Em busca de uma nova vida - 2ª Temporada
20 Entregando os pontos...
Notas iniciais
Desde o dia que Marcus esteve na agência, eu não tive mais notícias dele.
Nós o informamos sobre o andamento do nosso trabalho através do boy da agência e ele não devolveu mais nenhum dos nossos envelopes. Não ligou para reclamar. E Mia foi mantida.
Fizemos nossa mudança para São Francisco, ou melhor, eu e Anna fizemos com a ajuda da Chris e do Will.
Tobias viajou para Nova Iorque com o Marcus naquela semana, e voltou somente no domingo à tarde. Eu não o questionei e ele também não se justificou.
Sei que exigir a permanência da Mia — e automaticamente excluir Nita da campanha — foi um pouco imaturo. Ou muito. Eu praticamente anunciei que não gosto dela e declarei meu ciúme. Tobias sabe disso, mas desde a nossa discussão no banheiro, há 20 dias, ele não falou mais de trabalho comigo, e eu tampouco. Na verdade, nós quase não nos vemos.
Quase tudo a nossa volta está bem. O trabalho na agência está cada vez melhor. Consegui matricular a Sophia em uma escolinha muito boa que fica perto de casa, e assim eu posso busca-la durante meu almoço e leva-la para casa quando for almoçar. Anna está feliz como nunca, agora que eu estou ‘comendo direito’ — como ela diz. Minha saúde melhorou, minha pressão normalizou, mas... Meu coração esta triste
Eu não sei em que ponto tudo desmoronou e não tenho a mínima ideia de como resolver tudo isso. Nós já passamos por muita coisa desde que nos conhecemos, mas agora sinto que está diferente. Antes, ele tentaria de tudo para se acertar comigo. Eu jogaria suas roupas pela janela ou bateria nele. Nós teríamos a briga mais barulhenta possível, e no fim, ele acabaria rindo e eu também. Mas agora... Ele não se importa que estejamos distantes, e o pior é que eu estou deixando de me importar também. Estou me acostumando com a ausência dele.
Ele também continua chegando tarde em casa, todos os dias. Às vezes ele cheira a bebida e eu sei que ele esteve com o pai dele. Pensar nisso me deixa mal, pois não sei o que é pior. Ele estar em algum bar bebendo, ou na casa do Marcus — perto daquela garota. Isso e o fato de ele não me tocar à quase um mês.
Eu também não tive mais notícias da Evelyn. Ela não me ligou ou mandou mensagem. Pelo visto, ela resolveu dar um tempo e não pressionar. Achei melhor assim, as coisas já estão difíceis o suficiente.
A comemoração da Essence é no próximo fim de semana, será no sábado. Hoje é terça e apesar de estar tudo muito adiantado, eu estou preocupada. Temo que o silêncio do Marcus seja um mau presságio.
Marlene e Uriah chegarão na quinta, isso é bom. Eles adiaram um pouco mais a viagem para poder estar aqui para a festa da Essence. Christina, Marlene, Shauna e eu, planejamos um domingo das garotas. Shopping foi unânime. Não por ser o nosso lugar preferido, mas por que era onde nós costumávamos nos reunir, desde o ensino médio.
**
–Esse tem um ótimo caimento em você – diz a atendente da terceira loja que eu entro.
Eu estou à procura de um vestido para usar no dia do evento e até agora está sendo uma batalha perdida atrás da outra. Tudo que eu gosto, ou é curto demais, ou fica apertado na minha barriga. Não que eu esteja com a gravidez muito aparente, mas estou um pouco inchada. O suficiente para não entrar em nada.
–Tris, eu concordo com ela – disse Christina. – Esse é longo, elegante... – Hesita, me analisando. – Eu adorei a cor e ele não marca sua barriga – ela sorri juntando as mãos. – Além disso, você precisa abusar do poder desses seios de grávida, amiga. – Reviro meus olhos para ela. Acho que o dia que a Christina ficar grávida ela vai viver usando decote, é o sonho dela.
Christina ignora minha cara feia e segura meus ombros, me virando para ficar de frente para o grande espelho da loja. Ela tem razão, o vestido é muito bonito mesmo. É vermelho carmesim e longo, de seda. A parte de cima é justa e o decote é em forma de coração. Acinturado com uma faixa grossa logo abaixo do busto e a saia é larga e toda frisada até o pé. Ele não marca minha barriga. –Tem certeza que não é demais Chris? – pergunto enquanto aliso a saia e me viro de lado para olhar a parte de trás.
–Claro que não Tris! Você e a Susan serão destaques nesse evento tanto quanto aquele velho idiota, ops, seu sogro querido — foi mal. – Ela sorri divertida e dá um tapinha na boca. Eu rio. – É sério, vocês duas precisam estar lindas, deslumbrantes. A Mia também.
