Em busca de mim
7 Quatro olhos, Four e Tobias
Notas iniciais
...
Christina me viu sair com Four, ela parecia vibrar. Meu Deus, que vergonha. Felizmente os outros estavam entretidos com outras coisas e não nos viram sair.
Eu esperava subir em uma moto, mas não foi isso que aconteceu. Andamos um pouco, com Four guiando com a mão nas minhas costas. Eu queria rir de nervoso, mas me segurei, podia sair alguma coisa ridícula da minha boca. Poderia dizer que estava tensa, mas eu estaria pegando bem leve. Paramos ao lado de um Aston Martin preto esportivo de luxo. Ok. Eu entendi, você é o cara Four. Ele abriu a porta para mim. Eu tossi um pouco, acho que estava meio engasgada. Sorri sem graça.
“Entediado com a moto?”. Ele sorriu e só pareceu mais perigoso. Ele é demais para você Tris, vai pagar mico. Porque não inventa uma desculpa e volta para o seu lugar seguro, estava tão legal no Bliss, as pessoas gostam de você...
“Não, mas não quero morrer de frio e nem você”. Ele interrompe meu devaneio e gentilmente me empurra para sentar. Ponho a mão nos meus olhos, não acredito que isso está acontecendo. Preciso ficar calma. Ok. Foco. O que ele disse faz sentido, já que estamos no outono e venta muito, apesar de que hoje está um dia atípico, relativamente quente para o clima.
Quando o carro saiu, tive a sensação de que estava em uma largada de corrida, não que Four estivesse correndo, o ronco do carro que é naturalmente alto e forte. Observei ao redor e algumas pessoas olhavam para o carro nada discreto. Quando saímos das imediações da cidade, não senti o aumento de velocidade mas o velocímetro marcava quase 300 quilômetros por hora. Four parecia muito confortável com isso, como se fosse rotineiro. Do nada, ele resolve falar.
“Então nós transamos? Por favor me diga o que você me deu para beber porque eu realmente gostaria de me lembrar disso”. Ai. Meu. Deus. Abri a boca um pouco demais em surpresa, fechei rapidamente. Não acredito que ele falou isso. Abri a boca novamente, mas não consegui falar nada. E ele estava rindo. Eu queria morrer. Ok. Respira Tris.
“Não vou discutir isso”. Filho da mãe. Só riu mais alto. Eu queria bater nele. Ele parou de rir e continuou falando.
“Então, o que uma Prior faz entre as Zetas?”. Virei para ele, primeira vez que o encaro desde que entrei nesse carro.
“Porque? Existe algum lugar que diz que as Prior não podem ser Zetas”. Ele riu. Não sei o que ele está achando tão divertido.
“Ei, é só uma pergunta. Não fique chateada. E quanto ao que falei antes, eu deveria agradecer, você me livrou de problemas. Eu conseguiria lidar com eles, mas me evitou a dor de cabeça”.
“Ah, que bom que você é modesto”. Riu novamente.
“Eu sou, apesar do que possa parecer...”. E o pior foi que ele pareceu sincero.
“...Quero apenas agradecer Tris... não sou muito bom com essas coisas”. Tinha humildade e timidez em sua voz. E ele só ficou mais bonito. Encostei minha cabeça no banco do carro me tranquilizando e desarmando aos poucos. Fiquei apenas olhando para ele. Ele me encarou de volta e falou novamente.
“... Então Tris, o que uma Prior faz nas Zetas?”. Eu sorri, ele também.
“Não gostei das Delta Pi, o que parecia ser meu destino...”. Rimos.
“... eu vivi com isso a vida toda. Em um meio social e superficial. Não quero isso, pelo menos não no momento. Então conheci as Zetas e acho que não pertenço a outro lugar”. Ele concordou com a cabeça.
“Sim. Uma Delta Pi não entra em um racha, nem invade propriedades privadas, muito menos joga sinuca daquele jeito... ou pior, rouba nas castas em Vegas”. Minha boca despenca em surpresa. Ele ri.
“O que? Você acha que eu não sei o que andou aprontando por aí? As meninas gostam de fazer propaganda das suas conquistas e elas gostam de você...”. Revirei os olhos e sorri.
“Nem todas”.
“O que?”.
“Nem todas gostam de mim”.
