Em Busca do Passado
7 Capitulo 6
Notas iniciais
Finalmente a tempestade passara e após uma noite turbulenta Salácia despertara mais uma vez, porem agora já não ouvia os troves e nem podia ver a claridade que os relâmpagos causavam, mas seu sono durante toda a noite fora leve, acordando com o mais leve solavanco, abaixo de seus olhos feias bolsas se formaram, devida sua terrível noite, seu humor estava tão agradável quanto o seu par de olheiras, ela se sentia capaz de matar o primeiro engraçadinho que decidisse cruzar seu caminho e bem lá no fundo ela torcia que este fosse o seu capitão.
Olhando ao redor ela pode perceber que estava sozinha, não havia nenhum tripulante ou ao menos o seu paciente, que deveria estar ali de repouso, seu rosto se contorceu em fúria e seus olhos possuíam um brilho assassino assim como a baixa tonalidade de suas íris.
–Eu vou mata-lo quando o encontrar, a se vou!
Salácia levantou-se sem poder conter sua fúria, seus pés batiam duro contra o chão de madeira ecoando por todo o lugar, porem ao se ver no meio do convés e o silencio pareceu dar-lhe um tapa na cara e ao invés de se sentir calma sua fúria apenas aumentou, seu maxilar fora forçado a ficar fechado e seus dentes praticamente trincavam dentro da boca, sua respiração se tornava pesada. Sem pensar duas vezes a garota dera o fora daquele lugar e fora andar pela praia para ver se conseguia se acalmar e evitar matar o primeiro que visse em sua frente.
O oceano já estava mais calmo, a praia se encontrava vazia e o mar seguia sua trajetória, o som das ondas ao se quebrar na costa pareceu acalmar seus nervos, a vegetação ao redor era quase escassa, ela se encontrava concentrada em um enorme paredão que estava mais a frente, onde o verde era o predominante e uma enorme queda d'água caia sobre o mar. Ao ficar mais próxima do rochedo ela pode visualizar uma pequena entrada no meio da trepadeira que caiam preguiçosamente por sobre ela, essa entrada poderia leva-la tanto para o alto do paredão, quanto para uma bolsa de ar abaixo do oceano, sem se amedrontar ou sequer pestanejar ela adentrou na caverna mal iluminada.
A cada passo que dava ela sentia que a inclinação iria levar-lhe para baixo e a cada passo que dava a temperatura no lugar parecia cair. Finalmente um pouco de iluminação escapou por uma profunda rachadura do teto do local e lhe mostrou a beleza exótica do lugar, ao final da inclinação um pequeno lago de água salgada se formava, com pequenos corais que serviam de moradia para pequenas criaturas subaquáticas. Sem se importar com mais nada ela se livrou de suas botas e enfiou os pés na água gelada, aquilo a relaxou de tal forma que sem perceber um suspiro escapou por seus lábios.
Salácia já estava quase que em sono profundo quando uma movimentação na água chamou sua atenção, lentamente a garota abriu os olhos e encarou outro par de olhos dentro da água, porem estes brilhavam tal qual a de um gato quando pego no escuro, mas estes olhos pertenciam a um rosto masculino infantil sem se intimidar pela mais velha.
–Se você quer algo sugiro que diga logo, hoje eu não acordei de bom humor!
Lentamente o garoto nadou até a sua cabeça surgir na superfície.
–Quem é você?
–Salácia e você?
–Orfeu!
–E o que você quer?
O garoto direcionou o olhar para um lado qualquer enquanto ficava emburrado.
–Eu não quero nada, eu preciso!
–E do que é que você precisa pirralho?
–Da sua ajuda!
–No que?
–Preciso que salve a única família que me resta!
–E porque tem que ser eu?
–Pois você é a única em quem eu posso realmente confiar, não consigo botar fé naquele capitãozinho de meia pataca!
–E porque confiaria em mim?
