Em Segredo
1 Em segredo
Notas iniciais
Fitei mais uma vez aquele reflexo triste. Acompanhei a trajetória daquela pequena lágrima indesejada, dos meus olhos tristes até a minha blusa. Eu havia levado horas para construir minha máscara, agora ela se desmanchava.
Abri a torneira e senti a água fria por entre meus dedos, num impulso joguei toda a água que pude sobre mim. Esfreguei minha mão no meu rosto e bati a cabeça contra o espelho. Como uma louca! Afinal, eu ERA louca. Louca por ele.
Agora era impossível controlar qualquer coisa. Tentei me apoiar na pia enquanto meus joelhos cediam. Sentei no chão molhado e apoiei a cabeça nos joelhos. Agora não havia mais jeito. Era impossível controlar os pensamentos. Por mais que as lembranças me torturassem.
Eu o amei desde a primeira vez que eu o vi. Como então me culpar? Como então culpá-la? O rapaz mais apaixonante que poderia existir. Ainda posso vê-lo passar a mão pelos cabelos e sorrir no primeiro dia em que o notei.
Ele nunca foi meu. Todo esse tempo tudo não passou de um sonho. Como pude ser tão idiota? Um amor não correspondido. Platônico. Impossível. Como alguém como ele poderia reparar em mim? Como alguém como ele poderia me amar? Me amar como mulher, e não como uma amiga idiota.
A música que tocava já havia sido a minha preferida, e por mais estranho que pareça, eu não me importava em ouvi-la e chorar pensando nele. De alguma forma o meu coração parecia mais vivo, o fio de esperança de um coração apaixonado percorria pelo meu corpo. Mas que iludida!
Eu sabia o quanto isso era errado, como queria parar de amá-lo! Eu gritei de dor. Agora aquela maldita melodia me rasgava ao meio, doía, queimava! Me fazia chorar! Um choro terrível.
- Você está passando mal?
- O que é que ela têm?
- Eu vou chamar alguém.
- NÃO! – levantei a cabeça, meio culpada pelo grito. Vi duas garotas olhando pra mim preocupadas. Duas garotas bonitas, como eu nunca seria. Quantos elas já teriam beijado naquela noite? Quantas garotas elas já haviam feito sofrer?
- Por favor, não chame ninguém, eu estou... Eu só estou... Apaixonada.
- Como?
- Ela é louca, deixa ela aí.
Abaixei novamente a cabeça. Elas estavam certas. Era o que todos pensavam.
Cabelo molhado grudado no rosto, totalmente desarrumado. Nariz e olhos vermelhos sujos de preto, boca manchada de rosa. Roupa encharcada e amarrotada. Derrotada. A face do desespero.
Essa era eu. Totalmente perdida em pensamentos.
Eram dez horas da noite quando eu recebi uma ligação. Aquela noite! Não consegui dormir depois daquelas palavras.
“Desculpe amiga, eu fiquei com ele. Me desculpe, eu vou entender se nunca mais quiser falar comigo.”
As lágrimas vieram, e eu as deixei rolarem pela minha face. Silenciosas. Não deixei qualquer sinal que a fizesse perceber o meu sofrimento. Eu menti. Eu menti e disse que não me importava. Mas que mentira mais absurda! Eu o amava! Como ela pôde acreditar?
Uma tristeza profunda tomou conta de mim e eu passei aquela noite em claro. Chorando.
Por dois anos eu o amei da forma mais sincera possível. Eu daria tudo por ele e fiz de tudo para conquistar sua amizade. Até que consegui. Por dois anos eu o vi jogar. Ele era tão talentoso! Nunca deixei de torcer por ele. E nunca deixarei.Guardei sua foto e a olhei milhões de vezes. Eu queria, queria tanto que ele olhasse pra mim do mesmo jeito! Em todos os meus sonhos, em todos os meus desejos, em todos os meus pensamentos. Eu o amava tanto!
Bastou segundos para ela conquistá-lo. Bastou horas para ele amá-la. Bastou sete dias para eles namorarem. Bastou uma noite para o desespero tomar conta de mim. Aquela noite. Aquela maldita noite. Aquela maldita festa!
Hoje era o sétimo dia. Ela havia acabado de aceitar. Eles estavam se beijando. Estavam felizes. Por que eu estava ali? O que ela tem que eu não tenho? Tudo! Ela tem ele! Ela tem tudo! E eu... Eu só tenho esse vazio no peito, essa dor! Esse choro invejoso!
Isso não era injusto? Não! Isso é amor! A droga do amor!
Eu me apaixonei pela pessoa errada mais uma vez. Quando isso iria mudar? Quando aquilo iria parar?
Dessa vez era tão pior... Eu amava o namorado de uma das minhas melhores amigas. Eu me odiava por isso.
E amava a amiga que havia me feito sofrer tanto. Eu queria o bem dos dois. Eu queria esquecer aquele sentimento. Queria sair dali e agarrar o primeiro que passasse! Como queria poder fazer isso! Provar a todos que eu havia esquecido aquele garoto! Mas do que adiantava? Provar a todos uma mentira e ferir ainda mais a mim? Eu era fraca. Talvez a garota mais fraca que já existiu. Qualquer uma no meu lugar estaria lá fora se divertindo. Eu era tão fraca que não podia aceitar ser feliz?
Respirei fundo e me levantei. Olhei mais uma vez aquela reflexo triste. Agora quase monstruoso. Que vontade de quebrá-lo! Deixá-lo como o meu coração.
Apoiado na pia, eu juntei as forças que me restavam. A dor era tão grande. E eu só conseguia me perguntar por que fui ficar assim. O que diriam minhas amigas se me vissem ali? Eu estava com medo.
Eu não tinha o direito de sofrer por ele, então por que eu continuava a chorar daquele jeito?
- É ele não é?
Me virei depressa. Uma das minhas amigas estava em frente à porta. Na verdade, a melhor de todas as minhas amigas. Ela sabia. Era tão visível assim? Olhei mais uma vez o espelho. Era. Totalmente visível. Qualquer um que me conhecesse saberia exatamente o motivo de eu estar naquele estado. Mais eu não precisava de conselhos, não precisava de perguntas.
Ela veio até mim e me abraçou. Com as mãos cobrindo o rosto eu chorei.
- Não conta pra ninguém. – falei entre os soluços.
- Eu não vou contar.
Eu deveria sofrer em segredo. Era o que eu tinha feito até ali, e continuaria fazendo. Era a unica alternativa. Mas... Nem de longe era a solução.
Para tudo há solução, exceto para a morte.
O meu coração estava morto.
Qual seria a solução então?
A própria morte?
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