Em Outra Vida
1 "In Another Life" - The Veronicas
Nunca me esqueci da primeira vez em que o vi.
Ele tinha acabado de se mudar para a minha rua. O caminhão de mudanças estava parado já há algum tempo ali, na frente da casa vizinha à minha.
Eu estava jogando com a minha bola vermelha no jardim, absorta em minhas brincadeiras de criança. Foi então que, de repente, minha bola rolou para o gramado da casa vizinha.
A bola foi interceptada por um menino que parecia ter, mais ou menos, a mesma idade que eu.
Na época, eu tinha 6 anos.
Ele tinha 7.
Ele segurou minha bola, que havia rolado para junto dele.
Homens carregavam caixas e móveis para dentro da casa.
Um casal, que coordenava a mudança, gritava muito. Com os carregadores, entre si... Pareciam brigar bastante; o que, aliás, já estava chamando a atenção da vizinhança para esses novos e barulhentos vizinhos.
Esse menino estava sentado sobre um caixote. Observava a tudo, mas não parecia realmente enxergar qualquer coisa. Na verdade, ele parecia olhar para dentro de si mesmo. Havia, em seu rosto ainda infantil, uma expressão séria demais.
Adulta demais.
Eu me aproximei, sorridente, estendendo meus pequenos braços e pedindo, com esse gesto, que ele me devolvesse minha bola.
Ele me encarou e foi a primeira vez que vi aquela olhar tão próprio dele.
Um olhar cheio de ódio.
E, em uma reação tão furiosa quanto seu olhar, ele atirou a bola com toda a força, violentamente, para o meio da rua.
Eu era ainda muito menina, incapaz de compreender um mundo que era tão diferente do meu. Não fui capaz de reagir. Contudo, mesmo apesar da ingenuidade própria da minha idade, eu percebi que não deveria brigar com ele. Talvez, até mesmo porque eu houvesse notado que era isso que ele queria. Os olhos raivosos pareciam me pedir para que o agredisse ou algo do tipo. E, possivelmente, por esse motivo, eu fui capaz apenas de olhar para ele com pena.
A piedade em uma criança é um dos mais bonitos sentimentos que pode existir. Ela não demonstra pena para se sentir superior ou melhor que outra pessoa. Uma criança, quando sente pena, age assim apenas porque se condói daquele que não pode ser alegre e feliz como ela. É um sentimento verdadeiramente solidário.
Na segunda vez em que o vi, ele estava brincando com carrinhos de brinquedo em frente à sua casa. De dentro da residência, era possível ouvir os gritos com os quais os vizinhos já começavam a se acostumar, tamanha a frequência com que ocorriam.
O seu rosto de menino mantinha as feições zangadas e não creio que o ideal seja dizer que ele brincava. Havia uma fúria incontida em seus gestos, e ele apenas fazia com que seus carrinhos se chocassem com força, um contra o outro. Eu já tinha visto meus coleguinhas brincando na escola e já sabia muito bem o quanto os meninos gostavam de destruir seus brinquedos em meio à diversão.
Contudo, ali, era diferente. Meu pequeno vizinho não brincava, não se divertia. Apenas destruía. Uma ânsia desenfreada por apenas quebrar. Quebrar em pedaços cada vez menores. Até não restar mais nada.
Fiquei ali, observando ele concluir esse processo. Eu continuava sem compreender, mas não conseguia simplesmente ignorá-lo. Existia tanta dor naqueles olhos verdes, que eu não conseguia apenas ir embora e esquecer o que via.
Quando ele terminou, eu me aproximei. Estranho, eu não sentia medo. Não caminhei temerosa e não sei por que me julgava tão segura.
Ele notou minha aproximação. A essa altura, os pedaços dos carrinhos jaziam soltos pelo chão e ele mantinha aquele olhar perdido no nada. Só voltou seus olhos claros para mim quando percebeu que eu me ajoelhava ao seu lado.
