Em Verde
2 02 → Saudade dilacerante
Notas iniciais
É óbvio que pessoas como eu jamais terão aquilo q muitos chamam de paz, mas no meu mundo o que seria essa tal de paz? O que seria viver sem a preocupação de acordar em um inferno só seu?
Infelizmente não tenho o prazer de descobrir, pois logo sou solicitada a estar na beira da cozinha de pé e pronta para mais um dia na escola. E realmente deveria ser só mais um dia na escola, só mais um dia na outra metade do meu inferno – que infelizmente seria bem maior se eu não tivesse protestado –, contudo são somente quatros horas e meia dentro daquela construção cinza e sugadora de almas.
O som das rodas sobre o cascalho da garagem me tira de meus desvaneio e troco o café da manhã pelo conforto dos bancos de couro do carro do meu pai, os bancos e as janelas fechadas vão me acolhendo e esquentando cada parte fria de meu corpo. Sinto-me confortável por alguns segundos até lembrar para onde estou sendo mandada, toda a sensação de paz e tranquilidade é substituída por uma sensação sufocante de dor e medo.
Quando a solidão se torna demais ela acaba preenchendo espaços que não deveria e o ar se torna denso, difícil demais de ser respirado. Abro uma das portas e sou atacada por uma corrente fria e forte de ar. Aquele era provavelmente o ar mais puro do dia, aquele que passa entre as cinco e as seis da manhã, quando quase ninguém está acordado.
Avistei meu pai descendo a entrada da garagem fechando o portão da mesma, seus olhos se encontram com os meus e tudo o que eu faço é baixar o olhar para a minha mochila pousada em meu próprio colo. Seu tecido azul escuro se mistura com a minha calça jeans e eu fico um tanto perdida naquele mar escuro. Aquele tom de jeans sempre me lembrou os olhos da Breanna, aquele par de olhos incandescentes que nunca se apagavam e que pareciam sempre bem dispostos. Junto minhas mãos uma a outra entrelaçando dedo por dedo sentindo cada conexão, cada mínimo ponto de pele se tocar e então mergulho em lembranças que doem imensuravelmente.
Os raios de sol de verão invadiam toda a extensão amadeirada do lugar, cada ponto do espaço era preenchido por uma luz amarelada, quente e reconfortante. Meus cabelos estavam presos na forma de um rabo no alto de minha cabeça e a franja que eu fizera recentemente cobria um enorme arranhão que tinha arranjado tentando pular o muro da vizinha na esperança de pegar uma bola de tênis em seu quintal. Breanna lia um livro com páginas demais e seu semblante era calmo e confortável, diferente do meu que provavelmente parecia triste e aborrecido. Meus olhos iam de um lado ao outro do cômodo e eu não sabia o que esperar, tudo o que eu queria era estar longe dalí, mas para onde iria? Como iria? Tantas dúvidas me rodavam a cabeça e com apenas nove anos eu já me sentia infeliz por viver naquele lugar.
— Vamos — Breanna se pronunciou largando o livro de lado e vindo em minha direção. — Sei que você quer dizer alguma coisa... Pode dizer — ela segurou meu mindinho com o seu e deu um sorriso de canto a canto, mostrando que um dente seu ainda estava em falta, o que lhe deixava com uma janela na boca.
— Eu quero fugir daqui. — As palavras não pareciam tão verdadeiras e elas saíram trêmulas demais.
— Mas essa é a sua casa... sua família. Você não pode ir — Breanna balançou a cabeça para os lados com certa rapidez, ela visivelmente estava nervosa com algo.
— Claro que posso — soltei-me de sua mão e fui procurar o meu cofre que ficava debaixo de um fundo falso no fundo da casa na árvore. — Veja — balancei o porco de barro —, veja só como ele está pesado. Certeza que tenho dinheiro suficiente para nós duas, venha comigo Breanna... você sabe tão bem quanto eu que esse lugar não é para mim. Eu odeio essa casa e ninguém nela gosta de mim — solucei.
Era verdade. Eu era mais do que somente um incomodo ali, naquele lugar eu simplesmente era um fantasma, uma sombra de um alguém que deveria está para além de morta e aquilo lá incomodava. Incomodava a todos.
