Notas iniciais
Oi pessoas o/ Capítulo saindo um pouco mais tarde hoje, mas to feliz de conseguir postar. Eu viajei e pelos próximos dois domingos vou estar longe de casa. Isso significa que não sei se vou conseguir postar. Mas vou tentar como hoje, ok? Se eu demorar a responder os comentários será pelo mesmo motivo. Acho que é isso. Boa leitura ^^

(Vontade de desistir... ou de nunca ter vivido tudo o que vivi...)

Kali estava em seu quarto, deitada de bruços na cama, olhando para o diário. Nunca tinha passado por sua cabeça ter um diário. Não tinha tempo para pensar nessas coisas. O que escreveria? Provavelmente nada. Ou talvez escrevesse de hoje, por estar animada pelo presente, mas se esqueceria de fazê-lo nos próximos dias, provavelmente. Tinha coisas mais importantes para fazer.

Suspirou, virando-se para olhar o teto do quarto. Ignorou a dor que sentiu com o movimento. Quando aquilo iria passar?

Resolveu fazer seus deveres da escola. Quanto mais cedo os acabasse mais tempo para descansar teria. Levantou-se, pegou seu caderno e começou a fazer as atividades. Quando terminou, reparou no barulho da chuva que tinha aumentado consideravelmente. A roupa no varal com certeza estava molhada. Teria que lavar de novo no dia seguinte. Respirou fundo, cansada, e guardou o caderno. Olhou novamente para o diário em cima da cama. Por que não tentar? Deitou-se novamente de bruços, encarando o diário por algum tempo. Por onde começaria? Tinha tanto o que escrever e... nada ao mesmo tempo.

"As coisas têm piorado. Estão ruins desde que meu tio faleceu. Célia tem algo contra mim que eu não entendo. Nunca fiz nada contra ela. Ao contrário, sempre a evitei, desde antes da morte do meu tio. Ela com certeza acharia melhor que eu tivesse morrido junto com meus pais. E, às vezes, eu penso que teria sido melhor assim... Eu morreria sem conhecer as dores física e mental que tenho neste momento, sem saber o que é ser escrava na própria casa, que, teoricamente, eu deveria chamar de lar. O que é lar, afinal? Não entendo o sentido disso. Pra mim esse é um sentimento tão, tão distante que parece um sonho que em algum momento eu tive no passado e que se perdeu no decorrer dos dias. Morreria sem ser motivo de preocupação para o Rafa, sem saber o que é não dormir por estar tão angustiada que o sono desaparece, sem precisar esconder as marcas pelo meu corpo, sem conhecer o medo e a morte. Se eu tivesse morrido todo mundo estaria feliz e eu não me sentiria culpada. Porque eu sou culpada por tudo. Culpada pela morte dos meus pais. Aquele acidente não teria acontecido se eu não tivesse insistido em ir ao zoológico. O que tem de tão interessante naquele lugar, afinal? Sou culpada por Rafa sofrer tanto. Ele sempre quer me proteger, mas ele não pode e por isso está tão abatido. Toda vez que Célia me bate eu sei que ele preferia sentir a dor em meu lugar. Sinto o quanto ele sofre por não poder tirar minha dor física. O fato de eu enxergar isso faz com que eu veja nele meu ponto de apoio. Ele faz com que eu aguente... Mas, se eu tivesse morrido eu não precisaria saber disso. Provavelmente tenho culpa por apanhar e ser tratada pior que um cachorro de rua. Talvez eu tenha feito algo e agora estou sendo punida. Afinal se colhe o que plantou, certo?

“Ontem eu desmaiei. Nunca tinha acontecido isso antes. Não sei quanto tempo fiquei desacordada. Quando acordei, estava em meu quarto e Rafa do meu lado. Eu estava tão fraca... Tenho culpa também por minha fraqueza. Eu devia ser forte suficiente para aguentar aquela surra. Afinal, já estou me acostumando. Mas, não. Eu desmaiei, o que fez com que o Rafa ficasse preocupado e chorasse. Eu sei que ele chorou. Ele está cansado. Está cansado da nossa vida... cansado de mim... Eu deveria estar morta..."

