Em busca de uma nova vida - 2ª Temporada
24 Não te vi, mas te sinto... Já amo você pequeno!
Notas iniciais
Tris
Já faz um bom tempo que eu estou aqui, deitada nessa cama de hospital.
O quarto, os equipamentos em minha volta, o soro... Tudo isso me deixa aflita. Está um pouco escuro. Apenas a fraca luz de cabeceira ilumina o quarto. Minha boca está seca e eu me sinto dolorida quando tento me mexer. Não sei por quanto tempo eu dormi, mas meus olhos ainda estão pesados e vagamente me lembro de Caleb me trazendo aqui. Eu sentia muita dor.
~~
Horas antes...
Saí do evento da Essence e fui para casa. Estava muito frustrada e magoada com o Tobias. Ele ficou lá, não veio atrás de mim e deixou o pai dele se colocar entre nós de novo.
Então resolvi que ia parar de me importar.
Assim que cheguei em casa desliguei o celular para não ter que atender e conversar com ninguém, tomei um banho quente e me deitei. Não dormi, no entanto. Minha cabeça estava no beijo que ele me deu enquanto dançávamos. Foi perfeito, como costumava ser entre nós, antes de tudo começar a ir por água a baixo.
Nesse momento me permiti chorar. Eu precisava desabafar um pouco.
Mais ou menos uma hora depois, eu escutei o som da campainha e me assustei. Quem poderia ser tão tarde da noite?
Levantei da cama e desci rapidamente as escadas. Encontrei Anna na porta, ela também tinha escutado a campainha e se levantou. Na porta estava Caleb e Susan.
–Tris! – Caleb disse, passando por Anna e me puxando para seus braços -, estava tão preocupado com você. Por que saiu sem avisar? – Meu irmão está sempre cuidando de mim, eu o amo tanto.
–Eu estou bem Caleb – respondo e me sento no sofá entre ele e Susan.
Conversei com eles por alguns minutos. Anna fez suco para nós e Caleb me perguntou se eu tinha me entendido com o Tobias. Eu disse que não. Disse que ele não havia chegado ainda. Caleb trocou um olhar com Susan e eu soube que havia algo errado. Susan ainda tentou me convencer de que não havia nada errado, mas eu conheço meu irmão, e conheço Susan também. Insisti e eles me disseram que Tobias me procurou depois que eu saí da festa e que ele disse que estava vindo para casa conversar comigo. Fiquei angustiada. Ele estava vindo para casa? Onde ele estava então? Voltei a ficar nervosa pensando no que poderia ter acontecido.
Subi até o meu quarto e peguei meu celular. Eu não queria falar com ele, mas estava preocupada demais para esperar. Disquei o número do Tobias e esperei. Chamou várias vezes e caiu na caixa postal.
Dois minutos depois, meu celular apita e vejo que recebi uma mensagem dele. Quando eu abro, está escrito:
“Não posso falar agora, estou ocupado!”
Ele estava bem. Com certeza resolveu ficar na festa. Sinto uma pontada de decepção, mas estou aliviada também.
Saio do quarto e desço as escadas para avisar Caleb e Susan que Tobias está bem. Quando chego ao final das escadas, meu celular apita mais uma vez.
Dessa vez, quando eu abro a mensagem, meu coração se quebra em um milhão de pedaços e cai no chão, ao meu lado. Totalmente destruído.
Na tela do meu celular eu vejo uma foto, enviada do celular do Tobias. Nita, nua, dentro do carro dele. Sei que é o carro dele, eu o reconheceria, é claro, e também tem aquele ‘cheirinho’ em forma de folha de outono, que eu insisti em colocar no retrovisor e ele odeia.
Nita está sorrindo, segurando o celular com uma mão e me dando o dedo do meio com a outra.
Fiquei olhando aquela foto, não conseguia me mexer. Meu corpo estava paralisado.
Quando consegui me mexer, bloqueei a tela com meus dedos trêmulos e respirei fundo. Minhas lágrimas estavam caindo com toda força, eu estava fervendo por dentro, fúria líquida. Girei o corpo para voltar ao meu quarto. Só queria ficar sozinha, chorar, gritar... Mas senti uma dor muito forte na barriga e isso me fincou no chão. Agarrei o corrimão da escada, e em seguida veio outra pontada, mais forte dessa vez. Gritei de dor e segundos depois Caleb, Susan e Anna estavam ao meu lado.