“Quem não gosta?”.
“Lauren”. Ele me olha.
“Incomoda você não agradar a todos?”.
“Não. Apenas não entendo, nunca fiz nada para ela”.
“Mesmo quando não faz nada Tris, você consegue muito. Outras pessoas fazem muito e não resulta em nada”. Não entendi uma vírgula do que Four disse. Mas ele não queria explicar, pigarreou e mudou de assunto.
“Então, Prior colocou você em problemas?”. Me virei no banco e sentei de frente. Entendi que ele se referia a Caleb.
“Não. Bem, sim, mas foi resolvido. Meus pais resolveram confiar em mim”. Ele ficou quieto de repente, pensativo. Resolvi aliviar aquele clima.
“E você Four? O que faz quando não está sendo o líder dos Capa, voando em motos, pulando de paraquedas, jogando futebol, ganhando na sinuca ou dirigindo carros de 600 mil dólares?”. Ele ri.
“É você me definiu bem. Eu também, como, durmo e tomo banho”. Ele ri dá própria besteira.
“Engraçadinho... Esse é o seu último ano aqui?”. Ele demorou tanto a responder que achei que não faria.
“Ainda não sei Tris”. Four me olha e eu balanço a cabeça lentamente dizendo que compreendo.
Comecei a olhar as paisagens. Não tinha me dado conta no quanto nos afastamos, ele parecia ir em direção a praia. Vejo as placas indicando Long Island. Ele não queria me matar de frio e me leva para a praia em pleno outono? Entre meus pensamentos me dou conta de que estamos sozinhos. O nervosismo que tinha se escondido um pouco voltou com tudo. Qual é? Eu ainda estou em um carro com Four. E o que vem depois... eu não sei o que vem depois, só sei que quero logo.
“Aonde você disse mesmo que a gente ia?”.
“Eu não disse espertinha...”.
O telefone dele toca. Vejo a foto de Zeke vibrando. Ele põe no viva-voz.
“Zeke?”.
“Onde você tá? Estamos fazendo uma festinha aqui na Capa com as Zetas”.
“Sei... Mais alguma coisa?”. Zeke ri.
“Engraçado, Tris também não está por aqui”. Me viro para a janela em completa vergonha. Mas essa coisa é engraçada, apesar da vergonha fico feliz que saibam que estou com ele.
“E?”. Four pergunta. Zeke continua rindo.
“Nada, eu pensei em conhecer a menina melhor...”. Eu ouvi apenas o tum, tum, tum depois disso. Four desligou o telefone. Ah, também ouvi o carro acelerar um pouco mais. Ele parecia... aborrecido. Eu que não ia me manifestar.
“Está com fome?”. Four me perguntou.
“Uhum”.
Ele parou em uma lanchonete na região de Amagansett. Para minha surpresa ela não estava deserta, já é madrugada e esse lugar ainda está aberto?
“Gosta de lagosta Tris?”.
“Gosto”.
“Então se prepare para comer o melhor sanduiche de lagosta da sua vida”. Não acredito que ele dirigiu tudo isso só para comermos sanduiche de lagosta.
Depois que comi, retiro o que disse. Ele poderia dirigir bem mais que valeria a pena. Nunca comi nada tão delicioso. Acho que eu estava gemendo de prazer. Quando me dou conta, Four estava me olhando e rindo. Que vergonha. Ele poderia pelo menos disfarçar e me ajudar, mas me encara de propósito.
“Ah, não fique tímida por minha causa. Acho que tenho inveja do sanduiche”. Joguei a batata frita que acompanhava nele. Four estava tão leve. As vezes ele não parece ter 21 e sim mais. Mas agora, ele aparenta ser tão jovem. Gosto dele rindo, mesmo que seja as minhas custas.
“Para Four. Eu confesso que achei meio exagerado dirigir tudo isso só por um sanduiche, mas agora faz total sentido”. Ele me olhou confuso.
“Aqui foi apenas uma parada Tris, mas estamos quase lá”. Balanço a cabeça lentamente, enquanto ele me olha. Será que ele sabe que o olhar dele me queima? Ok. Aquele nervoso incontrolável voltou a surgir.
Ele pagou e voltamos pro carro. Começo a olhar o painel.
“O que está procurando?”.
