Em busca de mim

11 Rainha da gangue


Notas iniciais
Oie gente, espero que gostem desse capítulo mais 'romantico'?! Afinal, amar é... ajudar nos trabalhos escolares. Besos;)

...

Voltamos para a casa. Acho que alguns ainda ficaram pelo Pub, mas quando Four abriu a porta a sala estava cheia. Um cheiro de lenha queimando misturado a de erva forte invadiu minhas narinas.

"Olha só, casalzinho voltou". Moly estava bêbada com certeza. Mas ela passou um cigarro para Lauren. Quando olhei para Uriah, ele segurava uma coisa comprida com uma mangueira que me lembrou a índia e a lâmpada do gênio do Aladim. Mas algo me disse que Aladim não tinha nada a ver com aquilo. Shauna tinha algo parecido na mão, mas o 'equipamento' dela, por falta de palavra melhor, era uma carinha feliz. Ela estava... fumando e bebendo. Todos estavam. Ah meu Deus, drogas? Fiquei preocupada e assustada. Four usava isso? Por que eu não usava não. Degluti. Procurei Christina ao redor mas não achei, nem Will.

"Canabis Tris?". Zeke ofereceu. Eu não queria olhar para Four. Não queria descobrir que ele gosta dessas coisas, mas eu devia ter imaginado não é? Eles são os loucos do campus. Acho que eu estava tão deslumbrada com essa coisa de irmandade e fraternidade que nunca os notei fazendo isso. Foi preciso estarem todos fazendo juntos para que eu visse? Mas uma coisa é certa, as Zetas não possuem drogas em casa. Então talvez seja apenas esporádico certo?

Acho que Four percebeu que eu não estava a vontade.

"Vamos subir Tris".

"Sabe Four, você não é mais o mesmo. Oouuuu, você está apenas escondendo seu lado mais louco para a caretinha? Nós sabemos quem você é Four e mais cedo ou mais tarde vai se cansar de ser o bonzinho". Lauren tinha que dar sua importante opinião. A verdade é que esse lado louco que ela falou de Four me deu medo só de pensar.

"Lauren, você andou chupando limão sem tequila ga-ro-ta? Porque você tá azeeeeda... ughh". Shauna fez cara de nojo para ela.

"Acho..." soluço "...que Tris..." soluço "...que azedou..." soluço "...a vida dela...". Soluço. As outras garotas começaram a rir junto com Moly quando ela falou isso. Os meninos estavam concentrados na Canabis. Subi com Four para o quarto. Ele não falou absolutamente nada lá embaixo. Quando entrou, trancou a porta. TranCOU A PORTA. Eu meio que me preocupei agora.

Engraçado como de uma hora para outra as coisas ficam estranhas. Four tirou a grade da lareira e pôs fogo nela. Em seguida tirou o casaco. Eu também tirei. A temperatura estava tão fria que apenas o aquecedor não estava dando conta.

Eu olhava para a lenha começando a queimar quando Four me abraçou por trás. Apesar de não estar cômoda com o que vi lá embaixo e o crescente medo dentro de mim, me sinto bem junto dele. Four me desarma com carinho. Agora que me dei conta que durante a noite toda Four não bebeu nada alcóolico, isso me tranquilizou um pouco, não sei porque.

"Por mais que eu queira entrar na sua cabecinha, ainda não tenho esse poder. O silêncio não me diz nada Tris, a não ser que tem alguma coisa errada. Você precisa me dizer o que é, senão isso não vai funcionar". Degluti. Tentei sair do abraço dele, mas ele não deixou.

"Bem que você disse... que a coisa lá embaixo ia ficar selvagem". Comecei.

"Mas eles tranquilos ainda, só quando ficarem bem altos que vão começar a fazer coisas sem sentido... como uivar, falar com duendes do gelo ou andar na neve pelado e congelar o pinto".

"Fooourrr". Ai que vergonha. Ele riu da minha reclamação. Coloquei a mão na cara e balancei a cabeça. Melhor reestabelecer a conversa.

"O que tem ali embaixo? Digo... só ma-conha?".

"No geral sim, mas Lauren e Zeke gostam de coisas mais pesadas".

"E você?". Ele ficou em silêncio por um tempo. Comecei a me preocupar, isso não era bom.

