Notas iniciais
(O que penso hoje ser verdade, amanhã pode mudar)
A porta se abriu e Kali se afastou de Felipe. Ainda tinha vergonha de mostrar carinho por ele em público. Ficou aliviada de ter se afastado ao ver que era Rafael que abrira a porta.
— Vamos embora, Kali? – Ele disse, colocando apenas a cabeça para dentro do quarto.
— Vamos. – Kali concordou, se levantando.
— Eu queria conversar com você, Rafael. – Felipe disse.
— Vamos deixar isso pra outro dia? Eu estou exausto e você tá baleado.
— Tudo bem, então.
Rafael abriu mais a porta para dar passagem a Kali, que apenas deu um olhar de despedida a Felipe e saiu do quarto sendo seguida por seu irmão.
Encontraram Isabella na entrada do hospital. Ela os levaria para sua casa.
O caminho foi silencioso. Rafael e Kali cochilaram no carro. Estavam exaustos física e mentalmente e finalmente tinham paz para descansar.
Quando chegaram na casa de Isabella ela esquentou o almoço, que já havia deixado pronto. Assim que terminou de almoçar, Kali deitou-se no sofá, logo adormecendo, enquanto Rafael ajudava Isabella a arrumar a cozinha apesar da objeção dela.
— Eu tinha feito um pudim de sobremesa, – Isabella disse quando terminava de secar o último prato. – mas a Kali dormiu antes que eu pudesse falar dele. Você quer?
— Faz tanto tempo que não como pudim que nem lembro qual é o gosto. – Rafael respondeu, pensativo.
— Eu vou te servir um pedaço.
Isabella rapidamente pegou dois pratos de sobremesa e tirou o pudim da geladeira, servindo um pedaço a Rafael.
Quando experimentou o primeiro pedaço uma lembrança de um almoço de família veio em sua mente. Estava ele ainda criança, junto com seu pai e mais algumas pessoas que ele não reconhecia sentados à mesa. No centro da mesa havia um lindo pudim de chocolate. Alguém chegou com uma faca e cortou um pedaço, servindo-o. Ele comeu rápido e logo pediu para repetir. A pessoa que o serviu não quis lhe dar mais. Porém, quando ele olhou para seu pai na ponta da mesa este piscou o olho direito e Rafael logo entendeu que mais tarde teria seu segundo pedaço.
Saudade.
Um sentimento tão forte, triste e feliz ao mesmo tempo. Foi o que tal lembrança causou em Rafael. Como teria sido sua vida se seu pai estivesse ao seu lado? O que ele estaria fazendo agora? Estudando sem se preocupar em trabalhar? Namorando? Planejando que faculdade faria? Sonhando?
E o que seria agora da sua vida? O que faria? Poderia sonhar novamente? O que aconteceria quando acordasse amanhã? O futuro seria melhor, ele tinha certeza, mas ainda era incerto.
— Não está bom? – Isabella perguntou, vendo que Rafael não comia mais do pudim.
— Hum? – Rafael olhou para ela.
— O pudim não está bom?
— Está sim! – Ele sorriu. – Eu só estava pensando, lembrando do meu pai.
— Ele te faz muita falta, né?
— Demais. – Rafael suspirou. – As coisas teriam sido tão diferentes se ele estivesse vivo.
— O que aconteceu com ele? Você nunca me disse.
— Ele foi assaltado. Mas o bandido atirou nele e ele não resistiu.
— Entendi...
— Eu só espero que daqui pra frente as coisas melhorem.
— Vão melhorar. – Isabella afirmou, sorrindo. – Você vai ver.
Rafael voltou a comer do pudim que estava realmente bom. Quando acabou, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Isabella lhe serviu mais um pedaço.
— Eu sei que você não ia pedir mais por educação, – ela explicou – mas sei que você ia ficar com vontade de comer mais um pedaço.
Ela tinha razão. Então Rafael apenas voltou a saborear a sobremesa.
— Você sabia do relacionamento entre Kali e Felipe? – Rafael perguntou depois de terminar de comer.
— Ele não havia me falado, mas eu sabia que ele gostava da Kali acho que até antes dele mesmo se dar conta disso.
— Ele te falou que gostava dela?
— Não. Eu percebi pelo jeito que ele a olhava.
— Hum... – Rafael voltou a ficar pensativo.
— Eu sei que você está preocupado com a Kali, mas acredite quando eu digo que o Felipe nunca faria algo pra magoá-la.
— Mas você é irmã dele. Vai defendê-lo sempre.