“Música. Não tem nada para ouvir não?”. Pergunto. Ele tocou em um pequeno painel digital e uma tela de DVD subiu. U2 começou a tocar. Beautiful day exatamente. Eu não sei o que esperava, mas me surpreendeu. Eu gosto.
Depois de passar por casas enormes e lindas que correspondem a parte mais nobre dos Hamptons, chegamos a Montauk. A parte mais informal e simples dos Hamptons. É onde termina Long Island. O lugar é repleto de marinas, barcos pesqueiros e um ambiente bem descontraído. No verão os surfistas lotam Montauk por sua característica mais alternativa.
Estava muito frio. Tento me aquecer me abraçando, mais Four encaixa seus dedos nos meus e caminhamos em direção a um barco.
Um homem nos encontra no meio do caminho.
“Tobias?...” Eles se cumprimentam. O homem o chamou de Tobias? Esse é o nome de Four? Ah meu Deus. É como se eu tivesse descoberto um grande segredo. Apesar da ansiedade que estou sentindo, uma coisa passa pela minha cabeça. No fundo eu tinha a esperança de que ele tivesse um nome horroroso, pelo menos isso. Ninguém pode ter tudo. Mas pelo contrário, Tobias é um nome lindo. E só o tornou mais bonito. Olho para ele aqui falando com esse homem simples, e não vejo mais o bad boy arrancador de calcinhas, Four, e sim Tobias, um homem muito bonito, mas que parece educado, seguro e decente.
“...Você não vai entrar no mar a essa hora vai? Os pescadores estão se preparando para entrar, mas o mar está agitado, você não deveria...”.
“Não se preocupe, vou apenas no Mrs. Johnson”. Na minha frente tem um barco muito charmoso... ele não é médio nem pequeno, é... suficiente. Na verdade não entendo muito de barcos, ele parece um... pequeno iate. Branco com azul marinho, tem um estilo clássico. É lindo, e ao lado tem escrito em letra cursiva Mrs. Johnson. Degluto. Uou, ele tem um iate? Estou um pouco paralisada. Quem é Sra. Johnson? Talvez não seja dele. Não quero pensar no quão grande Four está se desenhando para mim. Quero dizer, ele parece ter muito dinheiro, e isso me assusta.
Subimos, o vento estava congelante. Four desceu para algum compartimento e me deixou lá. Me abracei mais forte tentando passar o frio. As ondas batiam no barco e ele balançava levemente. Uma espécie de nevoeiro deixava o negro da madrugada cinza. Olhei para um infinito repleto de nada, apenas escuro. Apesar de um pouco sombrio e solitário, o silêncio e as cores daquele lugar traziam paz. Havia beleza ali e não pude deixar de associar a Four, ou melhor a Tobias. Assim como esse lugar, ele parece sombrio e solitário, mas há muita beleza nele. Eu por exemplo, estou muito encantada. E de repente me senti especial, porque esse lugar deve significar algo para ele. Não tenho certeza, mas não o vejo trazendo ninguém aqui. Estava pensando longe, quando uma coisa quente me abraçou.
Me assustei de início, mas Four me segurou como se dissesse sou eu. Estava coberto com uma manta bem quente. Ele me envolveu em seus braços e fui invadida por um fogo que derreteu qualquer fagulha de gelo que esfriava meu corpo. Isso parece muito íntimo e não posso negar o quanto me assusta. Pela primeira vez sinto o quão denso e profundo Four é. O que ele quer de mim? Será que... poderei dar o que ele espera, seja lá o que isso signifique? Fecho os olhos e respiro. Ele encaixa a cabeça no meu pescoço e sente o meu cheiro. Me arrepio e afasto mais a cabeça para que ele tenha melhor acesso. Acho que ele pode ouvir meu coração, que está batendo alvoroçado. Meus músculos estão tensos e existem partes do meu corpo que estão pedindo atenção. Nunca reconheci desejo em mim. De certo, me achava muito fria. Mas fria, é a última coisa que estou no momento.
Four me beija no pescoço levemente. Ele beija e arrasta o nariz sentindo o meu cheiro. É muito intenso e sei que isso não foi quase nada.
