todos que faz falta a ela. Ela não pode acabar assim, ela não precisa acabar assim. Tenha fé, Kiara ouviu a voz do seu coração.
A pequena porta de 1m foi aberta. A claridade entrou na sala, e Kiara fechou os olhos e se encolheu. Suas mãos estavam fechadas como punhos cerrados, e estavam suando muito, mas Kiara não fez a gentileza de abri-las, tudo o que fizerem pode ter riscos.
— Sinceramente, Íon — O Supervisor Henry estava bravo, e parecia triste — Não me faça perder tempo nesse armazém de comida.
— Mas foi você que mandou eu deixa-lo informado sobre isso. — O careca, Supervisor Íon, apontou para a sala. — Já estamos aqui.
— É, e as outras 4 meninas estão fugindo. — Henry parecia que ia explodir a qualquer momento — Não estrague mais meu dia. Venha me ajudar, e esqueça essa droga de armazém. Ainda é cedo...
Kiara não entendeu o 'ainda é cedo' pois essa citação não fazia referência ao dia de hoje, nem que ainda era cedo para procurarem as meninas. Se referia a comida. Mas Kiara não fazia ideia do que poderia ser.
A escuridão tomou conta de novo da sala, e o barulho do estalo de chaves fechando a porta deu um alívio em Kiara, como nas outras meninas também.
Agora Kiara abriu as mãos, e secou-as.
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Deborah, Yuki e Kiara já tinham saído debaixo das prateleiras de comida, mas esperaram alguns minutos antes de saírem. As três estavam sujas, afinal, a roupa era toda branca, e no cabelo de Deborah e Kiara, havia teias de aranha para todo lado.
— Agora eu posso agradecer por não ter cabelo — Disse Yuki, com um sorriso irônico no rosto.
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Já se passava da 13h quando Deborah avisou-as sobre o horário. Yuki e Kiara se levantaram e esperaram as coordenadas de Deborah, mas ela não fez nada. Apenas ficou olhando-as, parada.
— E então?... — Yuki disse.
— E então o que? — Deborah olhou-a confusa.
— O que vamos fazer?
— Não sei.
— Como assim?
— Eu não sei —Deborah disse, nervosa — Só sei que estou com fome.
Kiara estava olhando-as confusa. Ela não tinha comido nada a quase 24h, e parecia estar dormindo.
— Então, se vocês não perceberam, essas latas não se abre com a mão. Precisamos de um abridor de latas. — Kiara disse, afinal.
— Ótimo, gênio. — Yuki disse.
Deborah agora começou a andar através das prateleiras, e observou-as. Kiara e Yuki estavam olhando para ela, sem entender.
Kiara sentia o estômago roncar, e ela sabia que precisava comer, porque se caso precisasse correr, ou fugir de algum Supervisor, ela não teria forças.
Deborah deu um sorriso de vitória para uma prateleira, e pegou uma espécie de ferramenta, que naquela luz amarela forte, não dava para ver o que era.
Deborah veio para baixo da luz, e então Kiara percebeu o abridor de latas na mão de Deborah. Ficou feliz, pois ela iria comer.
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Sentaram no chão e pegaram algumas latas em conserva de legumes e uma com carne. Pegaram uma garrafa bem grandes de água, e encontraram algumas menores, vazias, encheram-nas e guardaram nas 3 mochilas que também encontraram num canto da sala.
Depois de comer, colocaram algumas latas em conserva na mochila, e um abridor de latas em cada, para no caso de alguma se perder de outra, terem com o que abrir a refeição.
Elas estavam pensando alto.
Ainda estavam no Hospital 26, faltavam várias quadras de ruas para poderem de uma vez dizer, estamos livres, ou pensando bem, nunca vão estar livres enquanto forem procuradas.
Depois que todas já estavam com suas mochilas prontas, elas estavam descansando no canto do porão, encostadas naquela parede fria, só Yuki encostando no pequeno pedaço verde-musgo de camurça que era a cortina que "escondia" muito mal a porta de saída.