Sem dizer qualquer coisa, eu comecei a catar os pedaços dos brinquedos e, com uma naturalidade inexplicável, eu comecei a tentar encaixar as peças. Era óbvio que eu não sabia exatamente o que fazia, apenas imitava o que já tinha visto meu pai fazer algumas vezes. Quando algum brinquedo meu quebrava, ele tentava consertar, buscava encaixar as partes, fazia o possível para salvar todos os meus brinquedinhos. Toda vez que ele conseguia, eu ficava muito feliz.
Acredito que eu estivesse tentando alcançar isso.
Tentava arrancar um sorriso daquele menino.
Ele nada disse. Observou, com os olhos muito vazios, o que eu fazia. Não se moveu de seu lugar; nem para ajudar, nem para atrapalhar. E eu devo ter ficado ali muito tempo, até que finalmente consegui montar algo que lembrava muito remotamente o brinquedo original.
Ergui o carrinho, orgulhosa. Mostrei a ele, não sei buscando exatamente o que com isso. Ele ficou imóvel por alguns segundos, daquela forma dele, inteiramente apático.
Eu estava prestes a desistir, quando enfim ele moveu um braço. Tomou o carrinho em suas próprias mãos e ficou olhando para ele, parecendo enxergar muito mais do que havia ali.
Lembro-me de me sentir ansiosa, com algum receio de que ele jogasse o brinquedo ao chão novamente. Entretanto, antes que qualquer outra situação se concretizasse, ouvi minha mãe me chamando para ir lanchar. Eu sorri para o menino, fiz um breve gesto de despedida e corri para minha casa. Lá dentro, no entanto, eu não me demorei nada. Foi só o tempo de ir até a cozinha, pegar o sanduíche que minha mãe havia me preparado e voltar correndo para fora, outra vez.
O meu vizinho continuava exatamente no mesmo lugar e mantinha o carrinho que eu montara sobre seu colo. Permanecia imóvel, calado, com os olhos presos a um horizonte distante. Então, eu me sentei ao seu lado, o que despertou sua atenção para mim. Ele virou o rosto para, pela primeira vez, esboçar alguma reação. Havia certa surpresa por me ver ali de novo. Cheia de contentamento, eu parti meu sanduíche ao meio e entreguei a ele uma das metades.
Foi a primeira vez que ele sorriu para mim.
Ficamos amigos a partir daí.
É muito fácil nascer amizade entre duas crianças. É espontâneo, é um laço que se cria sem grandes complicações. Contudo, entre nós dois, não foi tão simples.
Meu pequeno amigo era arredio. Tinha muitos momentos de solidão que, mesmo tão nova, fui aprendendo a respeitar. Também não foi fácil ganhar sua confiança, mas, aos poucos, ele foi compreendendo que poderia contar comigo, sempre que precisasse. E eu sei o quanto isso era importante para ele.
Logo, nossa amizade não só cresceu, mas se intensificou. Éramos muito próximos, e não éramos mais vistos longe um do outro.
O meu amiguinho não gostava de conversar muito sobre o que se passava em sua casa. O máximo que eu consegui saber era que seus pais brigavam muito, mas isso não era segredo para ninguém daquela rua. Por isso, nosso tempo juntos era preenchido apenas por brincadeiras, e todo tipo de lazer que estivesse ao nosso alcance.
Íamos juntos à loja de gibis, líamos as últimas edições juntos, gastávamos nossa mesada com chicletes e balas, corríamos pela rua...
Esse era o tipo de brincadeira preferido dele. Qualquer um que envolvesse alguma espécie de corrida. Podia ser pique-e-pega, polícia-e-ladrão, não importava. Contanto que ele pudesse correr, meu amigo ficava satisfeito. Na verdade, às vezes, sem propósito ou pretexto algum, nós simplesmente corríamos. Era quando eu via que ele era mais feliz.
