Em Cada Ponta Do Infinito
20 Vagando em um cabelo loiro.
Notas iniciais
– Humm... Deixe-me pensar... – Ele falou, e eu escutava atentamente – Eu nasci aqui, mas acabei me mudando e só voltei agora. Meu pai é piloto de avião, e eu só consigo ver ele de vez em nunca. Eu moro com minha irmã Luizinha de treze anos, e minha mãe. Ela comprou essa sorveteria assim que nos mudamos, por isso não faz muito tempo. Eu tenho um cachorro e o nome dele é Boo, e ele é um lulu da pomerânia. Sou horrível em todos os esportes, mas fui campeão de natação da minha antiga escola. Acho que só isso, não tem muito que falar... Ah, e também sei mexer com uns equipamentos de DJ.
– Peraí, mas então você é horrível em todos os esportes, mas é campeão em natação? E é DJ?
– Aham – Respondeu – Agora é sua vez, não tenho mais o que falar.
Coloquei uma colher de sorvete na boca e comecei a pensar.
– Não tenho muito que falar também. Deixe-me ver... Eu nasci aqui mesmo, e fui adotada quando eu tinha um aninho. Tudo que sei sobre minha mãe biológica é que ela engravidou muito cedo, e morreu no parto. Meu pai não me quis e me mandou pra adoção. – Falei, como se aquilo fosse à coisa mais normal possível.
– Você fala como se fosse à coisa mais normal possível... – Ele disse.
– Ah, eu já me acostumei. Também não tenho interesse nenhum em conhecer meu pai verdadeiro. Continuando... Assim que minha mãe biológica morreu, fui mandada pra um orfanato e não fiquei nem dois dias lá, pois outro casal me adotou. Eles se chamam Marcos e Diana – Meus olhos se encheram de lágrimas quando eu percebi o que seria dito a seguir – Minha mãe Diana morreu há pouco tempo por minha culpa. Por isso meu pai me odeia.
– Mas como ela morreu? – Perguntou.
Abaixei a cabeça e neguei devagar.
– Acho melhor não falar nisso – Respondi e forcei um sorriso – Agora eu tenho a Laura, que fica parte do dia comigo. Ela é uma empregada... Por isso a gente nem conversa muito. Lembra naquele dia no ônibus? Quando eu saí correndo sem nem me despedir?
Ele assentiu com a cabeça e eu continuei.
– Então, eu havia perdido o ponto da minha casa, então não consegui chegar a tempo. Fui despedida – Dei uma risada – Quem saber? Eu nem me importo.
– E o que você faz em casa o dia todo?
– Ah, eu chego da escola e durmo.
– Dorme? – Ele perguntou rindo.
– Aham. Aliás, eu não tenho nada pra fazer... Eu perdi meu emprego e a Laura limpa a casa. Ás vezes a Pri vai lá em casa ficar comigo, ou o Duca, ou o Gui, mas só de vez em quando. Por isso, quando eu acordo, faço uma janta pro meu pai. Mas eu só faço a janta às vezes, por que a Laura também faz. E...
– O Duca é o que seu? – Perguntou de cabeça baixa, enquanto encarava o sorvete.
– Só um amigo. Por quê? – Perguntei.
– Ah, nada. Continua.
Fiquei sem entender, mais resolvi continuar.
– Então, quando eu acordo, eu assisto TV, janto e depois durmo de novo.
– Nossa, sua vida é sensacional – Falou com ironia, mais ainda rindo. Sorri também e peguei mais um pouco do sorvete.
Vi a mãe dele sair de algum lugar lá de dentro e limpar o balcão.
– E você não tá procurando emprego? – Perguntou.
– Ah – Respondi – Se aparecer algum eu aceito.
– Mãe – Ele falou, olhando em direção à mãe dele – Você não queria uma ajudante?
A mãe dele olhou pra mim e perguntou:
– Você quer um trabalho minha filha?
Olhei pro Lucas sem saber o que fazer. É claro que eu queria um trabalho.
– Sim – Respondi – Mas seria só meio período...
Ela ergueu as mãos pro céu como se estivesse agradecendo por isso.
– Graças a Deus! – Ela disse – Tô há dias procurando alguém. Sabe como é né? É difícil cuidar da família, e uma adolescente maluca por usar maquiagem... Sem contar às meninas que vem atrás desse garoto ai do seu lado – Ela falou, mas percebi que era brincadeira. Dei um sorriso e comecei a gostar dela – Então... Quando você quer começar? Amanhã?
– Pode ser – Respondi com um sorriso – Passo aqui depois da escola e a gente conversa.
Ela deu um sorriso animado e entrou em algum quarto nos fundos.
– Parabéns – Lucas disse – Agora você já tem um emprego.
– Ai meu Deus – Falei – Valeu. É sério.
Ele deu outro sorriso. Peguei a ultima colherada do meu sorvete e engoli. Ele já havia terminado o dele faz tempo, por isso pediu licença e entrou naquele quarto no fundo. Logo depois ele voltou.
– Vou te acompanhar até em casa – Ele disse e eu me levantei. Olhei no relógio e já era quase dez horas da noite.
– Então... – Falei, curiosa demais pro meu gosto – Aonde você mora?
– Ali em cima – Falou – Da sorveteria.
Olhei pra sorveteria novamente e percebi que tinha três andares. Tinha uma área e uma porta grande. Era bem bonita, pra falar a verdade.
– E adivinha quem é o sortudo de ficar com o quarto que dá na lage? – Perguntou – O bonitão aqui claro.
– Convencido heim – Falei.
– Quem sabe um dia você não tenha a grandiosa sorte de conhecer meu quarto – Falou e eu olhei pra ele assustada. Ele ergueu as mãos em rendição – No sentido mais inocente possível é claro. Cara, tô te achando maliciosa demais heim...
Corei e ele deu aquela risada engraçada e rouquinha. Dei um sorriso também.
– Sua risada é engraçada – Falei.
– Ah é? – Falou – Pois saiba, que quando você grita, sua voz fica tão fina, que parece de uma bruxinha.
– Mentiroso – Falei rindo e dei um tapa no braço dele.
– Não é mentira. É sério – Falou – Quando você gritou que odiava todo mundo na festa, parecia uma bruxinha fazendo uma bruxaria.
– Seu idiota – Falei – E quem era a vitima, o Math?
– Sim, e você estava fazendo uma magia de sedução. Até tirou a roupa pra ver se funcionava – Continuou rindo.
– E funcionou? – Perguntei.
– Pelo menos em mim sim – Disse e eu olhei não acreditando no que ele disse.
– Você é um idiota retardado – Falei rindo – Como pode dizer isso?
– Com a boca ué – Respondeu e eu dei outro tapa nele, mas de brincadeira.
Paramos em frente da minha casa.
– Te vejo amanhã na escola então? – Perguntou.
– Ah, não sei – Respondi – Acho que vou pra uma festa agora, e vou beber tanto, que não vou conseguir ir pra escola por causa da ressaca.
– Engraçadinha – Disse. Dei um aceno com a mão e entrei em casa. Subi pro meu quarto e me joguei na cama. Tentei dormir, mais não consegui. Porque minha mente ficava vagando em um cabelo loiro...
Fale com o autor