"Já fiz muito isso com eles Tris, mas deixei. Não gosto da ideia de perder o controle completo das minhas ações. Isso nunca aconteceu, mas aprendi que brincar com a minha vida não é tão divertido e que se eu continuasse a dar chance ao azar um dia ia acabar acontecendo o pior. O primeiro ano na faculdade foi difícil pra mim, eu já tinha problemas, então aqui consegui mais alguns logo de cara. Demorou um tempo para encontrar o meu caminho, mas nunca cruzei um limite perigoso. O que Lauren falou é verdade em parte, eu estava meio fora de controle por um tempo, mas não por causa de drogas. Não gosto de drogas se é o que quer saber, no fundo nunca gostei, acho que o que eu procurava era o desafio, mas como já disse, entendi que essa era uma coisa muito burra a se fazer. Não uso tem quase dois anos e não voltarei a usar. Nem maconha sequer. E Tris... Lauren não é tão íntima quanto aparenta ser. Se ela disser alguma coisa sobre mim que você não goste, venha me perguntar. Não tenho porque mentir Tris. Não estou escondendo nada de você nem vou esconder". Encostei a cabeça no peito dele completamente aliviada.

"Não gosto dessas coisas Four. Tenho medo delas. Isso destrói vidas".

"Eu sei. Mas você não precisa se preocupar comigo em relação a isso. E quanto a eles, Tori e eu já alertamos. É o máximo que podemos fazer além do exemplo. Ela também não curte isso. Não permitimos drogas nas casas. E se tiver que presenciar algo que não se sinta bem, você não é obrigada a participar de nada que não queira como a festa da garota molhada por exemplo".

"Sim. Sem vestidos brancos e biquínis molhados. Entendi".

"Isso mesmo". Ele disse. Ri.

Four me puxou para mais perto. Delicadamente afastou meu cabelo para o lado e fez um caminho de beijos no meu pescoço. Em seguida arrastou o nariz pelo meu ombro, pescoço e mordiscou minha orelha. Fiquei completamente arrepiada e... mole. Estava meio em transe... espere, ouvi... uivos? Meu coração acelerou quando percebi o quanto estava seduzida por Four, aproveitei a interrupção e me afastei discretamente. Mas não tive sucesso porque quando olhei para ele, tinha um leve sorriso no rosto e as mãos levantadas como se estivesse rendido.

"Está com fome?". Ele perguntou em seguida. Agradeci mentalmente por ele não deixar cair o silêncio entre nós.

"Uhum". Respondo. Preciso tomar cuidado com Four. Sei que ele não vai me forçar a nada, longe disso. Mas não forçar não significa que ele não vá estimular. Pelo que entendi o controle está em minhas mãos, se eu não quiser algo, EU terei que cortar. Tenho que ter em mente sempre uma coisa, ele não vai deixar de tentar.

Quando me virei, percebi que meus pensamentos estavam completamente corretos. Four tirou de algum lugar uma garrafa de champanhe, taças e uma bandeja com queijo, morangos, chocolates e biscoitos. Degluti. Ah meu Deus, e agora?

"Four... o que exatamente você estava pensando que iria acontecer aqui?". Perguntei. Eu estava ficando nervosa. Talvez... eu não conseguisse lidar isso... com ele.

"Não pensei em nada Tris...". Ele colocou a garrafa de champanhe de volta onde estava. Começou a falar calmamente.

"...Também não planejei nada, mas quando você me disse pela manhã que viria trouxe algumas coisas para nós. Eu sabia que a gente ia ficar sozinho e gostaria de passar com você um momento bom. As coisas não precisam de muito planejamento Tris, mas também não devem acontecer impulsivamente. Basta ter certeza do que quer fazer...".

"...Eu sei o que você quer no momento, e respeito isso, o que não significa que não tente criar intimidade com você. Não coloque tantas barreiras, apenas deixe acontecer naturalmente, certo? Precisa confiar em mim...". Ele se aproximou e pegou meu rosto entre as mãos.

"...Não sou seu irmão Tris, apesar de querer te proteger. Quero ser seu melhor amigo mas não principalmente isso. Sou em primeiro lugar seu namorado". Ok. Vi estrelinhas com o 'namorado' dito de forma segura e clara. Meu estômago deu voltas. No mais, entendi que ele estava tentando me dizer que não ia se comportar da maneira fraternal que um irmão ou um amigo se comporta e que queria fazer coisas de NAMORADO.