Entretanto, nem tudo era maravilhoso. Havia vezes em que eu me zangava. Sem qualquer motivo aparente, ele sentia vontade de destruir, de quebrar. Uma vez, quando ele tinha 9 anos e eu 8, andávamos de bicicleta pela rua. De repente, sem qualquer justificativa para esse ato, ele parou, pegou uma pedra, atirou contra a vidraça de uma loja para depois subir de volta à bicicleta e pedalar rápido para longe dali. Eu fiquei brava, sabia que aquilo era errado, briguei muito com ele. Meu amigo apenas disse que era divertido de se fazer aquilo, que eu estava exagerando. Fiquei um dia sem falar com ele, ao término do qual ele apareceu, com uma margarida na mão, arrancada de algum jardim. Pediu-me desculpas; eu aceitei. Eu gostava muito dele e um dia sem sua companhia já me fazia sentir muito a sua falta.
Crescemos assim, tão próximos quanto era possível para duas crianças. Meus pais chegaram a ficar preocupados. Começaram a achar que essa amizade me era um tanto prejudicial. Eu não brincava com outras crianças, porque meu amigo não se dava bem com nenhuma outra pessoa da nossa rua. Na realidade, ele não se dava bem com ninguém; apenas comigo. E não posso negar, isso me fazia sentir uma pontinha de vaidade, por me saber a única merecedora de sua amizade.
Meus pais tentaram me afastar um pouco do meu possessivo amigo, mas não puderam ir longe com isso. Toda vez que me impediam de vê-lo, eu chorava, esperneava. Terminaram compreendendo que não poderiam ir contra a minha natureza. E minha natureza estava já ligada à dele.
O meu amigo não gostava dos meus pais. Nunca fez questão de esconder isso de mim. Eu me magoava quando ele dizia isso, mas não falava nada. Eu não gostava de puxar assuntos que o deixassem bravo, chateado, zangado. Eu gostava mesmo era quando ele sorria, quando me falava dos seus sonhos. Ele queria ser astronauta. Às vezes, à noite, subíamos na casa de árvore que meu pai tinha construído para mim no quintal de nossa casa e nos deitávamos lá. O papai nunca tinha terminado a casinha de fato e ficou faltando construir o teto. Eu não me importava, tinha gostado do resultado. Era muito gostoso deitar ali e ficar vendo o céu inteiro acima de nós.
Eu e ele nos deitávamos lá e ficávamos observando as estrelas. E ele sempre me dizia que, assim que pudesse, entraria em um foguete e iria para muito, muito longe dali. Longe de tudo. Longe de todos.
Nessas horas, eu perguntava se ele também ficaria longe de mim; ao que ele sempre me respondia que não, porque voltaria para me buscar. Então, sorríamos um para o outro, entrelaçávamos nossas mãos e ficávamos sonhando acordados com o dia em que fugiríamos os dois para as estrelas.
Um dia, eu me lembro bem, ele chorou. Eu nunca o tinha visto chorando antes.
Eu tinha saído de casa para me encontrar com ele. Tínhamos combinado de ir em nossas bicicletas até a loja de gibis. Eu fiquei parada em frente à árvore que existia entre nossas casas. Não podia tocar à campainha ou bater à porta da casa dele; meu amigo tinha me proibido de fazer isso. Por sinal, ele nunca me chamou para entrar na casa dele. Eu entendia por quê; ele tinha vergonha. Seus pais discutiam na frente de qualquer pessoa e também davam-lhe broncas e sermões sem se preocupar com quem estivesse por perto. E ele não queria que eu presenciasse essas cenas. Então, eu nunca entrava na casa dele, nem ele na minha. Nosso mundo, dizia ele, existia além daquelas portas. Nosso mundo era todo o resto.
Dessa vez, ele demorou mais que o normal. Quando finalmente saiu, eu vi seus olhos esverdeados cheios d’água. Ele ainda tentou disfarçar um pouco, mas não conseguiu. Não olhava para mim, mantinha o olhar baixo, fixo no chão. Passou por mim, muito sério e, sem dizer nada, montou em sua bicicleta e partiu. Entendi como sendo um sinal para que eu fosse atrás.