— O Felipe nunca namorou. – Isabella disse após pensar por alguns minutos nas palavras de Rafael. – Ele não teve muito tempo pra isso na verdade. Ele não gosta de falar sobre isso e nem sei se eu devia te falar, mas para te deixar menos preocupado acho que não fará mal. Ele perdeu os pais muito cedo e foi criado até o início da adolescência pelo irmão mais velho. Esse irmão se envolveu com drogas e ficou violento. Quando ele tinha crises de raiva descontava no Felipe. Por várias vezes ele foi espancado pelo irmão, até que ele foi assassinado. A família de sangue de Felipe o rejeitou por preconceito. Até que a justiça designou meu pai como tutor dele. Por anos o Felipe ficou em um estado de depressão profundo. Ele sofreu demais depois de tudo isso. Esse cara sorridente que você conheceu teve que lutar muito pra conseguir sorrir. – Isabella parou de falar por um momento. Vendo o silêncio de Rafael, concluiu. – O Felipe sentiu na pele o que a Kali passou. Ele sabe o que é passar por toda essa insegurança dentro da própria casa. Ele nunca magoaria a Kali. O que ele quer é que ela nunca mais precise passar por isso e que ela não sofra o que ele sofreu.
— Eu não sabia disso... – Rafael finalmente falou. Sentia ter julgado mal Felipe e estava arrependido por isso.
— Você não tinha como saber. Ele não gosta de falar disso. Ele nunca conversou nem comigo sobre isso. Eu só sei dessas coisas porque meu pai me contou.
— Eu... preciso dormir um pouco. – Rafael disse, se levantando. – Eu vou levar a Kali pro quarto que é melhor ela dormir na cama.
— Tem um colchão do lado da cama pra você também. Pode ficar à vontade.
— Obrigado, Isabella. – Rafael olhou para ela com sinceridade. – De verdade. Eu nem sei como agradecer por tudo que você fez por nós esse tempo todo.
— Não precisa agradecer, Rafa. – ela sorriu. – Agora vá descansar que você precisa.
Rafael foi até a sala onde pegou Kali no colo e a levou até o quarto. A cama já estava preparada para ela dormir assim como o colchão ao lado dela. Kali dormia profundamente e Rafael decidiu que também precisava disso. Por hoje não se deixaria preocupar com o amanhã. Apenas se preocuparia em descansar o que não pôde nos últimos anos.
Antes de dormir, olhou mais uma vez para Kali que dormia serenamente.
— Estamos livres. Finalmente livres. – Ele sussurrou, sorrindo, antes de dormir.
***
Dois dias depois
Isabella insistira para que Rafael e Kali permanecessem em sua casa. Com o processo aberto contra Victor e Célia, a casa dos meninos estava à disposição da justiça para recolhimento de provas. Para que eles não se estressassem com isso era melhor que ficassem na casa de Isabella.
Felipe teve alta do hospital e resolveu ir para a casa de Isabella. Queria ver Kali e precisava conversar com Rafael. Seu tutor foi buscá-lo no hospital.
—Como é levar um tiro? – Gregório perguntou quando abraçou Felipe já na portaria do hospital.
— Foi só de raspão, pai.
— Mas você já pode dizer que levou 3 tiros!
— E isso é alguma vantagem? – Felipe riu.
— Não. Mas terá histórias pra contar. "Eu tomei um tiro pelo meu amor!" – Gregório gesticulou.
— Dramático. – Felipe riu mais uma vez, entrando no carro.
— Estou mentindo?
Felipe deu de ombros sentindo o carro ser ligado e começar a andar.
— O senhor vai conhecer ela hoje.
— E estou ansioso por isso. Mas, filho, você tem certeza que quer namorar essa moça? Ela é tão mais nova e já tem a vida tão enrolada...
— Eu tomei um tiro por ela.
— De raspão. – Gregório retrucou sorrindo.
— Nunca senti isso, pai. Ela mexe comigo de um jeito que eu não consigo explicar.
— Ah, o amor! – Exclamou sorrindo.
Chegaram na casa de Isabella que já terminava de fazer o almoço.
— Você deve ser o Rafael. – Gregório cumprimentou Rafael que havia se levantado quando eles chegaram. – Ouvi falar muito de você e da sua irmã. Fico feliz que estejam bem agora.
— Obrigado. – Rafael disse, pensando o quanto aquele homem sabia.
— Como está, Rafael? – Felipe perguntou formalmente. Estava um pouco receoso pelos últimos acontecimentos e temia que Rafael fosse contra seu relacionamento com Kali.
Para sua surpresa Rafael foi até ele, lhe dando um abraço apertado.
— Obrigado por tudo o que fez por nós. – Rafael disse. – Você salvou nossas vidas.
Felipe não soube o que responder, apenas retribuiu o abraço. Sentiu que tinha ganhado um grande amigo para sua vida.
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