Em busca de uma nova vida - 2ª Temporada
34 Enfrentando o passado - parte 2
Notas iniciais
Depois que Lucy se afastou para chamar Thomas, eu me sentei no sofá de couro branco. Me sentindo muito nervoso e tentando empurrar para longe o medo de me arrepender. Por tudo o que eu sei, ele pode me odiar, não?
Alguns minutos depois, uma sombra parou na minha frente e eu levantei os olhos para ver o mesmo garoto que eu vi abraçar Tris na entrada da casa mais cedo. Meu irmão, parado ali, me observando. Eu estava tão concentrado nos meus pensamentos que nem ouvi ele se aproximar.
Limpei a garganta e me levantei.
—Oi Thomas.
—Você é o Tobias né? – Ele perguntou. Estreitando os olhos e me analisando, assim como Lucy fez.
—Sou sim – respondi, estendendo a mão para ele.Thomas olhou para minha mão e depois para o meu rosto.
Ignorando minha mão, ele disse:
—Você veio aqui para me buscar? Para ver a mamãe?
Fiquei surpreso. Tris me disse várias vezes que o garoto queria me conhecer, mas naquele momento ele parecia aflito dando a mínima importância por eu estar ali.
Talvez isso seja um erro.
Não, eu estou aqui para tentar conhecê-lo!
—Er... Eu estou indo até o hospital – menti. – Se você quiser, eu posso levar você comigo. – Os olhos dele se arregalaram por um segundo e em seguida eu vi alívio neles.
—Beatrice disse que eu não podia ver a mamãe ainda – Thomas torceu o nariz. – Disse que a mamãe estava descansando e eu só poderia vê-la mais tarde. – Ele olhou em volta. – Ela já voltou?
—Não, a Beatrice teve que ir para casa – eu disse. – Você prefere que eu venha te buscar depois? Junto com ela?
—Não. Eu quero ir agora. – Ele ajeitou a alça da mochila em cima do ombro e ficou esperando para sair. Olhei para Lucy e ela me olhou de volta, com um olhar de reprovação.
—Thomas, querido – ela chamou. – Eu preciso falar com a sua mãe antes. Ela me avisou sobre a Beatrice vir buscá-lo depois, mas não disse nada sobre seu irmão. Eu preciso saber se ela concorda, mas ela não está atendendo o celular, talvez esteja dormindo.
—Tia Lucy, ele é o meu irmão, o Tobias – Thomas apontou o dedo para mim, mas estava olhando para ela enquanto falava. – Eu o conheço, minha mãe me mostrou muitas fotos dele. Eu quero ir com ele!
—Eu sei querido, mas...
—Você poderia vir conosco Lucy? – Sugeri. – Eu a trago para casa depois. Assim, você estará perto do Thomas, e pode falar com a minha mãe também. – Lucy pareceu incomodada com a situação, mas por fim, acabou assentindo.
—Vou pegar minha bolsa – ela disse. Quando se afastou, vi outro garoto, da idade do Thomas, parado no pé das escadas. Ele tem cabelos loiros iguais os de Lucy, imagino ser filho dela.
Quando saímos da casa, Lucy resolveu ir no carro dela com o outro garoto, mas Thomas quis ir no meu carro, comigo.
Ele não disse nada o caminho todo. E isso foi um pouco estranho. Ao mesmo tempo que eu não queria que ele me fizesse perguntas que eu não sabia como responder, eu também me sentia desconfortável, esperando que ele me fizesse perguntas e quisesse saber tudo sobre mim. Mas ao invés disso, ele agia como se não se importasse. Ou como se ele já me conhecesse.
No entanto, eu pude ver o quanto ele estava preocupado com ela. E eu quase vi um garoto parecido com ele, com quase a mesma idade que ele, chorando por uma mãe que saiu pela porta e não voltou mais.
Quando chegamos ao hospital, passar pela recepção foi a parte fácil. As enfermeiras entenderam a situação e mesmo não sendo permitido a entrada de crianças, elas acabaram deixando Thomas entrar.