Pedalamos muito, por muito tempo. Não falamos sobre nada, apenas pedalamos durante todo o dia, por rotas infindáveis, apenas sentindo o vento deslizando pelos nossos cabelos. Eu já o conhecia bem o bastante e sabia que, nessas horas, meu silêncio o ajudava. Ele precisava apenas da minha companhia, de saber que eu estava lá para ele.
Já à noitinha, eu comecei a ficar preocupada. Meus pais não gostavam que eu ficasse até tarde na rua. Naquela época, eu contava 9 anos; ele tinha 10. Meu amigo notou meu ar de preocupação e, sem dizer qualquer palavra, rumou para voltarmos às nossas casas.
Quando chegamos, eu desci em frente à minha residência e achava que, dessa vez, como já ocorrera em outras ocasiões, não diríamos sequer uma frase de despedida.
Mas me enganei.
Meu amigo segurou a minha mão, antes que eu entrasse. Olhou profundamente nos meus olhos e me disse que, um dia, ele se casaria comigo.
Mesmo ainda menina, aquelas palavras entraram fundo no meu coração. Encontraram terreno propício para germinar e crescer e tornaram-se uma das mais doces recordações de minha vida.
Não que eu tivesse levado isso tão a sério, mas até pela nossa história, pela nossa proximidade, não teria como ser diferente. Éramos únicos um para o outro. À medida que íamos crescendo, nosso futuro juntos, inteiramente entrelaçado, tornava-se cada vez mais concreto e palpável diante dos nossos olhos.
Eu existia para ele, assim como acreditava que ele existia para mim. Sonhávamos juntos, ainda na minha casa de árvore. Ele seria astronauta, eu iria com ele para onde ele quisesse. O universo era o limite...
Foi aos 16 anos que eu compreendi o que era estar realmente apaixonada. Era engraçado ter falado desde sempre, com naturalidade, sobre uma vida juntos, mas só então descobrir o que era o amor que nos unia.
Eu não declarei meu sentimento, o que tínhamos ainda era apenas amizade e eu tinha medo de revelar o que se passava comigo e, desse modo, afastá-lo de mim. Mas meu amigo tinha crescido e, aos 17 anos, já chamava alguma atenção. As garotas da rua agora o notavam e sorriam para ele, acenavam, buscavam aproximar-se.
Isso me enfurecia, mas eu calava todo o meu ciúme em meu peito.
Um dia, no entanto, não pude me conter. Eu tinha 17 anos, ele contava agora 18. Uma garota entregou a ele um convite para uma festa, na minha frente. Nós estávamos tomando um sorvete, recostados em nossas bicicletas e ela simplesmente apareceu, convidou a ele e me ignorou solenemente. E ainda fez questão de obter uma resposta do meu amigo ali, na hora, querendo saber se ele iria ou não.
Meu amigo olhou para o convite, deu de ombros e disse que tudo bem, ele iria. A garota, parecendo satisfeita, saiu correndo dali e foi dar alguns saltinhos e gritinhos junto das amigas que, mais adiante, pareciam esperá-la. Depois que elas deixaram o local, foi a minha vez de pegar minha bicicleta e, de modo que ficasse bem claro, saí de lá, enraivecida.
Ele me ligou algumas vezes naquele dia, mas não atendi. Estava zangada, eu me sentia traída; mas, ao mesmo tempo, não me via no direito de cobrar qualquer coisa.
À noite, já mais calma, tentei retornar as ligações dele. Ele não me atendeu. Fiquei chateada, mas imaginava que deveria haver alguma explicação para isso. Queria acreditar que houvesse algum bom motivo para ele não me atender e fazia o possível para evitar de pensar que minhas ligações eram ignoradas porque ele tivesse ido para a tal festa.
Fiquei à janela do meu quarto até bem tarde. Quando finalmente vi o meu amigo aparecendo na rua, indo para casa, não perdi tempo. Fui ao encontro dele. Revoltada.
Perguntei aonde ele tinha ido. Quis saber com quem ele estava. Eu chorava de raiva, de tristeza, de amor. Um amor que eu amargurava não ser correspondido.