O garoto involuntariamente abriu um sorriso maldoso e um brilho quase que cruel chegou aos seus olhos.
–Porque você é o terror dos sete mares ou pelo menos é assim que os piratas tem lhe chamado!
–E o que exatamente este terror aqui teria que fazer?
Um sorriso malicioso brincou nos lábios da garota, não fazia nem uma semana em que embarcara no navio e já conseguira arranjar uma reputação.
–Você teria que resgatar minha irmã Aisha e meu melhor amigo Solon das mãos cruéis do príncipe Endimion, ele ira recebe-los como presente de aniversario do Grã-Duque Estevan!
–E porque um Grã-Duque iria presentear um príncipe com duas pequenas crianças?
–Porque não somos humanos, minha irmã e eu somos duas nereides e Solon é um tritão!
–Certo, criaturas míticas então, agora entendi o “X” da questão, mas ira ter mais alguém envolvido nesta missão suicida?
–Os tripulantes do Blood Baron foram envolvidos pela rainha!
–Então de qualquer forma estou dentro desta missão, mas eu não entendo porque esta pedindo especificamente para eu fazer isso!
–Eles jamais irão confiar naqueles piratas, mas Aisha confiara em você!
–Porque ela faria isso?
–Porque você é mulher, porque é forte e destemida e além de tudo uma hibrida!
Salácia começou a massagear as têmporas prevendo que em breve teria uma baita dor de cabeça.
–Não irei perguntar mais nada, afinal é bem capaz de eu terminar com mais perguntas do que respostas!
–Você ira resgata-los?
–Não precisa se preocupar, eu irei salva-los do príncipe, afinal Endimion não é conhecido por sua gentileza ou generosidade!
O garoto suspirou aliviado e lhe sorriu verdadeiramente.
–Sabia que poderia contar com você!
–Claro, mas agora eu tenho que ir, antes que o Kallel zarpe e me deixe aqui!
Rapidamente a ruiva se pôs em pé e sorriu em despedida para o garoto. Sem pressa ela caminhou pela praia até chegar ao porto onde rapidamente e o mais silenciosamente possível ela embarcou, querendo chegar aos seus aposentos sem chamar atenção, mas ao chegar ao meio do convés sentiu seus planos serem frustrados por uma profunda, rouca e sexy voz a suas costas.
–Onde você estava?
Um frio desceu pela coluna da garota, sua respiração se alterou levemente e seus olhos se arregalaram com uma respiração profunda seus nervos se acalmarem e seus olhos voltaram ao normal, e só depois de respirar fundo novamente ela se voltou para o homem.
–Isto não é da sua conta, capitão!
–Você deixou o navio sozinho, poderiam telo saqueado, então, onde infernos você se meteu!
–Eu, em momento algum, disse que ficaria no navio, Kallel, então se você não comunicou nenhum de seus homens que um deles deveria ficar no navio, o problema é exclusivamente seu!
As veias do pescoço do homem pareciam saltar, sua respiração se tornava pesada e era mais do que claro que ele estava se controlando para não pular no pescoço da garota.
–Salácia pela ultima vez, onde, infernos, você se meteu?
Quem estava ficando furiosa agora era a própria interrogada.
–Eu já disse que não é da sua conta onde eu estive!
Kallel estava pronto para gritar com a garota quando ele viu os olhos dela brilharem e ela correr de encontro com a pessoa que ela estava cuidando. Ele por sua vez mantinha a aparência calma e um brilho fraternal nos olhos.
–Onde você estava princesa, Greg e eu estávamos preocupados!
–Estive andando pela praia, precisava me acalmar, pois você sabe, poderia matar o primeiro infeliz que cruzasse meu caminho!
–Noite ruim, não?
–Péssima!
O homem suspirou.
–Pensei que houvesse te perdido!
–Você jamais me perderia Nathan, eu sei me cuidar!
–Será que sabe mesmo?