–Ok Chris – dou risada novamente. A vendedora volta com uma caixa de sapatos e se abaixa em minha frente.
–Experimente esses sapatos – ela diz. – São perfeitos para usar com esse vestido – ela abre a caixa com um olhar confiante e eu vejo uma sandália nude, meia pata com tiras brilhantes. Delicada e muito bonita. Eu amei a sandália.
–Bom, parece que você já tem o seu look de arrasar, Prior – brinca Christina me dando um empurrão de leve com o ombro. Eu sorrio e confirmo com a cabeça, cerrando os olhos para a sua brincadeira com meu sobrenome de solteira. Uma brincadeira antiga.
**
–Anna – grito da entrada. Depois de voltar das compras com a Christina, decidi voltar para casa. Hoje foi o último que fizemos acertos na campanha e Susan insistiu para que eu não fosse trabalhar. Depois do dia terrível que tive na semana passada — quando vomitei bastante e precisei ir ao hospital — ela esta mais cuidadosa do que nunca comigo. Embora o incidente não tenha tido nada a ver com o trabalho, mas com o Tobias, que chegou muito tarde na noite anterior, e tinha cheiro de bebida e perfume barato. Não sei por quanto tempo mais vou suportar isso, mas sei que faço pelo bem da Sophia. É desgastante, mas é o melhor por enquanto.
Ninguém sabe sobre isso, no entanto. Acho que tanto a Chris como a Susan desconfiam que algo a mais tem acontecido, mas eu não quis contar sobre meus maiores problemas com o Tobias, não quero ter que falar sobre isso. Elas só sabem que as coisas estão estranhas entre nós.
–Menina – diz Anna entrando na sala, limpando as mãos em um pano. – Chegou cedo – ela sorri.
–Susan... – Dou de ombros, explicando. – Ela insiste em me tratar como um bebê.
–Isso é por que você esta carregando um – Anna se senta no braço do sofá e me dá um sorriso amoroso. – Está com fome?
–Não muito Anna. Estou enjoada – ela franze o cenho e me encara. – Mas eu vou comer um pouco, só vou tomar um banho antes. – Anna sorri e levanta.
–Então eu vou preparar algo leve para você.
–Obrigada Anna – digo enquanto subo as escadas.
Entro no meu quarto segundos depois e começo a tirar a roupa para tomar um banho. São Francisco é mais quente. O ar parece mais pesado pela poluição.
Fico só de lingerie e assim que entro no banheiro, abro a porta do espelho, a procura da minha vitamina. A princípio eu não a encontro e por isso preciso tirar alguns frascos da frente.
É quando algo cai dentro da pia e faz um barulho de metal. Abaixo o meu olhar e meu coração afunda no peito. É a aliança do Tobias. Pego o anel entre meus dedos trêmulos e leio a inscrição da parte de dentro.
“Desde aquele dia”.
Meus olhos ficam nublados e eu caio sentada sobre minhas pernas, no chão em frente a pia.
Não entendo o porquê ele esta agindo assim. Não entendo o porquê ele não fala comigo... E agora vejo que ele tirou a aliança. Por quê?
Sinto medo. Será que eu fiz tudo errado? Me casar... Tudo isso.
Olho em volta, me encostando no degrau da hidromassagem, abraçando meus joelhos e apoiando o rosto entre eles. Deixo as lágrimas rolarem soltas. Eu preciso...
“Às vezes, você precisa chorar, deixar ir...” – a doce voz da minha mãe sussurra em minha cabeça. Ela costumava me dizer isso quando eu a via chorando. Em uma das poucas vezes em que a vi desanimar, perder as esperanças de se curar do câncer. E ela dizia: “O choro não é ruim filha. Ele ajuda a esvaziar o peito, ele liberta e traz clareza aos pensamentos. E acalma sua alma...”.
Choro ainda mais. Lembrar da sua força... Tudo o que eu queria era que ela pudesse me aconselhar agora, me abraçar.
Deito no chão depois de um tempo e acho que adormeço, pois acordo com o som de batidas na porta.
–Tris, querida. Está tudo bem? – Anna pergunta. Levanto minha cabeça e ainda com a aliança do Tobias na mão, eu me endireito sentada no chão.
–Estou bem Anna – pigarreio para limpar a garganta. Estou rouca de tanto chorar. – Eu cochilei aqui na banheira, já vou sair.
–Tudo bem menina. Mas tenha cuidado, você pode se afogar se dormir assim.