De certa forma ele está me explicando como as coisas funcionam na realidade. Uma coisa é racionalizar, pensar que deve acontecer de um jeito. Que é muito cedo para esse tipo de conversa. Que existem degraus obrigatórios a subir. Outra coisa é estar com um cara lindo e gentil, que te faz sentir coisas que não penso por vergonha e que quando ele te toca esquece todo o resto. Então percebe o quanto é difícil negar um desejo, mas que apesar de muito recente é repleto de carinho. Ele continuou a falar, só que meio incerto.

"...Não é pressão, só quero que você se sinta confortável comigo... e também... pensei que ia gostar. Só tentei ser... romântico". Ah meu Deus!!! Isso foi um toque de insegurança que vi nele? E meu coração se derreteu com a coisa do romântico. É claro que ele foi romântico, eu que não sei lidar bem com essa intimidade toda. Mas isso não significa que eu não queria, porque quero muito. TUDO. Sorri e o beijei. Eu nunca tive a iniciativa de beijar um garoto. Acho que isso surpreendeu até a ele. Não sei quanto tempo nos beijamos. É como se estivéssemos conversando e contando coisas um do outro, estávamos nos conhecendo só que através do beijo. Quando terminou, encostamos nossas testas.

"Desculpe Four. Sou nova nisso". Disse sussurrando.

"Eu nunca namorei também Tris".

"UMA apenas, você quer dizer não é? Era mais como várias ao mesmo tempo". Ele me olhou sério como se não tivesse gostado. Fingi que não vi.

"A-hh, então... estamos... na-mo-ran-do?". Perguntei envergonhada. Ele riu.

"EXCLUSIVAMENTE!!!". Emendei rapidamente e não foi bem uma pergunta. Ele riu mais.

"É. Porque? Você não quer?". Respondeu.

"Não estou reclamando". Rimos. Ele me beijou. Eu o beijei. Nos beijamos. Mais uivos. Então me dei conta...

"São os Capas". Four confirmou.

"Eh. Eu disse". Espiei pela janela e uma lanterna do lado de fora focou bem em uma bunda branca. Me virei e cobri os olhos.

"Ah meu Deus, eles estão pelados na neve. Tão tentando se matar?". Four me abraçou novamente. Gosto que ele gosta de me tocar porque me sinto da mesma forma.

"Não. Ficaram bem".

"Four, porque não abre aquela garrafa de champanhe agora?". Ele me olhou sorrindo. Depois me entregou uma taça de champanhe. Sentamos em um tapete aos pés da lareira. Ele colocou uma manta sobre nossas pernas e depois me abraçou. Ele estava me rodeando para perguntar alguma coisa...

"Tris, quando você disse que nunca namorou... você quer dizer também que é... virgem?". Ah meu Deus. Quando penso que já tinha passado o momento vergonha, vem coisa pior. Quase me engasguei. Degluti.

"Uhum". Foi apenas o que eu disse. Depois olhei para as unhas.

"Você... quer um conto de fadas?". Ele perguntou preocupado.

"Nããão". Respondi rápido demais.

"Porque eu não sou um príncipe Tris. Sou cheio de erros e defeitos. Não é só a minha pele que tem cicatrizes. Não sou perfeito. Pelo contrário, sou difícil e vou exigir de você em troca tudo que estou disposto a te dar. Mas o que eu tenho pra te dar é muito, tudo de mim. Tudo o que tenho de bom, mas também o de ruim. Diariamente eu luto com um lado negro Tris, e com você tão próximo, sei que vai respingar em você. Mas vou fazer o bom ser tão melhor, para que você não se assuste tanto com o ruim. Por favor, tenha paciência comigo". Toquei o rosto dele. Quando ele diz essas coisas, acaba comigo. Preciso me conter para não agarrá-lo bem forte e não soltar nunca mais.

"Não sei qual a sua definição de príncipe, mas para mim não tem nada a ver com o que você insinuou. E Príncipe ou não, eu quero você Four. Não tenho medo do difícil, na verdade eu gosto. Terei paciência com você, mas precisa me deixar entrar".

"Você já entrou Tris, entrou onde ninguém esteve antes". Ele me olhou nos olhos e nos beijamos apaixonadamente. Meu coração estava aquecido. Conversamos até ficar cansados. Ele nunca deixou de me tocar. Não lembro como adormeci, só sei que foi em seus braços. E essa foi a primeira vez que dormi com alguém.