“Você é linda Tris”. Ele sussurra no meu ouvido. Meu rosto aquece de timidez, não sou acostumada a esse tipo de elogio. Talvez eu seja ingênua, mas do jeito que ele falou eu acredito. Permaneço de olhos fechados. Quando os abro, vejo uma mancha branca distante, e um feche luz que não estava ali. Ele observa para onde estou olhando.
“Consegue ver? É o farol de Montauk”. Ele fala baixinho.
“O que esse lugar significa para você To...”. Degluto, eu ia falar o nome dele mas parei, sei lá, é como se não tivesse permissão. Ele ri, encosta a cabeça nos meus cabelos e o beija.
“Então você descobriu meu nome? Por favor, me chame por ele, é bom ouvir”. Ele se afasta e me vira de frente, depois envolve a manta apenas em mim. Eu deveria ter ficado quieta, não queria que ele se afastasse. Tobias se encosta na borda ao meu lado e parece não se importar com o frio.
“Eu gosto desse lugar. Quando era pequeno, vinha passar o verão no East Hampton, mas mamãe gostava de dirigir até aqui e ficar olhando o farol. Sempre vinha com ela”.
“Mrs. Johnson, é sua... mãe?”. Suponho.
“Sim”.
“E isso é seu?”. Ele ri.
“O Mrs. Jonhson? É. Meu avô adora barcos, aprendi a gostar com ele”. Pacientemente ele responde as minhas perguntas.
“Então você é Tobias Johnson?”.
“Eaton”.
“O que?”.
“Tobias Eaton”. Oh merda.
“Eaton como o senador Marcus Eaton?”. Ele balança a cabeça como se não concordasse, mas que era a verdade.
“Sim”. Ele tem problemas com o pai? Pergunto a mim mesma.
“Conheço seu pai. Na verdade, papai e ele são bem amigos...”. Ambos são da mesma base aliada. Tobias não se manifesta. Melhor não insistir nesse assunto, ele parece não gostar. Mudo o foco da conversa.
“E como Tobias virou Four?”. Ele sorri e olha para mim. Me olha mesmo, como se estivesse decorando o meu rosto. Baixo o olhar constrangida. Às vezes me sinto invadida por ele, não de um jeito ruim. É só que ele parece tomar tudo que eu tenho.
Ele deglute e fica sério. A lembrança aparentemente não é agradável. Tobias avalia se me fala ou não.
“Não acredito que vou falar isso pra você...”. Ele nega com a cabeça, não acreditando nele mesmo. Então começa, sua voz é baixa e sem flexão.
“...Eu fui uma criança fraca e tímida. Era magro e precisava usar óculos. Os garotos da escola não perdoavam e me chamavam de quatro. Quatro olhos. Além disso, todos os dias eu apanhava deles. Quando chegava em casa, nos dias que mamãe conseguia esconder tudo bem, mas quando Marcus pegava, ele me batia mais...”. Ele sorri irônico.
“...Ele me castigava por me deixar apanhar. Mamãe tentava me proteger, mas ele não batia apenas em mim. Cada vez que ela entrasse na minha frente era uma surra que levava. No outro dia, quando ele saía para o trabalho, ela vinha me confortar...”. Ele sorri com a lembrança da ternura da mãe, apesar de nitidamente sentir dor e raiva.
“...Em uma dessas vezes, ela chegou muito machucada. Se eu pudesse matá-lo, eu teria feito. Ela era doce e me encorajava. Lembro que disse que eu até podia ser quatro olhos no momento, mas que eu poderia crescer e me tornar quem eu quisesse ser. Inclusive ‘Four’. Four ainda era quatro, mas um quatro diferente. Eu poderia ser forte, grande e ninguém me faria mal nunca mais. Desse dia em diante, não chorei mais quando Marcus me batia. Talvez se ela visse que não me doía, não se meteria e ele não bateria nela...”. Eu queria acariciá-lo nesse momento, mesmo tão pequeno protegia a mãe da maneira que podia.
“...Quanto fiz 12, ela faleceu de depressão e eu não precisava mais aguentar as torturas de Marcus. Então fugi de casa, meus avós me resgataram e criaram. Deles tive amor e compreensão, mas sei que não fui fácil. Era rebelde e me meti em problemas atrás de problemas. Quando entrei na outra escola, vi uma nova oportunidade de vida, então quando me perguntavam meu nome eu falava Four. E então Tobias, quatro olhos, virou Four”. Eu estava perplexa com tudo o que ele acabou de me contar. Era uma mistura de sentimentos que não sabia explicar.