Ele não disse nada enquanto eu despejava essa torrente de emoções. Quando finalmente me acalmei, ele fez uma carícia nos meus cabelos e me revelou uma margarida que ele trazia na mão direita, na qual eu não havia reparado. Entregou a flor para mim, depois olhou-me com ternura e me disse que eu não deveria duvidar nunca. Um dia, ele faria de mim sua esposa. Eu sorri, reconhecendo nessas palavras a recordação de uma memória tão doce e uma promessa tão forte.
Nessa noite, nós nos beijamos pela primeira vez.
E, como já fazia algum tempo que não ocorria, fomos para a minha velha casa de árvore. Estávamos grandes demais para ela, mas não importava. A lembrança de noites queridas morava ali e revivê-las era um desejo de ambos.
Naquela noite, ele esteve mais calado que o normal. Olhava para as estrelas de forma compenetrada, mais que o usual. E eu não conseguia parar de falar. Eu dizia que o amava. Que seríamos felizes. Que estava estudando para o vestibular. Que ainda estava em dúvida sobre que curso fazer, porque minha mãe dizia Direito, meu pai dizia Administração, eu pensava em Jornalismo... Por várias vezes, naquela noite, eu entrelaçava meus dedos mais fortemente aos dele, como se buscasse assim trazê-lo de volta. Afinal, eu sentia... Ele estava longe. Provavelmente, nem me ouvia. Mas eu não conseguia parar de tagarelar, era talvez uma atitude desesperada de não perdê-lo, de evitar a todo custo que ele se fosse. Mas, a essa altura, ele já escorria por meus dedos. Ele partia e não havia nada que eu pudesse fazer para retê-lo ali.
Antes de nos despedirmos, trocamos um apaixonado beijo de boa noite. Foi um beijo intenso, eu me recordo. Havia nele muito mais que a despedida de uma noite. E, como se eu percebesse isso, ao partirmos esse beijo, eu olhei fixamente para ele e disse que não se esquecesse. Por mais longe que ele fosse, por mais distante que ele estivesse... Que quando ele enfim alcançasse as estrelas... Que ele voltasse para me buscar.
No dia seguinte, ele tinha partido.
Não deixou recado, não avisou a ninguém. Simplesmente foi embora. Juntou alguns poucos pertences e abandonou sua casa, sua família, sua vida...
... e eu.
Chorei muito. A falta que eu senti dele foi gigantesca; era como se tivessem arrancado um pedaço de mim. Meus pais tentaram me consolar, minha mãe tentou ter comigo uma conversa de mulher para mulher, explicando o funcionamento da cabeça dos homens...
Porém, nada do que ela me dizia fazia sentido. O meu amigo, o meu breve namorado, tinha partido meu coração e, por mais que minha mãe me dissesse que isso acontecia, que era normal, que eu iria superar... Por mais que ela me garantisse que eu sobreviveria... Eu não queria acreditar.
Todavia, foi o que aconteceu.
Eu superei.
Mas não foi fácil. A partida do meu namorado coincidiu com uma época dificílima na minha vida. Eu estava em crise com o duro período do vestibular, meus pais começaram a brigar e cogitaram um divórcio... Era tudo tão estressante, tão tenso...
E eu não tinha ninguém para me apoiar.
Durante toda a minha vida, desde que eu me lembrava, ele estivera lá. Ou melhor, eu estivera lá por ele. Mas agora, quando, pela primeira vez, eu precisava que ele estivesse ali por mim... Não havia ninguém.
Há períodos na vida que já são naturalmente difíceis de se passar. E, quando você tem de fazê-lo sozinha, é muito mais doloroso.
Porém, eu sobrevivi. Superei.
Com o tempo, fui aprendendo a viver sem ele. Fui descobrindo que era possível não ficar pendurada no telefone por horas, conversando com ele. E, com o passar dos anos, fui até mesmo deixando de sonhar com ele.