...

Acordamos na parte da tarde, estava com uma claridade branco gelo. Não tive tempo para pensar em como seria aquele momento 'acordar' que geralmente é constrangedor porque ele me beijou carinhosamente no rosto, desejou bom dia 'princesa' e entregou uma xícara de café fumegante.

Depois de um tempo descemos de mãos dadas. Podia não ter começado com era uma vez, mas eu me sentia sim em um conto de fadas. Os outros olhavam para nós ainda se acostumando. Não posso julgá-los, considerando que eu também ainda não tinha me acostumado, então...

"Pensei que não iam descer nunca. Tá quase na hora que marcamos no laser shot". Zeke disse para nós. Ele parecia ansioso. Quando chegamos lá entendi porque.

"Tris, Zeke ganhou ano passado, não pode ganhar esse ano entendeu?". Four estava meio... competitivo. Balancei a cabeça concordando. Quem sou eu para questionar. Ele e Zeke eram os líderes dos grupos e começaram a escolher quem ficaria com quem. Eu fui a primeira escolhida, por Four é claro.

Quando entramos no lugar subterrâneo e completamente fechado demorei um pouco para me situar. Era cheio de labirintos escuros. O ambiente estava fracamente iluminado apenas com algumas luzes neon direcionadas que cortavam o espaço como laser. Nós tínhamos que eliminar os adversários é claro, mas também tínhamos que destruir a base deles. Haviam várias entradas para os labirintos, mas antes de emburacar nelas, precisamos discutir estratégias. Foi nos dado um colete, uma capacete e uma arma a laser. No meio do colete, nos ombros, nas costas e no capacete tem um alvo azul neon, porque nós somos do grupo azul. Quando o adversário acerta no alvo com a arma a laser a cor muda para vermelho e a pessoa é excluída.

"O negócio é se arrastar, é mais difícil para eles e mais fácil pra gente acertar do chão". Moly disse.

"Acho que não, pelo contrário. Ficamos mais vulnerável, no chão não temos muita agilidade". Essa foi Christina.

"E quantas vezes você já jogou isso, posso saber Christina?".

"Nenhuma, mas...".

"Ah, para com essa merda vocês duas. Estamos perdendo muito tempo. Vamos decidir logo onde será nossa base. Se eu perder essa porra de novo...". Uriah já estava irritado. Enquanto eles discutiam, eu olhava ao redor. As paredes eram altas, mas no fim eu vi um muro de pedras que ia do teto ao chão. Alguém chegou junto de mim. Muito junto. Sorri, era Four.

"O que é tão interessante?". Ele sussurrou.

"O que é aquilo?". Apontei para o muro. Four olhou pensativo.

"Parece um muro de escalada". Foi o que pensei.

"Podemos usar aquilo...". Saí andando. Four veio atrás.

"O que está pensando Tris?". Eu já estava tentando subir. Olhei para ele e falei sussurrando, porque o lugar era cheio de pontos de som. Eu ouvia a voz de Tori como se estivesse do meu lado e ela é do outro time.

"Se subirmos bem alto dá para ter uma visão estratégica". Four pareceu surpreso comigo.

"Certo, deixe que eu subo". Rolei os olhos.

"Então vamos os dois".

"Tobiassss".

"Beatrice quantas vezes você já subiu nisso?". Cheguei perto dele meio desafiadora e disse.

"Há sempre uma primeira vez".

"Tá bom, tá bom, então vamos colocar o cinto de proteção, espere". Ele me amarrou e verificou várias vezes. Ele fica tão bonito quando está concentrado.

"Vou explicar como faz, observe...".

"Você põe o pé direito o mais alto que puder, porque você é destra então consequentemente tem mais força e apoio desse lado. Depois você sobe o esquerdo, mas nunca acima do direito, sempre um pouco abaixo. Entendeu?". Four desceu. Comecei a subir da maneira que ensinou, mas ele estava praticamente encostado a mim. Sorri. Ele era tão protetor. Não tenho do que reclamar.

Isso surpreendentemente cansa muito. Quando estava quase acima do nível das paredes do labirinto, meu pé escorregou. Rapidamente Four me segurou. Pensei que ele fosse brigar comigo, mas pelo contrário, me incentivou a ir.

"Fique calma, é assim mesmo. Está indo muito bem".

