Em busca da verdade

5 Capítulo 3 Parte 2-2


– Olha só quem acordou! — Disse ele feliz.

– O que... O que aconteceu? — Falei com a mão na cabeça.

– Você não se lembra mesmo?

– Se eu estou perguntando... Desculpa, desculpa... Eu... — Desisti de perguntar simplesmente deixei o assunto fluir.

– Tudo bem, você desmaiou depois que foi mordida por um cão raivoso. – Qual o motivo dos risos?

– O que? Mo... mor... mordida? De... desmaio? Cachorro? — Eu estava confusa. — Mordida? Tava ferrada. – Lancei-me para trás batendo a cabeça no travesseiro.

– Calma, calma... – Colocava as mãos para cima tentando me acalmar e como sempre rindo.

– O que é tão engraçado? — Cerrei os olhos para ele.

– Nada, desculpe. É que não sei se você vai entender...

– Entender? Entender o que? O que tem para entender? – Entrei em pânico, quase pulei da cama.

– Nós escutamos um barulho e quando fomos ver o que era, saímos correndo quando um cachorro com raiva saiu de dentro dos arbustos. – Ele dizia tão rápido que foi um pouco difícil de entender. – E você foi supostamente mordida. – Complementou hesitante.

– Supostamente mordida? – O agarrei pelo colarinho da camisa.

– É... Mas foi superficial, só uma coisa que você não vai gostar.

– Tem mais? Di... digo, além de ser mordida e estar no hospital com um estranho? Ah é verdade, é ''supostamente'' mordida. – Falei em ironia.

– Hei, eu não sou estranho e tem sim, o cão estava com raiva, então boa sorte! — O concretizou cruzando os braços com raiva.

O que? Não bastava estar no hospital por ser mordida por um cachorro, agora eu descubro que o cachorro tinha raiva. Pera, eu fui mordida por um cão com raiva, um cão com raiva, é isso mesmo produção? E ainda ele teve a cara de pau de dizer boa sorte. Belo amigo ele em, ah claro um amigo que até minutos atrás eu o chamei de estranho.

Não me julguem.

Enquanto eu surtava com meus pensamentos Bryan me interrompeu...

– Hei, para de surtar ou vamos ficar assim até amanha. Seus pais estão a caminho daqui, e... — O interrompi.

– Mas... Mas... e o cachorro...

– O que tem ele?

– Ele... Você... Como você não foi atacado?

– Há você não me deixou terminar de falar, o pessoal da carrocinha estava atrás do cachorro, mas o perderam de vista e só o encontraram depois dele ter te mordido, foi quando deram sedativo para ele. Ele já esta no canil e esta sendo tratado. Ah... Esqueci-me de dizer, o cachorro tinha raiva, e os médicos disseram que você tem muita sorte dele não ter arrancado um pedaço seu, porque ai... meu amor... você estaria ferrada.

– Mais ferrada? Cadê minha mãe? – Sentei-me e vi minha perna com uma tala enrolada.

– Ela já esta vindo, tenta se acalmar, porque se aquela for sua mãe...

– Help! — Olhei para ele quase clamando por ajuda. Deixa eu e minha mãe sozinhas, não é sinal de boa coisa. Pode crer!

Eu já estava surtando, remédios, cachorro e uma perna dolorida, não poderia ficar pior ou poderia, há sim e como poderia, meus pais entrando na sala preocupados comigo. E minha mãe bufando de raiva.

– Olha quem chegou... — Dizia ele desviando o olhar.

– Oh meu Deus, querida você esta bem? — Disse mamãe toda preocupada.

– To bem mãe, não precisa exagerar... – Ela estava muito calma para o meu gosto.

– Exagerar? Onde você estava com a cabeça? Primeiro, por que você não estava na escola? Seu pai te levou e viu você entrando. Se você estivesse dentro dela e não do lado de fora, com certeza você estaria bem! E se você não quisesse ir era melhor ter ficado em casa, pra que causar mais problemas? – Agora sim.