~~
E agora estou aqui, à espera de notícias. Quero saber se está tudo bem com o meu bebê. É só o que me importa nesse momento.
Quando olho em volta, à procura do botão que chama os enfermeiros, ouço a porta se abrir. A luz fica mais forte e a mesma enfermeira que me atendeu e me ajudou a sentar na cadeira de rodas quando eu cheguei, está de volta. Ela sorri e me entrega dois copinhos. Um contém um comprimido pequeno e no outro, água.
–É remédio para dor – ela diz. E em seguida acrescenta: — O médico vai vir ver você em breve. À pedido da sua cunhada, o Dr. Wu foi avisado e está a caminho. — Me sinto um pouco aliviada. Gosto muito do Dr. Wu, tenho confiança nele. Fico feliz que Susan tenha pensado nisso.
–Meu irmão ainda está aqui? – Pergunto.
–Está sim. Sua cunhada e seu esposo também. – Pisco algumas vezes. O Tobias está aqui?
De repente, os últimos acontecimentos voltam a minha cabeça e isso me atinge como uma bola de aço que cai no meu estômago. Não quero vê-lo. Nunca mais!
–Eu posso permitir que apenas uma pessoa entre – continua a enfermeira –, mas por pouco tempo. Você precisa descansar e não deve se estressar, ok? — Assinto e ela sorri.
–Quem que você quer que eu chame?
–Meu irmão... – Minha voz sai num sussurro, limpo a garganta e repito: — Meu irmão, Caleb. Ele ou Susan, só eles. Eu não quero ver mais ninguém.
Vejo a sobrancelha bem desenhada e loira da enfermeira se franzir. Ela deve ter pensado que eu ia pedir a presença do Tobias, mas não faz nenhum comentário. Vira as costas e sai do quarto.
Alguns minutos depois a porta se abre e Caleb entra. Seus olhos estão cansados, com olheiras, e eu vejo pura angústia neles. Os olhos verdes iguais os da mamãe, estão apagados por causa da preocupação. Meus olhos ficam nublados e eu vejo o borrão dele andar até a cama e se sentar na borda, de frente para mim.
–Ei, maninha, como você está se sentindo? – Caleb passa os dedos sob meus olhos, limpando as lágrimas. Eu balanço a cabeça e murmuro:
–Eu estou bem... Só que me sinto como se tivesse sido atropelada... – Caleb assente e olha para nossas mãos entrelaçadas.
–Vai ficar tudo bem – ele diz e me dá um sorriso apagado. – Eu tô aqui e vou cuidar de você. – De repente ele senta mais perto e me abraça. Eu o abraço de volta e ignoro o aperto que estou sentindo no peito.
Quando Caleb se afasta ouvimos o som da porta se abrindo e o Dr. Wu entra. Seus olhos puxados não transmitem nenhuma dica do que vai me dizer. Ele se aproxima e pega meu prontuário que eu não tinha visto, mas está pendurado ao lado da minha cama. Outro médico entra e a enfermeira que esteve antes no quarto. Começo a me sentir incomodada.
Os dois médicos conversam entre si e eu não consigo entender o que dizem. Por fim o Dr. Wu me olha e se aproxima do lado oposto ao que Caleb está. Ele que agora está em pé, ao meu lado e segura minha mão.
–Olá Beatrice – diz o Dr. Wu. – Como você está se sentindo?
–Eu estou sonolenta e dolorida. Como está meu bebê? — Dr. Wu concorda com a cabeça e olha para Caleb. Algo está muito errado, consigo ver isso.
Caleb aperta mais a minha mão e me olha com os olhos cheios de lágrimas.
–Eu sinto muito maninha – ele diz. O que ele sente muito?
Não!
Balanço a cabeça várias vezes, enquanto tudo fica embaçado. Eu não vejo mais ninguém, e também não quero ouvir.
–Tris... – Caleb começa.
–Não!! – Grito com a voz embargada. – Não, Caleb!