"Acho que aqui já está bom Tris". Ele disse depois de um tempo. Diferente de lá em baixo, aqui em cima estava ficando muito frio.

"Ainda não vejo nada, só mais um pouco". Ele resmungou para mim. Eu ri.

"Vamos Four, só mais um pouquinho".

"Se você escorregar vai estar em queda livre e gritar, apesar dos cintos. Vai alertar todo mundo".

"Ali". Apontei a base do outro grupo para ele. Ainda vimos onde estão aglomerados. Duas fileiras do labirinto estavam sem ninguém. Four me olhou com cara de quem não tinha como me criticar e sorriu.

"Venha, se agarre em mim".

"Hum?".

"Se agarre em mim". Tudo bem, mas eu não entendi bem como ele queria que eu fizesse aquilo.

"A posição da moto Tris, a do mata toma. A diferença é que estou de pé. Me abrace com os braços e as pernas e não grite". Quando estava me abraçando nele, me beijou e sussurrou entre meus lábios mais uma vez.

"não grite". Ok, apenas senti que ele me segurava pela bunda.

Ele é maluco, e eu também por simplesmente fazer como mandou. Mas foi incrível. Four simplesmente saltou. Achei que íamos bater no chão ou na parede e nos matar, mas a corda acabou antes do chão e ele amparou a batida no muro com os pês sempre que chegamos perto dele. Quando pisei no chão ele me agarrou para me estabilizar porque eu estava tremendo.

"Seu doido". Sussurrei rindo. Ele riu também.

Os outros do azul estavam irados com a gente, claro que depois que explicamos tudo ficaram mais calmos. Depois foi molezinha. Achamos a base, derrotamos o adversário e ganhamos, simples assim.

...

Depois de um final de semana maravilhoso, voltamos. Quando entrei no quarto que eu dividia com Christina nas Zetas logo percebi que alguma coisa estava fora do lugar. Comecei a olhar...

"O que foi Tris?".

"Não sei, tem alguma coisa estranha".

"Estanha como?".

"Como se alguém tivesse mexido".

Christina olhou rapidamente suas coisas e não notou nada diferente. Eu também olhei e aparentemente nada.

"Acho que não Tris, não falta nada meu. E seu?".

"Acho que não também, deve ter sido impressão". Disse mais para me convencer do que outra coisa. Mas eu sei que alguém tinha entrado nesse quarto e mexido nele. Só não sei em que.

...

Estava tudo bem, eu feliz da vida pensando em tudo que aconteceu entre Four e eu. Fazendo planos, sonhando, até que a dura realidade bateu em minha porta. Era dia e tinha aula. A doce professora de sociologia dos primeiros dias resolveu se transformar na bruxa má e aterrorizar minha vida.

"Tris?". Era Four no telefone.

"Oi". Respondi desanimada.

"Tudo bem?".

"Não".

"O que aconteceu?".

"Eu tô muito ferrada".

"Porque?".

"Porque...".

"Espera, você não quer almoçar comigo? Passo já pra te pegar".

"Ahhhh... Four. Não vai dar. Acho que não vai dar para sair o fim de semana inteiro".

"Não quer mesmo almoçar rapidinho?". Ele fez charme. Tive que rir.

"Tá bom, mas rapidinho hein?".

...

"Bem, explique porque vai ficar trancafiada...". Não esperei ele terminar de falar, apenas despejei.

"Eu recebi semana passada um convite para participar de um evento de iniciação científica graças a um trabalho sobre politicas sociais inclusivas que fiz. Acontece que o filho da professora de sociologia não foi convidado por minha causa. Tirei a vaga dele. Ela já tinha mudado o tratamento comigo e eu completamente inocente sem entender até Christina me explicar. E para completar, hoje na sala ela não estava normal e começou a falar coisas erradas. Eu tive a brilhante ideia de questioná-la. Resultado, ela passou não só para mim, mas para a classe toda um trabalho filho da mãe como retaliação. Eu tenho que produzir quase uma tese. Os outros alunos quase me engoliram de raiva".

"E o trabalho é sobre o que?".

"Um paralelo entre as consequências atuais dos principais movimentos sociais urbanos do passado. Se as respostas e mudanças foram realmente as que se esperavam na época dos movimentos. Não é um trabalho de fim de semana Four, é um trabalho de meses". Falei meio desesperada.

"Eu fiz um trabalho sobre isso".