Fiquei bastante envergonhada com aquilo tudo, Bryan me olhava e o medico também, meu pai parecia estar decepcionado e só faltou minha mãe me bater na frente deles.

Depois de levar a maior bronca eu queria enfiar minha cabeça em um buraco e sumir. Meu pai conversava com o medico para me dar alta, precisei de muletas pra andar até o carro, Bryan me acompanhou onde ficamos a sós por alguns minutos.

– Obrigada, serio obrigada por estar lá. — Estendi minha mão para ele.

– Disponha senhorita — Dizia ele pegando em minha mão e beijando as costas dela. Quando me dei conta eu já a tinha puxado.

Garoto estranho, uma hora está brigando comigo todo nervosinho e depois tá ai beijando minha mão. WFT?

– Não exagera, já basta o porre que eu vou levar quando chegar em casa.

– Quando chegar? Haha, boa sorte. Ninguém mandou cabular aula! – Ele sorria.

– Você também cabulou, tecnicamente, então você também levará uma broca. – Abri a porta do carro, coloquei as muletas lá dentro.

– Sim, tecnicamente, só não esqueça que temos pais diferentes, muito diferentes... — Ele desviou o olhar.

Meus pais já estavam no carro, foram mais rápidos que eu, nos despedimos, a caminho de casa, foram muitos xingamentos, palavrões e o quanto eu sou irresponsável etc. Levei um castigo daqueles, sem telefone, internet, passeios e até a minha aula de muay thai que eu ia começar semana que vem. Eu até poderia questionar eles, mas não queria piorar a situação para o meu lado. Poxa as aulas de muay thai foram sacanagem. Fiquei de castigo por um mês inteiro.

Tentaram discutir com os diretores por terem me deixado sair, mas vocês já sabem como é a escola do governo, e também disseram que não poderiam fazer nada, pois os alunos deveriam ter a consciência de permanecer dentro da escola, o que me levou a mais algumas broncas. Mas mesmo assim fiquei bolada pelas aulas de luta e a internet. Meu Deus como vou sofrer sem internet. Se eu precisar fazer trabalhos ou pesquisas meus pais já deixaram bem claro que terei que usar o computador da escola onde ficarei sete vidas para pelo menos abrir a pagina inicial.

Em casa não foi diferente minha irmã estava toda preocupada, não precisava de tudo isso, parece até aquelas novelas mexicanas onde tudo é motivo de preocupação. Quem vê até pensa.

– Meu Deus o que aconteceu? — Disse Lilly com a mão na boca.

– Nada, não aconteceu nada. — Respondi.

– Nada? Como assim nada? Quer saber conversaremos sobre isso mais tarde. Já para o seu quarto, VOCÊ ESTÁ DE CASTIGO. — Calma ai mãe, pode desligar o ''CAPS LOOK''

– Não precisa gritar! — Quase gritei com ela também.

– O que você disse? — Minha mãe já estava histérica e gritando comigo.

– Nada — Subi as escadas mais devagar que a escada rolante do shopping. — Eu não disse nada.

Depois de um dia longo e agitado, bem mais agitado do que planejado, eu já estava com sono e cansada, queria ligar para minhas amigas e contar o que aconteceu, mexer no FACEBOOK ou pior, eu até queria fazer aqueles trabalhos da escola que são para a próxima semana, só para me dar ao luxo de mexer um pouquinho na internet. Que família do mal, eles poderiam me bater, doeria, mas não para sempre.

No café da tarde comi torradas e vitamina de manga, fiz alguns exercícios com a perna como terapia. O médico disse que eu teria que de ficar de repouso por alguns dias ou até que a perna parasse de doer, então poderia volta pra escola, mas já que não estava com tanta pressa não ligaria se o tempo passasse rápido ou de vagar.

No jantar comemos macarronada — meu preferido e suco de morango. Tive de ir dormir cedo, meus pais me obrigaram, só fui porque eu não queria discutir novamente. Provavelmente eu perderia a briga mais uma vez.

