Hey! Então, vamos lá. Me chamo ****, eu tenho 17 anos e estou quase terminando o terceiro ano do ensino médio. Eu não faço a mínima ideia do que eu quero pra minha vida, eu estou estudando para fazer o vestibular no fim do ano mas ainda não sei para qual curso irei prestar. Eu sou uma pessoa relativamente alta (1,74 é alto né?), sou da cor preta, com orgulho e não tenho vergonha de usar dreadlocks, tranças ou turbante (quem achar ruim, problema dele). Eu sou uma pessoa bem versátil, gosto de muitos estilos de músicas, assisto quase todo tipo de filme e leio bastante livros. Eu gostaria de dizer que sou uma pessoa "comum", mas eu sei que não sou, e isso é ótimo. Foram tantas coisas que aconteceram na minha vida que eu realmente preciso registrar tudo.

Vou começar falando da minha vida escolar, do meu ensino fundamental. No começo era tudo muito legal e novo para mim, eu adorava participar das aulas e conversar com os meus colegas de classe, éramos muito inocentes também (sinto saudades disso). Mas com o passar dos anos, aqueles colegas foram mudando suas atitudes. Alguma coisa aconteceu. De repente aquela criança que nunca tinha falado um palavrão já conhecia quase todos e o significado de cada um. Era um choque de realidade para mim. Meus pais sempre me guiaram para ser uma pessoa boa e não ter aquele tipo de linguajar. A medida que o tempo passava, as crianças se tornavam mais violentas. Elas se agrediam e se xingavam com muita frequência. Aquelas pequenas crianças do passado mudaram totalmente. Um certo dia o inevitável aconteceu... meus colegas começaram a fazer brincadeiras de mal gosto contra mim, e pela primeira vez eu sofri racismo na minha vida. Eu me lembro que corri até o banheiro e chorei muito. Eu não entendia mais o que estava acontecendo, e além de tudo, não entendia porque eu era tão diferente deles...

Mas não parou por aí. Chegando próximo do fim do fundamental, aquelas crianças se tornaram adolescentes. Suas brincadeiras, xingamentos e desrespeitos estavam piores. Lembro que tinha um grupinho na minha sala que sempre dava um jeito de conseguir colas para passar de ano, e um dia eles vieram até mim. Eu recusei ajudá-los com a cola... eu apanhei bastante e ninguém fez nada! Ninguém foi me ajudar, eu fiquei muito revoltado e assim que cheguei em casa eu chorei muito mesmo, até não conseguir mais.

Desde que eu era criança eu comecei a perceber que eu não me encaixava nos padrões sociais. Eu não queria usar as roupas que foram "feitas" pro meu sexo, eu não queria ter o penteado "feito" pro me sexo, eu não queria ser como todo mundo. Eu queria ser alguém diferente e ao mesmo tempo igual... eu ainda não sei explicar direito, mas era isso. Eu não queria ser só do meu sexo, eu queria ser o outro também. É claro que meus pais estranharam muito isso, e eu já sofri muitos castigos por causa dos meus gostos. Meu cabelo era grande. As pessoas tinham dificuldade em saber se eu era menino ou menina, justamente do jeito que eu queria que fosse! Mas claro, na escola as pessoas tiravam sarro da minha cara pelo meu jeito... eu comecei a perder amizades até ficar totalmente só.

Eu comecei a sentir uma tristeza muito grande a cada dia, a cada xingamento que davam pra mim, a cada piadinha sem graça sobre a minha cor ou o meu jeito... eu sentia meu coração apertar. Eu sentia uma "coisa" no peito que se espalhava para o meu corpo e me deixava com calafrios. Eu passei a ser uma pessoa calada. Eu não conversava com ninguém da sala. Sempre cabisbaixo, sempre melancólico...

Quando eu finalmente saí da minha escola para ir para um colégio comecei a me sentir mais confortável. Essa era a chance de tudo mudar. Meus pais me colocaram num ótimo colégio, um dos melhores da cidade. Era a hora de deixar tudo o que aconteceu para trás e recomeçar. Mas como era de se esperar, as pessoas não me aceitaram muito bem. A maioria dos alunos era branco e que tinham condições melhores que a minha, digamos assim. Desde o primeiro dia de aula os olhares tortos começaram. Eu podia ler suas mentes, "o que essa favelada está fazendo aqui?", "quem deixou esse preto entrar?", "será que ela entrou por bolsa?", "isso é um menino ou uma menina?". Sim, alguns chegaram a me perguntar coisas desse tipo depois. Parece que eu saí de um círculo dantesco do inferno para um pior ainda.

