Em Cada Ponta Do Infinito
13 Seis vidas bem diferentes da minha.
Notas iniciais
Resolvi concordar com ele. Eu já estava querendo fugir, só estava precisando de um incentivo.
Peguei minha mochila e aceitei sua ajuda pra levantar.
– Como posso sair de uma escola sozinha, com uma pessoa que eu nem sei se quer o nome?
– Você ainda não sabe? E a chamada?
– Ando meio distraída esses dias – sorri e comecei a caminhar com ele até o muro da escola.
– Lucas – ele respondeu e eu me esforcei pra não demonstrar nenhuma emoção diferente a isso.
Ele fez sinal com as mãos, indicando pra eu apoiar nele e pular o muro. Olhei em volta e pulei. Minutos depois, ele já estava do meu lado.
– Pra quem nunca matou aula, você já está bem treinadinha.
– Quem disse que eu nunca matei aula? – respondi e forcei um sorriso – Então... Aonde vamos?
– Não tem graça se você souber...
– É um lugar muito diferente? – perguntei.
– É... Acho que você nunca deve ter ido lá...
Paramos em frente a um ponto do ônibus e ele se sentou em um banco comigo.
– Posso te falar uma coisa? – falei – sou muito mais curiosa que você – conclui – Se eu tivesse te carregado até em casa, teria fuçado até sua gaveta de cuecas.
Ele riu.
– E quem disse que eu não fiz isso?
Olhei pra ele surpresa e comecei a bater nele.
– Seu idiota! Você olhou mesmo minha gaveta?
Ele não respondeu nada e eu conclui que sim. Quando Terminei de bater, fiquei toda envergonhada.
– Já falei que gosto de tomate – ele disse – Mais ai você já está virando pimenta.
Corei mais um pouco e por fim ele disse:
– Não se preocupe, não olhei sua gaveta super hiper mega secreta.
– Como posso ter certeza disso? – perguntei.
– Palavra de um cara que você nem conhece, mas que te carregou até em casa e ainda por cima trocou sua roupa – respondeu.
– Seu idiota – falei brincando.
– Já te falei que você bate como uma menininha? – falou.
– Eu já lutei muay thai mano – falei, me fazendo de durona.
– Aham – ele falou, irônico – e eu treinei com Jackie Chan.
Dei um sorriso e vi o ônibus se aproximar.
– Vamos pegar esse? – perguntei.
– Aham.
Subimos no ônibus e nos sentamos ao fundo. A viajem foi mais rápida do que eu esperada e minutos depois descemos em frente a uma casa enorme, cheia de janelas e portas. Ela era amarela e o jardim era enorme. Porém, não era das mais cuidadas... A parede branca estava amarela, as janelas arranhadas e as portas? Acho que qual quer vento que batesse iria fazer barulho.
– Me trouxe a uma casa abandonada? – perguntei.
– Mais ou menos... Vem! – ele pegou na minha mão pra me guiar até a casa e eu senti meu estomago revirar. O toque dele me deu uns calafrios bons. Deus há quanto tempo eu não sentia isso?
Ele abriu a porta devagar, e como eu já imaginava, fez um barulho enorme.
– Pessoal? – ele gritou, quando viu que não tinha ninguém na sala. Era enorme, porém só tinha um sofá rasgado, uma prateleira quebrada, e um misero tapete. Em menos de dois segundos, uma cinco crianças, entre sete e doze anos vieram correndo. Elas gritaram o nome dele de felicidade e foram correndo abraça-lo. Fiquei ali, pasma com a situação.
– Me deixem apresentar uma amiga a vocês pessoal – ele disse – gente, essa é a Tayse.
As crianças olharam pra mim e deram um sorriso, tímidas.
– Tayse essa é a Maria – ele falou, e apontou pra uma menininha mais nova e loira – Ela tem sete anos. É a mais nova aqui.
Assenti com a cabeça e ele se direcionou pra uma menina pardinha e com cabelos castanhos.