–Não se preocupe Anna, já vou descer – respondo e me levanto. Olho no espelho e vejo meu rosto inchado.
Coloco a aliança em cima da pia. Quero que ele veja que eu a vi.
Termino de tirar minha roupa e entro no chuveiro rapidamente. Alguns minutos depois eu saio do banho e visto um vestido soltinho. Desço as escadas e vejo que Anna saiu. Ela deixou um bilhete em cima da mesa, ao lado de um prato de comida.
“Menina, fui até a mercearia, pegar frutas frescas. Volto logo. Te achei muito abatida hoje, por favor, coma e descanse”.
Volto a ficar emotiva. Anna cuida de mim. Faz muito mais do que é paga para fazer, e é como uma mãe.
Olhando de novo para o prato que ela deixou, me sento e começo a comer. Não estou mesmo com fome, me sinto vazia, deprimida, perdida. Mas mesmo assim eu como toda a comida e lavo meu prato. Em seguida subo para o meu quarto e me deito. Estou tão cansada psicologicamente que adormeço rapidamente.
Acordo assustada com o toque do meu celular. Esta dentro da minha bolsa, mas ainda assim é alto. Me levanto e ando até ele. É Susan que esta ligando, mas quando vou atender, ele para de tocar. Em seguida recebo um sms.
“A propaganda já está na tv! Acabei de ver. Ficou incrível :D”
Sorrio. Apesar de toda a dor de cabeça, a campanha da Essence trará muitos bons frutos a todos os envolvidos.
Vejo no visor do meu celular que já esta quase na hora de buscar a Sophia. Resolvo me recompor e ir buscar minha pequena, ela sim me anima e me ajuda a seguir em frente.
**
A semana passou voando e hoje já é sábado. Dia do evento.
Passei horas no salão com as meninas. Marlene chegou ontem e está ficando na casa da Chris. Fizemos as unhas, limpeza de pele, hidratação... Parecia véspera de casamento. Christina insistiu. E foi bom, pois me distraí com minhas amigas e fiquei um pouco longe do Tobias que ia se arrumar em casa. Desde que eu descobri que ele não está usando a aliança eu reduzi meu vocabulário com ele ainda mais. Ele não disse nada também.
–Tris, você vai se vestir aqui? – perguntou Shauna, enquanto alisava sua enorme barriga de quase 7 meses.
–Não Shau. Eu vou me vestir em casa. Quero ver a Sophia – faço uma pausa – e tenho que chegar lá com o Tobias.
–Vocês estão bem? – Eu não disse a Shauna sobre os últimos acontecimentos, então apenas sorri e acenei com a cabeça.
Mike — meu cabeleireiro e amigo — esta radiante com tantas meninas para arrumar. Sua equipe foi nossa o dia todo. Nós fechamos o salão praticamente.
Em meus cabelos ele fez cachos e puxou para o lado esquerdo. Prendendo abaixo da minha orelha. Puxando minha franja para o mesmo lado. Meu cabelo, que agora está bem comprido e loiro natural, caiu em ondas suaves até minha cintura.
Jeena fez uma maquiagem suave nos meus olhos e passou um brilho clarinho nos meus lábios. Segundo ela, meus olhos merecem maior destaque. Eu não contestei, achei que ficou bom.
Chegando em casa, subi direto para o meu quarto e não vi Tobias, mas escutei o som do chuveiro. Temos meia hora para sair.
Entro no closet e pego meu vestido que está pendurado, para não amassar. Resolvo usar uma lingerie preta. Calcinha e sutiã sem alças. Minha barriga esta um pouco saliente e eu a acaricio sorrindo em frente ao espelho.
Entro em meu vestido e começo a me retorcer para fechar o zíper. Já estou suando e quase desistindo quando sinto duas mãos frias nas minhas costas. Olho para o espelho e meu olhar trava com o de Tobias. Ele está sério. Cabelo molhado e despenteado, fez a barba. E está só de toalha. Minha respiração trava e meu coração aperta. A temperatura das suas mãos traz um formigamento familiar pro meu corpo e eu estremeço. Se ele percebe, não diz nada. Apenas desvia o olhar do meu e sobe meu zíper. Em seguida ele se abaixa e pega minha sandália, colocando uma de cada vez em meu pé e fechando as tiras, sem dizer uma palavra. Ao terminar ele solta um suspiro, se endireita e se afasta para pegar sua própria roupa que está pendurada em outro cabide próximo.
Respiro fundo e aliso o tecido do vestido. Pisco várias vezes para afastar as lágrimas que estavam se formando. Saio do closet e termino de me arrumar no banheiro. Uso meu perfume preferido — que por milagre, não me enjoa — e saio para me despedir da Sophia.
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