— Você não pode me deixar e eu não vou com você — Breanna disse secando minhas lágrimas com sua camiseta de unicórnio. — Esqueça essa ideia estúpida.
Esqueça essa ideia estúpida, esqueça. Por mais que todas essas coisas me tragam uma imensa tristeza eu me forço a pensar nelas, elas estão lá para me fazer lembrar quem eu sou todos os dias. Eu sou a sombra de um passado, a sombra de alguém que deveria estar para lá de morta e isso incomodava muitas pessoas agora. Você não pode esconder um segredo por muito tempo e logo eles não puderam me esconder por mais do que dez anos...
O desespero era visível e aproveitei seu momento de distração para descer do carro, ele logo perceberia a minha falta e seguiria para o trabalho. Eu sempre fugia antes de chegar na escola, eu precisava de uns minutos a sós comigo mesma e com a cidade para fingir estar bem, era extremamente difícil assumir uma outra postura antes de chegar à escola e era extremamente enfadonho ficar do mesmo jeito durante quatro horas, inerte, sorridente e basicamente sem opinião.
Parei em frente ao portão da escola, a construção era imponente e suas grades perfeitamente lustrosas mostravam o poder aquisitivo de todos que ali estudavam ou trabalhavam. Respirei fundo, inalando o vento carregado de perfumes de marca e outra coisas, antes de entrar no colégio. A falta de pessoas mostrava que eu havia chegado um tanto cedo e aquilo já me era de costume, sempre pontual ou adiantada, nunca atrasada e isso era um erro.
Passei os trinta minutos que se sucederam a espera do sinal para a primeira aula do dia, começávamos sempre com áreas destinadas a humanas e depois íamos para as exatas, o dia se tornava maçante toda vez que tínhamos aulas seguidas de qualquer matéria ou então educação física, uma matéria que quase ninguém fazia e que todo mundo gostava.
Caminhei, como sempre, de cabeça erguida para a sala de aula. Eu precisava manter a minha parte na aparência da família, precisava manter a pose de garota forte. E mais uma vez fui bombardeada com uma chuva de sinto muito e meus pêsames, todas aquelas pessoas que mal o conheciam, todas aquelas pessoas que mal me conheciam. Pessoas falsas e sem qualquer tipo de empatia verdadeira por qualquer um.
Eu acho que nunca mais falei nenhuma palavra na escola depois do que houve com o Alex. Era estranho conviver com um pedaço de você faltando, é só chegar naquela sala que tudo piora. A cadeira vazia ao meu lado, os olhares de pena, as vozes que murmuram coisas sobre aquele maldito dia, alguns chegam perto da verdade e outros jamais imaginariam o que realmente se passou por lá.
Talvez Breanna tivesse razão quando disse-me que tudo que tivesse de acontecer, aconteceria e eu jamais poderia fazer algo para impedir. Mas o Alex fez isso, ele me impediu de morrer e morreu em meu lugar.
Meus dedos batucavam na mesa com uma urgência grande demais e aquele som do relógio me lembrou o dia em que eu e Breanna ficamos contando os segundos para o aniversário de doze anos dela.
Os pais dela haviam viajado e a deixado com a vizinha, ela acha que eles esqueceram do aniversário dela. Eu acho que eles vão aparecer no último segundo para ficar com a filha, afinal é o que os pais fazem, certo?
— Não se iluda, eles não virão — ela mascava um chiclete amarelo com desleixo.
— Você sabe que eles virão, eles nunca perdem o seu aniversário, nunca nunquinha — estalei a mão na testa dela de uma forma carinhosa.
— O que acha de contarmos os segundos? Estou entediada.
— É uma boa ideia — dei de ombros indo buscar o relógio de parede que ficava na cozinha dela.
O barulho do relógio é inconfundível, aquele sonoro tic e tac que se repete vezes e vezes sem conta, aquele ponteiro que roda, roda e nunca cansa de rodar.
— Mil novecentos e trinta...
— Oito! — Pronunciei com entusiasmo.
— Não, você errou a conta! Vamos ter de começar tudo de novo — Breanna atirou o relógio na parede.
— Bre... fica cal — ela virou bruscamente me interrompendo.
— Eu não vou ficar calma, não quero ficar. Como eles esqueceram do meu aniversário? Nós sempre fazemos algo juntos, eles nunca me deixaram para trás.
