Notas iniciais
Oi pessoas o/ Capítulo de hoje está aí. Boa leitura^^

Como de costume, Kali se levantou cedo, tomou banho, vestiu seu uniforme e pegou sua mochila que deixou no hall. Olhou para a porta, já velha e desgastada pelos cupins, pensando quando passaria por ela para nunca mais voltar. Foi para a cozinha preparar sanduíches e suco, deixando a mesa pronta para os outros moradores da casa. Fez tudo com o mínimo de barulho possível. Acordar alguém àquela hora da manhã não seria bom para ninguém, principalmente para Kali.

Quando estava quase tudo pronto ouviu passos que conhecia e que a tranquilizavam.

— Bom dia, Kah! – Ele disse com a voz baixa, sorrindo.

— Bom dia, Rafa! – Respondeu no mesmo tom de voz – Dormiu bem?

— Não sou eu quem devia estar perguntando isso?

— Não posso me preocupar com você também? – Retrucou.

— Fui eu que prometi cuidar de você, não o contrário.

— Eu te fortaleço, você me fortalece, lembra? – Ele fez que sim – Mas, falando sério, você dormiu?

— Não. Estou preocupado.

— Está tudo muito calmo. – Falaram juntos.

Um silêncio se instalou por alguns instantes até que um barulho vindo do andar de cima o quebrou. Kali se apressou em pegar a bolsa em cima da bancada da cozinha enquanto Rafael procurava pelas chaves para saírem logo daquela prisão. Rafael abriu a porta, pegou a mochila que estava perto dela e a fechou depois de Kali sair.

Andaram alguns quarteirões até chegarem a uma praça. Sentaram-se em um banco e sentiram o sol os esquentar naquela manhã fria.

— Quanto tempo temos? – Kali perguntou.

— Quarenta minutos. O que preparou hoje?

— Nada de mais. O mesmo de sempre.

Kali abriu a bolsa que carregava e tirou de lá uma garrafa de suco e dois sanduíches, dando um a Rafael. Comeram em silêncio, perdidos em seus próprios pensamentos. Quando terminaram, Kali guardou a garrafa e a bolsa dentro de sua mochila. Rafael notou sua expressão de dor, que tentou em vão disfarçar, quando fez o movimento.

— Quanto tempo faz? – Ele perguntou.

— Umas três semanas.

— Mas ainda dói.

— Não se preocupe, Rafa. Isso não é nada.

— Você sabe que não gosto quando você faz isso! Se tivesse me falado eu teria te ajudado mais essas últimas semanas.

— Se sua mãe...

— Ela não é minha mãe. – A interrompeu.

— Desculpa. Se ela te visse me ajudar seria pior.

Rafael não podia contestar esse fato. Aquela mulher tornaria pior a dor de Kali se ele fizesse menção de ajudá-la.

— Um dia eu vou nos tirar daquela prisão. – Falou decidido.

— E eu confio em você pra isso. Mas nós temos que estudar.

— Você tem razão. Estamos ficando atrasados. Vamos!

Estudar. Era o que podiam fazer. Talvez isso lhes desse alguma chance melhor na vida.

Rafael trabalhava meio período em uma loja. Ganhava meio salário mais comissão. Mentira para Célia sobre esse extra, caso contrário ela ficaria com tudo. E ele não podia se dar ao luxo de perder a única fonte de renda que lhe sobrava. Não era muito, mas era o suficiente para que dali a um ano, quando completasse 18 anos de idade, tirasse os dois daquela casa. Um ano... Quantas surras ainda teriam que aguentar antes de saírem? E quando poderiam finalmente se libertar?

Kali sempre usava mangas compridas para esconder os hematomas que nunca sumiam do seu corpo por causa das surras constantes. Suas blusas, sempre com capuz, escondiam melhor as marcas no pescoço assim como fazia o longo cabelo. Era tudo muito difícil de suportar para os dois, mas um era a força do outro.

Nem sempre foi assim. As coisas mudaram depois da morte repentina do pai de Rafael. Marcos era um homem bom, um pai amoroso, que fazia de tudo para não lhes faltar nada. Naquela época, Célia não podia fazer mal às crianças. Mas há três anos a situação havia mudado. Surras constantes e sem motivo aparente, racionamento de comida para as crianças. Eram tratados como escravos dentro do lugar que deveriam chamar de lar. A implicância de Célia era maior para com a menina. Não sabiam por que, mas essa era a realidade. Para piorar a situação já difícil, Célia levou para dentro de casa um homem. Há seis meses, Victor havia se mudado para lá. Rafael não confiava nem na ponta do fio de cabelo daquele homem. Seu olhar perverso e sua expressão cínica o irritou desde o primeiro momento que o viu. Sentia nojo dele.

Chegaram à escola com tempo apenas de correrem para suas respectivas salas. Rafael estava no 3º ano e Kali no 1º do Ensino Médio. Os dois eram conhecidos como “os irmãos antissociais”, pois viviam juntos e longe de qualquer outro ser humano. Só se separavam quando cada um ia para sua respectiva sala de aula.

A aula passou entediante para os dois, mas eles faziam de tudo para aprender o máximo possível. Não podiam perder um ano de suas vidas. Se encontraram, quando o intervalo chegou, no mesmo lugar de sempre: um canto no pátio, isolados de todos. O lanche era metade de um sanduíche para cada um e o restante do suco da manhã. Depois de comerem, Kali deitou a cabeça no colo de Rafael.

— Você está bem? – Ele perguntou preocupado.

— Só estou com sono.

— Descanse um pouco.

Ele passou a mão de leve nos cabelos dela. Cabelos longos e negros, que antes eram seu orgulho, sedosos e bonitos, mas que agora haviam perdido o brilho.

***

— Quem são aqueles dois ali no canto? – Um garoto que os observava de longe perguntou.

— São os "irmãos antissociais". Apenas os ignore, novato.

— Por quê?

— Não vale a pena se preocupar com eles. Não são nada.

— Entendi. – O menino concluiu sem estar totalmente convencido.

Algo naqueles dois despertou sua curiosidade.

Notas finais
Vou tentar postar um capítulo todo domingo Se quiserem acompanhar melhor as atualizações e novidades curtam minha página no face: https://www.facebook.com/tallycristal/ Até semana que vem o/ Se você leu até aqui #obrigada^^