E então, 7 anos depois, quando eu já estava formada em Jornalismo e trabalhando em um grande jornal da cidade... Quando minha vida estava repleta de alegrias, felicidades, amigos, pessoas queridas, bons momentos, bons planos, boas aspirações para o futuro... Ele reapareceu.
Foi numa noite chuvosa. Eu tinha me esquecido do guarda-chuva naquele dia e, como a garagem do meu prédio não era coberta, acabei me molhando consideravelmente.
Entrei no elevador ensopada e sentia frio. Queria entrar logo no meu apartamento quentinho, tomar um banho morno, pedir comida chinesa pelo telefone e assistir a algum filme antigo debaixo de um cobertor gostoso na minha cama.
Estava absorta nesses pensamentos aconchegantes, que aninhavam minha alma naquele momento, quando a porta do elevador se abriu. Eu saí, procurando a chave da porta em minha bolsa. E assim que ergui os olhos, eu o vi.
Ele estava sentado junto à porta. Assim que me percebeu ali, levantou-se me olhando com alguma admiração. Estávamos diferentes, era notável. Não éramos mais aqueles dois adolescentes, tampouco as duas crianças que fomos um dia.
Meu amigo, meu breve namorado, era agora um homem feito. Bonito, ele tinha agora um charme que era simplesmente irresistível. Ele trazia uma margarida nas mãos. Eu estava encantada e acredito que ele notou. Tanto que, sem precisar pedir licença, ele se aproximou e me beijou. Ele sabia que podia. Eu havia, com um simples olhar, entregado a ele esse direito.
Meus planos para aquela noite foram todos por água abaixo. Em vez de uma noite tranquila, eu vivi momentos apaixonados, recobertos de saudade, de paixão, de dor e angústia enclausuradas que enfim podiam ganhar liberdade. Nós nos beijamos, nos amamos, nos completamos naquela noite. Eu sentia que nos tínhamos reencontrado. Trocamos juras de amor. Confidenciamos a saudade que sempre existira, embora eu nem me desse conta dela... E decidimos nos casar.
Não, nós não nos casamos no papel. Nada de igreja, cartório, papel assinado... Nada disso. Ele era uma alma livre, nunca gostou de formalidades. E eu sabia muito bem que ele não precisava de qualquer dessas coisas. O mais importante era a palavra dele. E eu tinha certeza de que poderia confiar apenas na palavra dele.
Afinal, ele tinha cumprido a promessa. Havia voltado para mim. No entanto, meu agora marido não tinha se tornado astronauta. Ele tinha partido naquele dia, porque sentira que precisava ir embora, conhecer o mundo, rodar, percorrer, descobrir. Descobrir a si mesmo.
Ele me contou das viagens que fez, dos incríveis lugares que conheceu. Fiquei fascinada. Ele era um homem impressionante. Eu me sentia apaixonada. E ele tinha voltado para mim. Por mim. Conforme prometido.
Eu estava feliz. Como poderia não estar?
Entretanto, a felicidade não foi de acordo com o esperado...
Meu marido não trabalhava. Ele havia aprendido a sempre encontrar uma forma criativa de ganhar a vida. De tempos em tempos, arranjava um emprego. Nunca ficava muito tempo nele. Reclamava que pagavam pouco, que seu talento não era reconhecido, que os colegas eram chatos, que o chefe era estúpido... Ou, simplesmente... ele abandonava o trabalho porque se sentia entediado lá.
No começo, tudo me parecia emocionante. Ele era uma alma livre, livre demais para se ver preso a qualquer emprego. Eu não me importava, na verdade. Eu ganhava razoavelmente bem. Mas os problemas iniciaram, para valer, quando ele passou a se envolver em brigas. Ele saía para beber e, às vezes, não voltava. Em outras ocasiões, eu recebia ligações da delegacia e precisava ir tirá-lo de lá. Foi quando comecei a ver que meu marido não tinha a alma tão livre quanto eu pensava. Pelo contrário; ele estava preso. Preso a uma vida na qual ele não conseguia se encontrar. Uma vida em que ele não encontrava ainda o sentido, o motivo para estar ali. Então, ele se afundava em autopiedade. E começou a se autodestruir.