–Beatrice, sinto muito, você teve um aborto espontâneo. Infelizmente não pudemos fazer nada, quando você chegou aqui, já não havia batimento. – O outro médico diz. Tapo meus ouvidos e balanço a cabeça. Não quero ouvir. Caleb me abraça e eu desabo sobre ele enquanto meu corpo convulsiona com o meu choro.
–Vai ficar tudo bem maninha, eu estou aqui... – Ele fica repetindo e repetindo essas palavras e eu começo a sentir meu corpo pesar.
–Você precisa descansar Beatrice – diz o Dr. Wu. – Meu plantão começa em meia hora e eu estarei aqui quando você acordar. Então poderemos conversar. Agora, só descanse. – Olho para ele e o vejo apertar minha mão, mas eu não a sinto. Estou amortecida.
~~
Acordo com dor de cabeça. Tive um sonho horrível, que eu estava no hospital e perdia meu bebê. Meu pequeno que eu nem tive a oportunidade de ver ainda.
A luz forte que vem das janelas, quase me cegam. Pisco várias vezes. Anna deve ter vindo aqui e as abriu. Ou Tobias.
Tobias... Meu peito dói ao lembrar da foto. Ele me traiu com a Nita, transou com ela.
Quando minha visão se acostuma com a luz do sol, estremeço. Eu não estou em casa. Estou no maldito quarto de hospital.
Não, não, não, não meu Deus... Tem que ser um sonho, não, um pesadelo, horrível e eu vou acordar logo. É, é isso. Vou acordar.
Fecho meus olhos com força e solto um grito de frustração. Eu não acordo!
A porta se abre e a enfermeira me vê acordada. Se aproxima da cama e sorri. Quero mandar ela parar de sorrir.
–Eu trouxe seu remédio – diz ela, e me oferece dois copinhos plásticos. — Daqui a pouco vou trazer um pouco de sopa também. — Balanço a cabeça.
–Não quero nada.
–Por favor, tome o remédio, vai fazer bem a você.
–Não! – Grito. – Não quero nada, não quero ninguém, vá embora!! – Grito ainda mais alto e começo a tirar o soro preso ao meu braço.
A enfermeira aperta o botão ao lado da cama e tenta segurar meus braços, mas eu já arranquei a agulha. Espirra sangue no lençol e no chão, mas não sinto dor, não sinto nada. Estou com muita raiva, anestesiada.
A porta se abre de novo e dois enfermeiros entram. Um homem e uma mulher. Eles seguram meus braços, cada um de um lado do meu corpo. Enquanto a enfermeira que já estava comigo prepara uma injeção. Ela aplica no meu braço enquanto eu continuo me debatendo e gritando para me soltarem.
E eu apago de novo.
~~
Na segunda vez que eu acordo, estou me sentindo pesada. O soro voltou para minha veia e o meu braço está roxo, por causa da maneira que eu puxei o soro para tirar.
Meus olhos estão coçando e pinicam. Como se tivessem areia dentro.
Ao virar meu rosto para o lado da janela, vejo Caleb sentado, com as mãos no rosto e os cotovelos apoiado nos joelhos. Ele está com a mesma roupa da festa.
Me mexo e ele levanta a cabeça e dá um salto da cadeira quando me vê acordada.
–Tris! – Me olha aflito. – Calma, por favor, fique calma, eu estou aqui. – Suas palavras fazem algo dentro de mim se apertar, mas eu não choro, não consigo.
Assinto para ele ver que eu estou calma e ele relaxa um pouco.
–Preciso chamar o Dr. Wu – Caleb dá a volta cama e aperta a campainha. – Ele ainda está aqui. Ficou para conversar com você quando você acordasse. — Você dormir bastante dessa vez, quase um dia e meio. Eu estava preocupado.
Não digo nada.
A porta se abre e a enfermeira entra. Ela me olha desconfiada e eu me lembro que gritei com ela. Eu deveria sentir vergonha ou remorso, mas não sinto nada. Ela não diz nada e sai novamente. Caleb se senta ao meu lado na cama.
–Estão todos aqui. Christina está doida lá fora, quer dizer, está mais doida lá fora – ele sorri. – Ela quer te ver. Will, Zeke e Shauna também. Marlene e Uriah também vieram um pouco, mas já foram embora. Susan foi tomar um banho e já volta.
