Em Londres
1 Capítulo único
Notas iniciais
Enfim, eu espero que você goste dessa fic *--*
Estava frio.
A neve caía mais insistentemente do que antes.
Começava a escurecer, ainda por cima.
E pelas ruas da fria e escura Londres, andava um garoto de aproximadamente 7, quase 8 anos, usando um grosso casaco, um comprido cachecol e... Perdido.
Sim, perdido.
O garoto, que se chamava Raito, havia vindo à Inglaterra há muito pouco tempo com os pais, e ao sair por algum tempo a mais, acabou por não saber mais como voltar.
Estava no meio da neve. Em uma cidade desconhecida. Sozinho.
Não era uma criança que se assustava facilmente, mas no momento olhava constantemente por sobre o ombro, temendo que a qualquer momento algo pudesse sair de entre as sombras que cada vez mais preenchiam as ruas.
Tinha apenas 7 anos, afinal.
Andava sem saber ao certo para onde ir, mas parou ao avistar algo um pouco mais a frente.
Ou melhor, alguém. Um outro garoto, para ser mais exato.
Tinha a pele muito clara, combinava com a neve que caía e aos poucos se acumulava por sobre sua roupa, e contrastantes cabelos escuros, ligeiramente bagunçados.
Estava parado no meio da rua. Assim, simplesmente parado.
Raito andou até ele, se aproximando devagar.
— Oi, você também está perdido? — perguntou, mas se tivesse esperado para perguntar após olhar melhor para o garoto, provavelmente não teria conseguido pronunciar uma palavra sequer.
Porque Raito se surpreendeu ao prestar mais atenção na criança à sua frente.
Ele parecia ter mais ou menos a mesma idade que a de Raito, mas a expressão dele demonstrava simplesmente... Nada.
Usava um único fino casaco para se proteger, mas não demonstrava frio.
Aparentemente também estava ali sozinho, mas não aparentava nem medo nem apreensão.
Mesmo quando o outro se aproximou, não demonstrou surpresa.
Seus olhos... Escuros como suas mechas e impassíveis como sua expressão.
Tudo aquilo prendeu a atenção de Raito.
— Para onde você precisa ir? — sua voz era baixa, mas havia algo nela que a fazia ser ouvida.
— Stanwell — respondeu mecanicamente.
O garoto não falou mais nada, apenas saiu andando pela rua lateral.
— E-Ei!
O moreno parou e virou-se, sem qualquer alteração em sua expressão — Eu vou te levar até lá.
Raito levou um momento para conseguir dizer algo — Não precisa! É só me indicar o caminho.
— Vamos — ignorou-o e virou de volta, retomando seus passos.
Parecia que Raito não tinha outra escolha a não ser seguí-lo.
— Você não precisa ir para casa? — Raito perguntou curioso, tentando iniciar uma conversa.
Nenhuma resposta.
— Seus pais não vão ficar preocupados? — tentou mais uma vez.
De novo.
Estava prestes a fazer outra pergunta, quando surpreendentemente o garoto falou, com o mesmo tom baixo.
— Eu não tenho pais.
Raito não sabia muito bem o que deveria dizer agora; sentiu-se desconfortável com aquela resposta. Era por isso que ele estava sozinho lá?
Permaneceram em silêncio por boa parte do tempo que se passou.
A neve continuava caindo, e o frio fazia a respiração deles condensar ao sair. E o silêncio persistia.
— Ei, ei. O que duas crianças fazem a esta hora na rua? — um homem apareceu na frente deles, sorrindo tolamente.
Fedia a bebida.
O homem era razoavelmente alto e levemente encorpado; possuía a barba por fazer e alguns pequenos cortes no rosto, como se tivesse se cortado nas vezes em que tentou fazê-la. Carregava em uma das mãos uma garrafa cheia até a metade de algo que parecia torná-lo imensamente feliz, pelo modo como ele a segurava. Apenas mais um bêbado como tantos outros nas ruas inglesas.