Salácia revirou os olhos e se virou, mas acabou dando de cara com Kallel de braços cruzados e completamente furioso.
–A ele você se explica, mas ao seu capitão você nem se digna de informar onde esteve?
Salácia respirou fundo, era capaz de cometer uma sandice naquele momento.
–Sim eu me explico a ele e não lhe dou satisfações, Kallel entenda a situação aqui é bem diferente, não me explico com você porque não ha necessidade, com ele a conversa é outra!
–Por quê?
–Porque Kallel, você não é nada além do meu capitão, não lhe devo satisfações da minha vida, já o Nathan conviveu comigo quase a minha vida inteira, quando entrei na adolescência e ele também, ele foi designado como meu guarda pessoal e acredite por não lhe explicar as coisas o coloquei em vários problemas e acabou virando um habito eu lhe contar tudo!
–Você teve um guarda pessoal? Você por acaso é da realeza?
Salácia sorriu de canto e se aproximou perigosamente do capitão.
–Isso também não é da sua conta, quem fui a que família pertenci ou quanto dinheiro ela chegou a ter, não é da sua conta, nada disso é, então capitão, não meta seu nariz onde não foi chamado!
–Princesa isso não são modos!
Salácia rosnou e pela primeira vez Kallel a viu brava com alguém que não era ele.
–Já acabou a época de eu me comportar Nathan, não estou mais na corte, não me chame mais de princesa, você já não é meu guarda real, deixou de ser quando foi promovido a capitão da guarda, então trate de me tratar pelo que sou agora, sou Salácia, uma pirata!
A magoa e o abandono brilharam nos olhos da garota, porem ela as disfarçou a tempo.
–Prin...
Jogando os braços para cima a garota demonstrou toda a sua frustração com aquela situação.
–Pra mim já chega, se vocês querem saber de algo, eu quero mais é que vocês se danem, não vou dar satisfações do que faço, do que deixo de fazer, de quem sou ou deixo de ser, estou farta disso. Você... –Salacia apontou o dedo para Nathan, que tinha os olhos ligeiramente arregalados. – Cuide sozinho de suas feridas, já estou farta de bancar a enfermeira e você... – Desta vez ela se virou e encarou Kallel da mesma forma em que ele a encarava, com completa fúria. – Cuida da sua própria vida!
Sem mais ela deu as costas para os dois e desceu até os aposentos dos marujos para enfim se jogar em sua rede e tentar se acalmar.
Seu braço esquerdo repousava acima de seus olhos e o outro pendia para fora da rede com total descaso, sua respiração estava alterada, fazendo com ela puxasse grandes golfadas de ar enquanto ela lutava inutilmente para se acalmar.
Algum tempo depois pés soaram ao descer a pequena e íngreme escada de madeira que descia ate aquele ambiente e assim que o som se tornou mais alto, indicando o quão perto estava, ela retirou o braço de cima de seus olhos e olhou para a entrada do local esperando que uma cabeça aparecesse, o que não demorou de fato a acontecer.
–Princesa...
–O que você quer?
–Você esta bem?
–Estou ótima, perfeitamente bem!
–Não...
–É claro que eu não estou bem, então eu acho melhor você cair fora antes que eu me veja perdendo o resto da minha sanidade e acabe por lhe estrangular!
A garota se levantou e em seus olhos poderia ser visto atrás de uma íris quase vítrea um brilho quase que assassino.
–Como você desejar princesa!
O grito frustrado da garota ecoou por todo o navio e toda a tripulação passou a evitar o local onde a garota estava com medo de ter de sentir a fúria da menina na pele. A lua já ia alta no céu quando por fim Salácia resolveu se aventurar para fora da sua zona de segurança, ela fora se sentar na ponta da proa do navio para que pudesse apreciar a brisa salgada que provinha do enorme oceano a sua frente, sua admiração pelo mar, ao seu ver, jamais iria passar, para ela, ele, era a mais incrível criação do ser celestial que criara o planeta. Aos poucos sua respiração se regulava e se tornava mais lenta, seus olhos pesavam e por fim ela se sentiu ser levada pela bruma que encobria o mar e escondia o navio. Os sons da noite e do oceano se misturavam dentro de sua cabeça formando uma melodia que somente ela poderia escutar e que a instigava a cantar e misturar a sua voz com o som do oceano.