– Essa é a Dianinha. Ela tem oito anos – falou em seguida se direcionou pra uma garota alta e com cabelos pretos – Essa é a Natalie, a mais atentada e que dá mais trabalho, apesar de ter 10 anos – ela deu um sorriso sem graça e ele se direcionou pro único menino do grupo – Esse é o Marcos, tem onze anos.
Dei um sorriso pro garoto branco demais.
– E por último – ele se direcionou pra uma garota ruiva – Essa é a Fran, tem doze anos e é a mais velha das crianças.
– Eu não sou mais uma criança – ela disse – Você já pode me apresentar como a única adolescente.
Lucas mostrou a língua pra ela e ela fez o mesmo, ambos brincando.
– Todos vocês são lindos – falei, bem sem graça. Eles estavam sujos e descabelados, mais mesmo assim eram lindos. Maria é loirinha, Dianinha tem cabelo castanho, Natalie tem cabelos bem pretos, Marcos tem cabelos bem pretos e é bem branco, e por último é a Fran, que é ruiva. Acredito que os únicos irmãos aqui são a Natalie e o Marcos. O resto são muito diferentes.
– Maria perdeu os pais em um incêndio Tayse, Dianinha nem os conheceu, Natalie e Marcos fugiram de casa, pois seus pais a batiam, e a Fran? O Pai dela foi preso por ter matado a Mãe, e ela viu a mãe sendo morta bem na frente dela.
Quando as crianças e a ADOLESCENTE ouviram isso, ficaram cabisbaixos.
– A única que cuida deles é a Gerlaine. Afinal, onde ela está? – Lucas perguntou.
– Ela foi pedir o almoço – Marcos protestou.
Fiquei pensativa. Então eles moram nessa casa abandonada, perderam os pais, moram com uma mulher que nem é mãe deles, e ainda tem que pedir esmola na rua?
– Há quanto tempo vocês se conhecem? – Perguntei – Digo, Lucas e as crianças?
– Desde que me mudei pra cá – Ele respondeu.
– e você já sabe tudo isso sobre eles? – perguntei.
– Na verdade, conheço há muito tempo. Quando eu tinha dez anos, resolvi entrar aqui e acabei conhecendo eles. Maria ainda era uma bebezinha... Todos eram praticamente. Resolvi ajuda-los e dei tudo: roupas, comida... E ficamos bem amigos. Quando eu completei quinze anos, tive que me mudar, e só voltei agora.
– Hum... – falei. Eu estava pasma com toda aquela situação. Acho que Lucas me trouxe aqui pra mostrar que minha vida não é tão ruim.
– Lucas – Maria chegou perto, estava sujinha e seus cabelos lisos bem maltratados – Você trouxe comida?
– Não... Saí da escola agora. Mais prometo que trago à tarde.
Eu tenho mais de dez mil reais guardados no banco pra mim comprar roupa e eles estão aqui passando fome. Eu não acredito nisso. Tenho milhares e milhares de roupas em uma caixa, que caberiam perfeitamente neles, e eu aqui pensando em jogar no lixo. Comida não falta. Ouvi alguém mexer na maçaneta da porta e todos saíram correndo. Lucas me puxou pra um cômodo vazio e mandou-me fazer silencio. Poucos minutos depois, uma garota com mais ou menos vinte anos entrou na sala.
– Ufa – Lucas suspirou – Pensei que era a policia. Morro de medo de um dia eles querer levar vocês.
As outras crianças saíram de seus esconderijos e se sentaram, no chão mesmo.
– Quem é essa? – A gora perguntou, se direcionando a mim.
– Gerlaine, essa é a Tayse. Só veio fazer uma visita comigo.
– Então é você que cuida deles? – perguntei chocada.
– É. E não me arrependo disso — Ela falou bem arrogante. Lucas sussurrou em meu ouvido que ela não gosta de gente nova, a eu compreendi – Pessoal, o homem da padaria me deu dois pães de ontem.
As crianças sorriram e eu não tive como não sorrir junto. Eles estavam felizes com dois pães.
– Tayse, acho melhor nós irmos – Lucas falou, e eu assenti de leve.
– Eu ainda vou voltar pra ver vocês pessoal – Falei, antes de sair – Podem ter certeza disso.
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