Notas iniciais
(Nos resta sobreviver e superar de alguma forma)
Depois de chegarem à casa de Isabella, Rafael, Kali e Felipe se sentaram no sofá e ficaram olhando para o nada pensando no depoimento de Célia e tentando digerir aquela verdade. Para Rafael e Kali, aquilo estava sendo torturante. Haviam vivido por anos ao lado dos assassinos de seus pais sem nunca desconfiar de nada. Nunca confiaram em Victor, mas saber do que ele é capaz se tornou apavorante. O que poderia ter acontecido se Victor não houvesse surtado? Até quando estariam vivos?
Para Rafael, o pesadelo era duplicado. A mulher que tornou a vida de Kali um desespero era a mesma que lhe deu a vida e que dizia amá-lo. Ele não conseguia acreditar nesse amor. Uma mulher tão fria não conseguiria amar, conseguiria? Seu ódio por Célia se tornou maior. Se antes a odiava pelos maus tratos com Kali, agora a odiava também pela pessoa fria que ela era. Em seus olhos ele não viu arrependimento ou o mínimo de culpa.
***
— Kali finalmente dormiu. – Rafael disse, chegando na sala e encontrando Isabella deitada no sofá assistindo à televisão em um volume baixo.
— Ela deve estar cansada. – Isabella se sentou, dando espaço para Rafael sentar-se ao seu lado.
— Ela está. Mas hoje foi um dia tão difícil que dormir era a última coisa que ela tava pensando, tenho certeza.
— Você devia ir dormir também.
— Não dá... – a voz de Rafael falhou e lágrimas se juntaram em seus olhos. – Não vou conseguir dormir agora.
Isabella aproximou-se de Rafael, abraçando-o. Rafael, ao sentir o abraço, deixou as lágrimas fluírem livremente pelo rosto. Chorou a ponto de soluçar e engasgar-se com sua própria saliva. Isabella apenas o abraçou forte e esperou que ele se acalmasse.
Alguns minutos se passaram e as lágrimas tornaram-se apenas soluços.
— O que eu faço agora? – Rafael disse depois que se acalmou – Como eu vou viver com isso, com essa culpa?
— Culpa? – Isabella segurou o queixo de Rafael e o fez olhar para ela. – Você não tem culpa de nada, Rafa. Por que está falando isso?
— Ela é minha mãe, Isa. Minha mãe, a mulher que me deu à luz, matou e destruiu a vida das pessoas que eu amo. Ela destruiu a vida da pessoa mais importante pra mim. Você tem noção de que a Kali talvez nunca supere tudo isso? Ela já estava traumatizada antes, imagina como está a cabeça dela agora.
— Mas nada disso é sua culpa, Rafa.
— Ela é minha mãe. Eu tenho o sangue dela nas minhas veias. – Rafael voltou a chorar e sua voz saiu entrecortada – A mulher que devia me educar e me amar incondicionalmente é a mulher que traumatizou a mim e à minha irmã.
— Não se torture assim, Rafa. Você não tem culpa de nada disso.
— Mas ela é minha mãe!
— O sangue não te torna culpado, Rafa. Não faça isso com você. Olha pra mim. – Isabella mais uma vez segurou Rafael pelo queixo. – Você é o cara mais incrível que eu conheço. Você sempre foi forte pela Kali, ficou ao lado dela quando ela precisou. Você foi o pilar que a manteve de pé apesar de tudo. Você sempre fez tudo o que podia por ela e ela te ama como o irmão que você se tornou. Ela vê em você a fonte de segurança e conforto que ela perdeu naquele acidente, não como filho da mulher que destruiu sua vida e sim como o irmão que a ajudou a passar por tudo isso e que a ama. Você é esse cara, Rafael. Você não pode se definir como o filho de uma assassina. Ela nunca foi sua mãe e não será o sangue dela que vai torná-la.
— Eu... estou abalado demais com tudo isso. Eu não sei o que fazer.
— Você vai continuar a fazer o que sempre fez. Vai apoiar sua irmã e fazê-la feliz. Vai ser aquele cara que eu conheci há alguns anos e pelo qual eu me apaixonei – Isabella se interrompeu quando se deu conta do que disse. Não era a hora nem o momento para aquilo.
— Você...
— Você devia ir dormir. – Isabella interrompeu Rafael, levantando-se do sofá. – Está tarde e você deve estar cansado.
— Estou sem sono. – Rafael falou um pouco atônito.
— Eu... – A voz de Isabella falhou pelo nervosismo – vou fazer um chá pra você.