Ele não menciona o Tobias. Eu não pergunto, não quero saber. Na verdade eu gostaria de não ver ninguém.
A porta se abre e o Dr. Wu entra junto com a enfermeira desconfiada. Ele me olha e para ao meu lado.
–Se sente melhor Beatrice? – Pergunta ele. Apenas assinto e ele prossegue: — Bem, não há uma maneira agradável de falar de sobre isso, sei que você ainda está muito abalada, mas eu preciso conversar com você sobre o que aconteceu e também te dar algumas orientações. – ele faz uma pausa e eu assinto de novo. – Não se culpe Beatrice. Não havia nada que você pudesse fazer. Ninguém podia. Seu aborto foi provocado por causa de uma má formação do feto. Infelizmente isso acontece com bastante frequência, no início da gestação. É uma forma do seu corpo se manifestar quando o feto não se desenvolve como esperado – ele faz outra pausa esperando eu absorver tudo e volta a falar. – Você deve estar sentido dores e essa dor se deve principalmente à curetagem que nós fizemos em você. Foi necessário e você terá que fazer repouso absoluto para que seu corpo se recupere. Você já esta de alta, já pode ir para casa. Tenha uma alimentação leve e tome a medicação que eu receitei. Em um mês, eu gostaria que você voltasse ao meu consultório para que façamos uma avaliação.
Desvio meu olhar e encaro minhas mãos no meu colo. Dr. Wu suspira e se senta ao meu lado. Um gesto menos profissional e mais amigável nesse momento. Ele pega minha mão e a aperta.
–Eu sinto muito – diz e se levanta. Ouço seus passos e os da enfermeira, mas não levanto a cabeça para vê-los sair.
Caleb me abraça de lado e eu respiro fundo.
–Vai ficar tudo bem irmãzinha – ele diz e eu quero pedir que ele saia, mas não tenho forças para isso. – Quer que eu deixe a Christina entrar para te ajudar a se vestir? Eu trouxe roupas para você. Anna separou. Ela está muito ansiosa pra te ver.
Casa! Eu não quero ir para casa. Não quero vê-lo.
Balanço a cabeça várias vezes e umedeço os lábios antes de falar.
–Não – minha voz sai baixa e rouca, muito rouca. – Eu não quero ver ninguém, e não quero ajuda – como se pudesse ouvir meus pensamentos, a porta se abre e a enfermeira entra. – Ela pode me ajudar. – Empurro o lençol e tento me levantar. Caleb não discute. Me ajuda a levantar e beija minha cabeça.
–Vou te esperar lá fora... – ele dá dois passos e para. Se vira e me olha como se tentasse ser cauteloso. – Você pode ir para casa. Sophia precisa de você. E ele não estará lá.
Sophia. Minha pequena. Deve estar se perguntando onde eu estou.
O que será que ele quis dizer com “Ele não estará lá”? Será que Tobias resolveu assumir seu caso e saiu de casa?
Não. Não quero pensar nisso. Não quero pensar nele.
A enfermeira me ajuda a vestir a roupa e até trança meu cabelo.
–Me desculpe – digo. – Não queria ter te tratado mal naquela hora.
–Tudo bem, eu entendo – responde sorrindo amavelmente. – Sei que nesse momento você não quer ouvir isso, mas você vai conseguir, vai passar...
Não digo nada. Eu não quero mesmo ouvir isso.
Por que quando estamos nos sentindo uma merda, as pessoas nos dizem que vai passar? Nos dizem para ter força?
~~
Na saída do hospital, vejo Susan. Todos foram embora, até Christina. Susan ficou e me levou para casa, junto com Caleb.
Ao entrar em casa me desespero. Sophia não esta. Mas aí, Anna vem em minha direção e me abraça muito forte, um abraço de puro conforto, de paz. Ela me diz que Christina levou a Sophia para ficar com ela por algumas horas, para que eu pudesse descansar.
Subo para o meu quarto, mas sinto uma onda de tristeza quando entro. Tantas lembranças, tantos sentimentos que é impossível permanecer.
Então, vou ao único lugar que eu posso me sentir em paz. Entro no quarto da Sophia e deito na cama das princesas. Rodeada de ursinhos. Sim, aqui é o meu céu.
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