Estão sendo os piores anos da minha vida! No começo ninguém falava comigo direito, eles tinham medo de mim!? Provavelmente sim. Mas no começo eu deixei isso de lado um pouco. Mas assim como na antiga escola, eles começaram a invadir o meu espaço aos poucos. Não demorou muito até que a primeira piadinha fosse lançada e em seguida um coro de risadas. Eu estava só novamente. Não ter alguém que possa te amparar nesses momentos é um saco! E eu tinha vergonha de contar para os mais velhos. Eu fui deixando tudo isso acontecer sem falar nada. Eu não podia fazer nada. Eles puxavam meu cabelo, rabiscavam meu caderno, me xingavam, jogavam coisas em mim, me roubavam, faziam brincadeiras de mal gosto, vandalizavam minha carteira... era mais do que eu podia suportar.

Minha tristeza era muito maior do que antes. Eu tinha a certeza de que ninguém ligava pra mim. Eu não conseguia mais prestar atenção nas aulas. Eu sentia muito frio. Eu sentia meu coração doer cada vez mais a cada palavra de ódio contra mim. Eu não conseguia sentir mais nada além de uma melancolia e tristeza profunda. Eu estava em depressão. Com a depressão eu pensei em tirar minha vida várias vezes. Mas eu também tinha medo. Eu não queria sofrer até morrer ou sentir dor. Eu tentei me enforcar algumas vezes mas eu sempre me soltava nos últimos instantes. Meus pais notaram que eu não estava bem e lá pro meio do 2º ano eu comecei a fazer terapia com um psicólogo. Ele me receitou remédios e eu tentei me matar com uma overdose. Eu só me lembro que acordei no hospital no outro dia, e foi aí que meus pais viram a gravidade da situação.

Sob efeito dos remédios eu me sentia um pouco melhor. Eu não conseguia sentir nada na verdade. Tudo estava indiferente pra mim, as ofensas dos outros eram ignoradas com sucesso. Mas eu sentia muito sono e dormia em quase todas as aulas. Minha sorte é que eu aprendo as coisas rápido. Tudo parecia estar melhorando, e melhorou. Troquei de lugar quase no último mês de aula e foi lá que eu conheci Rafa. Essa pessoa nunca me faltou com respeito, nunca falou nada ruim pra mim, e eu nunca tinha notado-a até me mudar de lugar. A gente começou a conversar e rapidamente já fizemos amizade.

A gente tinha os gostos muito parecidos, então tínhamos muito assunto durante o intervalo. Falávamos sobre séries, filmes, músicas, animes... Eu comecei a me sentir cada vez mais feliz por ter conhecido uma pessoa assim. Rafa sabia que eu era diferente das outras pessoas e me tratava muito bem mesmo assim. No ano seguinte, o atual em que estou escrevendo, ficamos mais inseparáveis ainda. Passamos a sair para o shopping, cinema, restaurantes fast-food, para a casa um do outro ( a mãe de Rafa nunca sabia como deveria me chamar, eu achava legal que ela tentava não me magoar). Até que um certo dia eu me toquei que eu estava me apaixonando por Rafa.

"Ai meu Deus, e agora?" eu pensava. Nunca pensei que me apaixonaria por alguém, ainda por cima uma pessoa como ela. Minha cabeça começou a ficar cada vez mais confusa. Eu não sabia se deveria insistir nessa paixãozinha ou ignorar. Eu não queria sofrer, mas também não queria ficar só para sempre. Mas já era tarde demais. Eu comecei a gostar muito de Rafa, meu coração disparava quando Rafa entrava pela porta da sala de aula. Eu me viciei no cheiro do perfume que Rafa usava, pedia sua blusa de frio emprestado só pra poder sentir o cheiro suave do perfume. Comecei a fazer uma coleção de fotos da gente no meu celular, inventava uma desculpa esfarrapada só pra gente poder tirar foto juntos. Cada vez mais eu queria ficar do lado daquela pessoa. Mas eu sabia que não deveria.