Por eu ir dormir cedo fiquei me revirando na cama a noite toda, finalmente consegui dormir e desta vez eu não tive pesadelos, tive sonhos, sonhos muito bons. Acho que a melhor parte do sono são os sonhos, porque é o único lugar onde se pode fazer o que quiser e sem regras. O impossível sempre acontece e o possível esse sim é mais difícil de acontecer, quando tentamos voar ou quando corremos o máximo que conseguimos e ainda sim parece que não saímos do lugar, é horrível esta sensação. E os sonhos são uma mistura de fantasia e realidade. Amo sonhar e dou graças a Deus por não ter que pagar por isso.

Depois de quase uma semana em casa só comendo, vendo tv e ouvindo música já era hora de voltar à rotina. Meu fim de semana foi um saco, não pude fazer nada que eu quisesse, pois além de estar impossibilitada eu ainda estava de castigo, mas creio que se me comportar e mostrar que sou responsável eles logo me liberaram.

Tenho certeza que minhas amigas irão surtar por eu não ter ligado para elas nesses cinco dias em casa. Mas certeza que segunda irei bem prevenida, com capacete e colete a prova de balas.

Pouca gente conhece essa parte da minha vida, mas eu queria que algumas coisas novas acontecessem algo que me tirasse dessa coisa pacata. Nos filmes, novelas, livros etc... Sempre tem aquela coisa que a atriz principal diz ''nossa como eu queria ter uma vida normal, uma vida calma, eu queria que tudo voltasse a ser como era antes'' Se elas soubessem que essa coisa de querer ter uma vida normal é chato, elas não diriam isso. Por experiência própria eu sei.

Quando eu fujo da escola ou faço alguma coisa doida é pelo simples motivo de querer ir buscar uma aventura nova, uma aventura onde eu vou poder dizer para meus filhos, netos, bisnetos que eu fiz algo que valesse a pena ou que fosse diferente. Eu não quero estar à beira da morte e lembrar-me de coisas ou lamentar das escolhas que eu poderia ter feito. Eu só quero viver, viver minhas próprias aventuras, escrever minha historia e ficar satisfeita com o resultado. Sem ninguém ficar me dizendo o que eu devo ou não fazer.

Aposto que meus pais fizeram a historia deles, duvido que minha mãe não tenha as aventuras dela, as escolhas certas ou erradas, e nem por isso eu estou reclamando. Não me arrependo de ter fugido, do meu castigo, da mordida, de nada, porque ao final de tudo, todos nós queremos algo parecido. Se fosse por mim eu faria tudo de novo, faria sem reclamar e sem lamentar. Podem me tirar tudo, só não podem me tirar a minha determinação e o meu sonho de viver a cada dia uma nova aventura.

Na manhã seguinte meu pai me levou para a escola novamente, a única diferença é que ele ficou esperando eu entrar e fecharem o portão, garantindo-se de que eu não fugisse dessa vez. Como se fosse possível eu fugir com a perna neste estado.

– O que eu perdi? — Perguntou Bella confusa vindo em minha direção.

– Nem pergunte... – Na minha cabeça tinha ficado mais agressivo nosso encontro.

– Ok...

– E... o que eu perdi? — Perguntei rindo.

– Nem pergunte. — Nós duas ficamos rindo até entrarmos na escola. O portão fechou e meu pai pode ir embora sem se preocupar comigo dessa vez.

– Então sabe aquele garoto? – Por que ela parecia tão empolgada?

– Que garoto?

– O do intercambio... – Quase ela me mordeu tentando me fazer entender.

– Ah, sei. O tem ele?

– Ah, quando você cabulou aula semana passada, eu fiz par com ele na aula. Achei que seria legal, mas...

– Mas...?

– Ele só ficava perguntando de você... – Ela dizia olhando para mim com aquele olhar que odeio.