Kiara repassou tudo o que aconteceu hoje. O Supervisor Henry batendo e maltratando Molly no quarto delas, Morphina apontando uma faca para Yuki, elas descobrindo essa sala, e o pânico que foi quando o Supervisor Henry e Íon quase entraram no porão. Algo estava atrapalhando Kiara a pensar. Então ela olhou para Yuki. Ela estava rodando e atirando o abridor de latas de mão em mão, e ele batia nos seus anéis e pulseiras de prata, fazendo um barulho irritante naquele silêncio todo. Kiara desviou os olhos do abridor de latas, mas logo voltou a olha-lo.
Se ele estava aqui, se ele estava perto das comidas para abrir as latas, então, é claro. Também tinham outras ferramentas cortantes, facas, garfos, ou até facões.
Kiara sorriu para si mesma.
— Gente — Ela começou, quase não conseguindo respirar adequadamente — Se aqui tem abridores de latas, por que não pode ter facas, garfos, ou até facões? Nós achamos mochilas para guardar os alimentos, garrafas e copos descartáveis. Deve haver facas em algum lugar.
— Mas nós já reviramos isso de cima a baixo, Ki — Disse Deborah — Não encontramos nada que corte, a não ser o Abridor de latas, e por favor, você não vai conseguir matar ninguém com um abridor.
Yuki levantou subitamente, com a cara amarrada, quase de agonia. Caminhou até a prateleira que havia ficado quando os Supervisores vieram até o porão. Abaixou, até ficar de quadro e puxou uma caixa retangular e levou-as para Kiara e Deborah.
— Aqui está.
— O que é isso? — Deborah perguntou.
— Facas, ué — Yuki esta respondendo friamente — Não é isso que querem? Matar os Supervisores para fugir? Podem pegar, eu não quero.
— Não estou entendendo, Yuki — Disse Kiara se levantando, e ficando na mesma altura que Yuki.
— Como não, Kiara? — Disse ela, parecia prestes a chorar — Você não entende? Não seja boba, é claro. Você acha que vai sair daqui pela porta da frente com um carro te esperando com um motorista dentro? Não vamos conseguir, estamos aqui a horas, e quase fomos pegas. Existe câmeras em algum lugar, não é?
— Só na recepção e nas saídas — Disse Deborah.
— Então — Agora Yuki estava chorando — Como vocês querem escapar? Vão matar quantos? Não, não vou. Vou inventar uma história e ficar. Não relo a mão em nenhuma delas.
Kiara a encarava ainda sem entender muito.
— O que deu em você, Yuki? Está ficando louca? —Kiara estava nervosa com a ignorância de Yuki — Se você se entregar, vai entregar todos nós. Irão de algum jeito tirar a verdade de você.
— Eu não quero matar mais ninguém — Yuki gritou, um grito mais baixo que um grito comum, mas mesmo assim fez Kiara dar um passo para trás. Ninguém a mandou calar a boca. — Você... você não entende.
— Quem você matou? — Kiara perguntou, firme.
— Você acha que eu perdi meu cabelo e o branco dos meus olhos, só ficando observando o Solotônio explodir minha família? Não Kiara, eu lutei contra ele. Meu avô tinha saído bem na hora em que foi lançada uma das bombas. Eu corri até a esquina a tempo de ver o carro dele pegar fogo e vê-lo tentando sair do carro. Mas não dava mais tempo quando cheguei lá. Algumas partes do corpo dele estavam tão pretas quanto são meus olhos agora. A bomba tinha caído mais perto do que eu imaginava, e só deu tempo de eu chegar na calçada e cair e desmaiar...
— PARA YUKI — Deborah estava chorando também, Kiara sentia suas pernas bambas — VOCÊ NÃO MATOU NINGUÉM.
— Eu matei sim — Yuki mal conseguia falar, caiu no chão, toda molhada de choro. — Eu matei sim.
— Você não matou. — Disse Kiara.
— Sim, eu matei — Yuki enxugou as lágrimas e olhou no fundo dos olhos de Kiara — Eu fiz meu avô sair de casa bem na hora que tudo clareou.
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Kiara sabia que era verdade, mas não podia acreditar.
Lamentou-se por Yuki. Lamentou-se pelo seu avô.
Mas elas não podiam ficar mais nem um minuto lá. Daqui a pouco, o Supervisor careca iria ver como estava o armazém, pelo que Deborah disse. Ela abriu a caixa retangular, que tinha um tecido aveludado em cima. E quando tirou a tampa, ela viu dois facões e uma arma de fogo. Tenha fé, Kiara ouviu a voz do seu coração mais uma vez.
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