Em Queda
15 14º
Notas iniciais
ALICE
Eu podia ter perguntado quem era aquela fulana ou por que ela estava chamando o Eathan de amor. Podia ter perguntado o que ela estava fazendo ali ou por que estava sorrindo daquele jeito assanhado. Mas não fiz. Não perguntei. Fiquei parada, esperando a reação do Eathan.
– Ahn, oi. — disse ele meio inquieto.
– Scar, essa é a famosa Alice, protegida do Eathan. — apresentou Mason empolgado. — Alice, essa é a Scarlet, uma grande amiga.
– Ai até que enfim. Estava ansiosa para te conhecer. — disse a tal Scarlet animada. — Ouvi muito a seu respeito.
– Infelizmente eu não posso dizer a mesma coisa. — comentei com um certo desprezo velado.
– Ah, tudo bem. Vocês vão ter bastante tempo para se conhecer durante a viagem. — disse Mason.
– Isso mesmo, florzinha. Aposto que vamos ser grandes amigas. — eu estava começando a achar que aquele sorriso era colado no rosto dela.
– Duvido muito. — murmurei para mim mesma.
– É melhor irmos logo, não? — sugeriu Eathan impaciente.
– Claro, amor. — concordou Scarlet lançando um olhar cheio de insinuações. Ela era um pouco mais alta que eu, o que pode ser culpa da bota de salto que ela usava. Seu cabelo era loiro, em um tom escuro e cortado chanel. Tinha olhos azuis, cor de anil.
– Afinal por que resolveu se meter nisso, Scarlet? — quis saber Eathan.
– Você sabe que eu adoro uma aventura. Ainda mais se for para arranjar briga com o Rael. — respondeu ela com o mesmo sorriso irritantemente inabalável. — Além do mais, é sempre um prazer te ajudar.
Tive que me esforçar para permanecer calada e neutra. Eathan fez um barulho estranho como um grunhido misturado com suspiro. Mason deu uma risadinha e foi para o carro.
– Fez um ótimo trabalho, Mase. — comentou Scarlet cheia de charme. — Aposto que não foi nada fácil arranjar uma picape cabine dupla dessas.
– Não foi mesmo. — ele concordou.
– Podia ter arranjado algo mais discreto, né? Um Toyota Tundra azul não é exatamente um carro discreto. — disse Eathan abrindo a porta do carona para mim.
– Não, mas é lindo. — contrapôs Scarlet apoiando uma das mãos no ombro do Eathan.
Ele desvencilhou-se dela discretamente fechando a porta do carro quando entrei. Scarlet sentou-se no banco de trás e chamou Eathan que, felizmente, se recusou a sentar com ela e foi para a caçamba.
– E lá vamos nós. — disse Mason dando a partida no carro.
Saímos do hotel antes do dia amanhecer. Mason e Scarlet conversavam animadamente sobre algo que fiz questão de ignorar. Talvez fosse só implicância minha, mas eu realmente não gostava da Scarlet. Na verdade a minha parte emocional me dizia que eu estava com ciúme, mas a minha parte racional descartava a ideia. Não podia ter ciúme do Eathan, afinal nós não tínhamos nada, certo? Certo? E aquelas coisas que ele me disse? E aqueles beijos?
Eu me sentia ligada a ele de vários jeitos diferente. Eu o sentia presente em mim o tempo todo desde o que acontecera na minha casa. De repente lembrei-me do Mason dizendo que o Eathan havia me dado metade dele e que agora havia uma ligação entre nós. Mas o que exatamente isso queria dizer?
A viagem durou bastante tempo. Mais do que eu gostaria. Paramos algumas vezes para eu ir ao banheiro, para o Mason comprar chocolate apesar do Eathan ter dito que eles não precisavam comer. A parte boa era que ele acabava comprando algo para eu comer também. Os meninos se revezaram na direção algumas vezes. Toda vez que o Eathan estava dirigindo Scarlet se debruçava sobre o banco para ficar perto dele, puxando assunto.