– Ah, para com isso, ele é escroto demais. Sorte sua não precisar fazer par com ele esse bimestre. Eu só aceitei mesmo porque eu vou ganhar pontos na média.

– Bom, não foi o que me pareceu, ele fazia algumas perguntas como se soubesse quem você é.

– E como não saber? — Dei risada pra quebrar o clima — Todos sabem quem eu sou, eles me amam! — Pisquei e mandei um beijinho pra ela, mas acho que não rolou. – Olha eu sei que se você for esperta você vai ver que não tem nada a ver e que é sortuda por não fazer par com aquele... aquele... alien! E mais uma coisa, fica esperta com ele, eu conheço o tipinho dele. — Ela riu e continuamos a andar, um pouco devagar, mas conseguimos chegar a tempo.

– Sabe eu gosto dessa escola, as pessoas são diferentes e tem o armário que eu acho bem bacana. Não é toda escola que tem armário principalmente as escolas publicas. Acho que é por isso que aqui se torna um lugar especial.

– É o ruim é que eles ficam do outro lado do mundo. — Falei ao lembrar onde era meu armário.

– Mesmo assim... Aqui é diferente.

– Hei, não pensa em coisas que já aconteceram. Não precisa ficar relembrando o passado, isso não é saudável. – Coloquei minha mão em seu ombro.

– Eu sei, mas... Sei lá, não da pra esquecer as coisas assim de uma hora para outra.

– Do jeito que você fala parece que foi ontem. Mas já faz três anos. Acho que você já deveria ter esquecido isso. — Quase que ela começou a chorar e é pra isso que servem as amigas, para ficarem juntas na alegria e na tristeza.

Coitada, já fazia três anos desde que ela foi atacada na escola. Um dos alunos passava informações sobre os outros alunos, mas até hoje não descobriram quem era só sabiam que era um rapaz. Eles esperaram ela sair para tentarem assalta-la, mas os planos deles deram errado e o máximo que conseguiram foi à bolsa dela. Isso não foi tão ruim, o ruim mesmo foi o tiro que ela levou na barriga. Por pouco não atingiu os órgãos dela. Ela poderia ter ficado paraplégica.

Desde então ela se mudou com a família para tentarem recomeçar, já que a criminalidade estava aumentando a onde eles moravam. O medo tomou conta e ela não conseguia sair na rua sozinha ou quando já estivesse anoitecendo. Com a minha ajuda e de Duda ela foi se recuperando. Ela já não tem mais medo de andar na rua, mas ela evita ficar fora tão tarde. Eu não queria que ela se sentisse dessa maneira novamente, essa é a primeira vez que ela comenta como se sente desde que se mudou pra cá. Nós já nos conhecíamos antes dela se mudar até porque nós éramos vizinhas.

Nós mudamos quando meu pai conseguiu um emprego melhor e foi melhor para todo mundo. Eu comentei o quanto aqui era legal e calmo, mas ela sempre foi tão agitada. E depois do acidente ela adaptou por uma vida pacata perto de mim.

Fico muito feliz por ela e por mim, sim por mim, por eu ter ajudado ela, pois eu sei que se fosse comigo ela faria o mesmo. Ela não é só uma amiga é mais que isso é minha irmã, irmã de outra mãe.

Uma irmã que não se esquece tão fácil assim. Graças a Deus hoje ela não é tão paranoica como ela era antes. Meus pais também fizeram o que puderam para ajudar, até porque mamãe e papai eles eram amigos dos pais de Bella, que ajudou com a compra da nova casa e claro com o apoio moral.

Notas finais
E ai fofuxos e fofuxas o que estão achando? Não deixem de deixar sua opinião nos comentários ^.^ Add a sua lista de leitura e se der recomendem ao seus amigos e inimigos kkk' Ajuda bastante tanto na divulgação como no incentivo para continuar a escrever. Obrigado pelo tempo gasto ao ler *--* Beijinho e fiquem com Deus