Kali estava chorando. Não sabe quando aquelas lágrimas vieram e nem porque exatamente. Chorou como nunca havia chorado antes. Um choro angustiado, culpado, desesperado. Ficou muito tempo assim. Não conseguia se controlar. Nem queria exatamente isso. Escutou o portão ser aberto, mas continuou na cama sem reagir. Se fosse Victor, quem sabe ele a matasse e acabasse com isso de uma vez? Estava desejando isso. Pensava merecer isso.

Um toque depois dois, ouviu Rafa bater. Não se mexeu. Não queria que ele a visse daquele jeito. Não queria preocupá-lo mais.

Rafael girou a maçaneta e a porta abriu. Kali a tinha deixado aberta. Estava tão distraída assim para cometer tal erro? Devia ter trancado a porta.

— Kah? Você está bem? – ela afirmou com a cabeça, ainda deitada, escondendo o rosto entre os braços. Rafael percebeu que algo estava errado. Viu o diário – O que é isso?

— Sai daqui, Rafa!

Rafael se surpreendeu. Kali não agia dessa forma com ele. Não sairia dali. Algo estava errado.

— O que aconteceu?

— Só... me deixa sozinha, Rafa...

Rafael trancou a porta e sentou-se encostado nela, deixando a mochila jogada ao seu lado. Kali queria ficar sozinha, mas ele não a deixaria. Ficaria ali dando um apoio silencioso.

O tempo passou. Kali continuou deitada, soluçando, e Rafael em silêncio. Ele estava preocupado, mas esperaria Kali se pronunciar. Deixaria ela falar se e quando quisesse fazê-lo.

Muito tempo se passou. Rafael se perdeu em pensamentos enquanto Kali tentava se acalmar a ponto de dizer alguma coisa.

— Desculpa. – Kali falou, ainda escondendo seu rosto – Eu só... não queria que você me visse assim... Não quis te tratar mal.

— O que aconteceu? – Rafael continuou sentado no chão.

— Eu...

— Não precisa falar se não quiser.

— Não é isso... eu... só não sei o que dizer pra explicar.

Ficaram em silêncio mais uma vez por alguns minutos.

— Me perdoa?

— Não estou com raiva de você por me mandar sair, Kah. Eu–

— Não é isso. – Kali o interrompeu – Me perdoe por te preocupar, por te causar tristeza, por não ser forte o bastante e precisar de você, por... ter aparecido na sua vida. Teria sido melhor se, naquele acidente eu-

— Nem pense em terminar essa frase! — Rafael a interrompeu, se levantou, sentou-se ao seu lado e a abraçou – Se não fosse você o que seria de mim? Eu não teria uma vida para zelar. Não teria ninguém por quem viver. Sem meu pai eu teria... Não sei nem o que eu teria feito com minha vida. Nem quero pensar nisso. Não há nada para ser perdoado. Nada do que me arrepender por cuidar de você. Nunca diga que minha vida seria melhor sem você nela, pois eu só vivo porque você está comigo. Você é o único motivo de eu não ter desistido. Não somos irmãos de sangue, mas não há ninguém que eu considere mais do que você. Você é minha irmã, minha amiga, a única família que tenho neste mundo. Eu que preciso pedir perdão a você por não ser forte o bastante, por não ser capaz de te tirar deste inferno. Eu, que prometi te proteger, mas que não posso porque sou inútil.

— Eu te fortaleço... você... me fortalece. – Kali disse com a voz embargada pelo choro que voltava, encerrando aquela conversa. Deixou-se ser confortada por Rafael.

A chuva lá fora, que em algum momento parara, havia voltado mais forte. O dia estava frio e cinzento, mas depois das palavras que disseram um para o outro, de alguma forma, sentiram-se bem. Um peso fora embora e, no lugar, a exaustão apareceu, levando-os a um sono profundo, sem sonhos, mas necessário.

Notas finais
Se você leu até aqui #obrigada^^