— Está bem frio hoje, não está? Que tal um golinho? Prometo que vai esquentar vocês na hora — balançava a garrafa, a face levemente ruborizada.
Raito tinha estacado no lugar pelo susto daquele homem aparecendo de repente, mas o outro garoto parou apenas por um instante, logo voltando a andar, ignorando completamente o bêbado.
O homem não gostou nem um pouco disto.
— Espere um pouco, aonde pensa que vai? Eu estou falando! Não te ensinaram que isso é falta de educação? — parou o pequeno com um braço, puxando-o rudemente alguns passos para trás.
Raito finalmente se moveu.
Tomou impulso e deu um forte chute na perna do homem. Ou pelo menos com toda a força que o frio, a neve e as grossas roupas que usava, permitiam.
Mas foi o suficiente para o homem soltar o outro, e assim que o fez, Raito pegou a mão do garoto e saiu correndo e puxando o outro junto com ele.
— Você está bem? — Raito perguntou um pouco ofegante assim que pararam de correr e já estavam suficientemente longe daquele bêbado.
-...
— O que foi?
— Você correu para o lado errado.
Ahn?
Raito suspirou. Aquele garoto era estranho...
— Não tem outro caminho? — não queria topar com aquele homem de novo.
Devia ser uma mania, pensou Raito quando o outro saiu novamente andando quieto.
O seguiu.
Seus pais deviam estar furiosos a essa hora...
— Obrigado — ouviu depois de um tempo. Sorriu, mas achou que era melhor não falar nada.
Demorou um pouco, mas eles finalmente alcançaram uma área que Raito ao menos reconhecia.
— Ah, eu ainda não sei o seu nome! Eu sou Raito — parou de frente para o outro, esperando.
-... Lawliet.
— Então, Lawliet — tirou o cachecol que usava e colocou em volta do pescoço dele sorrindo — Este é o meu agradecimento por me trazer até aqui.
— N-Não precisa... — tentou tirar a peça, mas Raito não deixou.
— É seu — se perguntava como ele não estava sentindo frio apenas com aquele casaco, então concluiu que ele estava sim com frio, só não queria demonstrar. E Raito realmente queria lhe agradecer.
Dar seu cachecol pareceu uma boa ideia.
-...- Lawliet olhava para o cachecol, e por fim disse, ainda mais baixo do que antes — Obrigado.
— Ah! Eu tenho que ir... — Raito disse, apreensivo de voltar agora. gostaria de ficar mais tempo ali com Lawliet, mas era melhor voltar de uma vez — Tchau!
Acenou para Lawliet, que retribuiu o gesto muito timidamente, e entrou em casa.
Raito entrou, e Lawliet voltou a andar. Para a mesma rua onde o outro o havia encontrado.
Encarou a casa que ali estava por alguns segundos mais.
Era sua casa. Ou pelo menos foi um dia. Antes de perder seus pais, antes de ser mandado para outro lugar. Não estava exatamente sozinho, mas o sentimento de solidão era teimoso e persistia.
Permitiu-se uma última visão da casa e lhe deu as costas. Watari devia estar preocupado.
Foi embora.
~x~
O sermão havia sido longo. Muito logo.
Eram muito raras as vezes que Raito ouvia alguma bronca dos pais, porque raramente dava motivos para isso. Mas chegar em casa às 11h da noite quando se tem apenas 7 anos, é motivo suficiente para duas horas de sermão e duas semanas de castigo.
Duas semanas que Raito pasou na mais extrema ansiedade.
E quando o prazo finalmente se extinguiu, a primeira coisa que Raito fez foi correr, baseado apenas em sua memória privilegiada, para a rua a qual esperava ir desde aquela noite.
E ele estava lá, tal como Raito mantinha esperanças.
— Oi, Lawliet.
-Oi, Raito.
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