Isabella correu pra cozinha e se apoiou na pia lembrando de voltar a respirar. Se repreendeu mentalmente por ter deixado aquelas palavras saírem de sua boca. Há muito viu-se apaixonada por Rafael, mas decidiu que aquilo não era certo. Rafael era seu aluno e apesar de ter uma cabeça madura ainda era visto como um adolescente pela sociedade. Essa última questão era a que menos lhe incomodava, mas via-se na obrigação de pensar nisso. Ela havia decidido que esqueceria esse sentimento. Não lhe parecia sensato se apaixonar por Rafael. Mas a cada dia que passava ela se tornava mais próxima dele e conhecê-lo melhor a deixava mais perdida em seus sentimentos.
— Por que não disse nada antes? – Rafael falou, chegando na cozinha e assustando Isabella, que ainda estava apoiada na pia, presa a devaneios. Ela não respondeu nem se virou para olhá-lo. – Desde quando? – Isabella ouviu a voz de Rafael mais próxima.
— Eu não tenho certeza. – Isabella sentiu o rosto queimar e sua voz tremeu mais uma vez.
— Por que não me disse isso antes?
— Eu não podia. – Isabella respirou fundo e virou-se vendo que Rafael agora estava a dois passos de si. – Eu não ia te falar nada. Não devia ter dito aquilo... – Ela se perdeu nas palavras vendo o olhar indecifrável de Rafael.
Rafael estava atordoado. Nunca havia visto Isabella como algo mais que uma amiga, porém saber que ela tinha sentimentos por si o deixou em dúvida do que sentia por ela. Talvez fosse curiosidade, mas sentiu seu coração falhar uma batida quando Isabella o deixou na sala.
— Eu pensei que pra você eu era apenas um garoto que te alugava pra falar dos problemas. – falou Rafael depois de algum tempo de silêncio. – Que corria pra você quando precisava de ajuda.
— No início, você era apenas um aluno com problemas que eu queria ajudar. Mas eu fiquei tão envolvida na sua história e nos seus problemas que eu passei ajudar você por outras razões. Eu não percebi no início que me sentia assim. Mas eu não quero que isso acabe com nossa amizade. Caramba! – Isabella riu – Eu tô parecendo uma adolescente apaixonada de filme pra adolescente.
— Você está apaixonada e não faz tanto tempo assim que você não é mais adolescente.
— Tem razão. Acho que você por ter passado por tudo que passou é mais maduro do que eu, que sempre tive uma vida tranquila. Talvez por isso nos demos tão bem. Você não age conforme sua idade e eu também não.
— Eu me sinto tão indefeso. Eu não entendo quando você fala que sou maduro pra minha idade. Eu ainda me sinto uma criança com medo do escuro.
— E quem disse que os adultos não se sentem assim? Os adultos têm até mais medo do que as crianças. Quanto mais velho mais medo você tem. A diferença é que acender a luz nem sempre vai fazer os monstros sumirem.
Ficaram em silêncio, cada um pensando sobre o que devia fazer agora. Isabella ainda se repreendia por ter falado em paixão e Rafael cogitava a possibilidade de apaixonar-se também. Não seria algo difícil para ele que já via em Isabella uma amiga e companheira para o que precisasse. De repente, tudo o que aconteceu naquele dia deu lugar em sua mente para aquele momento. Parecia, de repente, que a culpa que ele sentia não era algo tão importante mais. Em sua mente vinham agora momentos que passou com Isabella. Não eram tantos e nem todos eram felizes, mas se sentiu bem por isso.
— Eu não vou te pressionar – Isabella quebrou o silêncio. – e nem quero que você pense que eu espero que retribua o que eu sinto. Eu acho que seria melhor que nós esquecêssemos isso.
— E se eu não quiser esquecer? – Rafael a olhou nos olhos. – E se eu quiser ser mais que seu amigo?
— Mas você não sente nada por mim. Você não precisa fazer isso.
— Isabella, – Rafael deu um passo em sua direção sem desviar o olhar dela. – Você é uma pessoa incrível. Você esteve do meu lado desde que te conheci. Não seria difícil pra mim me apaixonar por você. Você me faz bem de uma forma que eu não tinha parado pra refletir até agora e quando eu penso nisso a pergunta que me vem à cabeça é: "por que não?". Eu não quero fazer pouco do que você sente, nem quero brincar com seus sentimentos, mas quero ficar com você. É a única conclusão a que chego.
— Então vamos fazer o seguinte: – Isabella tentou ser racional. – não precisamos formalizar nada agora nem nos sentir no dever de fazer isso. Vamos deixar o tempo passar e as coisas se ajeitarem. Depois de um tempo a gente decide o que fazer em relação a nós.
— Tudo bem. Vamos fazer isso. – Rafael sorriu e Isabella retribuiu o sorriso. – Posso te dar um abraço?
Isabella apenas concordou com a cabeça e Rafael a abraçou com carinho. Ele sentiu mais uma vez seu coração falhar uma batida e teve certeza, naquele instante, que tudo daria certo.
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