Uma onda bateu muito forte no Mrs. Johnson e molhou a roupa dele. Só não me molhou também porque a manta me cobria. Ele tirou a jaqueta e depois a camisa puxando pela cabeça. Quando se virou para pegar outra manta eu vi a tatuagem que tomava conta das suas costas. Fiquei meio hipnotizada por ela. Era selvagem e linda. Instintivamente o toquei. Ele ficou imóvel e respirava desregulamente. Meus dedos seguiam o desenho de rasgos. Rasgos feitos por unhas de um animal selvagem. O mais estranho, era que eram em alto relevo. Ponho a mão na boca para calar a agonia que senti quando me dei conta. Os rasgos eram cicatrizes. Meu Deus, eram muitas. Lembrei da história do pai imediatamente.
“Marcus fez isso Tobias?”. Ele balançou a cabeça lentamente confirmando.
“Me batia com cinto, mas principalmente de chicote”. Ele se virou e me olhou. O vento brincava com meus cabelos. Tobias os ajeitou atrás da orelha e nos olhamos profundamente. Havia compreensão entre nós e uma série de outras coisas que estavam guardadas desde o mata-toma. No segundo seguinte sinto seus lábios nos meus.
Sua mão esquerda afundou em meus cabelos, enquanto a direita me puxou para colar em seu corpo gelado. Eu o abracei com a manta para protegê-lo do frio, da mesma maneira que eu gostaria de tê-lo protegido de todo o resto. O corpo de Tobias tocou o meu e não posso descrever as várias reações que isso me causou, ele me fez ter desejo e isso me deixou quente e entorpecida. Mas a sua história tocou meu coração, não com pena mas com dor e carinho. Sinto a dor dele e gostaria de poder dividi-la, porque por mais recente que seja, sinto um inegável carinho por ele.
Primeiro tenro e gentil, ele descobriu meus lábios e me deixou descobrir os dele. Depois nossas línguas se tocaram macias. Elas se entrelaçaram assim como nós, eu sentia a pressão dos seus dedos puxando meu cabelo, enquanto me abraçava mais apertado. O coração de Tobias quase atropelava o meu, eu me senti tão viva e sei que ele também. Sim ele estava bem vivo, e excitado. Eu... eu também estava. Apesar da vergonha também sinto a sensação de triunfo. Triunfo por não ser a única tão afetada. Ele me beijou até não ter mais fôlego. Quando nos separamos, segurou minha cabeça com as duas mãos e encostamos nossas testas. A respiração estava pesada. Depois me abraçou carinhoso e nunca me senti melhor na vida. Apesar de poder lidar com isso até o momento, eu precisa deixar algumas coisas claras...
“Tobias... eu sei que aceitei vir até aqui... e... e você poderia pensar que eu queria... bem eu quero conhecer você melhor para... e isso está muito intenso, eu...”. Ele riu.
“Não vai fazer nada que não queira Tris, entendeu?”. Balanço a cabeça concordando. Ele me levou para um futon perto e me sentei entre suas pernas. Ficamos ali sem falar nada, apenas abraçados até que eu disse.
“Sinto muito. Pela sua mãe ter ido, pelas coisas que teve que passar”.
“Não sinta pena de mim Tris, por favor. Não foi por isso que contei...”.
“Isso não é pena Tobias, é partilhar. Sentir o mesmo que você, apesar de não ter vivenciado. Me sinto tão brava pelo que aconteceu. Marcus foi muito covarde. Não é justo...”. Ele me escutou com atenção, gostaria de saber o que se passa na cabeça dele.
“... você ainda fala com ele?”. Pergunto. Ele encosta a cabeça na minha, como se pedisse apoio.
“Ele insiste em me ligar. Mas a última vez que nos vimos foi há dois anos. Felizmente não dependo dele. Minha mãe me deixou uma boa herança. A única família que tenho contato frequente são meus avós maternos”. Tobias me acaricia sem maldade e sinto a necessidade de confortá-lo. Viro a cabeça lateralmente e nos beijamos. Cada vez me sentia mais confortável, ele me passava confiança e proteção. Isso nos primeiros segundos, porque depois o beijo me inflamava e eu tinha que me frear.