Os poucos homens que restavam naquela noite no navio e os poucos que já haviam retornado pararam tudo o que faziam e encararam a única mulher que fazia parte e tinha a autorização para estar naquele navio. Aos poucos a doce voz dela os hipnotizava os fazendo se perderem dentro de si mesmos, vagarem por espaços esquecidos e por fim os tornando escravos daquela mulher.
Kallel caminhava tranquilamente de volta para o seu navio, levava no rosto um sorriso cafajeste e muita malicia no olhar, suas roupas amarrotadas denunciavam o que ele andava a fazer, a satisfação em seu olhar era mais do que prova que ele havia se divertido, e muito, com alguma outra mulher, mas suas feições alegres se perderam ao ouvir aquela voz, e em seu lugar a preocupação tomou posse, rapidamente colocou tampões em seus ouvidos e correu de volta para o seu navio e ao embarcar vira seus homens zumbificados, totalmente desprovidos de personalidade e desejos, somente uma casca vazia que obedeceriam somente os desejos da dona daquela bela. O homem encarava a todos com evidente ódio no olhar, procurando o culpado até os seus olhos, procuravam a pequena sereia que havia enfeitiçado seus homens e agora os transformava em escravos de suas vontades, até por fim pousaram na pequena figura sentada na ponta da proa, os ruivos cabelos balançavam com a mais leve brisa, fazendo com que seus cabelos lembrassem uma pequena chama que poderia causar o maior dano se lhe jogassem combustível suficiente, com estranheza ele reconheceu o corpo e os cabelos, afinal sempre deslumbrava aquele estranho brilho sempre que o sol poente os tocava, ela era a garota que vinha perturbando seus pensamentos, invadindo seus sonhos e turvando sua mente de tal forma que até suas escolhas se baseavam em suas vontades e ela lhe invadia a mente até nas horas mais improprias.
Ao se aproximar mais da garota percebera que os olhos dela já não eram mais aquele verde vivo, agora possuía a mesma tonalidade de um agua marinha, um azul claro quase vítreo, como as claras aguas de um lago muito profundo, ela mantinha os olhos fixos nas aguas do oceano como se hipnotizada enquanto sua doce voz formava uma bela melodia.
–Que porcaria de cantoria é esta aqui no meu navio?
Assustada Salácia desviou o olhar do oceano e encarou o homem ao seu lado, sua mente trabalhava em marcha lenta, não conseguia raciocinar de forma coerente, sua mente entrara em um estupor que paria mais que a bruma havia se apossado de seu cérebro e não possuía horário para abandoná-lo, os homens se encontravam no mesmo estado que a garota parecia que acabaram de acordar de um sono pesado de onde eles não queriam sair.
–Então quem ira ser o primeiro a falar?
Por alguns segundos todos eles se mantiveram em silencio, pensando no que poderia ter acontecido, até que um homem miúdo, franzino, com um olho sendo de vidro e outro de um azul claro, tomou a frente.
–Fo... Fo... Foi u... u... uma... sereia capitão!
Ainda sentada Salacia encarava Kallel de baixo, sem conseguir realmente registrar o que acontecia ao seu redor, sentia-se terrivelmente perdida.
–Uma sereia? Vocês foram encantados por uma sereia? Até você Salácia?
Salacia franziu o cenho levemente e voltou o seu olhar novamente pra o oceano.
–Eu... Eu... Eu não sei, não sei o que aconteceu, não sei nem o que esta acontecendo!
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