Era como quando crianças. A cena dele querendo destruir os carrinhos. Cheio de uma fúria cega, em que ele sentia uma raiva gigantesca que só amenizava depois de destruir, depois de quebrar ao máximo.
Ele quebrava tudo.
Ele me quebrou também.
Eu já não aguentava mais. Quando ele estava embriagado, o que ocorria boa parte do tempo, discutíamos muito, devido aos mais ínfimos problemas. Ele nunca me agrediu fisicamente, mas o que ele fazia consigo era uma verdadeira agressão sentimental para mim. Ele não respeitava a si, ao próprio corpo, feria-se com frequência, como se buscasse constantemente pela dor. Algumas vezes, nesse estado de embriaguez, ele me dizia que vivia para morrer. Isso me magoou profundamente.
Porém, sempre que ele voltava a ficar sóbrio, vinha me pedir desculpas. Eu terminava por perdoá-lo, mas a ferida dentro do meu peito não cicatrizava. Todos os dias, quando eu o via saindo de casa, sentia meu coração apertar. Eu não sabia se ele voltaria. Não sabia como ele regressaria.
Por isso, hoje, eu dei um fim. Não posso mais, não consigo mais. Não aguento mais. Para que ele possa ter uma vida, estou abrindo mão da minha. Isso está errado, e eu não sou mais capaz. Eu não quis conversar, apenas noticiei minha decisão. Ele não esperava por isso. Doeu; doeu muito, uma dor que não creio existir igual na vida. Eu disse que estava acabado. Ele chorou, chorou muito. Implorou para que eu reconsiderasse. Eu disse que não poderia. Ele me acusou de egoísta, de insensível. Disse que eu não estava cumprindo minha palavra; eu concordei e pedi perdão a ele. Entretanto, eu não podia mudar de ideia. Estava acabado. Eu disse a ele o quanto o amava, mas não poderia mais ser daquele jeito. Não enquanto ele continuasse a viver daquela forma. Ele se ajoelhou, agarrou-se às minhas pernas. Não sei como consegui permanecer em pé nessa hora. Ou melhor, sei sim. Foi sempre desse jeito. Eu me mantinha firme, em pé, por ele. Ele caía e eu estava lá para ajudá-lo a se levantar. Só que não dava mais, eu não conseguiria seguir mais desse jeito. Eu não poderia mais lutar por ele. Era hora de ele aprender a enfrentar as próprias batalhas, em vez de fugir delas, em vez de se apoiar em mim.
Ele me disse que não podíamos jogar fora tudo o que tínhamos, tudo o que éramos. Foi quando eu compreendi: já não éramos mais o que tínhamos sido alguma vez. Apegávamo-nos a um passado remoto. Éramos outros, a vida tinha seguido e não mais conseguimos nos encontrar. Nossos caminhos não se cruzaram mais.
Ele falou que eu era tudo para ele. Que eu era o seu mundo. Aquilo me feriu na alma, mas respirei fundo e disse, sentindo meu coração ser dilacerado, que eu não podia ser mais o mundo para ele. Precisava ser diferente. Ele precisava mudar. Ele precisava abandonar a proteção que eu lhe representava e lutar. Vencer. Descobrir. Ser.
Meu amigo derramou muitas lágrimas e já não se apegava mais com tanta força às minhas pernas. Mas ainda segurava em minha mão, e esse simples toque era quase capaz de me sufocar. Aquilo tinha de acabar. Ele disse então que não poderia mudar. Quem ele era, o que ele era, tudo era consequência de uma vida que estava entranhada nele, em cada poro do seu ser. Ele não poderia ser diferente. Só seria capaz de se tornar outra pessoa, se ele pudesse ter outra vida. Se tudo pudesse ser diferente, se o caminho percorrido fosse inteiramente novo, se o ponto de partida tivesse sido outro... Somente assim, quem sabe assim... ele poderia mudar.