Eu estava exausto, com fome e tremendo por causa do medo que estava me corroendo. Eu finalmente a enfrentaria. Anos de mágoa e eu ficaria cara a cara com ela de novo.
Lucy se sentou na recepção sem dizer uma palavra, e observou, enquanto Thomas e eu acompanhávamos a enfermeira até Evelyn.
—Aqui está – disse a enfermeira, parando em frente a uma porta fechada. Ela olhou entre mim e Thomas. – Por favor, não a deixe nervosa e não demorem. Ela precisa descansar.
Eu assenti e Thomas apenas abriu a porta e entrou. Sem esperar a enfermeira se afastar.
Eu, por outro lado, dei dois passos para dentro do quarto e fiquei imóvel assim que ouvi o garoto dizer “mamãe!” em um tom aflito. Apertei os olhos com força, sentindo uma onda enorme de lembranças me atingirem.
—Thomas! – A voz dela veio fraca e confusa, em seguida eu a ouvi fungar. – Filho, como você chegou aqui? Achei que a Beatrice só viria mais tarde. – Da onde eu estava, eu só podia ver suas pernas. Uma delas estava erguida por travesseiros e estava com gesso. Havia uma divisória me impedindo de ver seu rosto e Thomas estava atrás dela também.
—Eu não vim com ela mamãe – ele disse, depois colocou o rosto para fora da divisória. Me olhando confuso. – Você não vai vir aqui?
Engoli duas vezes.
Dei mais alguns passos e parei no pé da cama. Evelyn arregalou os olhos quando me viu, mexendo a boca, procurando o que dizer. Ela olhou para Thomas e para mim, depois para ele de novo.
Seus olhos se encheram de lágrimas e ela soluçou várias vezes. O monitor cardíaco acelerou e Thomas segurou sua mão.
—Mamãe? Você está bem? Está com dor? – Ela não respondeu e ele pareceu se desesperar.
Evelyn olhou para ele de novo e acho que nesse momento ela se deu conta que o estava assustando. Em seguida, ela respirou fundo algumas vezes, deixou as lágrimas escorrerem livres e acariciou o rosto dele, do mesmo jeito que costumava fazer comigo.
—Eu estou bem, querido – ela sorriu para ele.
—Sua perna dói? – Ele perguntou. – Quer que eu peça mais remédios à enfermeira?
—Não, não Thomas – ela riu entre as lágrimas. – Eu estou bem filho. – Em seguida, ela olha para mim e sorriu. – Você veio com quem? – Thomas olhou para mim.
—Tobias foi me buscar na casa do Julian. A tia Lucy e ele também vieram, estão lá fora – Evelyn me olhou, surpresa, depois sorriu para Thomas.
—Você faz uma coisa para mim meu amor? – Thomas balançou a cabeça, sem tirar os olhos dela. – Eu preciso falar com o Tobias por alguns minutos. Você pode ficar com a tia Lucy e o Julian enquanto isso? – Thomas virou para mim, depois revirou os olhos.
—Eu não posso ouvir por quê? – Perguntou. Eu quase ri. Ele é muito esperto.
—Thomas, por favor? – Ela pediu. Thomas bufou e se afastou da cama, me dando um olhar contrariado antes de sair e fechar a porta atrás dele.
E de repente o ar ficou pesado.
Cruzei os braços na altura do peito, me sentindo na defensiva de novo. Ver os dois interagindo foi mais tranquilo. Estar sozinho com ela me deixou inquieto de novo.
—Você está mesmo aqui... – ela disse, sorrindo. Tive a impressão que ela disse isso mais para si mesma, do que para mim.
—Eu estou – respondi. Minha voz saiu mais rouca do que o normal.
—Beatrice está lá fora também?
—Não. – Ela assentiu uma vez.
—Obrigada por trazê-lo... E por vir, também.
Silêncio se estendeu de novo.
—Olha Tobias...
—Você está se sentindo bem? – Perguntei, a interrompendo. Por alguma razão, eu não queria entrar no assunto e relembrar as feridas. Não ainda. Embora seja por isso que eu resolvi vir aqui, em primeiro lugar.