— Eu sei que você não está com ele, mas você tem a mim... Sei que não é... — ela cortou-me novamente.
— Isso não é nada, eu quero os meus pais comigo. Você não sabe o que é passar o seu aniversário sozinha, você não sabe — os olhos azuis jeans dela estavam vermelhos e marejados.
— Eu sei sim Breanna, eu sempre soube o que é ficar sozinha no meu aniversário — respirei fundo segurando as lágrimas. — E se você acha que a minha companhia ainda não é nada eu vou embora e você vai ficar verdadeiramente sozinha.
Levantei do sofá e fui em direção a porta, uma pequena parte de mim precisava da Breanna, mas a outra parte estava extremamente ferida e o meu ego me disse que eu poderia ficar muito bem ferida e longe de todos. Saí pela porta e fiz o que era o mais prudente no momento, peguei a minha bicicleta azul néon e fui até o parque da cidade, um campo aberto com alguns bancos.
O lugar estava incrivelmente vazio e lá eu pude ficar até o anoitecer com os meus pensamentos sobre quem eu era e o que eu ainda fazia sentada ali sozinha.
As mãos da professora caem com um baque estridente em minha mesa e eu não consigo evitar pular de susto, meus olhos andam pela sala a procura de mais alguém, porém tudo está vazio e a única coisa que vejo são os olhos castanhos da professora que me encara com certa urgência.
— Está tudo bem com você querida? — As mãos finas e sujas de giz vão até as minhas bochechas para limpar algumas lágrimas que escorriam solitárias aqui e ali. — Você parece triste.
— Eu estou bem — levanto de supetão assustando a professora e pego meu material correndo meio sem jeito pela porta de saída.
Meus devaneios estão cada vez piores, eu me perco em pensamentos e lembranças e logo não sei mais onde estou ou quando estou. Tudo parece tão relativo ao meu estado emocional.
Paro em meio a multidão de armários e me encosto em um aleatoriamente, minhas costas vão escorregando sobre o metal e logo me vejo sentada a encarar a parede da frente. Eu preciso de ajuda.
Eu sempre precisei de ajuda, mas matei quem quis me ajudar.
— Você pode sair da frente do meu armário? — Uma voz grossa e um tanto suave falou.
Sem sequer pronunciar palavra alguma eu me levantei e comecei a caminhar para a minha próxima aula que por sinal eu já estava muitíssima atrasada.
— Ei! Garota! — o garoto do armário começou a me chamar e tudo o que eu fiz foi virar a cabeça em sua direção para o ver segurar um dos meus cadernos que sem que eu percebesse havia caído de dentro da minha mochila.
Voltei caminhando ainda de cabeça erguida, mas sem fazer contato visual com o garoto, peguei meu caderno em suas mãos e voltei a fazer o meu percurso até o laboratório de química, minhas pernas estavam fracas e eu comecei a me segurar nos armários até conseguir agarrar a maçaneta da sala, entrei tropeçando no batente acabando por chamar a atenção de toda a sala e também da professora que já não gostava muito de mim.
— Onde esteve? — Ela sequer olhou para mim, apenas anotou algo em seu caderno e voltou a olhar o quadro negro.
— Eu estava com a professora de literatura, acabei me distraindo e ela pediu para que eu ficasse para uma conversa — sentei-me na única cadeira disponível.
— Vejamos bem, você fala e como a sua voz é irritante — ela suspirou me dando o kit para a experiência. — Da próxima evite atrasos.
Balancei a cabeça afirmativamente e começamos a fazer o que era pedido.
Em algum momento eu me distraí o suficiente para derrubar ácido em minha perna, a professora veio correndo e jogou uma base para neutralizar o efeito do ácido. Uma enfermeira foi chamada e logo eu estava na enfermaria com a perna esquerda da minha calça jeans rasgada e com uma queimadura um tanto feia na coxa.
— Eu já mandei ligarem para os seus pais e eles vão levar você para o hospital de queimaduras da cidade, fique tranquila. Você ficará bem.
Se Breanna estivesse aqui ela provavelmente riria da situação e seria mandada para fora da sala, da enfermaria e da escola.
Sinto muito a falta da Breanna e do Alex.
Fale com o autor