Eu sorri, tristemente. E apenas repeti as palavras dele “Em outra vida”...
Ele compreendeu. Não havia mais chance para nós. Bom, talvez, ainda houvesse. Talvez, algum dia... Quem sabe...
Ele se levantou, amargamente, Olhou-me nos olhos de forma dolorida, mas não disse mais nada. Deixou meu apartamento.
Passei a noite em claro, depois de ele ter saído. Não consegui pegar no sono.
O sol agora já está nascendo. Um dia bonito parece despontar no horizonte.
Lembro-me de que tenho reuniões importantes logo na primeira parte da manhã.
A vida segue. E é possível sobreviver. Eu sobrevivi uma vez. Posso suportar novamente.
Não demoro muito para me arrumar. É preciso que eu vá logo; manter-me ocupada pode ser tudo de que preciso no momento. Pego minha pasta de trabalho, dou uma última ajeitada nos cabelos, checo minha roupa e analiso minha imagem no espelho.
Sobrevivente.
Abro então a porta do meu apartamento.
No chão, sobre o tapete do lado de fora, eu vejo uma cesta com margaridas.
Há um cartão em cima.
Eu pego a pequena cesta e deixo sobre o balcão da cozinha.
Abro o pequeno envelope, que não contém qualquer assinatura.
Nem era preciso.
Reconheço a letra no cartão.
Era dele.
E as palavras, também, pertenciam a ele. A ele e a mim. A nós dois:
Juntos novamente.
Talvez.
Em outra vida.
******
In Another Life (The Veronicas)
I have known you my whole life
When you were ten, you said you'd make me your wife
And eight years later you won me over just as
I took the world on my shoulders
I got used to living without you, and those phone calls and dreaming about you
Always said that you were my man to be
But, I guess, I was in love with your memory
You know I love you, I really do
But, I can't fight anymore for you
And, I don't know, maybe we'll be together again, sometime
In another life
In another life
I know I said that I would keep my word
I wish that I could save your from the hurt
But things will never go back to how we were
I'm sorry, I can't be your world
You know I love you, I really do
But, I can't fight anymore for you
And, I don't know, maybe we'll be together again, sometime
In another life
In another life
The way you're holding onto me makes me feel like I can't breathe
Just let me go
Just let me go
Just don't feel right inside
God knows I've tried
You know I love you, you know I do
But, I can't fight anymore for you
And, I don't know, maybe we'll be togheter again, sometime
In another life
In another life
In another life
In another life
[TRADUÇÃO]:
Em Outra Vida
Eu te conheço desde sempre
Quando você tinha 10 anos, você disse que se casaria comigo
E oito anos depois você me ganhou completamente
quando eu carreguei o mundo em minhas costas
Eu me acostumei a viver sem você, sem aquelas ligações e sonhando com você
Sempre disse que você era o meu homem
Mas eu acho que eu estava apaixonada por sua memória
Você sabe que eu te amo, amo mesmo
Mas eu não posso mais lutar por você
E sei lá, talvez nós nos ficaremos juntos novamente, em algum dia
Em outra vida
Em outra vida
Eu sei que eu disse que iria manter minha promessa
Eu gostaria de ter te salvado do sofrimento
Mas as coisas nunca irão voltar a ser como eram
Me desculpe, eu não posso ser o seu mundo
Você sabe que eu te amo, amo mesmo
Mas eu não posso mais lutar por você
E sei lá, talvez nós nos ficaremos juntos novamente, em algum dia
Em outra vida
Em outra vida
O jeito que você está se segurando em mim não me deixa respirar
Deixe-me ir
Deixe-me ir
Não me sinto bem
Deus sabe que eu tentei
Você sabe que eu te amo, amo mesmo
Mas eu não posso mais lutar por você
E sei lá, talvez nós nos ficaremos juntos novamente, em algum dia
Em outra vida
Em outra vida
Em outra vida
Em outra vida.
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