"Foi? E quanto tirou?". Me animei, talvez fosse um norte.

"A nota máxima". Droga. Four é mesmo CDF, estou descobrindo isso aos poucos.

"E você acha que ela não vai se lembrar de um trabalho tão brilhante que tirou a nota máxima? E também acho que ela vai olhar bem de perto para tudo que eu fizer agora. A mulher me olhava com ódio".

"Tris, você não vai conseguir fazer isso. Me deixe ajudar".

"Eu preciso de tipo, umas vinte pessoas ajudando Four e ainda assim, não sei se daria tempo".

"Não era desse tipo de ajuda que eu estava falando". Olhei para ele questionando como, então algo passou pela minha cabeça.

"Tra-paça?..." Perguntei incerta.

"...É nisso que você está pensando?".

"Bem, sim".

"Não, eu... não consigo fazer isso...". Juntei minhas coisas, aquilo estava me deixando maluca.

"... Olha, obrigada. Desculpe Four, é... eu tenho que ir". Dei um beijo rápido nele e saí.

...

No domingo de noite, completamente exausta e frustrada bati na porta dele.

"Posso entrar". Ele sorriu para mim. Eu o abracei. Era tão bom. Eu queria ser mimada naquele momento.

"Claro que sim". Estava tão destruída, não dormi por dois dias e nem cheguei a metade do trabalho.

"Four, o que você ia sugerir mesmo quando pedi ajuda na coisa do trabalho?". Ele estava acariciando meu cabelo, apesar de não merecer. Eu o ignorei completamente esse fim de semana, não de propósito, mas só pensava nesse maldito trabalho. Seu carinho estava me colocando para dormir. Era tão bom. Afundei no peito dele. Ele riu.

"Basta imprimir a capa do que eu fiz com seu nome. Venha,...".

"Four...".

"Tris, confie em mim". Respirei rendida, era a minha melhor e única opção. Ele imprimiu o trabalho.

"Venha cá, você precisa dormir". Apenas encostei no colo dele. Quando abri novamente os olhos, já era dia. Meu estômago estava embrulhado. Nunca fiz uma coisa errada assim.

Assisti a aula que durou uma eternidade, entreguei o trabalho como se estivesse enterrando alguém e nada de Four fazer nada. Eu queria morrer. Quando aquela mulher pusesse os olhos sobre aquele trabalho, ela saberia. Saí derrotada da sala quando uma cena curiosa acontecia diante dos meus olhos.

"Professora, cuidado!!!". Eu vi quando uns quatro alunos que eram da Capa rodearam a professora andando de skate. Ela se desequilibrou e caiu no chão. Tudo que estava em suas mãos também. Inclusive os trabalhos que acabaram de ser entregues. O vento espalhou e levou para longe todos os documentos que caíram no chão com a ajuda dos meninos, é claro. Era impossível recuperar todos. Coloquei a mão na boca quando a ficha caiu. Four realmente tinha cuidado disso. Que... eu queria dizer safado, mas só pensava em incrível.

Considerando que no outro dia a professora disse que os trabalhos não valiam nota, realmente tinha funcionado. Não vou negar que fiquei muito aliviada e no fundo me deu uma louca vontade de rir. Eu queria meio que me vingar por ter me feito sofrer feito uma condenada no corredor da morte por todo o fim de semana. Eu também fiquei tipo me sentindo a 'rainha da gangue' como Christina me chamou outro dia. Four fez isso por mim e apesar de errado eu achei demais. Não a trapaça, mas ele ter feito por... mim.

Ele estava no centro de convivência do campus. Não me segurei. Corri para ele e o beijei agradecida. Ainda bem que ele não se importou com a minha descarada demonstração de carinho. Pelo contrário, respondeu, mesmo enquanto os outros olhavam. Principalmente as garotas.

"Obrigada por ter 'cuidado' do meu trabalhinho de sociologia. A professora disse que não valia nota. Ela não quis dizer que tinha perdido os trabalhos". Ele sorriu.

"Pra quem é certinha você tá gostando muito disso hein?". Bati nele de brincadeira.

"Ah, para. Já basta minha consciência". Rimos.

"Então isso significa que podemos ir patinar no Rockfeller Center hoje?". Ele perguntou.

"Sim". Respondi.

...

Notas finais
Por favor, deixe seu comentário. Gracias ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.