O dia clareava, e já era possível ver alguns barcos pesqueiros retornando. Gaivotas voavam levadas pelo vento. De repente elas quebram o voo e mergulham no mar, quando ressurgiam, carregam um peixe no bico e voavam para longe.
“Está com fome Tris?”. Ele me pergunta.
“Eu poderia comer”. Quando descemos do barco ele meio que me pegou no colo e me beijou. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. Andamos de mãos dadas até entrar em um hotelzinho bem rústico e agradável. Havia alguns empregados e eles conheciam Tobias, porque o cumprimentavam pelo nome.
Quando o garçom pôs a comida na mesa, eu precisei me controlar. Tudo parecia gostoso. Tinha de tudo, desde a bagels até bolo de frutas vermelhas.
A viagem de volta foi mais lenta, quanto mais tarde ficava o dia, mais Tobias diminuía a velocidade. Ele colocou música e eventualmente conversamos alguma coisa, vez e outra ele mexia no meu cabelo. Sem perceber, adormeci. Acordei com Tobias acariciando meu rosto.
“Chegamos bela adormecida”. Sorri para ele. Quando levantei reconheci a frente das Zetas. Andamos lentamente, atrasando a despedida. Paramos em frente a porta, ele estava prestes a me beijar quando alguém nos interrompe.
“Eu não acredito que você ainda está com esse cara Beatrice. Você não ouviu nada do que eu disse no outro dia? Você não ouviu papai?”. Que maravilha, eu estava em um lindo sonho até Caleb resolver aparecer. O que diabos ele faz aqui? Me deixou realmente brava. Caleb não ficou parado, veio para meu lado e me puxou para longe de Tobias. Tobias que estava calmo até o momento começou a se irritar.
“Pare de tratar sua irmã feito uma criança Prior, ela já está grande...”. Caleb ignorou Tobias.
“Beatrice, por acaso ele contou a você que já esteve preso? Por acaso ele já disse a você que matou uma pessoa? Claro que ele não disse...”. Eu não esperava para o que estava por vir. Tobias esmurrou Caleb e eles começaram a brigar. Eu não sabia o que fazer. Tobias estava fora de si e Caleb não era um lutador, do jeito que ia ele poderia... matá-lo. Comecei a entrar em pânico. Pedi para ele parar, mas não me ouvia, então gritei.
“TOBIAS PARE. PARE DE BATER EM CALEB...”. Tentei puxá-lo para longe, enquanto ele continuava e continuava. Will estava chegando com Christina e me ajudou a segurar Tobias. Eu estava chorando. Corri para Caleb todo machucado, eu não conseguia acreditar que Tobias tivesse feito aquilo com Caleb, ele ficou louco com o que Caleb falou. E essas acusações? Não acredito nisso. Deve ter uma explicação. Olhei para Tobias e senti um frio me congelar. Ele não estava gostando de me ver ali com Caleb, eu vi seus olhos esfriarem e sem intenção de minha parte ele viu julgamento nos meus. Mas entendeu errado. Tobias afastou Will com força e arrumou a jaqueta.
“Então você vai ficar do lado do seu irmãozinho? Porque não me surpreende?”. Ele se virou e saiu. Para ele tinha acabado ali. Nãããoooo, meu coração pedia.
“Tobias, espere”. Eu gritei. Ele me olhou com raiva, seu olhar me repreendia por eu tê-lo chamado pelo nome. Ao que parece, perdi esse direito. Sem falar mais nada ele entrou no carro e saiu. Eu não sabia o que fazer, tudo foi tão rápido e inesperado. De onde Caleb tirou essas acusações? Não tive tempo de raciocinar e no impulso aparentemente escolhi um lado, não pelas acusações que Caleb fez a ele porque no fundo eu não acreditava nisso, mas sim por ele ter atacado Caleb com fúria. Merda, ele pensou que eu tinha acreditado em Caleb. Eu o machuquei sem querer e isso me machucou também. Eu pedi a Will e a Christina que ajudassem Caleb, eu estava meio perdida. Precisava falar com Tobias. Ou melhor, Four. Precisava conversar com ele. Caleb me causou problemas que até o momento nunca pensei que seriam tão importantes para mim. Entrei nas Zetas, Christina e Will apenas olhavam tão perdidos quanto eu.
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