Ela me olhou por um instante, depois desviou o olhar para suas mãos em seu colo.
—Eu estou bem. Mesmo. Apesar da dor na perna e sentir minha cabeça pesada, eu estou bem... Ainda mais agora — disse ela, levantando os olhos para mim de novo.
—Que bom... E quanto tempo você ainda ficará aqui?
—Mais alguns dias, eu acho.
—Bom, eu queria levar o Thomas para a minha casa, se você não se importar – eu disse. Seus olhos ficaram cheios de lágrimas de novo.
—Você quer mesmo isso? – Ela parecia feliz, mas não estava certa do que eu disse. – Quero dizer, esse é o meu maior sonho desde que eu saí de casa... E desde que eu tive o Thomas... Mas eu não quero que você escolha fazer isso por nenhum outro motivo que não seja por que você quer isso.
Eu ri.
—E por que você acha que eu não quero isso? Se eu estou aqui propondo.
—Beatrice me pediu a mesma coisa essa manhã – ela respondeu, me olhando nos olhos. – Eu disse a ela que eu não queria forçar as coisas com você. E ela disse que tentaria te convencer a aceitar o Thomas na sua casa. Agora você está aqui, me pedindo para levar ele com você.
Tris faria isso, eu tenho certeza. Tão certo como ela é um osso duro de roer.
Ela vem me empurrando desde que eu a conheci.
—Eu não cheguei a conversar com a Tris sobre isso. Estou propondo isso por que é o que eu quero. – Evelyn sorriu. E dessa vez foi um sorriso grande e verdadeiro.
—Eu fico muito feliz filho. – De repente, eu endureci. Ouvi-la me chamar de filho de novo foi um passo um pouco maior do que eu estava esperando. E ela percebeu. – Desculpe.
—Eu vou chamar o Thomas de novo. – Me virei para sair, mas ela me chamou quando eu estava saindo da sua vista.
—Tobias, espere! – Parei e esperei ela continuar. – Eu sinto muito, eu preciso que você saiba disso – ela fungou. – Eu nunca quis deixar você. Eu só... Estava cansada de tudo, as brigas, as traições, as agressões... Era o fim da linha para mim, mas eu não pude levar você comigo, eu não tinha nada para te oferecer, sua vida não seria melhor se eu tivesse te levado comigo naquele momento.
E ali estava, de novo, a mesma explicação para tudo o que eu vivi e por todo tempo que eu esperei.
Eu queria poder me virar e dizer que eu a entendia e que eu a perdoava, mas eu não poderia esquecer tudo da noite pro dia. Eu precisava organizar meus sentimentos antes.
—Também não havia nada de bom ao lado dele, e mesmo assim você me deixou lá – respondi. E sem me virar, suspirei e acrescentei: – Eu não acho que seja o melhor momento para isso. E eu também não sei se tem algo que você possa dizer, que vá me fazer mudar de ideia. Por agora, eu estou indo conhecer o meu irmão. Tris tem razão, ele não tem culpa de nada – me virei para olhar para ela, que como eu já sabia, estava chorando. – Eu ainda não posso dizer que te perdoo.
Saí do quarto e quis esmurrar as paredes. Toda raiva que eu acumulei durante minha vida, estava subindo e subindo. Me consumindo.
Quando cheguei à sala de espera, eu estava um pouco mais calmo. E determinado.
Thomas estava sentado, olhando pela janela, em silêncio.
Ele é exatamente como eu era na idade dele. Um garoto que precisava de compreensão e precisava ser amado. Eu posso não ter tido isso, mas eu daria isso a ele. Eu seria um bom irmão para ele. Não seria justo ele pagar por erros dos outros.
Andei até ele e parei ao seu lado. Ele levantou o olhar para mim.
—Ei, vá ficar mais um pouco com a mamãe. Eu vou te esperar aqui – eu disse. Ele franziu as sobrancelhas e se levantou. Mas antes que ele se afastasse, eu avisei: — Depois você vai para casa comigo.
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