Cada vez nos afastávamos mais da civilização. Primeiro as cidades foram ficando menores, depois fomos para o campo (ou algo assim), até chegarmos em uma floresta. Abandonamos o Toyota e continuamos o caminho a pé por uma trilha estreita no meio do mato. Mason ia na frente nos guiando e Scarlet ao seu lado. Logo depois Eathan, e por último eu. Mason carregava uma adaga igual a do Rael, com o mesmo tom cintilante de azul. Scarlet levava um arco e flecha da mesma cor. Eathan desacelerou o passo para poder me acompanhar.
– Essa cara emburrada é por causa da Scarlet? — perguntou ele meio receoso.
– O que você acha? — revidei sem nem olha-lo.
– Acho que você fica ainda mais linda com ciúme. — comentou ele com um pequeno sorriso.
– Ótimo, que bom que está se divertindo. — ironizei.
– Ei, ei. — ele segurou meu braço fazendo-me parar de frente para ele. — Não tem por que ter ciúme, linda. Eu e a Scarlet não temos nada. Somos só amigos. E eu não gosto de loiras. — ele deu um sorriso de lado.
– Ah, fala sério, Eathan. — resmunguei. — Ela é muito mais bonita que eu. E não é uma humana indefesa e fraca.
– Sem chance. — contrapôs ele sério. — Ela não chega nem aos seus pés. E você não é fraca e indefesa. — ele segurou meu rosto com as duas mãos aproximando-nos. — Nem foi por ela que enfrentei o Rael ou desafiei as leis divinas. Não foi ela que eu trouxe do outro lado e dei metade de mim. E não é ela quem tem meu coração. — ele fez uma pausa me encarando intensamente com seus olhos cor de ônix. — É você.
Eu não sabia o que dizer. Não conseguia pensar em nada. Então o beijei. Qualquer dúvida, insegurança ou ciúme se desfizeram ao toque doce dos seus lábios nos meus, quentes e suaves, revirando tudo dentro de mim.
Ele encerrou o beijo e um sorriso cúmplice se instalou. Voltamos a andar,a gora de mãos dadas. Scarlet e Mason estavam a uns seis metros de nós. Andamos em silêncio por um tempo até eu ver a adaga presa a sua cintura reluzir.
– O que são essas armas? — perguntei-lhe apontando para a adaga dele que era igual a do Mason e a do Rael.
– São as únicas coisas que não nos deixa der imortais. — disse ele.
– Quer dizer que essas coisas servem para matar anjos?
– Anjos, caídos e coisas desse tipo.
– Por que você, Mason e Rael tem adagas e a Scarlet tem um arco e flecha? — quis saber curiosa.
– Porque guardiões tem só adagas. Arcanjos, como a Scarlet, podem escolher entre arco e flecha ou espada. — explicou.
– A Scarlet é um Arcanjo? — estava chocada.
– É sim. Pelo menos por enquanto. Talvez depois dessa história toda com o Rael isso mude.
– Para melhor ou para pior? — perguntei um pouco insegura.
– Para pior. — disse ele com um sorriso triste. — É sempre para pior.
– Ei! — chamou Mason. Ele e Scarlet haviam parado e estavam nos esperando.
– O que foi? — perguntou Eathan alerta olhando ao redor quando paramos ao lado deles.
– Sente isso? — perguntou Mason. — Caídos.
– E não são só dois ou três. — completou Scarlet.
– Se podemos senti-los significa que se eles se concentrarem também vão poder nos sentir. — disse Eathan pensativo.
– O que faremos então? — quis saber tentando me manter firme.
– Vamos fazer um cerco de energia para confundi-los. — explicou Eathan. — Eles vão sair para ver o que está acontecendo.
– Aí nós os pegamos separadamente. — completou Mason animado com a ideia. — Depois vamos atrás do Rael.
– Perfeito. — concordou Scarlet mais séria do que eu já a havia visto desde que a conheci. — Daqui a pouco vai estar completamente escuro.
– Certo. Vamos esperar até a noite cair por completo, aí começamos. — impetrou Eathan.
– Que os Arcanjos tenham piedade, porque eu não terei. — disse Mason com um sorriso fugaz.
– Eu sou Arcanjo. — contrapôs Scarlet com um sorriso zombeteiro. — E não terei piedade.
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