Eu me perguntava todo os dias porque eu gostava de Rafa. "Por eu ter nascido com esse sexo eu não deveria gostar de pessoas do sexo oposto?" Minha cabeça estava muito confusa. Eu não entendia porque eu gostava tanto de meninos como de meninas. Eu não entendia mais porque eu não queria assumir nenhum dos gêneros. Eu comecei a sofrer bastante por causa das dúvidas. Eu chegava em casa, ouvia uma música que me lembrava Rafa e começava a chorar. Eu sabia que não deveria me apaixonar assim, nunca daria certo, Rafa não iria me aceitar. Mas meu coração ficava mais apertado só de eu pensar em me afastar. Eu não sabia mais o que fazer! E a depressão começou a voltar gradualmente. Eu não estava mais comendo direito, não dormia direito, não prestava mais atenção na aula. Eu só pensava nas possibilidades caso eu me declarasse pra Rafa, e a cada resultado negativo que eu imaginava, mais triste eu ficava.

Mas teve um dia que eu decidi dar a cara a bater. Levei uma carta com todos os meu sentimentos escritos. A carta na verdade era um plano B. Rafa me convidou para dormir na sua casa, eu ia aproveitar a data e falar tudo o que eu sentia, a carta era pra caso eu não conseguisse. Nós jogamos durante a noite toda, comemos pizza e conversamos coisas aleatórias. Eu não conseguia falar o que queria, eu ainda estava com medo. Teve um momento que eu criei coragem e disse "Rafa...", e prontamente Rafa respondeu "oi", e aí eu travei. Não conseguia falar nada, apenas dei um sorriso... Fomos dormir às 07:00 do outro dia, era um sábado. Eu acordei 12:00 e os pais de Rafa não estavam em casa, estávamos só nós. Eu estava no quarto de hóspedes, fui até o quarto ao lado e observei Rafa dormir. Observei seu corpo enquanto respirava, sua pele, seu cabelo, suas mãos macias...

Eu não ia conseguir falar. Então deixei a carta em cima do PC e fui embora. Cheguei em casa e dormi até tarde. Quando eu acordei, fui correndo para o Facebook perguntar se Rafa tinha lido a carta. Meu coração gelou a cada palavra que eu digitava. Quando enviei a mensagem por completo , eu não queria ver a resposta. Eu fui pegar uma água gelada pois estava me tremendo. Maldito chat do Facebook! Rafa estava digitando e aparecia aquela animaçãozinha de reticências se mexendo. Caralho, aquilo estava aumentando meu nervosismo!!!! Mas depois de um tempo, recebi a resposta...

RAFA TINHA LIDO A CARTA E DISSE QUE SENTIA O MESMO POR MIM!!! Eu gritei de tanta felicidade! Chorei de tanta alegria! Eu não estava acreditando, eu mandava no chat "É SÉRIO MESMO? VOCÊ NÃO TÁ ME ZOANDO?" e Rafa ria e me mandava corações. Rafa me disse que sempre adorou o meu cabelo e o meu jeito, que sempre gostou de mim, só não tinha coragem de ir falar comigo. Mas quando a gente começou a nossa amizade, Rafa não via a hora de me contar seus sentimentos. Meu Deus, aquelas palavras me fizeram chorar tanto!

No outro dia, fui correndo abraçar Rafa. A turma toda ficou nos olhando. Eu levantei meu dedo do meio pra eles e dei um beijo em Rafa na frente de todo mundo! Aquilo foi insano! Todos ficaram calados e depois começaram a comemorar e bater palmas. A gente se abraçou e se beijou mais um pouco até a aula começar. Eu me sento do lado de Rafa, e deste esse dia a gente só anda de mãos dadas. Nossos assuntos nunca tem fim, a gente poderia ficar uma noite toda falando de coisas aleatórias que ninguém iria se cansar. A gente estuda todos os dias pra compensar as minhas notas baixas dos bimestres passados. E agora, Rafa vai me ajudar a decidir um curso.

Depois que eu comecei a namorar Rafa eu percebi que não tinha nada de errado em ser diferente, ser fora do padrão. Foda-se o que acharem de mim! Eu estando feliz, nada mais me importa! Eu comecei a me orgulhar ainda mais da minha cor, do meu gênero, da minha sexualidade. Eu pesquisei e estudei tudo relacionado aos assuntos e minha confusão acabou, eu consegui me encontrar depois de tantos anos. Eu tenho orgulho de ser quem eu sou. Eu me chamo Alex, eu sou bissexual e do gênero não-binário. Rafa me pediu pra não revelar seu gênero, então vou fazer o que me pediu. Espero que as pessoas que leram essa minha história de vida entendam que por mais que você se sinta sozinha ou deslocada, sempre haverá alguém que possa te ajudar. E não tema ficar confuso quanto ao seu gênero ou sexualidade, uma hora ou outra você vai se descobrir! Eu demorei 17 anos pra isso, haha!

Notas finais
Espero que tenham gostado da história, aceito críticas nos comentários :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!